Pilares de Areia
27 Maybe I just wanna be yours
Notas iniciais
— Estou de volta, Sakura. — Ele beijou o topo da minha cabeça e aproximou-se mais de mim.
— Sasuke...
Eu não sabia o que estava fazendo. Parecia que meu corpo não obedecia mais a minha mente, a minha razão. Eu sabia que ainda estava brava com ele. Estava. Estava chateada pela omissão, chateada pelo nosso passado, pelas brigas, pelo conflito de opiniões. Tê-lo ali trazia tudo isso de volta aos meus pensamentos como um memorando do porquê sua chegada me abalara daquela forma, ao mesmo tempo, estar em seus braços me fazia lembrar do quão bom era a sensação do seu corpo contra mim, do seu nariz roçando no meu pescoço, sua respiração controlada...
Tê-lo ali depois de tanto tempo fazia eu perceber o quanto eu o amava.
— Bem-vindo à casa, Sasuke.
.o0o.
Tivemos que nos separar.
Sasuke explicou-me rapidamente que não entraria no salão para não chamar atenção, porém precisava falar com o Naruto ou com o Shikamaru com urgência. Perguntou-me sobre o Ichiou, e eu garanti que ele estava bem e, coincidentemente, com Shikamaru. Sem delongas, ele e seu companheiro desapareceram da minha frente, foram em direção ao salão, mas o contornaram. Talvez buscassem uma entrada alternativa para conversarem com o Shikamaru.
Voltei a estar sozinha, e isso permitiu-me pensar se aqueles três, no máximo quatro minutos, aconteceram de verdade. Era muito estranho Sasuke chegar na vila exatamente quando estou vagando sozinha pelo local do seu destino. Era quase improvável a sincronia, porém real.
Pelo menos tive no que pensar nos minutos seguintes, tive muitas perguntas a fazer em relação à chegada do Sasuke. Graças aos céus, Naruto voltou, não tão rapidamente quanto eu gostaria, mas ali estava. Saiu do salão com o henge e, assim que os jonins fecharam as portas, transformou-se novamente em si mesmo.
— Vamos?
Ainda achava bem suspeito aquele plano. Uma mulher aleatória entra na festa, fica no banheiro por vários minutos, depois vai embora. Se eu estivesse de guarda, com certeza desconfiaria.
— Naruto, o Sasuke está aqui.
— O quê?
— Neste momento deve estar falando com o Shikamaru no andar de cima, para onde você mandou ele com o Ichiou.
— Ele não reportou sua volta ou fim da missão, eu teria te avisado se soubesse que ele viria.
— Eu sei. Também achei muito estranho. Ele disse que não vai entrar na festa para não chamar atenção, contudo, precisava falar urgente com você ou com o Shikamaru.
— Certo. Espero que não seja nada urgente de fato. Seria péssimo encerar a festa. Os kages não vão voltar tão cedo.
— A menos que seja uma ameaça imediata à vila, não termine a festa. A maioria dos problemas você só consegue resolver à luz do dia. Amanhã você pode cuidar disso.
— Certo. Mais uma vez, obrigado, Sakura-chan. — Abraçou-me. — Agora vamos. Já temos uma desculpa ótima para termos saído e demorado.
Naruto seguiu para a mesa dele, e eu, para a minha. Hinata e Hanabi já estavam nela quando me sentei. Devem ter deixado o banheiro-ponto-de-encontro minutos antes do Naruto. Assim que me acomodei, Ino perguntou:
— Aconteceu alguma coisa? Onde está o Ichiou?
— Shikamaru levou-o para dormir. Há quartos no andar de cima.
— Poxa, por que não nos disse antes? — Hanabi lamentou. — As pessoas devem estar pensando que Hinata e eu tivemos uma dor de barriga lá dentro pela demora.
— Eu mal notei a saída de vocês. De repente, já estavam aqui de novo — Ino comentou.
— Isso porque você não tirava os olhos do ruivo lá em cima. — Karin apontou discretamente.
— Só estou muito surpresa com a mudança dele. Tem muito tempo que ele não vem até Konoha — justificou-se.
Agradeci mentalmente pelo assunto ter tomado como foco Ino e Hinata novamente, afinal, eu estava incerta sobre se deveria ou não dizer que Sasuke estava de volta. Ele estava bem apressado, parecia mesmo ter algo urgente a repassar, e eu não tinha impressão que era uma coisa boa.
— Festa legal, não é mesmo? — Temari chamou atenção de todas nós quando se sentou, assim como seu irmão, Kankurou, nos dois assentos vazios da mesa. — Já choraminguei para o Gaara promover um baile assim em Suna quando eu oficialmente me casar com o Shikamaru. — Exibiu a aliança de noivado.
— Eu já imaginava que fossem casados — Ino comentou analisando a aliança.
— Moramos juntos aqui em Konoha, mas o meu sonho sempre foi casar oficialmente — disse com um tom entediado. — Demorou anos, contudo, agora que estou grávida, ele surpreendeu-me com o pedido — comemorou alegremente enquanto recebia nossos parabéns, tanto pelo noivado, quanto pela criança. Sua barriga já era perceptível, devia estar com uns quatro meses.
