Pilares de Areia

26 Soon it will be over and buried with our past


Notas iniciais
Título: Em breve tudo estará acabado e enterrado com o nosso passado - Of Monsters and Mens - Little Talks . Oi pessoal, tudo bom? Essa reta final da fanfic é inspirada na novel da Sakura escrita por Tomohito Ōsaki, Sakura Hiden: Pensamentos de Amor, Montando Sobre uma Brisa de Primavera. Assim como toda a fanfic foi inspirada em Naruto, mas não contempla perfeitamente todos os fatos e personagens, com a novel será a mesma coisa. Alguns acontecimentos irão coincidir, porém em sintonia com todo o enredo de Pilares de Areia trabalhado até então! Espero que gostem! . Betado voluntariamente a amorosamente por Alice Alamo

— Você está absolutamente certa disso, certo, Sakura? — Ino sussurrou para mim enquanto esperávamos a porta da sala do Hokage abrir-se completamente.

A antiga equipe do Sasuke, Suigetsu, Karin e Juugo, estava a caminho da Central para conversar com o Naruto pessoalmente, e também com Ino e eu sobre as crianças trazidas.

Ino e eu estávamos em pé, uma ao lado da outra, aguardando formalmente a entrada deles. Eu achava desnecessário, mas Shikamaru convenceu-nos de que essa formalidade era importante para afirmar a seriedade e a imponência do Naruto, mesmo sendo um Hokage de pouca idade. Ino revirara tantos seus olhos que eu jurava que a qualquer momento ele mudariam de orbita.

— Quer dizer, não são crianças normais, são experimentos do Orochimaru — Ino continuou.

Eu não sabia se me aborrecia pelo cochicho ou se agradecia por haver algum som naquela sala já que Naruto estava concentrado em umas papeladas e Shikamaru estava logo atrás dele observando o movimento na vila pela extensa janela.

— Naruto disse que podemos confirmar nossa decisão depois de conversarmos com eles — sussurrei de volta, tentando manter minha postura mais rígida, já que Shikamaru olhava para nós duas de forma severa. — Você é mais desinibida do que eu, então ficará responsável por isso.

— O quê? — Ino exclamou.

— Algum problema? — Shikamaru aproximou-se de nós duas.

— Não, Shikamaru-san — Ino garantiu toda sarcástica. Ela entendia um pouco a estranheza de ter que agir formalmente com esses caras que eram nossos colegas de times e muitas vezes eram subordinados a nós duas. — Só estava imaginando que tipos de cortesias eu exigiria de você quando fosse visitar o meu escritório na minha clínica.

— Acredito que nunca precisarei ir à uma clínica de tratamento mental para crianças.

— Talvez precise levar um filho seu caso ele tenha o azar de herdar os seus genes — Ino retrucou.

Sem anúncios, a porta se abriu assustando nós quatro.

— Não preciso ser anunciada, o Hokage sabe que temos uma reunião agora.

Uma ruiva imponente bradava enquanto desfilava até o outro extremo da sala onde Naruto se encontrava sentado, quase engolido por pilhas de papéis acumuladas em cima da mesa.

Meu olhar migrava da ruiva para Shizune que corria atrás dela desesperada, depois da ruiva para Ino que parecia indignada, depois da ruiva para o Shikamaru que já se adiantava para contê-la e da ruiva para o Naruto que parecia um pouco amedrontado.

— Desculpe-me, Naruto-sama. — Shizune fez repetidas reverências.

Minutos depois, Ichiou surgiu na sala como um furacão, em seguida quem surgiu foi Suigetsu o perseguindo.

— Olha, Karin! Achei um pequeno sósia do seu Sasuke-kun! — provocou o magrelo erguendo meu filho no colo que se debatia como podia para voltar ao chão, foi muito rápido, eu mal tive reação imediata por simplesmente não acreditar que um estranho estava tocando no meu filho.

Quando tencionei avançar nele, Shikamaru posicionou-se na minha frente, e Ino segurou os meus braços. Naruto também levantou, mas não saiu do lugar. Percebendo que aquilo não terminaria bem, ou no mínimo tendo uma luz de bom-senso, Karin deu um forte tapa na nuca do colega de time que finalmente colocou Ichiou no chão. Ao invés dele, Ichiou, vir até mim, possesso de raiva ele começou a esmurrar e chutas as pernas de Suigetsu que apenas olhou para baixo as tentativas infrutíferas do meu filho feri-lo.

— Ichiou! Vem aqui agora — bradei e logo Ichiou desistiu de bater no idiota que havia o tocado.

— Ele realmente é parecidíssimo com o Sasuke — Karin comentou observando-o já no meu colo. — Se ele for marrento igual o pai, você não irá se preocupar tão cedo com noras — acrescentou ácida.

— Realmente não precisarei me preocupar com isso tão cedo, afinal, ele só tem cinco anos — disse sem me preocupar em soar simpática. O colega dela já havia me irritado muito.

— Pode deixá-lo comigo, Sakura. — Shizune ofereceu-se novamente para cuidar dele. — Vou leva-lo para a creche.

Coloquei Ichiou no chão, e ele saiu de mãos dadas com Shizune. Ficaram Suigetsu, Karin, Shikamaru, Naruto, Ino e eu na sala.

— Antes de ouvir os pedidos de desculpas por essa bagunça, eu gostaria de saber onde está o terceiro integrante da equipe — Naruto pronunciou-se pela primeira vez.

— Bom, antes dos pedidos de desculpas e da revelação do paradeiro do Juugo, gostaríamos de enfatizar que não somos mais uma equipe. Éramos uma equipe quando o Sasuke estava conosco, agora que estamos só, eu gostaria que se dirigisse à nós individualmente.

— Você invade a sala e ainda quer fazer exigências ao Hokage? Você acha que está onde? — Ino, que até então estava calada observando tudo, aproximou-se dela enquanto dizia essas palavras. — Eu acho que você só deve responder o que lhe foi perguntado e se desculpar pelo desacato.

— Pensei que só o Sasuke fosse chato, aparentemente é característica local — Suigetsu comentou, desnecessariamente.

— Sinto muito pela bagunça, Naruto-sama. — Karin fez uma reverência. Seu tom de voz era sarcástico, mas isso não pareceu afetas Naruto de maneira alguma.

— Essas são Ino e Sakura — Naruto nos apresentou. — Elas serão as fundadoras da clínica de saúde mental para as crianças da vila e te auxiliarão você com o tratamento das crianças usadas como cobaias do Orochimaru. Antes de tudo, eu gostaria que nos passasse algumas informações básicas sobre o que são essas crianças e a melhor maneira de tratá-las. — Naruto sentou-se novamente.

