Pilares de Areia

2 There are so many possibilities to not be alone


Notas iniciais
Hey, people! Estou muito contente com os comentários e as expectativas que têm com essa fanfic. Como disse na nota anterior, esta foi a primeira fanfic que escrevi, é toda manuscrita e incoerente, demorei quase cinco anos para deixar o ciúmes dela de lado e resolver posta-la. Queria mantê-la escondidinha no fundo das minhas caixas. . Este capítulo se trata de um flash back e já vou adiantar que muitos outros serão típicos no decorrer da história. Apesar do manuscrito contar uma história enorme, não tenho longas perspectivas para esta versão, então não esperem anos de Pilares de Areia como tem sido com Strokes e Sinal Positivo. . Boa leitura.

Honestamente, foi uma surpresa ser pedida em casamento por Sasuke.

Konoha já havia nos presenteado com temperaturas mais agradáveis. Não chovia, muito menos nevava, mas o frio que fazia parecia trincar a pele.

Estava no hospital auxiliando as enfermeiras da Ala-Verde com pacientes em estado estável, em sua maioria crianças e idosos gripados. Eu pertencia à Ala-Vermelha de atendimentos emergenciais graves, mas aquele bloco andava mais parado do que banca de revistas. Felizmente. Ajudava como podia na organização das outras alas ou no escritório com Shizune, batendo os controles do Hospital de Konoha.

Adorava meu emprego, tinha orgulho da minha profissão e era feliz no cargo que exercia, embora a responsabilidade fosse por muitas vezes assustadora. Já havia conquistado um certo respeito, entretanto ainda era possível sentir uma áurea hostil em algumas pessoas que trabalhavam próximas à mim.

Com vinte anos, eu ocupava um cargo que só poderia estar aos quarenta, no mínimo. Especulavam que eu, por ser a favorita da Tsudade-sama, recebia vantagens absurdas que iam contra o sistema do hospital. Isso sendo que Tsunade avisou o conselho que o cargo honorário havia sido uma bonificação pelo meu excelente trabalho em campo de batalha.

Muitas pessoas esqueciam-se do fato de que o atual Hokage está vivo graças à mim.

Depois do expediente cansativo, saí um pouco além do meu horário. Como estava tarde, provavelmente não haveria jantar nenhum a me esperar, se houvesse já deveria estar morno. Resolvi passar no Ichiraku e comer algo leve.

A surpresa ao encontrar Sasuke lá ficou estampada no meu rosto. O tio Ichiraku riu de soslaio enquanto preparava algo na fritura. Eu travava um conflito interno entre me aproximar ou sair como se nunca houvesse cogitado a ideia de parar ali para comer.

Eu não mordo, Sakura.

Então, ele me notou, e estremeci ao som de sua voz branda ao pronunciar meu nome.

Chegava a ser ridícula a forma como eu era vulnerável às mais triviais atitudes de Sasuke. Eu sempre achava estar certa do que esperar dele e todas as vezes eu era surpreendida. Nas nossas poucas conversa, eu era sempre a primeira e a última a dar a palavra, também era a pessoa que interagia, um diálogo unilateral, às vezes interrompido por respostas monossilábicas.

Era uma surpresa ter sido notada e certificada disto.

Como não me mexi após o aviso tranquilizador, ele virou um pouco a cabeça na minha direção, permaneceu o olhar sobre mim por um tempo até que cedi à timidez e virei o rosto. Era incrível como eu parecia uma pré-adolescente de doze anos. Quando ouvi o riso sarcástico sair de sua boca, senti-me humilhada.

Sasuke sabia que eu ainda tinha aquela paixão platônica por ele e se regozijava por isso.

Com raiva, para não assumir minha mágoa, sentei-me ao seu lado e pedi minha janta para viagem.

Sentia o olhar sobre mim, ele me observava pelo canto do olho com o ochoko¹ próximo aos lábios, sem contato, apenas sentido o aroma forte da bebida. Ele conseguia ser um homem sedutor sem fazer esforço, essa era uma das coisas que mais me intrigava em Sasuke.