Sasuke e eu vivíamos uma situação parecida com a de Temari e do Shikamaru (com exceção da criança que já havia nascido há anos), porém eu estava disposta a morrer com o desejo de uma cerimônia. Não enxergava mais a mágica disso, pelo menos, não para o meu relacionamento com ele.
— Temari, vamos direto ao ponto? — Kankurou sugeriu impaciente.
— Ah, sim. Então, notamos que uma de vocês simplesmente não para de encarar o nosso irmãozinho...
Automaticamente, todos os olhares voltaram-se para Ino.
— Por que estão olhando para mim? E-Eu paro de olhar para ele. Eu só fiquei reparando algumas vezes em como ele está mudado, diferente... Está até comentando com as meninas.
— Está mudado para melhor? Está diferente de uma forma boa? — Kankurou indagou sem parecer nenhum pouco convencido.
— Ora! Por que esse interrogatório?
— Responda, Ino — encorajei-a com uma piscadela.
— Bem, eu acredito que sim.
Todas nós batemos palminhas de excitação, acabamos chamando atenção para a nossa mesa. E olha como o mundo dá voltas rápidas: era Gaara quem encarava Ino desta vez.
— Ino, queremos enlouquecidamente desencalhar nosso irmão. — Temari segurou uma mão dela.
— Está difícil fazer isso em Suna. Nenhuma garota desperta o interesse dele, mas percebemos que ele tem olhado para você durante a festa — disse Kankurou.
— Não vi nenhuma vez — Ino respondeu.
— Como ele ia olhar disfarçadamente para você se você não para de encarar o coitado? — Hanabi a bronqueou. — Nem parece a piranhona experiente de Konoha.
— Piranhona? — Kankurou indagou.
— Cala a boca, Hanabi! Você tem idade para estar aqui? — Ino perguntou brava.
— Eu só sou cinco anos mais nova que você!
— Temari, eu estou realmente curiosa com a finalidade dessa conversa — disse.
— Só viemos informar à sua amiga que Gaara tem interesse — respondeu com um sorriso travesso. — Claro que aqui, embora seja uma festa, não tem condições de vocês conversarem intimamente porque a finalidade da reunião são discussões políticas, e com vocês — Apontou para mim e para Ino. — é puramente negócios.
— Mas em outra ocasião... — Kakurou completou a fala da irmã.
— Vocês têm que saber se eu quero antes de falaram as coisas assim. — Ino tentou parecer ofendida, porém não obteve muito sucesso.
— Posso dizer que está de acordo? — Temari perguntou.
Ino olhou para cada um de nós na mesa com o orgulho contido. No fundo, ela devia estar dando piruetas de alegria e entusiasmo, afinal, o Kazekage também tinha interesse por ela.
— Diga a ele que podemos conversar.
Novamente, uma salva de palmas mais contida tomou a mesa.
— Onde? — Kankurou sacou um caderninho do bolso e uma caneta. Ino apanhou e escreveu. — Obrigado.
— Até logo, meninas — Temari cumprimentou saindo com o seu irmão da nossa mesa e voltando para junto do Gaara.
O silêncio que perdurou entre nós foi desconfortável, mas bem engraçado. Eu mesma tinha vontade de rir descontrolada, porém tinha que me conter para não chamar mais atenção na festa.
— Eh, Ino... Pelo menos você vai sair da festa com placar — comentou Karin.
— A noite ainda não acabou, Karin. Logo alguém te puxa para dançar — encorajei-a.
Depois que a conversa foi retomada para os mais variados assuntos, percebi que Karin tinha uma expressão diferente, pensativa, quase concentrada. Sem que as outras garotas prestassem atenção, eu indaguei o porquê.
— Eu estou sentindo um chakra... — respondeu para que só eu mesma ouvisse. — Eu acho que é o Sasuke — disse corada. Como eu não esbocei nenhuma reação de surpresa, na verdade eu fiquei desconfortável, ela me perguntou: — Você já sabia? Sabia que ele está aqui?
— Acabei encontrando-o lá fora. Ele estava apressado, tinha algo urgente para dizer ao Naruto. Como deve ter a ver com a missão dele, que é secreta, eu não achei que devesse comentar...
— Não é secreta para ninguém desta mesa — Karin disse em um tom mais alto. — Eu sinto quando as pessoas estão mentindo. Por que não me diz o real motivo para você não ter contado que o Sasuke está aqui?
— Sasuke-san está de volta? — Hinata perguntou-nos. Eu não respondi, Karin que assentiu. — Isso quer dizer que... — ela não terminou de dizer, apenas olhou para a irmã.
— Ele falou com você, Sakura? — Hanabi perguntou séria.
— Ele apareceu rapidamente, eu nem sei se vai ficar ou voltar. Não conversamos.
— Preciso falar com ele. Não temos informações do noivo da Hinata desde que eles partiram.
— Ele está no prédio — Karin informou, e eu a mirei com um olhar de traída.
— Byakugan — Hanabi começou a inspecionar o local. Por algum motivo, eu não tinha um bom pressentimento. — Achei. Ele está em um quarto no andar superior com um homem e uma criança. — Desativou o jutsu enquanto se levantava. — Fique aqui, Hinata. Eu já volto.
— Hanabi, por favor — pedi, mas foi inútil.