Karin levou quase uma hora para dar todas as informações possíveis sobre o que eram aquelas cobaias, como Orochimaru fazia para adquiri-las e como ele as modificava. Karin não tinha fórmulas, porém explicou os métodos de maneira básica, o que nos ajudou a entender como Orochimaru dava inícios aos seus projetos de ciência macabra com aqueles jovens órfãos.

Depois que Naruto e Shikamaru compilaram informações suficientes, eles disseram-nos que trabalharíamos juntas assim que as instalações do orfanato estivessem prontas para receber as vinte e uma crianças. Tendo resolvido esses por menores, nós quatro fomos enxotados da sala pelo Shikamaru e ficamos parados no meio do corredor nos encarando.

O tal do Suigetsu não parava de piscar e sorrir assustadoramente para Ino que devolvia um olhar de repugnância para ele. Karin parecia incomodada com aquilo, mas também a pegava vez ou outra me encarando. Assim que eu olhava para ela, ela disfarçava. Era estranho, contudo, eu poderia imaginar o que ou quem a fazia me medir daquela maneira.

— Ino e eu vamos tomar um chá. Se quiserem... — iniciei o convite, porém Ino me cortou na hora.

— Não! — exclamou. — Não vamos tomar chá agora, temos aquele compromisso na floricultura, lembra?

Eu não lembrava. Só então notei que Ino estava inventando uma desculpa para não sair com eles.

— Eu quero tomar um chá — Karin manifestou-se levantando a mão. — Vocês podem me apresentar um, eu fico lá com o Suigetsu e depois vocês vão embora — sugeriu.

Ino me olhou quase implorando com os brilhantes olhos azuis.

— Podemos sim, Karin. — Ofereci o melhor dos meus sorrisos e caminhei para a saída enquanto Ino andava ao meu lado me lançando todo tipo de maldição.

No caminho ao Mōfu Kōhī, Karin desandou a falar sobre si e a fazer perguntas para nós duas. Eu tentei responder tudo de maneira bem impessoal, já Ino, aos poucos, foi se soltando e esquecendo-se de que a ruiva era para nós uma estranha, pelo menos por enquanto. Chegando a cafeteria, logo aqueles olhos revirados e suspiros nada discretos viraram sorrisos e risadas.

O tal Suigetsu era mesmo um mala e tempo de convivência não mudava esse fato. Ele nem chegara a entrar na cafeteria, foi direto para um bar, e devo confessar que me senti aliviada, não aguentava mais os comentários inconvenientes e constantes.

Dentro da Mōfu Kōhī, todo aquele assunto emergente parecia ter desaparecido, o clima ficou estranho e só conseguíamos encarar nossas próprias mãos em cima da mesa. Choko serviu nossas bebidas, para mim um chá verde, para Ino um cappuccino cheio de creme e Karin preferiu beber apenas um café. Ela foi a primeira a puxar assunto:

— Então você conseguiu fisgar o Sasuke. — Bebericou da xícara após a afirmação. Ino encarou-me um pouco desconcertada, talvez não tanto quanto eu. — Merece meus sinceros parabéns. — Bateu as palmas quatro vezes e voltou a beber. — Sei que isso não tem a ver comigo, nem é pertinente uma pergunta dessa nesse horário. — Olhou para parede. — Uma hora da tarde. Não importa. Diga-me: ele é tão grosso na cama como é fora dela? — Meu espanto deve ter ficado bem óbvio nas minhas expressões porque imediatamente ela se desculpou. — Vocês são mulheres, são amigas, não são? Não conversam essas coisas? Não é isso que amigas fazem?

— Somos amigas, porém deixamos coisas íntimas no nosso íntimo — respondi.

— E geralmente quando amigas fazem isso elas têm mais intimidade do que... do que algumas horas com intervalos bem estranhos de silêncio e sarcasmo — Ino completou dando um longo gole no seu cappuccino.

— Isso é decepcionante. Sempre imaginei que amigas pudessem falar tudo uma para as outras.

Ino fitou-me rapidamente até voltar o olhar para a ruiva ao seu lado.

— Você não tem amigas?

Karin negou.

— Não tenho estabilidade nenhuma para isso.

— Talvez, durante sua estadia em Konoha, você possa criar amizades para a vida — Ino imaginou.

— Não acho que dê tempo. — Bebeu o restante do seu café. — Não quero estar aqui quando o Sasuke voltar.

Foi a minha vez de encarar Ino em um pedido de socorro. Queria muito saber qual era o tipo de envolvimento que ela teve com o Sasuke no passado, mas não queria fazer isso de forma direta.

— Qual o problema? Seria nostálgico para ele.

— Talvez. Mas não seria bom para mim.

Ino e eu optamos por não falar nada a este respeito. Nossas mentes não estavam conectadas, porém bolávamos uma maneira de afastar o Sasuke da conversa e tentar focar no projeto que era de fato o nosso trabalho.

— Por que não me falam do projeto de vocês? Achei bem filantrópico.

Karin parecia ter lido nossas mentes, ela mesmo trouxe outro assunto à tona, um de que eu e Ino adorávamos falar: o fruto da nossa genialidade e empreendedorismo.

Após fazermos um resumo de tudo, Karin parabenizou-nos e, ao mesmo tempo, deixou-nos preocupadas. Ela realmente não pretendia ficar muito e dependíamos da experiência dela com Orochimaru e suas cobaias para sabermos como lidar com aqueles pacientes.

— É importante que nos ajude porque recuperar esses jovens é um teste para decidir se nosso projeto será ou não aprovado. O Conselho colocou isso como condição — expliquei.

— Se não soubermos lidar com aquelas “coisas”, não teremos como iniciar um tratamento.

— De qualquer forma, os resultados aparecem a médio e longo prazo, meninas. Tendo minhas instruções ou não, um tempo recorde para provar que esse projeto funcionaria não vai acontecer.

— É injusto eles proporem isso para nós. — Ino olhou para mim claramente preocupada. — Nosso projeto contempla crianças em outro tipo de situação.

— Não, são crianças no sentido amplo, geral. Se há um foco, este é em crianças órfãs, vítimas de abusos, torturas, guerras e todo e qualquer horror que possa ter mexido com suas mentes. Essas crianças trazidas dos esconderijos se enquadram no nosso perfil de tratamento — expliquei.

— Mas o nível de dificuldade que nos submeteram para servir de avaliação não é justo.

