Pilares de Areia

29 I've had you so many times but somehow I want more


Notas iniciais
Título: Eu já tive você tantas vezes, mas de alguma forma, eu ainda quero mais - Maroon Five - She will be loved . Oi meus amores! Tudo bom? Eu queria terminar a fanfic até dia 31 de dezembro de 2017, mas não vai ser possível, como muitas devem ter apostado porque eu sou PÉSSIMA em entregar coisas na v Espero, contudo, que de Janeiro não passe, pois já tenho os capítulos finais escritos. . E para adiantar para você, como muuuuitos pediram e como eu garanti que teria, teremos não somente um mas DOIS capítulos POV Sasuke que já estão sendo escritos. Gostaram da surprise? . Queria dedicar esse capítulo a todas que comentaram o último capítulo: Maria Hashi; Toya Veg; PinkHaii; bruninha; NannyLeuSim; michellinha611; Stéfany Cunha; Pairman; princesinha; OtomeHana; Ana Oliver; Nyah; Blue Martell; ciaella; Iki; Danny Uchiha e jessica23. E também às recomendações! Obrigada, barbara matias e Mirai! Eu amei ♥ . Agradecimento especial para a guria que beta essa história há ANOS: Alice Alamo ♥ . Esse cap ainda não está betado, mas trouxe ele mais cedo para você para cessar essa espera árdua! . Boa leitura!

— Meu Deus — exclamei desacreditada de toda aquela história.

— Eu também disse isso quando terminei de escutar.

— Fala logo quem te contou? Para quê esse mistério?

— Porque é a lei da fofoca, você nunca revela de onde a história saiu. Mas o importante é que Naruto e Hinata finalmente estão bem e felizes, logo casados. Antes mesmo do festival Shichi Go San ele quer fazer a cerimônia.

— Isso é daqui a uma semana!

— Pois é, temos que correr com os vestidos e também com o enxoval do bebê.

— Podia também convencer um certo hokage a ficar mais tempo na vila e ser seu acompanhante.

— Sakura, minha flor, se eu quiser ele se casa comigo antes mesmo de Naruto e Hinata se casarem — riu novamente, mas um riso diferente, sem deboche, era um riso de felicidade. — Nos encontramos ontem à noite. Ele disse que se apaixonou por mim.

— Espera aí, como assim? — Diferente de Ino eu não estava nenhum pouco excitada com essa história. Tinha sido rápido demais essa confissão. Conhecendo um pouco o Gaara como eu conheço, confissões desse tipo não viriam tão fácil para garotas que ele conheceu há menos de uma semana. — Ele disse que se apaixonou?

— Não com essas palavras. — Revirou os olhos. — Mas confessou que se interessou por mim.

— Se interessar não é se apaixonar, Ino.

— Claro que é! — Defendeu-se indignada.

— Eu já me interessei pelo Ren, mas não me apaixonei por ele.

— Fala sério, Sakura. Que comparação bizarra. — Fez careta. — Já que entrou nesse assunto, ele te deixou em paz? — Dei os ombros.

— Espero que sim. Não vou poder defende-lo enquanto ele insistir em desafiar o Sasuke.

— Conte o que o Sasuke fez com os Hyuga para ele que ele vai desistir rapidinho. — Riu.

— Vou ter que ensaiar a cara de surpresa quando um dos envolvidos nessa história vier me contar — ponderei. — Só não conseguirei disfarçar a felicidade. Finalmente Naruto e Hinata vão poder ficar juntos. — Mirei meu copo sonhadora. Se tinha um casal que merecia, que devia estar junto e ter uma vida plena, esse casal era eles. — Naruto já tinha me dito antes que conseguira tudo o que sonhara: o Sasuke de volta, a paz no mundo ninja, o posto de hokage... Ele ainda não tinha amor. E quando encontrara, foi mais uma dificuldade para vencer — recordei. — Acho que é uma das piores batalhas pela qual os humanos passam, lutar pelo o seu amor e o de alguém.

