Pilares de Areia

24 Friends can break your heart too, and I'm always tired, but never of you


Notas iniciais
Título: "Amigos também podem partir seu coração, e eu estou sempre cansado, mas nunca de você" - I Hate U, I Love U - Gnash feat. Olivia O'brien . — Oi, tudo bem?! Antes de tudo, quero agradecer os comentários que tenho recebido, alguns elogiando, alguns criticando, sempre me motivando a continuar a história e melhorar nos pontos nos quais tenho falhado. MUITAS pessoas, tanto aqui quantos nos outros sites, reclamaram da pouca interação do Ichiou na história. Ele não é só um detalhe, embora parece, é uma criança. É difícil retratar uma criança, embora eu conviva com uma da mesma idade do Ichiou. Acho importante o Ichiou aparecer mais, porém o necessário para o enredo, não quer forçar nada que eu não faça bem feito só para superar uma expectativa da maioria. O contexto da fanfic é adulto, a história ainda gira em torno do Sasuke e da Sakura. Mesmo que Ichiou seja parte dessa história, ele não é o foco dela. . Estive em casa desde Maio e adiantei bastante a fanfic. À medida que as betagens forem saindo, irei postando. Provavelmente terminaremos a fanfic no capítulo 35! . Boa leitura!

O outono chegou pontualmente em Konoha. Aquele seria mais um ano em que eu acompanharia de perto os preparativos para todos os festivais da estação. Ino estava eufórica, o que também é de praxe ano após ano, sua alegria somente ao escutar o anúncio das festas era tamanha que me contagiava.

A ausência do Sasuke na vila (fazia mais de uma semana) não mudava assim tanta coisa, já que ele nunca me acompanhava nos festivais e cerimônias. Ficava em casa, emburrado, arrisco dizer que até enciumado, mas não me acompanhava. Aprendi, ao longo dos anos, a contentar-me com a minha presença e, depois, com a do Ichiou. Divertia-me muito sozinha com o meu filho ou acompanhada dos nossos amigos de infância.

Konoha estava ornada de laranja, marrom e vermelho. Se não fosse o frio, poderíamos dizer que a vila estava em chamas, as árvores e arbustos mal sustentavam o verde presente na vila durante todo o ano. Naquele outono, a vila homenagearia a colheita de arroz que tinha superado as expectativas dos agricultores e comerciantes. Tudo havia sido frutífero. Eram tempos dourados em todo mundo, embora não para todo mundo.

A única coisa que não deixava eu ficar inteiramente feliz era a demora do Naruto para me dar uma resposta. Será que era mesmo tão complicado dizer sim ou não para um projeto daquele? Tentava entender o lado dele, afinal, a vila crescia em uma velocidade absurda. O que mais ele deveria receber era projetos de melhorias para a aldeia e tinha que ponderar seriamente sobre cada mudança. A questão era que Ino e eu havíamos feito um projeto completo, exibindo prós e contras, até mesmo orçamento, arquitetura, engenharia, recursos humanos... Embora eu tentasse verdadeiramente ser racional e compreensiva, não conseguia.

As acusações de Naruto também eram coisas em que, vez ou outra, pegava-me pensando. Ele afirmara que somente Sasuke estava do seu lado nesses últimos meses depois da confusão com os Hyuga, mas, parando para pensar, por que eu deveria estar ao lado dele sendo que nunca concordei com o caso dele com a Hinata? Eu poderia, sim, dar um apoio moral, Naruto realmente não parecia contente com o afastamento total de Hinata, só que, particularmente, todas as coisas ruins que aconteceram comigo nos últimos tempos foram causadas por uma decisão ruim dele. Como eu poderia fechar os meus olhos para isso e ir consolá-lo porque a mulher que ele amava (que era prometida de outro) ele não poderia ter? Parecia banal para mim e seria hipócrita da minha parte.

Naruto errou como Hokage, e eu não engoliria o meu orgulho e pedir-lhe-ia desculpas por ter feito o que achei certo. Machucava-me saber que meu melhor amigo estava sofrendo? Machucava-me. Entretanto, ele tinha que passar por isso porque o que ele fez foi errado. Os fins não justificam os meios. Por conta da sua arrogância, talvez da sua personalidade, ou por causa do cargo que exerce, agiu como se fosse dono das pessoas, achou que fosse dono de Sasuke para instruí-lo a fazer algo que ia de encontro ao meu relacionamento com ele; achou que fosse dono de Hinata somente por amá-la, ignorou o fato de que ela era noiva de outro homem. Tudo isso era a causa do seu sofrimento. Era terrível ser afastado de quem se ama? Era, mas Naruto havia pedido por aquilo.

Ao contrário do que ele afirmou, o meu sofrimento não era provocado. Pelo menos, não por mim. O que ele queria que eu fizesse? Ficasse com o Sasuke como se nada tivesse acontecido? Esquecesse as outras dezenas de coisas no Uchiha que contribuíram para o colapso da nossa família? O engraçado de tudo isso era que todos que opinavam sabiam, de tudo, apenas um terço. Entre quatro paredes, somente o casal sabe o que se passa, cabe somente ao casal decidir o que é melhor, juntos ou individualmente. Concluí, no fim de tudo, que o melhor seria me afastar, deixar Sasuke minimizado na minha vida e tentar juntar os cacos que sobraram de mim apenas com partes de mim mesma, sem Sasuke para me constituir. E adivinhe só? Depois de tanto sofrimento, eu estava conseguindo.

Olhar-me no espelho não gerava mais uma crise de autoestima acompanhada de choro; eu sorria ao meu reflexo e me achava verdadeiramente uma mulher bonita. Perfeita? Jamais. Modelo de corpo, rosto, postura, estilo, também nunca. Ainda assim, eu era uma mulher bonita, era forte, era excêntrica, especial. A testa que era grande para alguns, para mim era o meu charme, chamava mais a atenção para o losango esverdeado manifestado no centro dela. Meu ponto de luz e minha fonte de força ironicamente estava na parte do meu corpo que eu mais odiei.