Agora, tínhamos uma Hinata preocupada, Hanabi querendo interrogar o Sasuke (que provavelmente seria bem grosso com ela), Karin chateada comigo e Ino alheia a tudo porque estava apaixonada demais pelo líder de Suna.
A festa voltou a ter um clima animado, e praticamente todas as pessoas estavam no meio do salão dançando, menos os kages que aguardavam Karin, Ino e eu para conversarmos. Finalmente nos convocaram para fazer o que viemos fazer: falar sobre o a pesquisa feita nos últimos dias.
Todos os kages e seus assistentes já tinham lido o nosso relatório e tinham em mãos suas cópias ondem faziam observações à medida em que Ino, Karin e eu explicávamos tudo. Perguntas foram feitas e esclarecidas sem contornos, nós três estávamos muito envolvidas com o trabalho realizado. Fomos igualmente elogiadas, e tudo ocorria bem, até Shikamaru, até então ausente, informar-nos que acabara de receber informações sobre outros cinco esconderijos encontrados com cobaias vivas.
— Konoha não tem capacidade para abrigar tantos. — Naruto disse aos outros kages. — Embora nós tenhamos começado a operação, este é um problema da Aliança como um todo. Já estamos fazendo um trabalho aqui com os jovens que encontramos, um trabalho com resultados, como puderam ver, e continuaremos isto, porém convido-os a nos ajudar. Ainda não temos estrutura clínica para abrigar tantos jovens com necessidades especiais. O espaço em que estão hoje foi improvisado às pressas para recebê-los.
— Konoha é a aldeia mais avançada atualmente nesse campo, se não tem estrutura, o que dirá de nós — a Tsuchikage pronunciou-se.
— Quantos são? — Gaara indagou.
— Não posso informar um número exato, mas o esquadrão presumiu cerca de noventa cobaias, variam de crianças de três anos a jovens com aparentemente vinte.
— Posso ficar com trinta.
— Obrigado, Gaara — Naruto agradeceu.
— Preciso conversar com o meu Conselho antes de comprometer-me — disse o Raikage.
— Talvez... — Ino ia pronunciar-se, mas olhou para Naruto incerta, mas ele encorajou-a. — Talvez possamos abrigar mais uns dez. Metade das crianças que cuidamos já apresenta um avanço significativo para tentarmos uma integração maior com as crianças “comuns” do orfanato.
— Como assim? — Naruto perguntou.
— Se alocássemos esse grupo que apresentou grandes avanços no quesito de socialização, poderíamos colocá-los juntos com as outras crianças em quartos coletivos. Isso deixaria dez quartos livres no orfanato para as novas cobaias que chegarem.
— Vocês concordam com isso? — Naruto perguntou para mim e para Karin, e ambas assentimos. — Então podemos, por enquanto, assumir mais dez. Sobram cinquenta.
— Podemos dividir, Kurotsuchi-san? — O Mizukage, Chōjūrō, indagou à Tsuchikage.
Ela ponderou um pouco, mas aceitou. As noventa cobaias tinham onde ficar. Porém, Shikamaru disse cerca de, logo, poderia haver mais. Naruto também pensou nisso e indagou ao Raikage, Darui, se ele poderia ficar com o restante, caso houvesse. Visivelmente a contragosto, ele aceitou.
— Precisaremos desse projeto para lidar com esses jovens. Minha hesitação não é em não abrigar essas crianças, e sim como tratá-las — explicou Kurotsuchi.
— Seria bom se vocês ficassem um tempo em nossas vilas — sugeriu o Mizukage apontando para nós três, Ino, Karin e eu. Claro que ficamos chocadas, não esperávamos isso e não sabíamos o que responder.
— Sakura tem um filho pequeno e forma novos médicos para Suna — Naruto tirou-me da reta, e eu o agradeci mentalmente por isso.
Eu nem cogitava sair em uma jornada como essa e deixar Ichiou sozinho, seja com minhas amigas ou com o pai. Eu não me imaginava ficar longe do meu filho mais do que já tinha ficado nos últimos meses.
— Você poderia ficar um tempo em Suna, Ino? — Gaara perguntou.
Karin e eu nos entreolhamos e tentamos segurar o riso, Ino estava paralisada com uma expressão de boba, claramente envergonhada por Gaara fazer um pedido desse a ela.
— E-Eu tenho a floricultura dos meus pais... — Olhou para o Naruto que não tencionou ajudá-la. — Mas acho que posso ir... se... conversar com eles — sua voz foi morrendo no meio da frase.
— Obrigado — Gaara agradeceu ainda fitando os olhos dela.
— Eu exijo uma especialista na minha vila. — A Tsuchikage cruzou os braços. — Detesto confessar isso, porém meus médicos não têm capacidade para tocar um tratamento desses.
— Eu vou — Karin pronunciou-se. — Eu não tenho vila, então, posso ajudar vocês.
Depois de um pequeno silêncio, todos disseram concordar, desde que o nosso relatório pudesse ser usado como modelo e, pelo menos, uma de nós treinássemos os médicos deles para isso. Tendo todos os pormenores resolvidos, Naruto convidou todos a se juntarem aos outros convidados da festa, já alterados de sakê, que dançavam livremente as músicas. Obviamente nem todos se sentiam tão à vontade, o Raikage e o Kazekage preferiram permanecer sentados, o Mizukage e a Tsuchikage aceitaram brincar um pouco com Naruto.