Esperava meu pedido, em silêncio, ainda me sentindo desconfortável com o olhar dele.

Não acha que está muito tarde para ficar na rua? – Perguntou enquanto servia um ochoko de saquê para mim. Já não me olhava, já dera sumiço do sorriso zombeteiro que inclinava seus lábios.

Já estou indo para casa. – Respondi, recolocando uma das mechas do meus cabelo atrás da orelha. Isso fez com que me lembrasse que estava um trapo. Ao sair do hospital, nem havia me preocupado em tirar o jaleco, pentear os cabelos e passar um ruge no rosto.

Está saindo muito tarde do hospital, não acha? – Virou-se para mim, apoiando a cabeça num punho. No cantinho do balcão, observei dois tokkuri² vazios. Logo cogitei o motivo de Sasuke estar puxando assunto comigo.

Não é como se nos importássemos. – Disse desviando meu olhar para o Ichiraku que ainda não havia começado a fazer o meu pedido. Sasuke não disse mais nada, mas permaneceu me olhando, provavelmente buscava alguma coerência na minha resposta. – E você, o que faz na rua tão tarde? – Deu os ombros e bebericou o saquê. Eu nem havia tocado no meu. – Parece-me um pouco deprimido bebendo sozinho.

Não é como se houvesse alguém em casa me esperando.

Sorri, mas aquilo me entristeceu. Também não havia ninguém me esperando em casa.

Aqui fora há muitas oportunidades para não ficar sozinho. – Me atrevi a pegar o ochoko e sentir a fragrância a bebida. Aquilo me daria uma dor de cabeça insuportável pela manhã.

Acredito que sim. – Novamente me olhou e demorou para mudar o foco, me pegando constrangida mais uma vez. – Você ainda gosta de mim. – Virou o rosto no momento em que olhei para ele, estupefata. Nem havia sido uma pergunta, havia sido uma afirmação.

Ele continuava bebendo com sua serenidade habitual enquanto meu rosto transitava de tons de rosa para roxo de tanto embaraço. Não tive uma resposta malcriada para fazê-lo pensar no contrário e desconfiava que, se tivesse, Sasuke iria saber que se tratava de uma mentira.

Anos vem e vão e alguns sentimentos ainda transparecem facilmente.

Não é como se nos importássemos. – Repeti a fala, olhando para o fundo do ochoko com certa melancolia. Achava humilhante a forma como Sasuke se divertia às custas dessa fraqueza minha.

De repente, ele não quis mais puxar assunto, e ficamos em silêncio até minha janta chegar. Paguei, peguei a sacola e saí do Ichiraku sem cortesias. Queria ser cordial, pedir para que ele fosse para casa e tivesse uma boa noite porque eu sabia que ele não dormia bem; queria agradecer pela bebida, pela breve conversa constrangedora, mas apenas saí. Tinha medo de parecer tão fraca.

Meus passos eram largos e rápidos, era quase meia-noite, e eu não queria estar na rua quando a ronda passasse, também não queria que meu jantar esfriasse.

Eu me importo.

Assustei-me e o fitei um pouco atrás de mim com as maçãs do rosto coradas pela bebida. Estava confusa e com o coração acelerado pelo susto. Apenas naquele momento, percebi que ele estava com o uniforme da ANBU, e o que eu senti sobre isso não poderia ser melhor classificado como decepção.

O que disse? – Estávamos a uma distância de três metros, e Sasuke não falava muito alto, apesar de ter a voz firme. Pereceu impaciente, odiava repetir suas falas. – Por que largou as Forças Regulares? – Perguntei de súbito.

Naruto reconheceu que meus métodos serão mais úteis na ANBU. – Olhei instintivamente para seu ombro esquerdo, lá estava a tatuagem espiral. Meus olhos rolaram para seu rosto, ele se aproximava com cautela. Com cerca de um metro de distância nos separando, eu dei um passo para trás e olhei para o lado.

Não deveria zombar de mim. – Disse entredentes.