— Talvez não, porém são as circunstâncias. — Olhei para Karin. — Eu espero realmente que mude de ideia quanto à sua estadia em Konoha. Irá nos ajudar bastante e será bem recompensada.

Karin não disse nada, parecia pensativa. Sorriu levemente, como se quisesse apenas confirmar que me ouvia, contudo, não respondeu nada e não falou até irmos embora da cafeteria. Ela não disfarçava, e eu não me fingia de boba: Karin ainda tinha aqueles sentimentos pelo Sasuke, e a iminente aparição dele poderia desestabilizá-la.

Eu decidi não a culpar, não a julgar, não me sentir enciumada ou ameaçada de alguma forma, não havia motivo, afinal. Embora tivesse uma personalidade forte e impertinente, ela não foi de todo ruim comigo e com Ino, estava sendo bem prestativa com aquelas cobaias. Como responsável pelos laboratórios do Orochimaru no passado, ela devia ter criado algum senso de justiça, de empatia ou até mesmo amor por aqueles indivíduos tão usados.

Talvez nos déssemos bem. Precisávamos tentar.

.o0o.

Alguns dias depois, no Mōfu Kōhī, encontrei-me com o Naruto. Ele apareceu do nado no meio das minhas aulas e dispensou os alunos, disse que o assunto comigo era de extrema importância e que precisava falar comigo urgentemente. Meu coração virou um motor de barco, minhas mãos gelaram, minhas pernas pareciam gelatinas enquanto seguiam em direção a cafeteria. Na minha mente, um nome pulsava, e eu me sentia sufocada só de imaginar o que poderia ter acontecido com ele.

— É o Sasuke, não é? — indaguei aflita. Sequer fiz um pedido, só queria que Naruto me dissesse logo o que havia de me dizer de tão importante e tão imediato.

— Não, eu só queria conversar com você porque estou me sentindo muito sozinho. — Fez um bico e começou a mexer a colher na sua bebida.

Eu quis muito espancá-lo, lutei contra o desejo de fazer isso, mas só relaxei e xinguei-o algumas vezes por ter-me assuntado. Choko estava quase desmaiando no balcão por ter o Hokage dentro da sua humilde cafeteria.

— Eu quero ver Hinata novamente.

— Impossível — respondi logo de cara.

— Não é! Conseguimos uma vez, então conseguimos outra! Eu já tenho tudo planejado...

— Naruto, você é Hokage dessa vila. Manda em tudo aqui. — Eu gesticulava exageradamente. — Lutou com os maiores ninjas da história e está com medo de encarar um mero mortal!

— Ele não é um mero mortal! Hiashi é descendente direto dos primeiros Hyuga que já existiram.

— E você tem medo dele.

— Eu não tenho medo dele. Não é medo, é respeito.

— Você não estaria faltando com respeito se apenas dissesse a ele “Amo muito sua filha e quero me casar com ela mais do que o noivo estúpido que você arranjou!”. Simples. — Fiz o meu pedido porque já imaginava que Naruto fosse demorar.

— Eu... Eu não vejo a hora de estar com ela. — Seu tom de voz era triste, seu olhar perdido, mas havia um sorriso esperançoso em seu rosto. — Hanabi mostrou-se uma ótima aliada. Se ela convencer o pai a deixar somente ela escoltar Hinata, já irá facilitar nossos encontros...

— Naruto, escuta: se você quer um conselho, o meu conselho é “não”. Espere o noivo dela voltar, faça como combinaram. Se tudo der errado, eu dou a minha palavra que luto ao seu lado por ela. Literalmente. Eu derrubo aquele Distrito Hyuga inteiro — garanti-lhe. — Só não se precipite, não seja tão impulsivo... Pode acabar estragando as coisas.

— Você tem razão — concluiu. O sorriso não estava mais ali. — Queria te dizer também que os kages estão a caminho de Konoha.

— O quê? Para quê? — indaguei, surpresa.

— Assim que souberam dessas atividades do Orochimaru, ficaram desconfiados e querem conferir com os próprios olhos essas cobaias e se podem colocar em risco as aldeias da Aliança.

— Cada um tem uma particularidade, porém a maioria não se desenvolveu completamente. Esses que sobreviveram estavam nos tanques, alguns provavelmente nunca saíram deles. Karin disse que Orochimaru estimula os jovens a descobrirem como evoluírem suas habilidades, pois, embora sejam capazes de fazerem isso por si só, eles não fazem.

— Você consegue me entregar um relatório bem conclusivo sobre o que tem trabalhado nos últimos dias com Ino e Karin?

— “Bem conclusivo” quer dizer “respostas para todas as suas dúvidas e as dos kages”?

— Pode ser isso — respondeu depois de ponderar uns segundos.

— Naruto, eu ainda não tenho nada, eu...

— Você ainda terá um tempinho a mais. O Raikage e a Mizukage demorarão uns dias para chegar aqui.

— Céus... — lamentei comigo mesma.

— Esqueça um pouco o relatório e pense na festa de recepção que haverá. — Naruto bateu as palmas. — Estou bolando um jeito de Hinata aparecer por lá...

— Eu não vou te ajudar com a Hinata, sem chances.

Naruto deu os ombros.

— Ajude-me com o relatório. Vou tentar entrar em contato com a Hanabi para ver se ela me ajuda.

— Você é louco.

Naruto inclinou-se na mesa e me encarou bem de perto.

— O que você faria para ver o Sasuke agora? — perguntou num sussurro.

— Eu... Eu não... — gaguejei, afinal, a pergunta me pegou de surpresa.

— Eu faria uma loucura — respondeu cheio de confiança.

— Mais uma.

— Mais uma e uma centena — enfatizou. — Espero que o Sasuke chegue a tempo da festa.

— Eu também — respondi sem me recriminar. Naruto percebeu, e seu sorriso abriu-se mais ainda.

Não era segredo que, apesar de todos os nossos desentendimentos, eu amava o Sasuke e o queria logo perto de mim, não importava o quanto eu tentava afundar esse sentimento no meu peito para que ninguém percebesse. Eu sentia falta e todos os dias contava com a sua volta, todos os dias me frustrava e me culpava por não ter dado o beijo de despedida que ele me pediu. Eu deveria ter dado, deveria ter respondido que ainda o amava...

Ele teve que ir para longe de mim para meu orgulho se desmanchar como um castelo de baralho.

.o0o.

Um dia antes da festa

— Sakura, eu já vou embora. — Ino recolhia suas coisas e organizava seus papéis em pastas. — Vai ficar aí?

— Só mais um pouco — respondi concentrada nas lâminas de exames realizados no grupo C de jovens.