Eu havia ganhado peso, não engordado, mas recuperado tudo o que havia perdido naquela saga depressiva pela qual tinha passado. Por ter voltado a treinar, já começava a ver novamente os músculos que há anos vinham sumindo. Meu cabelo voltara a ser brilhante depois das constantes visitas ao salão de beleza. As sobrancelhas, que Ino sempre zombava, estavam impecáveis. Começara a ousar mais até na maquiagem, nas roupas, nos sapatos... Finalmente, eu estava bem comigo mesma, o que já era um grande passo. A presença ou ausência de um homem não diminuía mais os ímpetos que eu guardava dentro de mim. Sasuke gostasse ou não, se me tivesse de volta, eu teria essa Sakura para mim. A Sakura confiante e segura de si. A Sakura que eu amava e que esperava que ele ainda amasse também.

Contudo, todo esse empoderamento não surgiu do nada. Ino foi a principal piloto do projeto “tire a Sakura da lama”, mas quem certamente motivou-me a continuar exaltando as minhas qualidades e trabalhando nos meus defeitos foi alguém inusitado: meu aluno, Ren.

Há tempos tenho prolongado o assunto, tratado como algo banal, pelo menos era como eu tinha tentado convencer a minha mente a pensar, porém não era um assunto assim tão simples. Apesar dos eventos passados, seu olhar sobre mim parecia intacto, talvez mais encantado, e eu não entendia o porquê. Acreditava que era a comum fantasia de envolver-se com alguém mais velho ou de um nível de hierarquia diferente, para não dizer especificamente fantasia por professores, mas Ren fazia com que esse pensamento fosse muito infantil perto do que ele demonstrava. Ele se importava comigo e me dava atenção de um jeito que nunca tive na vida.

Logo nos primeiros dias que voltei a lecionar para ele, Ren assumiu o papel de “assistente” e me auxiliava com tudo. A princípio, fiquei até apreensiva. Eu não queria que Shizune pensasse que eu estava colocando o garoto para trabalhar para mim, contudo, a própria admirou a atitude proativa e de liderança dele por tomar iniciativas e responsabilidade mesmo não sendo seu dever. Com a autorização dela para desenvolvê-lo nisso, dei-lhe este espaço extra que os outros alunos não tinham – e não pareciam interessados em ter.

Ren me ajudava a organizar os tópicos do curso e correlacionar com a parte teórica que eles tinham no hospital; ajudava-me com os relatórios e acompanhava-me até em casa quando eu permitia. Como eu dissera antes, a atenção que ele me dava eu nunca havia experimentado.

Passara a reparar mais nele quando ele começou a verbalizar mais o que sentia por mim. Eu sabia, sempre soube, que ele nutria um sentimento além de respeito por mim, só me fingia de boba e esquivava-me das suas investidas, porém, desde que voltei a dar aula e passar mais tempo junto dele, ficou mais do que explícito que ele gostava de mim. Ren estava deixando claro que não queria apenas que eu soubesse sobre seus sentimentos, mas queria que eu fizesse algo a respeito.

Ren havia crescido desde que chegara em Konoha. Antes, um típico homem de Suna, mais bronzeado, cabelos castanhos com um corte despojado e corpo esguio; agora, sua pele cor de amêndoa parecia mais saudável, poupada do sol latejante do País do Vento, Ren também mantinha um corte de cabelo regular, curto e que se encaixava muito bem com o formato anguloso do seu rosto, e o que antes era um corpo esguio e normal, já exibia mudanças consideráveis, seus ombros estavam mais largos, seus braços também pareciam mais preenchidos do que eram antes. Não eram mudanças exageradas, Ren ainda se assemelhava a um civil comum, porém aquelas mudanças eram notáveis e não passavam despercebidas por mim. Ele era um homem bonito.

Eu, Sakura Haruno, nunca pensara que fosse dedicar minutos para analisar a aparência de outro homem senão Sasuke e aqui estou detalhando meu aluno prodígio. Isso era perigoso, não sabia para quem, mas de fato era. Já bastava Naruto burlando tratos e “roubando” noivas de clãs extremamente tradicionais, imagina eu quebrando uma grave pauta sobre jamais envolver-se romanticamente com alunos. E não, eu não estava pensando em envolver-me romanticamente com ninguém, entretanto, Ren estava. Era importante eu ponderar sobre isso também, de uma maneira negativa, claro.

Se fosse mais durona e bloqueasse suas aproximações no momento em que fossem feitas, talvez Ren parasse, mas aí que estava o problema: eu não queria que ele parasse. E que mulher solteira gostaria? Ren não faltava com respeito, na verdade, era um cavalheiro. Cortez de uma maneira que eu só havia lido nas novelas que Ino me emprestava. Ele fazia eu me sentir a mulher mais especial do mundo, bonita, inteligente, única, fazia eu me sentir como uma adolescente sendo correspondida.

Era estranho admitir isso, porém eu precisava falar em voz alta para parar de me sentir tão culpada. Não deveria sentir-me culpada de forma alguma, esta era uma certeza. De todos os lados que eu pudesse trair envolvendo-me com o Ren, eu não traí nenhum. Tudo ficava somente em plano de pensamento e tudo o que fazíamos juntos era assistido. Eu não devia sentir medo por gostar de me sentir assim, bem comigo mesma.

Enquanto eu passei semanas divagando sobre todas as coisas que Sasuke estava fazendo para me ter de volta, também o comparei a Ren. Em diversos quesitos, Sasuke ganhava de lavada, contudo, em outros, Ren era um homem indiscutível.

Em uma manhã, Sasuke deixa-me um recado dizendo que estava linda acompanhado de uma flor; Ren, a semana inteira, elogiara coisas diferentes sobre minha aparência e meus métodos no trabalho e, logo depois do outono chegar, passou uma semana de setembro fazendo Aki no Nanakusa¹, cada dia uma flor da estação e cada vez uma nova sensação crescia dentro de mim.

No sétimo dia, o convite foi feito. Ren acompanhara-me novamente até a floricultura onde eu teria uma reunião com a Ino antes de buscarmos Ichiou na creche. Ele não se importou em entrar e fazer o convite na frente dela, o que, para mim, foi a morte.

— Mesmo sabendo que irá me dispensar, eu insisto em convidá-la para ser minha acompanhante no Tsukimi², Sakura-senpai. — Fazendo uma exagerada reverência, Ren entregou-me a Kikyou, uma flor com um tom roxo-azulado de cinco pontas, uma das mais lindas da estação.