Foi tudo muito divertido e aconteceram muitas coisas, se eu contasse com detalhes, tornaria tudo entediante. Infelizmente, não tenho muito jeito para contar histórias de forma que elas pareçam incríveis, mas acredite, aquela festa foi incrível e parecia não ter fim. Imagine um lugar repleto de pessoas, onde, não importa para onde você olha, sempre encontrará um sorriso.
As coisas mais incríveis que aconteceram foi Naruto ter pedido aos quatro Hyugas que escoltavam Hinata para dançar com ela. Não sei que artifícios ele usou para convencê-los, Hinata estava quase desmaiando imaginando outra rebelião por conta disso, porém os quatro Hyuga colocaram só como condição apenas a autorização de Hanabi. Inocentes... Ela fez charme, mas obviamente permitiu. Até a música parar de tocar, Naruto e Hinata não saíram dos braços do outro nenhum minuto. Tinham que estar dançando e, provavelmente, não poderiam conversar, contudo, seus olhares já falavam por eles, e não tinha quem não os observasse e não os admirasse. Eles pareciam ter sido encomendados para ficar um com o outro.
Karin parecia um pouco preocupada com o assunto da mesa, mas umas doses de sakê fizeram com que ela se permitisse aceitar alguns convites para dançar, até que em um momento, com par ou não, ela não parou mais. Juntou-se com Hanabi e divertiram-se até o fim da festa.
Ino ficou com a gente por um tempo, porém Temari carregou-a para longe. Quando vi, ela e Gaara estavam conversando ao lado de uma pilastra no extremo do salão, longe de todo mundo. O instinto da Ino estava certo, algo grandioso aconteceu com ela aquela noite, e o meu instinto dizia que não iria acabar ali.
Onde eu estava? Vagando entre as pessoas. Dançava, comia, cantava, mas minha mente estava longe. Não perguntei se Hanabi havia encontrado Sasuke, se havia falado com ele. Não tinha coragem de pedir nem para ela, nem para Karin verificar se ele ainda estava nas imediações, ambas estavam genuinamente alcoolizadas e envolvidas em uma dança esquisita com dois rapazes que eu nunca vi na vida, porém ambas pareceram gostar.
Ninguém notou minha ausência quando subi as escadas para o andar superior. Estava tudo escuro e vazio. As únicas manifestações de luzes eram as que corriam por baixo da fresta das portas fechadas. Naruto dissera-me que havia vários quartos naquele andar, eu não queira nem imaginar o que poderia estar acontecendo por trás daquelas portas, porém precisei bater de uma em uma. Constrangedor, mas necessário. Na quarta porta, não ouvi resposta, então entrei, presumindo que Ichiou estivesse ali sozinho dormindo. Ichiou de fato estava lá quando abri a porta, porém, acompanhado.
Fechei a porta atrás de mim e caminhei até eles. Sasuke estava sentado na beirada da cama, apoiando as costas e a cabeça na cabeceira do móvel. Ele devia saber que era eu, pois não mexeu um centímetro, apenas abriu os olhos e fechou-os logo em seguida. As mãos do Ichiou fecharam-se contra um pedaço da manga da sua blusa, como uma tentativa de garantir que o pai não fosse mais embora, porém a tal da intuição me dizia que ele não ia ficar muito tempo.
— Está esperando o Naruto? — indaguei, sentando-me do outro lado. Sasuke assentiu. — Ele pode demorar. Está dançando com a Hinata. — Sasuke riu pelo nariz e, novamente, não disse nada. — Está cansado, não é? — Foi uma retórica. Era óbvio que ele estava cansado, exausto. A mesma sensação que senti quando o vi magro e depressivo quase um mês atrás era a que eu sentia naquele momento.
— Preciso falar com ele. Uma Hyuga sabe sobre a morte do noivo da Hinata.
— O quê? Ele... ele morreu? — Sasuke assentiu.
— A Hyuga já deve ter espalhado. Temo um novo motim.
— Ela não fará isso. — Sasuke me encarou curioso. — Ela é a irmã mais nova da Hinata, Hanabi. Ela está ajudando o Naruto.
Sasuke não pareceu completamente convencido, mas encostou a cabeça de novo no apoio da cama e fechou os olhos. Contemplei-o por algum tempo. Tínhamos tanto a falar... Eu sabia reconhecer que aquele não era o momento. Ele devia estar em viagem há dias, comendo e descansando pouco. Não poderia cobrar uma atenção ou uma conversa em um momento como aquele de tensão.
— Já volto.
— Onde vai? — indagou.
— Ao banheiro.
Mentira. Eu ia montar um obento para ele.
Tudo o que tinha de comer na festa estava frio ou nada fresco, contudo, imaginei que, se Sasuke estivesse com fome, não iria reparar nisso. Uma das funcionárias me auxiliou providenciando um suporte descartável e algumas coisas que estavam em sobra na cozinha. Consegui um pouco de suco de tomate e água, depois, com tudo em sacolas, tive que enfrentar a pequena multidão que dançava no meio do salão até alcançar Naruto, que, naquele momento, recusava um pedido de dança de uma moça. Ele ainda estava com a Hinata nos braços, e nenhum dos dois parecia cansado.