Por terem vinte e um, decidimos dividi-los em grupo de três a partir de características semelhantes para estudarmos essas particularidades em comum de maneira mais organizada e rápida. Karin cuidou no grupo A que era o mais complexo para Ino e eu, mas não para ela; Ino ficou com o B, e eu, com o C.

Eu já havia feito rascunhos dos relatórios, porém julgava insuficientes para apresentar aos kages e também ao Conselho que avaliaria nosso trabalho.

Embora eu tivesse imaginado que Karin e eu não fôssemos nos dar bem trabalhando juntas, felizmente tudo ocorreu diferente. Talvez graças à minha boa vontade de entendê-la e conviver com ela para o crescimento do meu projeto com a Ino, talvez porque, em diversos pontos, fôssemos muito parecidas.

Karin estava realmente dando duro nas pesquisas, realmente esforçando-se, assim como eu, puxava duas, três, quatro horas a mais. Não era difícil encontrá-la caindo de sono na escrivaninha ou pernoitando no orfanato. Ela havia conquistado a confiança total dos vinte e um órfãos (ainda não nomeados) e isso lhe ajudou a estudá-los de maneira menos imparcial.

Ino e eu conseguimos uma parcela dessa confiança que ela adquiriu e, assim, pudemos dispensar dois terços da equipe de jonnins que ficava no orfanato de segurança caso eles se rebelassem. Parecia pouco, mas já era uma grande conquista. As crianças já não representavam uma ameaça e não se sentiam tão acuadas.

Fazíamos de tudo para que todos se sentissem parte de um programa que os beneficiariam. Era difícil conseguir isso com todos eles, afinal, o que diferenciava os estudos praticados pelo Orochimaru e por nós era uma linha muito tênue. Eles deixaram de ser cobaias no cativeiro do Orochimaru para serem cobaias aqui, no orfanato de Konoha, porém tentávamos tratá-los com muito carinho e empatia, como os humanos, como as crianças que eram. A cada dia, víamos uma evolução nesse quesito, contudo, como eu disse anteriormente, devíamos esses avanços à Karin. Sem ela, o trabalho que Ino e eu estávamos desenvolvendo seria muito mais árduo e demorado.

— Ontem você chegou muito tarde. Ichiou não aguentou te esperar. — Ino trouxe-me de volta à realidade. Ela já estava pronta para ir, escorada no batente da porta com a bolsa pendurada no ombro.

— Eu sinto muito, Ino — pedi sinceramente para ela.

— Não tem que pedir desculpas para mim. Eu já falei para você que é um prazer cuidar do Ichiou, contudo, eu fico com muita pena dele. Ele já passa a semana toda na creche, agora a noite toda comigo ou com a Shizune.

Realmente. Nos últimos dias, Ichiou passava mais tempo com minhas amigas do que comigo. Se Sasuke estivesse na vila, com certeza estaria em guerra comigo por isso, afinal, era tudo o que ele previa: eu começar a trabalhar incansavelmente e deixar nosso filho mais tempo com outras pessoas do que com os próprios pais.

— Entendo que temos um prazo, entretanto, podemos entregar somente o que está ao nosso alcance.

Encarei minhas mãos por um tempo ponderando o quão negligente eu estava sendo. Estava descontrolada exatamente como quando finalizava o projeto da clínica infantil para o Naruto. Aquilo não era saudável para mim, para minha família nem para os meus amigos.

— Toma. — Ino jogou um envelope em cima da minha escrivaninha.

— O que é isso? — Apanhei o papel com estranhamento.

— Karin e eu fizemos o relatório a partir dos seus rascunhos.

— Como assim? — Olhei para ela inconformada. — Eu ia terminar tudo hoje e...

— Você já fez demais. Karin e eu já tínhamos terminado as análises com os nossos grupos e adiantamos o seu. Está tudo compilado aí. Provavelmente, você e seu perfeccionismo somado à obsessão por eficiência vão encontrar maneiras de melhorar, porém temos que convencer a Karin a aparecer amanhã na festa e usar uma roupa formal.

— O quê? Ela disse que não vai? — Ino negou com a cabeça. — Ela nos ajudou com tudo isso... Ela precisa ir com a gente.

— Ela está com aquele complexo “não sou da vila, já conspirei contra Konoha, não tenho amigos, não farei falta”. — Ino revirou os olhos. — Talvez se você conversar com ela, ela mude de ideia.

— Sim, eu vou fazer o possível para ela ir.

— Por favor. A primeira impressão dela não foi legal, só que agora não posso negar que gosto dela. — Rimos juntas. — Ela é geniosa e teimosa igual a você. E também tem aquele seu antigo hábito de autodepreciação.

— Antigo mesmo, foi justo você enfatizar.

— Vou esperar você no Mōfu Kōhī — Ino despediu-se e partiu.

Fiquei alguns minutos encarando o relatório pronto para o dia seguinte e pensando em todas as coisas que Ino me disse. Parece que só ela fazia eu perceber o que não conseguia enxergar sozinha. Também pensei sobre Karin e o quão prestativa ela estava sendo.

Eu me lembrava dos sentimentos dela pelo Sasuke, provavelmente ainda existiam, e eu desconfiava disso pela forma como ela reagia ao nome dele ou como encarava o Ichiou, com um sorriso triste e um olhar vago. Normalmente, eu evitava falar sobre o Sasuke com a Karin por perto, eu só me sentia mais motivada a fazer isso. Em respeito a ela e aos seus sentimentos, era o mínimo que poderia fazer.

Fui em sua sala e consegui convencê-la a sair comigo. Fomos em silêncio ao Mōfu Kōhī, de lá pegamos o Ichiou que estava na creche e, em seguida, fomos comprar nossos trajes para a noite do dia seguinte.

— Eu só estou acompanhando vocês. Sério. Não vou comprar nada — Karin nos informou assim que pisou os pés na loja de vestidos de festa.

— Para de ser chata, Karin! Todas as garotas de Konoha devem estar se descabelando por um convite para essa festa com os kages. Aproveita essa oportunidade única. — Ino já explorava os equipamentos de mostruário, já enchendo a mão de cabides.

— Verdade. Tem muito tempo que não vejo os kages reunidos em Konoha — reforcei o argumento da Ino.

— Vocês não devem se lembrar que eu invadi a reunião deles anos atrás. Eles devem querer minha morte.

— Não mais do que a morte do Sasuke, te garanto — comentei rindo, mas um pouco envergonhada. — O Raikage odeia ele. Demorou muito tempo para o Kakashi e o Naruto o convencerem de que o Sasuke se arrependeu e havia mudado.