— Mas não é necessário um acompanhante para o Tsukimi — Ino intrometeu-se. Lancei-lhe um olhar reprovativo e voltei-me a Ren que nos observava um tanto encabulado.

— É um festival lindo e fica mais bonito quando você está acompanhando — contrapus o comentário de Ino. Ren sorriu em resposta. — Eu agradeço imensamente pelo convite e pela flor. Por todas as flores que tem me dado — acrescentei. — Porém eu não posso ir com você.

— Você pode ao menos me dar um motivo? O que há de errado comigo?

Aquela pergunta fez o meu coração se partir em mil pedaços. Eu estava evitando a todo custo um confronto real entre mim e ele, não queria que acontecesse naquele momento na frente da Ino, ainda por cima.

Ela contornou o balcão e se aproximou de nós.

— Sakura, esse garoto gosta de você — disse em tom suplicante.

Porra, Ino, intrometa-se para ajudar!

— Ino, Ren é meu aluno. E ele sabe o que isso implica. — Olhei-o enquanto dizia isso. Ele sorriu esperançoso e disse:

— Então é esse o problema? Eu vou agora mesmo pedir à Temari para me tirar do treinamento e então você pode aceitar meu convite sem remorsos.

— Ren, por favor, pare de dizer essas coisas.

— Então para de fingir que não vê, que não escuta ou que não sabe. Você sabe que eu gosto de você e posso te tratar bem melhor do que ele te trata.

Assim que ele disse isso, eu me calei e relaxei os ombros que estavam tensos. Fitei meus próprios pés buscando uma resposta para o que Ren havia dito, mas eu não tinha. Assim como eu dissera, compará-lo ao Sasuke era inevitável, e, assim como Ren perdia em diversos quesitos para o Uchiha, ele também ganhava em muitos deles.

Enquanto Sasuke dizia que eu era linda por um bilhete, Ren dizia isso a mim todos os dias, não importava a hora ou lugar ou se eu realmente estava bonita, ele apenas dizia porque sabia que aquele singelo elogio me deixaria iluminada pelo resto do dia. Enquanto Sasuke roubava uma rosa para me dar, Ren deu-me uma flor a cada dia da semana de Aki no Nanakusa só para, no fim, convidar-me para um festival, um dos que eu mais aguardava. Enquanto Sasuke forçava as coisas, Ren fazia tudo devagarinho, conquistava-me aos poucos e parecia ter uma paciência inesgotável, pelo menos até então.

Só que aquilo não era uma competição sobre quem me agradava mais ou se adequava no meu “perfil de exigências”. Não fazia nenhum pouco de sentido ter um perfil de exigências, o que eu reparava nos dois era como cada um fazia eu me sentir. Passar um tempo com Sasuke e passar um tempo com Ren eram coisas completamente diferentes. Ambos eram muito diferentes e me encantava de formas muito diferentes. Eu não estava buscando um substituto para o Sasuke e muito menos queria voltar para ele desesperadamente, eu só queria aproveitar aquele momento. Apesar dos apesares, estava me saindo muito bem, estava me divertindo, estava tendo progressos na minha vida profissional que antes parecia estagnada. O que eu menos precisava era de um dilema como aquele.

— Eu sei que você não quer voltar com ele, então, por que simplesmente não tenta recomeçar de novo? — indagou — Desculpe-me, Sakura-senpai, mas eu simplesmente não entendo.

— Nem ela mesma, jovem — Ino retorquiu apoiando uma mão no ombro dele com um olhar compreensivo. — Eu admiro a sua coragem e o seu cavalheirismo, homens como você são raros. Como melhor amiga dela, eu sugiro que não faça mais isso.

— Isso o quê? — Ren indagou, e eu senti a irritação em sua voz.

— É tudo muito recente. — Ino escolheu não responder à pergunta. — A Sakura não pode sair com você não só por questões burocráticas, mas porque também tem um problema maior chamado Sasuke Uchiha, entende? Tudo bem, eu sei que não entende, não precisa fazer essa cara. Você é um fofo, sabia? Se quiser, eu te acompanho, vai ser divertido. A gente se conhece, e, caso você não goste de mim, o que eu acho bem difícil, apresento você para outras amigas minhas menos problemáticas que a Sakura.

— Eu não quero sair com ninguém senão ela — Ren disse encarando-me por cima dos ombros de Ino que, no meio do seu falatório, instalou-se entre mim e ele. Um silêncio constrangedor pairou por um momento, e eu pedi ao meu consciente algumas vezes para transformar-me em poeira.

— Eu preciso buscar o Ichiou — desconversei.

— Eu preciso da sua resposta, Sakura. — Encarou-me.

Fitei mais uma vez a flor roxa em minhas mãos, olhei a expressão de pena estampada na cara da Ino, fitei o próprio Ren e pensei no quão bom ele era para mim. Eu queria sair com ele, mas não sentia como se devesse fazer isso. Ainda assim, dei-lhe minha resposta:

— Tudo bem, eu vou com você.

O sorriso dele foi indescritível. Um sorriso aberto e sincero que poucas vezes eu vira em seu rosto. Percebi que aquele sorriso só o deixava mais bonito e encantador. Ele não era tão mais velho que eu, porém parecia ter o coração intacto de uma criança, suas maneiras, seu olhar...

Iria acompanhá-lo, apenas acompanhá-lo, e esperava que realmente tivéssemos uma boa noite juntos. Talvez eu precisasse daquilo mais do que ele.

.o0o.

O sol estava se pondo quando Ichiou e eu estávamos nos arrumando para o Tsukimi. Como Ren também morava na hospedaria, ele só precisaria bater na minha porta para poder irmos, eu não poderia nem me dar ao trabalho de pedir para ele não me buscar em casa e soar muito formal, Ren simplesmente morava há algumas portas dali.

Imaginava se ele espiava pela fechadura a hora em que Sasuke entrava e saía do meu quarto, se ele tinha ciúmes, raiva, compreensão... Se a situação fosse inversa, talvez eu fizesse isso. Ren sabia que não estávamos juntos, que eu não era mais a mulher do Uchiha, ele só não sabia como meus sentimentos estavam conturbados. Meu eu não era mais do Sasuke, mas meu coração talvez ainda fosse.