Gosta de mim à ponto do quê? – Indagou.

À ponto de me afastar porque sei que incomodo.

Ele riu daquela triste verdade, mas eu já estava começando a me irritar com todo aquele descaso. Sasuke estava um pouco bêbado, de certo só queria se divertir um pouco com uma garota tola como eu. Dei minhas costas à ele e segui meu rumo, escutando por trás dos meus ouvidos um ‘espera’ fraco demais para soar convincente.

Estávamos na rua paralela à alameda principal, não havia meia dúzia de pessoas fora de suas casas.

Sakura.

Olhei para trás, logo me martirizando por ser tão submissa. Ele apressava mais uma vez o passo atrás me mim.

Eu preciso ir para casa. – Disse com um tom de irritação.

Eu levo você. – Passou na minha frente, e eu estava o seguindo agora.

Você precisa ir para sua casa. – Andei mais depressa para ficar pelo menos uns dois passos próxima dele.

Responda a pergunta.

Que perg...

O que estaria disposta a fazer por mim?

Muito menos do que imagina.

Na ponte, assim que matei Danzo, você me disse que faria qualquer coisa.

Estava blefando. – Apressei o passo. Minhas mãos começaram a tremer.

Eu sei que não estava. – Ele pegou meu pulso fazendo com que eu o encarasse e parasse de andar.

O novo uniforme o obrigava a usar luvas, fazendo seu toque parecer mais rude do que era de fato.

Isso foi há muitos anos, Sasuke. – Olhei para o lado embaraçada, não queria que ele me tocasse. – As coisas mudam.

Mas você ainda gosta de mim.

Pare de afirmar isso! – Olhei para ele com um nervosismo raro, já estava cansada de ouvi-lo jogando na minha cara um fato que por anos eu tentei abreviar.

O que faria por mim?

Por que precisa tanto saber disso, Sasuke? – Perguntei com a voz mais amena, olhando diretamente em seus olhos.

Porque preciso de você.

O que quer de mim?

Uma família. – Respondeu no mesmo instante. Isso deixou minha mente sob névoas.

Ele notou a minha surpresa e, aos poucos, libertou meu punho de seu aperto. Dei alguns passos para trás, meio cambaleante, começava a desconfiar que um gole de saquê causou um efeito muito pior do que eu esperava, contudo ele havia esvaziado três tokkuri, não havia como comparar minha lucidez com a dele.

Está bêbado, Sasuke. – Concluí, recuperando minha compostura. Não poderia mostrar-me tão mexida com aquela resposta.

Pareço bêbado para você? – Abriu os braços. Sua armadura prateada me retratava num reflexo translúcido que me distraiu por alguns segundos.

Por que eu? – Perguntei em modo automático.

Por que não você? – Rebateu com outra pergunta que me fez encará-lo novamente e diminuiu o espaço entre nós dois, mas dessa vez eu não recuei. – Todos da nossa idade já têm objetivos, não pretendo ser o único a ficar para trás, acredito que você também não queira.

Seguir seus objetivos era tudo o que você sabia fazer, mas você já concluiu seus objetivos há tempos e agora não sabe o que fará daqui em diante. – Ele virou o rosto de forma suave. Pela primeira vez, eu havia ganhado.

Não seria como se não nos importássemos com isso. – Ele ainda mantinha o olhar distante. – Estamos envelhecendo. Logo as muitas oportunidades de não ficarmos sozinhos se tornarão nulas. – Ri brevemente.

Aquela poderia ser a minha triste realidade, mas definitivamente não seria a dele. Sasuke era do tipo de pessoa que, com seus cabelos grisalhos e rugas nos cantos dos olhos, ainda deixaria mulheres embaraçadas. Tanto pela beleza quanto pela imponência.

Está falando sério? – Uma parte de mim ainda acreditava que ele estava alto em álcool e só queria brincar com meus sentimentos.

Eu não brinco, Sakura. Você me conhece muito bem para saber disso. – E realmente seu semblante não exibia qualquer resquício de desonestidade.

O que espera que eu diga?