— Não julgo o Raikage. Ainda não estou convencida de que Sasuke arrependeu-se e mudou totalmente. — Encarei Ino com um olhar de ódio. — Desculpa, é só minha opinião — defendeu-se com um riso contido.

— O Sasuke realmente mudou? — Karin perguntou-me.

Ino e eu nos entreolhamos rapidamente. Ino já havia dado sua resposta, eu ainda guardava a minha.

— Ele com certeza se arrepende de muitas coisas do seu passado, porém continua sendo o mesmo Sasuke que conheci na minha infância, e eu não acho isso de todo ruim.

— Então por que se separou dele? — Ino indagou-me. — Você costuma dizer outra coisa para mim.

— Ino! Vamos mudar de assunto? — pedi, tentando me concentrar nos vestidos expostos.

— Não fui eu quem comecei — reclamou.

— Desculpa. Eu não sabia que não estavam juntos — Karin começou. — Quer dizer, vocês têm um filho... Eu pensei que tivessem se casado.

— Não precisa se desculpar, você não tinha como saber isso. Eu nunca falei.

— Eu já estou impressionada que você não tenha percebido — Ino admitiu. — A Sakura quase nunca fala dele, mora só com o Ichiou numa hospedaria e não usa aliança de compromisso.

— Nunca tive aliança de compromisso — exclamei.

— Ele era grosso com você? — Karin indagou, logo em seguida deixando claro que, se eu não quisesse falar sobre o assunto, ela entenderia.

Ponderei um pouco, porém logo respondi. Não era segredo, eu só evitava porque achava que de alguma forma ela ainda poderia nutrir sentimentos pelo o Sasuke e poderia se magoar ouvindo sobre a relação que ele tem (tinha) com outra mulher.

— Nos separamos por causa de uma série de coisas... Ele, como pai, é espetacular. Meu pai nunca agiu comigo como o Sasuke age com o Ichiou. A atenção, o cuidado, a preocupação, o prazer dele ficar junto do Ichiou é algo inspirador. Nisso ele é excelente. Porém nós dois tínhamos muitos problemas. Nós cometemos muitos erros e...

— Resumindo: — Ino tomou minha palavra. — Sasuke era bem frio com a Sakura, e ela era bem submissa a ele. Ela não reclamava, ele não se tocava. Ela foi se cansando, aconteceu um mal-entendido, eles se separaram, a verdade veio à tona, mas a Sakura já não estava mais nem aí. Desde então, o Sasuke vive implorando para tê-la de volta, e ela usa seu charme e poder sobre ele exclusivamente para rejeitá-lo e alimentar-se do seu sofrimento. Sim, é complicado. Esqueci alguma coisa? — Ino me encarou cinicamente.

Eu só consegui rir com a Karin e tentar convencê-la de que não havia sido bem assim, mesmo sabendo que fora exatamente aquilo, mas, ao notar que era inútil e que a palavra de Ino tinha mais força do que os meus gaguejos, decidimos nos concentrar somente nas compras.

Após algumas chantagens, Ino e eu conseguimos convencer a Karin a ir e a presenteamos com um vestido longo verde-escuro. O modelo era com mangas longas, decote canoa e ficava justo no seu corpo até a coxa, a partir de onde o tecido ficava mais solto e abria-se num discreto rodado. Era bem mais bonito do que o vestido que Ino e eu escolhemos para nós mesmas, porém queríamos que Karin se valorizasse mais e brilhasse na noite seguinte, aproveitasse melhor sua estadia na vila.

Ino escolheu um vestido nude com estampas de flores cor-de-rosa. O modelo também tinha mangas longas e estendia-se até os seus pés. Era outono, então as noites estavam muito frias para exibir as pernas e os braços. Eu preferi um vestido com listras horizontais pretas e brancas; seu comprimento ia até abaixo do meu joelho, era justo, mas não tanto quanto o das meninas, e tinha mangas três quartos. Eu usaria por cima um casaco que tinha em casa. Não queria nada muito formal nem apertado, afinal, eu tinha uma criança de cinco anos para cuidar a noite toda. Com certeza, Ichiou ficaria pulando por toda festa até se cansar (o que era difícil de acontecer).

Combinamos de nos arrumarmos na casa da Ino, afinal, ela tinha tudo no seu quarto para fazer uma transformação. Eu não entendia porque ela ainda gastava dinheiro com salão de beleza já que tinha o dom de transformar um dragão em uma princesa. Depois de todas estarmos prontas, preparamo-nos para a missão impossível de arrumar o Ichiou. Um tempo atrás era mais fácil, agora ele se recusava a ficar dentro de um smoking ou que alguém tocasse no seu cabelo para fazer algo além de um afago.

Ino e Karin o imobilizaram e tentaram distraí-lo para eu conseguir passar gel no seu cabelo e fazer um penteado diferente. As caras e bocas que Ichiou fazia eram provavelmente as mesmas que Sasuke faria se visse o filho todo engomadinho com os cabelos penteados para trás.

Finalmente prontas, fomos para festa. Chegamos uma hora depois do horário sugerido no convite, o que foi muito bom, já que muitos convidados já estavam alocados, e a festa parecia começar. Era horrível a sensação de ser a primeira pessoa a chegar no local. Nós três fomos guiadas até uma mesa redonda de oito lugares. Estava reservada, e ficamos ponderando quem seria que se juntaria a nós, afinal, sobrava quatro lugares.

Não demorou muito para o Ichiou sentir-se à vontade com outras crianças presentes no local e começar a correr enlouquecido pelo salão. Assim começava a minha noite. Vez ou outra, eu olhava para a mesa onde Ino e Karin estavam. Sempre que eu fazia isso, havia um homem, civil ou militar, conversando com Ino e Karin. Alguns até sentavam-se, mas ficavam por pouco tempo.

Quando Ichiou sossegou em um canto com dois outros garotinhos, permiti-me voltar para a mesa e comer algum dos aperitivos servidos, eu estava faminta desde que saíra da casa da Ino. Chegando lá, Ino dispensava mais um homem, o que me deixou bem curiosa.

— Suponho que este não seja o primeiro — comentei, sentando-me e vigiando Ichiou de longe.

— Espero que não seja o último. — Ino suspirou, apoiando o queixo em uma das mãos.

— Qual o problema em dançar com ele? Parece ser um cara legal — comentei, observando o homem encarar Ino a uma certa distância.