Ichiou penteava os meus cabelos e cantava as cantigas ensinadas na creche, eu maquiava-me e perfumava-me como podia, afinal, mal conseguia parar de rir com a forma encantadora como Ichiou cantava e proferia errada as palavras.

Cinco anos. Meu filho já estava com cinco anos, e eu ainda olhava para ele desacreditada. Tinha duas semanas que ele estava na creche e as inúmeras novidades que ele me trazia iluminavam mais o meu dia e enchiam o meu peito de orgulho, tanto pelo meu filho estar crescendo e desenvolvendo-se como uma criança normal, quanto por sempre ter estado certa sobre como a creche faria bem ao meu menino.

Assim que Ichiou terminou, joguei-o na cama e dei início a uma luta de cócegas. Ele gritava e debatia-se embaixo de mim, tentava revidar com suas mãos pequeninhas, porém eu não lhe dava brecha. Mesmo sem receber cócegas, acabava rindo tanto quanto ele e me divertindo como eu não me divertia com ninguém, nem com a palhaça da Ino.

— Vamos ver o papai? — ele indagou esperançoso.

— Eu já te disse, Ichiou, o papai está trabalhando em um lugar muito longe. Não podemos visitá-lo.

— Mas já faz muito tempo — reclamou em tom manhoso.

— Faz dezesseis dias. Estamos contando, lembra?

Eu havia colocado um calendário na altura do Ichiou para ele ir marcando cada dia que passava, assim ele percebia que, quanto mais dias marcados, mais próxima estava a data de chegada do Sasuke. O que Ichiou não sabia era que o pai não tinha dado uma data para retornar, contudo, a lógica de um dia após o outro funcionava e, de certa forma, conteve a ansiedade dele.

— Ele vai vir para o shichi-go-san³? — perguntou em um tom triste.

— Eu não sei — respondi sinceramente após ponderar um pouco.

Não iria mentir para o Ichiou só porque ele era uma criança. Não importava se ele não entendia o que isso significava, eu não poderia fazer-lhe falsas promessas ou inventar mentiras só para deixá-lo mais à vontade. Nem sempre eu estava presente na vida dele, em algum momento Sasuke também não estaria, e, embora isso não fosse bom para o crescimento dele, fazia parte do pacote de ser filho de shinobi.

Ainda o prendendo sobre mim, coloquei seu rosto entre a palma das minhas mãos e fiquei observando cada mínimo detalhe. Isso o deixou incomodado, mas, ainda assim, continuei a fitar suas expressões, seu olhar, seus olhos, sua boca, o nariz reto... Ichiou era um quebra-cabeça montado com peças minhas e de Sasuke, claramente com mais peças de Sasuke do que minhas.

Há pouco tempo, seus cabelos eram castanhos, só que, à medida em que os meses passavam, pareciam mais escuros. Os olhos ainda oscilavam de castanho para um amendoado, meio esverdeado, entretanto, não eram sempre que estavam daquela cor. A impressão que eu tinha era que, aos poucos, todas as características contrárias às do pai acabariam se perdendo e dando lugar às dele afinal. Cabelos e olhos escuros, pele clara, pálpebras mais puxadas, nariz reto, lábios finos, maxilar anguloso. Aos poucos, mais Sasuke, menos Sakura.

Fingir que me incomodava era inútil, no fundo eu achava muito bom Ichiou ser uma cópia indiscutível do pai, ser “padrão Uchiha”. Ele encontraria rapidamente pretendentes e intimidaria os inimigos com a áurea sombria que todo Uchiha acaba adquirindo um dia.

— Você acha a mamãe bonita? — perguntei, libertando-o do meu aperto. Ele arrastou-se pela cama, desceu do colchão e começou a correr pelo quarto gritando “sim” repetidas vezes. — Você acha que se parece mais com a mamãe ou com o papai?

— Com o papai. Ele é menino — disse como se fosse uma coisa óbvia. Eu não tive como não rir. Ichiou era muito esperto, tonta era eu por não saber formular uma pergunta para uma criança.

Com muito esforço, consegui capturá-lo e, segurando-o no colo, propus-lhe um jogo com segundas intenções e comecei a perguntar sobre cada parte do corpo dele e com quem ele mesmo achava que se pareciam.

— Cabelo?

— Papai.

— Olhos?

— Papai.

— Nariz?

— Igual o da mamãe — disse apertando o meu nariz.

— Bochecha?

— Papai.

— Testa?

— Mamãe.

Comecei a rir. Ichiou estava realmente brincando, a testa dele era minúscula, mesmo para uma criança. Se eu contasse isso para a Ino, ela passaria a noite zombando de mim.

As perguntas continuaram em tom de brincadeira, eu já havia deixado para lá a intensão de sondar Ichiou, ele respondia apenas a primeira coisa que vinha em sua mente. Às vezes, imitava-me, às vezes, imitava Sasuke, o que era muito engraçado levando em consideração que, quando Sasuke falava as mesmas coisas que Ichiou repetia, não tinha a menor graça.

Ouvi as batidas na porta, mas foi Ichiou quem abriu. Tratei de fazer rapidamente um coque tradicional no cabelo e sair correndo logo atrás do Ichiou porque não queria que Ren entrasse e pudesse trazer-me problemas. Embora eu não estivesse mais com o Sasuke, ainda tinha o pensamento de casada e achava inapropriado levar um homem para o meu quarto. Daríamos uma volta juntos, sim, porém seria em um local público e Ichiou estaria com a gente.

A presença dele pareceu não deixar Ren muito feliz, sendo verdade ou mentira, Ren soube disfarçar muito bem. Ichiou repetiu a mesma cantoria que fez no quarto enquanto eu me arrumava e conversou sobre tudo o que estava acontecendo na creche. Ren ouvia tudo pacientemente e fazia algumas perguntas esporádicas que nem sempre eram respondidas. Resolvi que o levar para comer poderia sanar um pouco daquela ansiedade, e acabou dando certo.

— Você está linda — elogiou-me Ren.

— Você também, Ren — devolvi o elogio.