Seria eu a vitoriosa a tirar o Naruto dos braços dela?
— Com licença. Desculpa, Hinata-chan. Naruto, eu estou subindo com um obento lá para cima onde há um certo alguém te esperando.
— Putz! — Deu um tapa na testa. — Esqueci o Sasuke lá em cima!
— Sim, esqueceu. Agora ele está muito cansado e com fome, eu vou levar isso para ele, daqui uns cinco minutos você pode subir?
— Sim, sim. Eu vou lá daqui a pouco.
Feito.
Quando cheguei ao quarto, Sasuke estava próximo à janela, Ichiou ainda dormia um sono pesado.
— Sabia que não ia ao banheiro — disse ao notar a sacola em minhas mãos. — Não precisava.
— Precisava, sim. Toma. — Estendi o suco de tomate. — Está fresco, como você gosta.
Sasuke sentou-se no tapete e literalmente devorou a comida. Não era uma refeição equilibrada, mas de sustância, tanto que, ao terminar, ele pareceu satisfeito, em contrapartida, mais cansado do que estava.
Antes que eu dissesse que havia chamado o Naruto, o próprio apareceu. Rolou o olhar por nós três, Sasuke no tapete, eu sentada na cama e Ichiou dormindo. Ele não precisou dizer nada, eu me toquei. O assunto era profissional, e eu não tinha nada a ver com aquela missão, não importava o quanto eu sabia sobre ela.
— Já está tarde. Eu já vou para casa. — Peguei Ichiou ainda dormindo e apoiei sua cabeça no meu colo. Sonolento, ele sussurrava pelo Sasuke. Aquilo pareceu mexer com Sasuke. Antes de sair, eu perguntei aquilo que parecia não ter resposta. — Você vai ficar? — perguntei diretamente ao Sasuke.
— Não sei — ele respondeu, e Naruto lançou-me um olhar que reforçava o que o amigo disse.
Eu apenas assenti e saí. Provavelmente, ele queria se despedir formalmente de mim e do Ichiou, caso não nos visse antes de partir, mas eu estava magoada, por algum motivo que não entendia, eu estava magoada. Apenas abri a porta e desejei “boa noite” aos dois.
.o0o.
Acordei assustada no momento em que ele apareceu na sacada. Não tinha ido dormir esperando uma visita no meio da noite, mas fui dormir preocupada de Sasuke realmente partir sem dar uma pausa na vila. Essa ansiedade me fazia acordar no meio da noite de tempos em tempo, e, quando eu estava quase pegando no sono, ouvi o barulho abafado do Sasuke pousando na estreita sacada do quarto de hospedaria.
— Sasuke? — Levantei-me imediatamente. — O que está fazendo aqui? — perguntei baixinho para não acordar o Ichiou.
— Posso entrar? — perguntou ainda da sacada.
Quando afirmei que sim, ele entrou e fechou a porta de vidro e a cortina, deixando apenas um espaço por onde entrar luz.
— Não devia dormir com isso aberto.
— Eu nunca durmo.
Sasuke devia saber o que aquilo significava.
Reforço que não esperava que uma visita surpresa fosse feita no meio da noite, mas, se fosse... seria bem recebida.
Sasuke contornou a cama e curvou-se perto do Ichiou que dormia como um anjo. Ele tinha gastado muita energia na festa e, provavelmente, dormiria até tarde. Sasuke o acariciou levemente para não o acordar, em seguida, ficou esguio e sua atenção voltou-se para mim.
De pé, um de frente ao outro, um olhando para o outro, mas sem saber o que fazer. Eu pelo menos não sabia o que fazer. Quando o vi chegando na festa, pareceu-me tão certo recepcioná-lo calorosamente, pareceu-me natural... Ali no quarto, naquele exato momento, parecíamos ter voltado para o ponto em que estávamos antes de ele partir em missão.
— Volte a dormir. Eu só vim ver como vocês estavam — disse, afastando-se da cama.
— Já vai partir? — indaguei. Ele negou com a cabeça. — A missão está acabada?
— Naruto me deu uma folga.
— Quanto tempo?
— Um dia.
Ri pelo nariz.
— Isso porque ele é seu melhor amigo — comentei, sarcástica.
— Eu não deveria nem ter aceitado — retrucou. — Estou aqui por causa de vocês...
— Ichiou realmente sente sua falta — disse depois de um pequeno silêncio.
— E você? — Sasuke perguntou logo em seguida. Depois de um silêncio constrangedor, ele faz de tudo para criar outro.
Não sabia o que responder. Não queria inflar mais ainda o seu ego, sua constatação de estar de alguma forma garantido, de ainda manter-me refém. Sorte a minha é que ele não esperou muito tempo por uma resposta, apenas caminhou até a porta de vidro que isolava a sacada e anunciou que ia embora.
— Espera — meus lábios disseram, mesmo que minha mente quisesse deixá-lo ir, deixar as coisas naquele ponto onde elas pararam.
Sasuke esperou, assim como eu pedi, mas eu não sabia o que dizer. Na verdade, eu sabia, porém não queria falar, não queria pedir. Seria fraqueza, contudo, talvez era dessa fraqueza que eu precisava.