— Eu não sei... Eu estou com a sensação de que algo muito grande irá acontecer essa noite. Não tive essa emoção quando ele se aproximou de mim.

— Acho que o grande ápice da noite será nossa conversa com os kages — disse a ela que suspirou antes mesmo de eu terminar de falar.

— Sakura, esse será o ponto alto da noite para você que não está à procura do homem da sua vida, só almeja ascensão profissional. Quero sair dessa festa com o homem da minha vida engatilhado.

Não pude deixar de ficar surpresa com a declaração de Ino. Primeiro porque eu não almejava somente ascensão profissional, a oportunidade de colaborar com as investigações das cobaias do Orochimaru e a fundação da primeira clínica mental para crianças era, sem dúvida, grandiosa para a nossa carreira como kunoichi e médicas. Não beneficiaria somente a mim. E segundo porque eu estaria disposta a dançar com qualquer pessoa que me convidasse, porém sabia que as chances disso acontecer seriam difíceis comigo correndo pelo salão atrás do Ichiou.

Resolvi deixar o comentário magoado de Ino passar.

— E você, Karin? — Ela deu os ombros. — Nenhum faz o seu tipo?

— Não sei dançar. — Fez um bico entediada.

— Como vocês estão desanimadas — exclamei, levantando-me de supetão e encarando as duas. — Não passamos horas escolhendo vestido, sapato e nos arrumando para ficarmos sentadas a noite toda. Pelo menos não vocês. Vamos agora para pista. Vamos! Levantem! — Comecei a bater palmas para instigá-las a saírem daí.

— Para de ser louca, Sakura! Tá parecendo eu — Ino sussurrou olhando para os lados.

— Se não ir para a pista agora dançar comigo, eu vou passar as próximas semanas marcando encontro às cegas para você com todos esses caras que você rejeitou.

Logo ela se levantou arrastando Karin consigo.

A música era animada o suficiente para dançarmos, diferente do repertório de recepção dos convidados. Alguns casais já arriscavam uns passos, algumas jovens também dançavam umas com a outras. Ino, Karin e eu devíamos ser no mínimo dez anos mais velhas que elas, porém agíamos da mesma forma. Meu pensamento devia ser o mesmo que elas já que também miravam o grupo de meninas de treze, quatorze anos no máximo, dançando umas com as outras e riam.

— Isso é mais deprimente do que ficar sentada a noite toda — Karin comentou olhando para os lados.

— Assim todos podem ver o vestido de vocês por completo, pensem dessa forma.

— É, pensar assim é melhor — Ino concordou depois de ponderar uns segundos.

— Quem é ela? — Karin perguntou, apontando discretamente para a entrada. Ino e eu nos viramos para verificar.

— Hinata — Ino respondeu com um sorriso de orelha a orelha. — Isso vai ser demais — disse animada enquanto caminhava em direção a Hyuga que entrou acompanhada da irmã, Hanabi, e de seis outros Hyuga fardados.

A animação de Ino contrastava com a minha preocupação. Eu não sabia se era uma boa ideia colocar Hinata e Naruto no mesmo ambiente, especialmente numa festa onde os kages estariam presentes.

— Quem é essa? — Karin tornou perguntar.

— Hinata Hyuga — expliquei, tomando suas mãos para tornarmos a dançar. Eu queria ignorar a Ino por um tempo. — Ela será a princesa do Clã Hyuga.

— Ela tem um chakra leve... — comentou. Depois olhou para mim e pareceu perceber minha confusão. — Eu consigo sentir o chakra das pessoas e sua áurea — explicou simplesmente. — O dela parece de uma criança. — Voltou a fitá-la daquela distância.

— O Naruto é apaixonado por ela.

— Sério? — Karin pareceu desacreditada, mas de uma boa forma. — Ele tem um chakra forte, vibrante. Lembro-me da primeira vez que o senti. Nunca esqueci o calor que ele emanava. É quase certo que Hinata e ele formarão um ótimo casal.

— Se permitirem, formarão, sim.

— Por que “se permitirem”?

— Oh, esqueci novamente que você não sabe de tudo aqui em Konoha. Digamos que Naruto e Hinata é outra novela, bem mais complicada do que o Sasuke e eu.

— Sua novela com o Sasuke parece bem mais simples — comentou com um sorriso travesso antes de me rodopiar.

— Vamos voltar para o assunto Hinata — sugeri, rodopiando-a dessa vez. — O pai quer que ela se case com um dos membros do próprio clã, não a quer com o Naruto, mesmo eles se amando. A confusão foi tão grande que quase todos os Hyuga abandonaram profissões públicas vinculadas com a vila, alguns poucos militares, principalmente da anbu, permaneceram. O noivo dela é do esquadrão do Sasuke, assim que retornar, Naruto tentará novamente convencer Hiashi Hyuga a entregar sua filha a ele.

— Que pai idiota — Karin exclamou. — Quem não quer ter uma filha casada com o Hokage?

— Também não entendo. — Ri da espontaneidade dela. — E não é só pelo posto do Naruto. Eles se amam, só esse pequeno fato deveria ser o bastante para que eles estivessem juntos.

De repente, outro susto. Ichiou passou correndo no meio de nós duas em direção à saída. Por reflexo, acabei correndo atrás dele, só então percebi que o Naruto havia chegado. Mal olhei para ele, já virei a cabeça para a Hinata e não me surpreendi quando percebi que várias pessoas haviam feito o mesmo. Naruto inspecionou todo o salão com um sorriso aberto no rosto, tentou disfarçar ao olhar na direção da Hinata, cercada de Hyugas, mas até quem não o conhecia tão bem quanto eu soube que, de alguma maneira, a presença dela o atingiu.

Logo Ichiou alcanço-o e pulou em seus braços. Tive que correr para alcançá-lo.

— Desculpe, Naruto. Eu não consigo conter a energia desse menino. — Estendi os braços para pegar Ichiou do colo dele, mas ele se recusava.

— Não! Eu quero ficar com o tio. — Agarrou-se mais ainda na capa do Naruto.

— Deixe-o comigo. Logo ele ficará entediado com os assuntos de adulto, não é? — Apertou o nariz do pequeno.

— Me dá o chapéu? — Ichiou pediu.

— Depois me devolve, beleza?

Ichiou assentiu. Espontaneamente, saiu do colo do Naruto e voltou a correr pelo salão com o chapéu de Hokage na cabeça.