Ele realmente estava muito atraente em trajes tradicionais. Eu também percebi que usava um perfume diferente que me agradara muito, um pouco amadeirado, um cheiro que parecia natural, mas estranhamente não conseguia me lembrar da origem.

Conversamos sobre coisas das quais não conversávamos há tempos, sobre as diferenças culturais e institucionais das nossas aldeias, sobre como ele sente saudades de casa, ainda que prefira morar aqui; falamos sobre o hospital, sobre as aulas e as profissões de ninja-médico, médico e enfermeiro que são extremamente importantes, porém, muitas vezes, “rebaixadas” como “trabalho de mulher”.

— É uma incoerência sem tamanho dizer isso, cheguei até a retrucar algumas vezes que tudo relacionado à área da saúde é trabalho de mulher mesmo porque só uma mulher é capaz de aguentar a pressão da função. Não é à toa que vemos mais mulheres nos hospitais. Dos homens que entram, muitos desistem; os que ficam são tidos como “fracos”. É tudo uma bobagem sem tamanho — eu dizia sem parar.

— O mundo shinobi é machista.

— O mundo todo é machista — reafirmei tomando mais um gole do que deveria ser o terceiro ou quarto chá que eu tomava depois de muito tempo de conversa.

Dali, eu observava o Ichiou junto com outras crianças entretidos em uma brincadeira tradicional coordenada por algumas moças. Elas pintavam o rosto das crianças e faziam todas ficarem pulando como coelhos. Era fofo observar as crianças com orelhas de papel presas na cabeça e divertidíssimo ver as moças adultas pularem até se cansarem da energia inesgotável das crianças. Depois de um tempo, Ichiou correu até mim quando as moças encerraram a brincadeira.

Também estava tarde, havia pelo menos umas quatro horas que aproveitávamos o festival. A lua estava verdadeiramente esplêndida naquele ano, uma grande e brilhante pérola cravada nos céus. Remetia-me tantas coisas, tantas lembranças de diferentes épocas da minha vida...

Quando mais nova, eu costumava olhar para a lua e imaginar se Sasuke também a observava, onde ele estava e em que poderia estar pensando naquele mesmo instante. Anos depois, com uma história vivida, com um filho como fruto da nossa união, ainda é impossível saber se ele a observa, de onde a observa e o que pensa quando olha para ela, para essa mesma lua.

Ele me avisara que não tinha prazo para voltar. Poderia negar ou omitir ao máximo o que eu sentia, mas a verdade era que já me preocupava pela falta de resposta há mais de duas semanas e também sentia saudades. Embora não quisesse sentir, sentia, ainda mais depois do beijo e das tentativas de beijo, das palavras que ele me dissera, tudo parecendo tão real, tão suplicante e urgente que eu não conseguia sequer pensar em ignorar e bancar a durona. Decidi que, pelo menos, deveria ir atrás de uma mensagem para dar satisfação ao meu filho, já que eu não gostaria de assumir nada. Ichiou desejava saber onde estava o seu pai e somente uma pessoa tinha essa resposta, eu deveria falar com ela.

Por uma coincidência absurda, ou não, enquanto pensava em Naruto, Hinata surgiu próxima ao local onde eu estava e parecia ter me avistado bem antes do que eu a ela. Foi Hinata quem decidiu aproximar-se, novamente mais adiantada do que eu que ainda ponderava se a cumprimentava ou fingia-me de louca.

— Sakura, há quanto tempo! — Hinata cumprimentou-me de forma muito cordial. Estava acompanhada por pelos menos quatro Hyugas que encaram Ren e eu da cabeça aos pés.

Ichiou estava estirado sobre mim com a cabeça apoiada no meu ombro e os braços ao redor do meu pescoço, quase adormecido. Hinata brincou com ele, que resmungou e voltou a tentar dormir no outro ombro.

— Crianças — disse simplesmente na esperança de ela relevar o mal humor de Ichiou. Ele era uma criança doce na maior parte do tempo. — Você sumiu. Nunca mais foi na minha casa... — comentei ainda incerta se deveria ou não falar isso.

Hinata abaixou o olhar, migrando-o dos “guarda costas” a mim, sem que eles percebessem. Eu entendera o motivo. Seja no Distrito Uchiha ou na hospedaria, eu não gostaria de ter um monte de Hyuga inspecionando minha conversa com Hinata, mesmo que não houvesse nada demais para conversarmos.

— Sei que não é local nem momento, porém eu não sabia como poderia contatá-la nem onde poderia encontrá-la. Minha relação com pessoas de fora do meu clã tem sido praticamente nulas nos últimos meses. — Um dos Hyuga que a escoltava aproximou-se mais dela e de mim. Hinata fechou os olhos e suspirou, como se buscasse calma em um ponto muito profundo da sua alma. Quando os abriu, a serenidade parecia tê-la abatido novamente, ou ela fingia muito bem. — Não temos médicos especialistas no Distrito Hyuga, e eu não posso utilizar os serviços do Hospital de Konoha, ainda assim, preciso de uma consulta específica... — Hesitou. — Aquele tipo de consulta que eu tinha com você.

— Ginecológica — verbalizei.

Hinata já estava vermelha e começava a se enrolar com as próprias palavras e as muralhas Hyugas já olhavam torto para mim e para ela. Não disse para constrangê-la e sim para que os homens ao seu redor entendessem que não estávamos trocando segredos e sim informações de teor muito íntimo. Nenhum homem sai por aí falando que vai ao urologista.

— Sim — afirmou gaguejando. — Como você não serve mais o Hospital de Konoha, pensei que talvez pudesse fazer uma consulta particular.

— Posso. Quando e onde?

— Acho que é melhor na minha casa — respondeu olhando de canto o segurança que estava mais próximo a ela.

Ela parecia uma garota amedrontada, e isso estava me incomodando. A invasão de privacidade ali era extrema. Há pouco, eu falava sobre machismo com Ren e, de repente, era obrigada a deparar-me com uma cena como aquela só para testar a minha paciência.

— Eu não acho melhor na sua casa, contudo, acho que você não tem muitas escolhas. — Encarei os seguranças dela com o olhar mais arisco que consegui lançar. — Estou neste endereço — disse anotando em um guardanapo as informações. — Quando quiser, mande-me uma mensagem.