— Fique aqui — pedi.
Ele pareceu surpreso e, ao mesmo tempo, tentado. Se ele não quisesse, teria recusado na hora.
— Onde? — perguntou depois de olhar todo o quarto.
Havia um sofá de três lugares no quarto. Não cabia Sasuke, mas cabia outra pessoa. Embrulhei Ichiou em uma manta e o levei até o sofá que o abrigaria perfeitamente. Ichiou costumava dormir ali enquanto brincava, então não era problema nenhum.
— Ele costuma dormir ali durante o dia, não se preocupe. É confortável — garanti ao olhar a expressão descontente do pai.
— Eu poderia ir direto para casa — reclamou, caminhando até mim lentamente.
— Deve estar tudo empoeirado — disse, ajudando-o a retirar sua armadura. — Amanhã eu posso ajudá-lo a organizar a casa. Só preciso resolver uma coisa com Ino à tarde, coisa rápida, depois eu...
Não consegui terminar de falar ou de ajudá-lo a tirar a armadura. Sem aviso, sem delongas, sem pedir permissão, Sasuke ergueu meu queixo e me beijou. A princípio, apenas selou meus lábios algumas vezes; no intervalo delas, olhava meus olhos, inspecionava minha expressão, minha reação, como se procurasse um indício de que poderia continuar. Ele podia, sim.
Foi rápido, foi intenso. De repente, aquilo que parecia um beijo singelo tornou-se um beijo mais encorpado, mais profundo, mais quente. Na minha mente, somente uma constatação martelava insistente, como um lembrete constante: Sasuke me beijou. Sim, ele me beijou, de novo, mas eu beijei de volta e estava com vontade de beijar mais. A questão era: deveríamos?
Aquela situação, que já durava meses, talvez estivesse perto do fim. Contudo, eu imaginava o final daquela guerra sendo uma conversa sincera e madura onde ambas as partes apontariam suas exigências, iriam debater, concordar, discordar, até entrar em um consenso.
Meu coração batia rápido demais, como se eu estivesse em perigo. Mas por quê? Porque era o Sasuke. Apenas Sasuke. Não tinha nada demais nele, eu já havia o visto (e tocado) em circunstâncias melhores. Por que eu estava tão nervosa? Ele só iria se deitar ao meu lado para dormirmos juntos. Fizemos isso por anos... Por que eu estava tão nervosa?
Eu não enxergava um palmo na frente do meu rosto, mas conseguia sentir sua respiração próxima do meu rosto, suas mãos passando pela minha cintura, pelas minhas costelas, sentindo meu corpo, analisando aquilo que nunca deixou de ser dele.
— Tem certeza? — sussurrou, passando o polegar sobre meus lábios entreabertos, tirando os fios de cabelo da frente do meu rosto. Eu não respondi de imediato, não sabia o que ele queria dizer, afinal, ele sabia que, se eu não tivesse certeza do que queria, eu já teria o lançado para bem longe de mim. — Não irá se sentir de alguma forma usada?
— Não — sussurrei em resposta.
Daquela vez, eu mesma tomei atitude para beijá-lo e não comecei nada calma, afinal, eu não estava calma. Sasuke pareceu perceber isso e, delicadamente, foi afastando-se da minha boca. Suas mãos acariciaram meus braços, meus ombros, e desciam, enquanto sua boca afastada da minha explorava outros cantos. Eu estava começando a ficar quente, minha cabeça começava a pender para os lados, sinais graduais de que eu já estava entregue de corpo e mente.
Gradualmente, meu corpo começou a decair para a cama, Sasuke segurou minha nuca e minha cintura e, suavemente, terminou o que a gravidade começara. Minhas pernas não ficariam firmes nem mais um minuto. Sasuke debruçou-se sobre mim, acariciou meu rosto com a ponta dos dedos, acariciou meus cabelos, beijou os rastros que as pontas dos seus dedos deixaram e, aos poucos, afastou aquela tensão de mim, aquela tensão inexplicável de uma virgem tendo sua primeira vez. A franja negra caía ao lado do meu rosto, fazia cócegas, fazia eu segurar um riso infantil.
O esforço para não expressar os seus sentidos era perceptível, afinal de contas, embora amoroso naquele momento, ainda era o Sasuke e todo o seu complexo de autocontrole embutido. Claro que, uma hora, seu corpo parou de obedecê-lo, e o primeiro sinal disso era o descontrole do ritmo de sua respiração, mal conseguia abafar o gemido quando eu mordia levemente o lóbulo da sua orelha ou quando passava minhas unhas cumpridas em sua nuca. Logo ficou impossível para nós dois controlarmos aquele turbilhão de sensações ausentes por tempo demais. Nossos gemidos começaram a se misturar, na mesma proporção. Nosso cuidado era exclusivamente para que o barulho não acordasse Ichiou, do contrário, que se explodisse o orgulho. Sasuke já parecia querer deixar bem claro o quão excitado estava.
Ele despiu o pouco de roupa que eu usava, uma camisola de frio e nada por baixo. Cada parte exposta, uma carícia, um beijo, uma marca de recordação para os próximos dias. As mãos ásperas me inspecionavam sem pressa, apertavam e afagavam-me em seguida. Em cada parte do meu corpo, essa espécie de ritual, como se Sasuke quisesse gravar na memória cada pedaço de mim.