— Ele não para de correr um minuto. — Suspirei. Logo percebi que atrás de mim já formava um grupo de pessoas, provavelmente a fim de cumprimentar o Naruto. Muitas vezes eu esquecia que ele era um tipo de astro em Konoha em outras dezenas de aldeias. — Depois conversamos, não quero tomar o seu tempo. — Eu ia me afastar, mas ele me segurou e sussurrou no meu ouvido:

— Sabe o que Hinata veio fazer aqui?

— Pensei que isso fosse ideia sua — sussurrei de volta.

— Não. — Ele me olhou sério. — Será que ela tem algum plano, e eu não estou sabendo?

— Provável.

— Descubra para mim. — Deu um tapinha no meu ombro e saiu em direção ao grupo que já se amontoava atrás de mim.

Não deu nem tempo de negar aquilo que parecia um pedido, porém feito em tom de ordem. Eu queria matar o Naruto e sua mania de escalar favores inegáveis a mim.

Logo Karin alcançou-me, e Ino juntou-se a mim logo depois.

— Só vim saber o que o Naruto cochichou no seu ouvido — Ino confessou assim que chegou mais perto. — Meu instinto diz que tem a ver com a Hinata e só de imaginar eu me sinto excitada. — Bateu palminhas.

— Ele não sabe o que Hinata está fazendo aqui — disse baixinho para as duas. — Sua intuição prevê algo bom?

— Minha intuição só prevê que o amor da minha vida está nessa festa — respondeu a retórica com um bico.

— Logo os kages devem chegar, é bom estarmos à mesa — Karin lembrou-nos.

Voltamos para a mesa que já estava sendo servida pela quinta rodada de aperitivos. Ichiou finalmente parecia ter se cansado, estava debruçado no chão com mais alguns garotos brincando com peças de encaixe (que eu não fazia ideia onde ele tinha arranjado). Essa calmaria por parte dele permitiu que eu aproveitasse melhor a festa e pudesse prestar mais atenção nos convidados e nos detalhes.

— Podemos nos juntas a vocês? — Hanabi perguntou num tom tão imponente que, se eu não a conhecesse, poderia jurar que, se dissesse não, ela me atacaria.

— Claro. — Puxei a cadeira vazia ao meu lado.

Hinata sentou-se nessa, e Hanabi, ao seu lado.

— Podem passear, comer, paquerar umas virgens. Estamos com as nossas amigas. — Hesitante, os Hyuga afastaram-se da mesa, porém não pareciam dispostos a se enturmarem, ou o contrário, ninguém no salão estava disposto a se enturmar com eles, o que eu achava ótimo.

— São os mesmos do dia da consulta fake? — Ino indagou. — É que são todos tão iguais que eu jamais saberia se fossem outros.

Hinata riu discretamente, mas Hanabi pareceu um tanto ofendida, por isso nem respondeu.

— O plano é o seguinte — começou. Karin imediatamente virou-se para mim com um pedido de socorro nos olhos. — O Naruto deixará um bunshin na festa e o verdadeiro dele ficará em uma das cabines do banheiro feminino.

— E se os Hyuga usarem o Byakugan? — Ino perguntou.

— Briguem com ele, ora. “Seus pervertidos! Por que estão olhando em direção ao banheiro feminino? Tarados!”, envergonhe-os.

A mente da Hanabi precisava ser estudada. Muito estudada.

— Hanabi, tenho que confessar que detesto admitir, porém seu plano pode funcionar muito bem — disse a ela.

— Vocês não pensariam em nada melhor, então não tirem sarro do meu plano. — Cruzou os braços.

— Ino e Karin são mais ousadas do que eu, deixe com elas o papel de humilhar seus parentes, se necessário — sugeri.

— E você, princesa? Não faz nada? — Ino virou-se para mim.

— Estou em outra missão. — Apontei para o Ichiou.

— Sua missão é passar a nossa missão para o Hokage — Hanabi disse olhando para mim. — Você é a que mais tem intimidade com ele.

— É, Sakura. Até eu vou fazer algo, seria injusto você ficar de fora. — Karin piscou para mim. Que falsa, depois que eu a ensinei a dançar!

— Hanabi, como eu vou fazer isso? Ele está cercado de gente. — Apontei.

— Aposto o que você quiser que ele vai deixar todos esperando só para ouvir o que você tem a dizer — Hanabi garantiu, cheia de confiança. Eu sabia que era verdade, mas não queria de jeito nenhum me envolver naquilo.

— Vocês não vão me deixar em paz mesmo... Eu topo.

As meninas fizeram uma discreta comemoração, e Hinata sussurrou um agradecimento para mim enquanto afagava minha mão. O olhar de gratidão dela era impagável, fazia valer a pena aquela loucura.

Quando eu estava pronta para abordar Naruto, as cabeças viraram todas para a entrada. Eu, claro, virei a minha também. Os kages entravam acompanhados de seus Conselheiros e familiares. Os primeiros foram o Mizukage e o Raikage, o primeiro com um sorriso e deslumbramento no rosto, o segundo, um tanto emburrado. Todos prontamente ficaram de pé e deram passagem para eles seguirem em direção à mesa no extremo do salão onde Naruto conversava distraidamente com um grupo de pessoas, parecia não ter se dado conta da chegada dos “colegas de ofício”.

Algum tempo depois, a Tsuchikage entrou acompanhada do Kazekage, Gaara.

— Eu não lembrava do Gaara ser assim tão...

Fitei Ino com interesse, Karin também me olhou cumplice e se juntou a mim na inspeção das reações da Ino.

— Só tenho lembranças do quão assustador ele pode ser — Hinata comentou após um calafrio.

Ino nem piscava.

Os kages e seus acompanhantes sentaram-se na grande mesa ao lado do Naruto, e o grupo de pessoas que o cercava logo se dissipou. A porta do salão foi fechada, e o jantar foi servido a todos.

Ichiou veio até mim por livre e espontânea vontade, exausto de tanto pular, correr e brincar. Veio arrastando o chapéu do Naruto, alegando estar com fome. Enquanto eu dividia o meu prato com o menino sonolento, Hanabi me deu uma ideia:

— Você pode ir até o Naruto para devolver o chapéu e aproveitar para falar com ele.

— E interromper o jantar deles? — indaguei.

— Eu não aconselho. Fiz isso uma vez e fiquei procurada no mundo todo — Karin lembrou-nos enchendo a boca de comida.

— O que acha, Ino? — Hanabi perguntou a Ino, que não parava de olhar para o local onde o Gaara estava sentado.

— Oi? — Ela nem pôde disfarçar o quão absorta estava.