— Sim, muito obrigada — anuiu, pegando o papel e guardando-o dento de seu kimono.

— Fora isso, você está bem?

Ela assentiu, mesmo havendo uma tristeza velada em seu olhar. Aquela era uma pergunta horrível, ela, definitivamente, não estava bem, e qualquer pessoa com o mínimo de percepção conseguia concluir isso.

— Até logo, Sakura.

— Até.

Ela foi embora cercada pelos homens de postura hostil. Seria cômico se não fosse cruel. Hinata era só uma garota com sorte, apaixonada por um homem louco por ela. Malditas burocracias e frescuras de clãs tornavam essa sorte em um infortúnio. Desejava intensamente que tudo desse certo, para ela e para ele, sendo juntos ou separados, mereciam ser felizes.

Ren e eu fomos embora. Novamente o empecilho de morarmos juntos não me poupava nem de negar a companhia para ficar a sós com os meus pensamentos. O caminho foi todo preenchido pela fala dele, e, por incrível que pareça, àquela hora da manhã, ele não me entediava e me mantinha presa na história de um livro que ele estava lendo sobre psicologia. O assunto era pertinente, já que, nas últimas semanas, o que eu mais estudava era psicologia e psiquiatria.

Conversamos sobre isso até chegarmos à hospedaria. Assinamos nossos nomes e subimos para o andar no qual vivíamos. Ren acompanhou-me até a porta, e eu não esperava que ele fosse chegar ao ponto, mas ele chegou, ofereceu-se para segurar o Ichiou no colo enquanto eu abria a porta. Mesmo com as minhas insistências, ele fez questão de levar Ichiou até a minha cama. Talvez ele quisesse checar meu quarto, prolongar o encontro ou ir além.

— Espero que tenha gostado da noite. Eu adorei.

— Eu também — respondi num sussurro.

Constantemente, olhei para a porta, senti um desconforto enorme por Ren estar ali, ele não deveria estar.

— A cada dia, gosto mais dessa vila, dos festivais e das celebrações tão simbólicos — comentava de sorriso aberto. — Não tenho vontade de ir embora, Sakura.

Sakura. O “senpai” ou o “sensei” já não existiam ali, literal e figurativamente.

— Você sentiria minha falta se eu fosse embora?

— Claro que sim, Ren — hesitei ao responder, virei as costas e caminhei lentamente até a porta na esperança de que o atraísse para perto dela também.

Embora eu soubesse que a probabilidade de algum conhecido vê-lo dentro do meu quarto era remota, eu tinha medo de ocorrer um mal entendido.

— Mas você sabe que deve ir embora. Suna tem te ajudado a estudar e tornar-se um bom enfermeiro, até mesmo um médico especialista, você deve voltar e retribuir a sua vila com o que você adquiriu aqui.

— Tenho muitas dúvidas sobre os conceitos de liberdade empregados atualmente — comentou, parecendo um pouco irritado com o que eu disse. — Eu devo voltar para lá? E se eu escolher ficar e ter Konoha como a minha vila?

— Bom, eu acredito que as leis empregadas na sua vila são parecidas com as daqui. Você teria problemas — respondi seriamente. — Shinobi que renega a vila são desertores, nukenin, são perseguidos por Oinin para serem trazidos de volta à vila ou mortos. Não sei como funciona com médicos prófugos, entretanto, acredito que não seja bom. Além de que, hoje, há uma forte aliança entre as nações, se você trair Suna, Konoha se considerará igualmente traída. Não seria uma decisão inteligente ficar.

— E isso não faria diferença alguma para você, não é? — questionou-me em um tom de voz mais baixo, parecendo magoado, dando um passo à frente para ficar mais próximo de mim.

— Eu ficaria extremamente decepcionada por ter um pupilo que se voltou contra tudo o que ensinei.

— Você não me ensinou nada relacionado a isso.

— Ensinei-os a serem íntegros no trabalho. Você confiaria em um médico corrupto? Em um médico ingrato à sua vila?

— Não foi uma boa ideia falar isso com você. — Suspirou e passou por mim saindo do quarto.

— Você achou que seria uma boa ideia contar à sua sensei que tem tido esses tipos de pensamentos?

— Você não é minha sensei agora, você é a Sakura.

— Eu sou sua sensei em tempo integral, Ren.

— Então por que aceita os meus convites? Por que aceita passar um tempo comigo além das aulas práticas?

— Sinceramente, eu gosto de você, gosto de conversar com você, gosto da sua pessoa, porém você está começando a misturar as coisas.

— Misturar o quê? Você acabou de dizer que gosta de mim — exclamou um tanto alterado.

— Gosto de você como um amigo — expliquei, impaciente, afinal, aquilo era óbvio.

— Desculpa, mas eu não te entendo.

— Nem precisa. Espero, do fundo do meu coração, que você repense nas coisas que disse aqui hoje e no quão antiético é ter esses pensamentos.

— Quão antiético é ter um aluno de enfermagem dentro do seu quarto? — indagou, aproximando-se de mim. — Você não conta, e, então, eu não conto.

— Contar o quê, Ren? — perguntei, impaciente. Aquele menino doce com o qual passei um tempo parecia extinto à minha frente. — O que você tem para contar? Não existe nada para contar.

Ren assentiu olhando para os lados. Parecia nervoso, alterado de uma maneira que nunca vi. Seus olhos marejavam, e as mãos tremiam.

— Eu gosto muito de você, Sakura. Gosto muito de você e do seu filho. Eu estou disposto a virar um desertor por você. — Segurou as minhas mãos em um misto de desespero. — Poderíamos ir para uma vila distante, nos disfarçarmos, sobreviver de barganha com consultas a povos isolados. Ninguém nos encontraria e poderíamos viver uma vida amena juntos, fazendo o que gostamos e...

— Ren, eu serei obrigada a notificar Temari sobre o que está acontecendo, e você correrá o risco de ser degredado para Suna, no mínimo — disse entredentes.

— Pense na minha proposta — implorou apertando minhas mãos na dele.

— Ren, eu vou fingir que isso nunca aconteceu e espero uma postura diferente sua no próximo dia de aula.