Ele acariciava meu seio enquanto beijava, mordia e chupava o meu pescoço. Provavelmente, deixaria marcas no dia seguinte, porém eu não tinha cabeça para pensar sobre aquilo naquele momento. Quando a boca dele tocou um dos seios, foi física a sensação de ter tido a alma sugada por sua língua. Ele fazia com a paciência de quem degusta sua comida favorita desejando que nunca acabe, circundando a auréola com a ponta da língua. A sensação chegava a ser agonizante. Primeiro um, depois o outro, sem nunca deixar de dar carinho ou atenção aos outros pontos erógenos do meu corpo. Cheguei em um nível de excitação tão alto que não queria nenhum arranjo além dele dentro de mim, por mais inadequado que seja dizer isso assim, de forma tão explícita. Por mais gostoso que estivesse, na minha cabeça, eu só sonhava com a imagem e a sensação do Sasuke em cima de mim.
Quando eu pensei que estivesse perto do meu momento tão esperado, sua boca, antes sugando meus seios, desceu pela minha barriga, meu umbigo, meu ventre, e não parou. A sua língua não fez nada demais, apenas tocou meu ponto mais sensível, então o gemido que escapou da minha garganta pareceu alto o suficiente para acordar o Ichiou. Sasuke subiu de volta para pedir-me silêncio pressionando o dedo indicador nos meus lábios, deixando um beijo cálido antes de descer de novo pelo monte de vênus e me torturar com a sua boca. Eu não conseguia me conter, nem Sasuke. Ele segurava minhas pernas, tentando mantê-las abertas, mas, às vezes, eu era mais forte que ele. Ainda assim, ele continuava, não parou um minuto sequer, mesmo tendo sua cabeça quase esmagada pelas minhas coxas, tamanho era o prazer que eu sentia. Sasuke sabia exatamente onde tocar, a intensidade, a duração, a maneira. Era como se eu tivesse entregado um manual de instruções do meu corpo a ele. Quando eu estava perto de gozar, tive que colocar um pedaço do lençol na boca e abafar meus gemidos com um travesseiro.
Foi muito intenso. Meu corpo ficou em chamas e espasmos por longos segundos, eu não conseguia me lembrar da última vez que Sasuke fizera eu meu sentir daquela forma, como se estivesse nas nuvens, tão leve quanto o ar, tão satisfeita e calma, embora minha respiração não dissesse o mesmo.
Enquanto eu ainda me estabilizava, Sasuke beijava a parte interna das minhas coxas, mordia levemente, chupava, deixando ali também o seu território marcado, mesmo que ninguém além dele pudesse ver. Ele tocou minha intimidade e a constatação de que eu estava inteiramente molhada pareceu enchê-lo de deleite. Sasuke engatinhou sobre o meu corpo esvaído, os braços perigosos apoiando-se de cada lado, afundando o colchão onde se sustentava.
— Você está molhando o lençol — disse, mordiscando levemente o lóbulo da minha orelha. A notícia do quanto eu estava excitada deixou-me mais ainda, e também envergonhada pela luxúria que era tudo aquilo.
Quando Sasuke entrou em mim, não deu indícios de que o faria, não avisou, apenas estocou. Senti cada centímetro dele me preencher. O desafio passara a ser não fazer tanto barulho, o que parecia ser impossível. Nem Sasuke segurava consigo os grunhidos roucos, mal media a força das unhas na minha cintura, cravadas tão forte que aquela seria outra região que ficaria marcada por dias. Pode-se imaginar que, se há um tipo de agressão que dá prazer, com certeza era aquela, as mãos fortes e ásperas agarrando minha cintura e forçando meu quadril para cima. Sasuke tinha total controle da velocidade e da intensidade dos seus movimentos, tinha total controle do meu corpo.
Quando percebi que ele estava prestes a chegar ao seu ápice, mudei de posição para ganhar mais tempo, virei-o de costas no colchão ficando sentada em cima dele. Rapidamente, ele tirou as blusas que vestia e me puxou para baixo, beijando meu pescoço e meu ombro enquanto eu fazia o mesmo com ele. Eu guiava o ritmo, fazia devagar para torturá-lo e segurá-lo por mais tempo, ainda tinha muita energia em mim. A fricção e a visão dele embaixo de mim se contorcendo de prazer me levava a um estágio de excitação tão grande que consegui chegar ao meu ápice pela segunda vez. Com meu corpo todo mole pelo orgasmo, Sasuke aproveitou para inverter as posições novamente.
— Não dá mais, Sakura — anunciou colocando-me de quatro em frente a ele. Tive que agarrar a cabeceira da cama para conseguir ficar reta, empinada, meus ossos pareciam querer se desmontar.
Sasuke beijou minhas cortas, da nuca ao cóccix fazendo a trilha da minha espinha, beijando e apertando minha bunda, outro local que ficaria muito marcado. Depois de satisfeito, ele me penetrou novamente. Ele poderia me deixar submissa, entregue, mas eu também o desarmava, às vezes mais do que ele em relação a mim. As expressões que eu arrancava dele, os gemidos animalescos, os tremores, os olhares, as reações, eram reais, uma faceta dele que ninguém mais conhecia, só eu.