— Aproveita e informa o Kazekage sobre o profundo interesse da Yamanaka — Hanabi alfinetou e, em seguida, levantou-se. — Vamos, Hinata. Eu te acompanho ao banheiro. Nem parece que é minha irmã mais velha — disse alto e teatralmente para quem estivesse próximo pudesse ouvir. Hinata levantou-se assustada e seguiu a irmã mais nova até o outro extremo do salão.

— Você tem que ir agora — Karin alarmou-se. — Se der errado, aquela garota vai acabar com você.

Seria uma luta interessante, mas eu ganharia e tinha certeza disso. Quase fiquei para provar da possibilidade, porém saí da cadeira com o Ichiou no colo e o chapéu na mão. De fato, Naruto não me ignoraria. Ele quem tinha feito o pedido para mim.

Cheguei perto da mesa, porém alguns jonnin quiseram me barrar. Tive que passar o vexame de chamar pelo Naruto, chamando não só a atenção dele como de todos da mesa. Como esperado, ele deixou eu me aproximar. Fui direto para o lado dele.

— Boa noite — cumprimentei todos de maneira impessoal e logo voltei-me para o Naruto. Ichiou estava do lado direito do meu ombro, bloqueava a visão das outras pessoas dos meus lábios, somente Naruto poderia entender. — Vim devolver o chapéu que Ichiou pegou de você. — Entreguei-lhe.

— Poderia ter deixado para depois, Sakura-chan — disse todo carismático para os outros kage que não estavam usando os seus chapéis.

— Descobri — sussurrei.

— Ahm? — “Hinata”, falei sem emitir som. — Oh. Bom, eu estou...

— Deixe um bunshin aqui e vá até o banheiro feminino em um henge. Ela estará na última cabine e só vai esperá-lo por vinte minutos.

O semblante do Naruto ficou sério, pensativo. Antes de me dizer algo, ele olhou para todos à mesa e anunciou:

— Peço desculpas. Vou acompanhá-la até a saída e já retorno, mas, por favor, continuem o jantar. — Naruto levantou-se.

— Eu posso acompanhá-la, Naruto-sama — Shikamaru ofereceu-se.

— Venha comigo, então.

Naruto não abriu mão de me acompanhar.

— Tínhamos tanto a conversar... Precisa ir embora agora? — A Tsuchikage indagou.

— Ela só vai levar o pequeno Uchiha para dormir — Naruto respondeu por mim. Só pude sorrir em afirmativa.

Saímos rapidamente dali, Naruto, Shikamaru e eu. Definitivamente, não queria sair da festa, só que aparentemente minha vontade ali não importava. Tudo por um encontro secreto entre os amantes.

— A Shizune é muito boazinha, contudo, acho que ela não pode ficar com o Ichiou agora...

— Tem quartos no piso superior ao salão. Shikamaru, leve o Ichiou para um deles.

— O quê?

— Hinata — foi a única explicação que Naruto deu ao seu Conselheiro e pareceu ser o bastante. Shikamaru saiu com Ichiou nos braços, e logo Naruto desandou a falar: — Você acha que os kages não irão perceber que um bunshin meu está lá?

— Se perceberem, explique. Quem não pode saber são os Hyugas.

— Certo. Tenho que virar uma mocinha agora. — Naruto transformou-se. — Convincente?

— Bastante. Agora o bunshin.

— Não será necessário, serei rápido.

— E se estranharem sua ausência?

— Serei rápido. Fique aqui. Preciso voltar lá com você.

— O quê? Vou ficar aqui fora?

— Sim.

Antes que eu pudesse contestar, Naruto já tinha entrado.

Fiquei lá fora completamente só. Não completamente porque havia meia dúzia de jonnins em escolta, mas eles não contavam como companhia. E, para piorar, eu havia deixado meu casaco embrulhado com o Ichiou. Era uma noite muito gelada, típica do ápice do outono, se Naruto demorasse muito, logo eu congelaria ou, no mínimo, ficaria resfriada.

Passaram-se cinco minutos, e eu estava sentindo-me uma planta no mesmo lugar. Não era muito tempo, porém eu estava impaciente, irritada e com frio. Resolvi caminhar em direção à rua que já perdia o movimento de pessoas. Os jonnins já estavam distantes, era somente eu encostada no muro de pedra da propriedade que acomodava a festa.

De repente, reparo em uma figura no fim da rua. Duas, caminhando em direção ao salão. Imaginei que convidados era esses que chegariam bem atrasados, e, à medida em que eles se aproximavam, comecei a desconfiar que não eram bem convidados. Conforme chegavam mais e mais perto do fim da alameda, meu coração começou disparar.

— Impossível — constatei em voz alta. Uma fumaça saiu da minha boca junto com as palavras. — Quais as possibilidades? — indaguei novamente para mim mesma.

A figuras estavam bem perto, os dois homens. Anbu.

Antes que chegassem até mim, eu fui até eles, até ele. Assim que tive certeza, só fiz acelerar os passos para diminuir a distância. Naquele momento, toda a saudade que senti durante aquelas longas semanas, a saudade que reprimi com todas as minhas forças, veio à tona. Veio tudo de uma vez. Meu coração estava tão acelerado que eu poderia jurar que iria explodir. Quando fora a última vez que me senti daquela forma? Aquela sensação que doía? Aquele frio na barriga, o nó na garganta, o choro contido, a inconstância dos meus dedos gélidos? A última vez fazia tempo, mas eu tinha certeza que quem tinha provocado todas essas alterações no meu corpo tinha sido ele.

Ele não esperou eu chegar até ele, não esperou que seu nome fosse dito. Apenas andou mais rápido do que eu, ergueu a máscara da Anbu para o topo da cabeça e me abraçou.

— Estou de volta, Sakura.

Notas finais
Oi Gente! Deixe seu comentário para eu saber se estão gostando! :) . Recado chato e importante: Não pertube Rude? Rude mas necessário. A Alice e eu fomos bombardeadas com mensagens afoitas com pedido de postagem, de betagem... Gente, isso é muito chato. É válido informar também que a Alice não está mais na Liga dos Betas, então ela está betando tudo de boa vontade e faz isso de acordo com o tempo livre dela, que é pouco. Assim como o meu tempo livre, como inúmeras vezes já expliquei. Amo vocês, leitores, do fundo do meu coração, mas peço que por favor respeitem nosso espaço pessoa, meu a da Alice. Fazemos tudo isso para vocês de bom grado sem esperar nada em troca além de reconhecimento e gratidão, mas só temos recebido cobranças! Como eu não cobro absolutamente nada de vocês (comentário, recomendação, divulgação etc), não acho justo ser assim tão cobrada. Espero que entendam. Beijos de luz!