Sim. – Respondeu de imediato.

Sim para quê, Sasuke? Ainda não entendo...

Diga que aceita me ajudar a constituir uma família. – Disse num só fôlego com o incômodo eufemismo.

Está me pedindo em casamento? – Fui direta, quase barrando as palavras quando elas passavam pela minha língua, era uma ideia absurda demais para ser real.

Se prefere ver a este modo. – Deu os ombros.

Por muitos anos, eu fiquei mergulhada na utopia do momento que vivenciei naquele dia voltando tarde do trabalho. Em todas as minhas fantasias, não encontrava Sasuke no Ichiraku, ele não me seguia e começava a dizer coisas absurdas. Em todas as minhas fantasias, eu imaginei a felicidade que sentiria se fosse verdade, porém em nenhuma delas imaginei que me sentiria tão mal como me senti quando ele disse aquilo.

Você sente algo por mim, Sasuke? – Perguntei olhando para meus próprios pés. Ele não me respondeu, e eu sabia aquela seria minha resposta definitiva. – Como pretende manter um casamento sem amor? – Fitei minhas mãos trêmulas, a sacola com a janta pendurada na dobradura do meu cotovelo.

O que você sente basta por nós dois. – Respondeu, sem nem mesmo pensar numa resposta. Parecia que tudo havia sido ensaiado. Estava claro que ele só queria que alguém servisse ele.

Você não pode simplesmente parar a primeira garota que ver na sua frente e pedir para que ela lhe dê um filho! – Me exaltei com os olhos cheios de lágrimas. Sasuke havia me magoado mais do que eu esperava. – Quer dizer que, se não fosse eu, poderia ser qualquer outra? Mas que droga, Sasuke! Quem você pensa que é? Você se vê no direito de magoar as pessoas quando elas já estão bem!

Admita que você nunca superou isso.

Eu sempre tentei superar, isso é o que importa! – Alguns aldeões já abriam frestas de suas janelas para espiar o que acontecia na rua deserta. Comecei a chorar baixinho, limpando de forma quase desesperada toda lágrima que caía. – Você realmente me magoou, Sasuke. –Disse. dando-lhe as costas e seguindo meu rumo.

Eu só queria uma janta, só isso. Por que ele tinha que transformar tudo num caos?

Não tive tempo para pensar quando ele me puxou de volta e me abraçou. Aquilo não foi de longe um abraço digno, sua armadura era um impasse, seus braços eram a única coisa humana que faziam eusentir algo. Aos poucos, fui cedendo e o abracei de volta.

Obrigado.

Sem querer. eu havia lhe dado minha resposta quando tudo o que eu queria que ele me desse era um pedido de desculpas, mas, naquela época, eu era, e ainda sou, muito tola para manifestar com veemência minhas exigências.

No dia seguinte, ele foi no hospital se apresentar à minha mãe, que debilitada, concordou com tudo o que Sasuke lhe dissera com breves acenos de cabeça.

Não nos casamos da forma tradicional, ele me levou para sua casa no ermo Distrito Uchiha e assim nos demos por casados. Como não tínhamos família e muitos amigos, era desnecessário fazer uma cerimônia tradicional, ainda assim esse era um desejo de menina que sempre esteve presente nos meus sonhos.

Essa foi a primeira de muitas coisas que deixei de lado pelo Sasuke.

Talvez, se não tivéssemos contrariado os deuses, poderíamos viver um casamento repleto daquelas virtudes que são derramadas sobre os noivos no momento da cerimônia. Nunca irei saber como seríamos atualmente.

Notas finais
Capítulo betado por Anjo das Trevas ¹ = Ochoko é o nome dado ao pequeno copo usado para tomar saquê. ² = Tokkuri é o nome dado ao frasco bulboso de pescoço fino com o qual serve-se o saquê. . Gostaram do capítulo? Espero que sim. Vou viajar e isso pode significar uma pausa de duas semanas, ia atualizar Pilares de Areia quando chegasse, mas achei melhor deixar um capítulo de consolo. . xoxo