No meio de tudo aquilo, eu vislumbrei algo que eu não via há muito tempo... Ele devia estar quase no seu ápice quando, de repente, no meio de toda aquela escuridão, um par de esferas vermelhas brilharam, escarlates como a cor do pecado. O sharingan dele me perscrutava, não desviavam dos meus olhos, pareciam querer me devorar. Era assustador e, ao mesmo tempo, extremamente excitante. Ele me penetrava com vigor, rápido, praticamente rosnava a cada estocada. Em um momento, agarrou meu cabelo, já cumprido o bastante para ele enrolar nas suas mãos, e puxou levemente em direção dele para que eu olhasse para frente. Com certeza, ele não fizera aquilo somente para ter um apoio, mas para que eu não pudesse olhá-lo desarmado atrás de mim.
Há quanto tempo eu não me sentia assim, prestes a explodir? Muito tempo, mais tempo do que era saudável, nem sequer me lembrava de algo assim antes. Sasuke e eu podíamos viver em pé de guerra, mas a cama era o lugar onde a gente se encontrava, onde a gente tinha certeza que nossa conta batia, que nossa sincronia não era simplesmente uma questão de convivência, era um vínculo de corpo e mente, era uma ligação que antes não existia, mas naquele momento, já estava consagrada.
Eu poderia julgar que tudo aconteceu rápido demais, porém a questão não era essa. A magnitude daquele momento que tivemos, durando minutos ou horas, não interessava. Éramos só nós dois trocando uma grande energia presa há tempo demais, irrefreável.
Sasuke chegou em seu ápice e deitou-se sobre mim, exausto, muito ofegante. Todo o descanso que ele tivera desde que chegara da viagem foram os cochilos ao lado de Ichiou na festa de recepção, aqueles minutos de sexo deviam ter acabado com o vigor que restara. Dependendo da quantidade de horas não dormidas, provavelmente, assim que ele dormisse, não acordaria nas próximas doze horas.
Ele já estava bem sonolento ao meu lado, porém ainda acordado. Vesti novamente minha camisola, e ele ajeitou suas calças, estava muito frio para dormir sem nada. Joguei o cobertor em cima das partes descobertas do seu corpo e, em seguida, aconcheguei-me próxima a ele. Estava pronto o nosso ninho de uma noite só.
— Eu amo você — Sasuke disse, olhando-me nos olhos.
Eu fiquei sem fala.
O tom da sua voz, mesmo muito baixo, soava firme, sem hesitação. No escuro, embaixo do cobertor, parecia ter acabado de me contar um segredo, algo tão íntimo quanto sua nudez. Seus dedos colocavam mechas do meu cabelo atrás da orelha repetidas vezes quando disse aquilo e, mesmo depois, ele continuou, mesmo que tudo estivesse alinhado, a carícia não parou, e seu olhar no meu também não.
Eu desejava que não estivesse tão escuro para eu poder contemplá-lo perfeitamente para constatar suas emoções, porém eu sentia tudo carregado na sinceridade da sua voz e do seu gesto. Sasuke estava sem armadura, sem escudo, sem defesa, era só ele e seu sentimento ali.
Não me lembrava da última vez que ouvira aquilo dele, um “eu te amo”, não lembrava se houve alguma vez sequer que ele dissera aquilo assim, de forma tão clara. Talvez nunca. Esse tipo de declaração vinda dele era rara, tão rara que eu fiquei embasbacada, sem reação. Não respondi. Eu não precisava afirmar nada, ele conhecia muito bem meus sentimentos, mesmo tendo dito há semanas que já não sabia o que eu sentia.
Sasuke sabia exatamente como eu me sentia em relação a ele, talvez a distância o fizera entender os motivos por trás das minhas atitudes. Eu acreditava que ele havia experimentado um pouco do que eu passei por anos com ele, esperando-o voltar, esperando uma demonstração de sentimento, esperando uma mudança, um sinal de gratidão, um sinal de amor. Aquela declaração era uma das comprovações de que ele aprendera sua lição, ou pelo menos, uma grande parte dela.
Quando saí de casa, febril e sedenta por vingança, no fundo eu só queria uma prova de que ele era realmente aquela fortaleza de pedra, impenetrável, sem deixar nada sair ou entrar. Aos poucos, tudo o que eu queria ter dele, ele estava me dando, a contragosto no começo, mas depois, espontaneamente. O que eu mais queria quando saí de casa era ser amada e, naquela noite, eu havia sido. Cada toque ainda estava fresco na minha mente, no meu corpo... Arrepiava-me só de lembrar. Eu havia conseguido o que eu tanto queria.
— Eu vou consertar as coisas — acrescentou, abraçando-me, apoiando minha cabeça de volta no seu peito quente. — Quando eu voltar, será tudo diferente — prometeu.
Eu contava com isso. Eu contava muito com isso. Tinha uma grande fé de que ele realmente fosse fazer tudo valer a pena. Dormi pensando sobre isso, chorando silenciosamente, porém daquela vez era de pura felicidade.
Sentia-me um barco atracando na costa depois de uma longa viagem. Nos braços dele, eu me sentia em casa.
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