Aos poucos, ele foi soltando as minhas mãos, e sua expressão suplicante foi dando lugar à uma tristeza que eu me esforçava muito para ignorar.

— Eu realmente adorei todos os momentos que tivemos juntos, mas nada do que você me disse faz sentido.

— Eu sei que no fundo é o seu desejo, Sakura.

— Você não me conhece, Ren.

— Você ainda gosta dele? — Não respondi. — Só... Só pensa no que eu disse.

— Ren, não é recíproco. Você sabe — disse com firmeza. — Espero que durma bem e esqueça isso. É meu último aviso.

Delicadamente, guiei-o para fora e fechei a porta rodando as duas trancas e trazendo a chave comigo. A postura de Ren havia me assustado. Inocência minha imaginar que poderia ficar banhando-me nos gracejos dele sem que, um dia, aquilo não passasse dos limites. Certamente, os outros quatro alunos já deviam confirmar as hipóteses de que Ren e eu tínhamos um relacionamento ou algo do tipo. Aquilo era prejudicial ao meu trabalho, e eu não queria ter esse tipo de problemas em uma época da minha vida em que só almejava avanços profissionais e pessoais.

Admito que deveria ter cortado desde o início as investidas do Ren, porém também preciso admitir que gostava dele, gostava da forma como ele me tratava, gostava de me sentir especial, de me sentir bonita, valorizada, desejada. Ren era um verdadeiro cavalheiro, o tipo de homem que toda mulher merece, contudo, havia mais conjunções do que tudo. Nada era a favor de um romance entre mim e ele. Nada fazia sentido.

Deitada ali ao lado do Ichiou, tão semelhante ao pai, concluí que, particularmente, galanteadores, verdadeiros príncipes no quesito cavalheirismo, homens românticos e semelhantes não eram para mim. Eu não era eu se não estivesse sentada em um peitoril chorando trovas a um amor platônico. Ren era mais novo alguns anos, também tinha muito o que aprender sobre rejeição – como eu aprendi. Embora eu acreditasse que fosse da personalidade dele ser tão sensível e amável, também era característico da pouca idade. Ele precisava se envolver com uma mulher mais jovem, até mesmo da mesma idade, uma das colegas de estágio, não sei, alguém com as mesmas ansiedades.

Naquele momento, eu vivia uma paixão por mim mesma e gostaria de curtir isso por mais tempo. Sasuke podia até compor uma boa parte de mim, mas certamente não era mais o centro do universo. Nenhum homem era ou seria, a não ser o meu filho.

.o0o.

Já estava tarde quando acordei com Ichiou brincando e gritando pelo quarto. O vento gelado percorria todo o quarto, e eu levantei no mesmo instante para fechar as janelas que esquecera aberta antes de dormir. Ichiou tinha uma saúde frágil, qualquer brisa mais gelada, ele se resfriava.

Fiz minha higiene matinal e a dele; em seguida, comecei a arrumar a cama antes de descer para tomarmos café da manhã. Embora não tivesse que dar aulas naquele dia, estava com pressa de sair logo para ver Ino.

De repente, ouço batidas na porta e a primeira pessoa que penso que possa ser é Ren. Por alguma razão que desconheço, meu corpo gelou, como se eu tivesse sido flagrada ou estivesse em perigo, o que claramente não fazia sentido. Talvez minha consciência estivesse muito pesada em relação a ele, por isso o alarde. Ainda assim, poderei por algum tempo se abriria logo a porta ou fingiria estar dormindo, já que só bastava Ren dar uma espiada no caderno da entrada da hospedaria para saber que não me ausentei desde ontem do prédio.

Antes que eu tomasse uma decisão, Ichiou correu e abriu a porta, escancarou-a para ser mais específica e deu um gritinho alegre ao ver quem era.

— Naruto? — Não consegui disfarçar minha surpresa.

Saí de cima da cama e fui em sua direção, já bronqueando Ichiou por abrir a porta sem minha permissão, porém o menino era terrível, dava risada de mim enquanto pulava no colo no Naruto, o seu “tio” tão querido.

— Não precisa brigar com ele, eu vou ser bem rápido — informou, pendurando Ichiou em cima de seus ombros.

— Já tem uma resposta para o meu projeto?

Eu já tenho, quem não têm são os anciões. Infelizmente, ainda não tenho novidades sobre isso. — Minha expressão decepcionada deve ter sido bem óbvia, já que ele pareceu um pouco encabulado, desconfortável. — Aquele dia na Central, em que você e Ino foram mostrar-me o projeto... Aquele dia não foi muito legal, e eu acho que você também concorda com isso — começou.

Então era sobre nossa amizade que ele queria falar... Definitivamente, não estava pronta para aquilo, não esperava que fôssemos falar tão cedo sobre isso. Mal sabia o que fazer, se deveria esperar um pedido de desculpas ou se deveria me desculpar por tudo o que vinha acontecendo com a nossa amizade.

— Embora já tenhamos conversado sobre toda a confusão que criei, não assumi a culpa que tenho nisso. — Gesticulou para o quarto.

Certamente, ele já imaginava que, se não fosse ele, talvez eu pudesse estar no Distrito Uchiha, junto ao Sasuke, porém ainda infeliz. Será que muita coisa ia mudar se eu jamais tivesse pego Sasuke?

— Por isso, eu tirei um tempo livre para vir me desculpar com você, Sakura. Você é minha melhor amiga. Não tem ideia do quanto eu sinto sua falta e sinto muito por toda essa situação. — Abaixou o olhar. Ichiou ainda estava pendurado em seu colo brincando com seu chapéu de Hokage. — Há muito tempo, eu não me sentia completamente sozinho como tenho me sentido agora. — Abraçou mais o Ichiou. — Com o Sasuke distante, você brigada comigo e Hinata completamente isolada no Distrito Hyuga, eu me sinto muito só. Minha vida se resumiu ao trabalho, e eu não gosto disso. Gosto de ter as pessoas que eu amo próximas a mim, mas, no fim, acabei afastando todos.

Silenciosamente, fiz um convite para entrar. Assim que fechei a porta, ele se sentou na beirada da cama, e Ichiou voltou a correr pelo quarto com o chapéu de Hokage na cabeça. Naruto estava cabisbaixo e parecia realmente triste, aquilo partiu meu coração. Mesmo estando magoada com ele, eu não poderia fingir que aquilo não me afetava, afinal, Naruto era meu melhor amigo há anos.

— Eu senti raiva de você, Naruto, não posso negar isso — comecei. — Contudo, procurei entender o seu lado, sua posição e o que isso exige de você diariamente. Visivelmente, você está exausto, ainda assim veio até mim se desculpar quando nós dois estamos em empate aqui.

— Ahm? Como assim? — indagou confuso.

— Eu também tenho que me desculpar por minhas atitudes injustificáveis. Quase matei uma Anbu sua, quebrei uma das regras mais preciosas do hospital, fui arrogante com você, ingrata com aqueles que me ajudaram... Separação não justifica essas atitudes. Confesso que fui egoísta e extremamente melodramática em muitos pontos. Aceito suas desculpas e também aproveito para pedir as minhas. — Segurei sua mão que estava apoiada nos joelhos. — Amigos podem quebrar o coração da gente às vezes. Eu acredito em segundas chances tanto no amor quanto na amizade, então, podemos acabar com toda essa confusão agora, o que acha? — sugeri.

Naruto pareceu impactado com as minhas palavras, encarou-me desde que abri a boca até o momento em que a fechei, sua expressão era realmente de descrença. Totalmente compreensível considerando como eu vinha agindo atipicamente das últimas vezes que nos encontramos.

— Você realmente me desculpa? — perguntou ainda estático sob minha mão.

Assenti sorrindo mais do que eu já sorria enquanto lhe dizia aquelas coisas.

Eu não havia acordado de bom humor, pelo contrário, estava um tanto afoita pelo fim da noite anterior, mas ver Naruto tão humilde e vulnerável daquela forma só para reconquistar a nossa amizade deu uma nova cor ao dia.

— De toda essa confusão, digo tudo mesmo, Sasuke e eu, Hinata e você, missão secreta etc... De toda essa confusão — repeti gesticulando. —, não há ninguém certo e ninguém completamente errado. Todos devemos entender e aceitar isso como um fato. Eu estou no caminho de aceitar tudo isso. — Apertei levemente sua mão. — Fizemos mais coisas boas um para os outros do que coisas ruins.

— Tem razão — concordou, relaxando os ombros e colocando a outra mão livre sobre a minha. — Estamos bem, então?

— Absolutamente. — Sorri confirmando.

— DATTEBAYO! — gritou repentinamente me erguendo para o ar e rodando.

Nem preciso dizer que Ichiou parou tudo o que estava fazendo para pedir que Naruto fizesse com ele também. Depois de alguns rodopios com ele, Naruto voltou-se para mim novamente, com a expressão mais séria, um pouco receosa, e indagou:

— O que você disse se aplica ao Sasuke também?

Ponderei por alguns minutos. Aquela era uma pergunta que eu me fazia todos os dias, e, todos os dias, eu não era firme na minha resposta.

— Você quer saber se eu perdoei o Sasuke? — reformulei sua pergunta. Não por necessidade de ser reformulada, no fundo, eu só queria pensar mais a respeito antes de responder.

Naruto confirmou logo em seguida, e eu tive que dar minha resposta:

— Perdoei. — Naruto respirou aliviado. — Mas isso não quer dizer que vamos voltar a ser um casal. — A expressão dele mudou drasticamente. — Isso não é sua culpa, não precisa fazer essa cara! Bom, nesse meio tempo, também admiti uma coisa muito difícil para mim mesma. Eu não posso cobrar dele os mesmos sentimentos que tenho, afinal, somos indivíduos diferente com objetivos diferentes. Sasuke queria uma família, e eu queria estar ao lado dele. De certa forma, proporcionamos isso um ao outro por um tempo. Não ficamos exatamente “felizes” quando alcançamos isso, tanto eu quanto ele, reforço. Fizemos uma troca e, ainda assim, não foi o suficiente. Sasuke e eu só poderemos ficar juntos quando estivermos em busca de algo em comum. Eu não vou exigir nada dele, não tenho esse direito, então, vou deixar as coisas como estão. Ichiou é filho dele, e isso nada nem ninguém mudará. Eu cumpri minha parte, e, por um certo tempo, ele cumpriu a dele também. Mas agora tudo mudou...

— Você não o ama mais?

— Amo. Amo bastante ainda, não por escolha. Contudo, entendi que não é porque eu o amo que ele tem que me amar também e corresponder minhas expectativas. Ele não pediu por isso, então, jamais irei cobrá-lo. Estou concentrando minhas energias totalmente naquele projeto, Naruto, por isso, fiquei tão impaciente. Eu tenho muito amor dentro de mim, não cabe mais guardá-lo, tenho que o espalhar por aí. Esse projeto vai me dar tudo o que eu preciso para minha satisfação.

— Sakura, você está dizendo coisas muito bonitas, mas eu não sei se acredito inteiramente em todas elas. Você e o Sasuke nasceram para ficar juntos. Eu nunca vou me acostumar com a ideia de estarem separados. E ele pode não verbalizar nada, pode ser um grosso, um Teme maldito com aquela arrogância e prepotência toda, mas te garanto, ele te ama. Ama muito e sente sua falta. — Abraçou-me calorosamente. — Você vai conseguir alcançar tudo o que almeja, tê-lo ao seu lado não a impedirá de nada nesse mundo. Você já é a mulher independente que sempre quis ser.

Notas finais
¹ Aki no Nanakusa: significa “As sete flores do outono”. Flores selvagens, normalmente vistas em áreas rurais. São simples, rústicas e delicadas (Hagi; Susuki ou Obana; Kuzu; Nadeshiko; Ominaeshi; Fujibakama e Kikyou). ² Tsukimi: é conhecido como Festival da Lua Cheia de Outono. O Festival é feito com o intuito de apreciar a lua, que nesta data é considerada a mais linda e brilhante do ano. ³ Shichi-go-san: é um rito de passagem tradicional onde as meninas de sete e três anos e os meninos de cinco anos são vestidos com roupas tradicionais e levados aos santuários pelos pais para agradecer aos deuses pelo crescimento saudável dos filhos.