Ino sorriu com o que eu disse, ajeitou a mecha dos cabelos claros e brincou com a bebida em seu copo. — Eu acho que estou pronta para isso. Amar, ser amada e quebrar a cara se assim o destino quiser. Eu realmente gostei do Gaara, Sakura — confessou. — Ontem conversamos sobre trabalho, sobre coisas específicas da nossa vila, sobre família e amigos, e principalmente sobre o futuro. Ele não conversa tanto quanto eu. Na verdade, eu nunca conheci um ser humano sequer que me ganhe na conversa, mas ainda assim ele se abriu e foi muito agradável, e eu prestei atenção em cada palavra, fiz o máximo de perguntas possíveis para conhece-lo mais... Ele tem olhos tão bonitos! São verdinhos, parecidos com os seus, mas mais claros, com um brilhinho fraco... Parece o olhar de uma criança. — Riu-se corando. — Você acha que ele gosta de mim, Sakura?

— Não conheço muito o Gaara, porém te garanto que ele não falaria com você se não tivesse interesse. Acho que seria um tolo por não se apaixonar por você. — Segurei as mãos da minha amiga. — Embora eu ache que nenhum homem te mereça, talvez o Gaara possa tentar. — Pisquei.

— E eu quero que ele tente — respondeu sonhadora. — Você é amiga íntima do Naruto, convença-o a convidar o Gaara para o casamento! — Pediu-me. — Por favor, Sakura.

— Naruto deve estar com a cabeça explodindo de problemas...

— Está explodindo de felicidade, vai por mim. Peça a ele, por todos os favores que eu já te fiz ao longo da vida, Testuda.

— Poxa... — Ri. — Isso não é nada perto de todos os favores que te pedi. Mas te asseguro de que com certeza Gaara será convidado, Naruto e ele são amigos íntimos. O problema é saber se ele vai prolongar a estadia na vila por causa desse evento. Afinal, ele também é kage.

— Não seria como se a vila dele fosse se desintegrar automaticamente se ele passasse mais uns dias aqui — Ino dizia brincando com as pontas do cabelo.

— Agora, precisamos definir bem o que vamos falar na apresentação oficial do projeto. Chega de fofoca — adverti-a. — Quando tivermos tudo certo, podemos sair para comemorar e continuar falando dos outros — disse em tom de brincadeira.

Ino e eu ficamos ali na cafeteria até nossas mentes cansarem de repassar o mesmo assunto tantas vezes. Já era horário de almoço quando saímos do Mōfu Kōhī, meu estômago implorava por algo sólido e salgado. Ino me convidou para almoçar em sua casa, porém me preocupava deixar Sasuke só com o Ichiou por tanto tempo.

Passei na hospedaria, contudo não precisei nem entrar, a senhora que sempre ficava na entrada informou-me que Sasuke tinha saído com o Ichiou, tinham ido para o Distrito Uchiha. Desde que ele chegara, ainda não tinha ido para lá. Provavelmente, fora para organizar o local que ficara abandonado por semanas. Seria inocência minha esperar que ele tivesse feito almoço, ainda assim, eu estava com fome e nenhum pouco apetecida para chegar lá e comer enlatados. No caminho, pedi duas porções grandes de rámen no Ichiraku para viagem. O cheiro da carne de porco e os legumes derretendo no caldo fervente da comida me tentaram até chegar lá. Sorte minha que o caminho não era longo, embora afastado da vila. Quando pisei no hall de entrada, ainda era possível sentir a quentura vindo da sacola ao meu lado, economizaria tempo até nisso.

Bati duas vezes e a porta logo foi aberta pelo o Ichiou feliz da vida, desgrenhado, suado e sujo de poeira e terra. Controlei a minha vontade instintiva de gritar indagando o que acontecera com o meu filho somente por conta do sorriso que ele exibia de orelha a orelha.

— Okaerinasai — Ichiou exclamou me abraçando. — Estamos limpando tudo! Estava uma bagunça — gesticulava exageradamente.

Enquanto ele falava, eu observava a sala, a cozinha à esquerda e a larga porta de vidro que dava para o jardim no fundo da casa, onde Sasuke estava parado com uma vassoura de grama e Naruto chutava os montes folhas secas. Ichiou correu à minha frente anunciando minha chegada aos dois, quando cheguei ao jardim, Sasuke jogava a vassoura na direção do Naruto.

— Olá, Sakura-chan! — Cumprimentou-me Naruto se esquivando.

— O que estão fazendo? — perguntei em um tom de profundo interesse porque a cena toda era confusa.

— Limpando a casa.

— SASUKE NÃO QUER SE MEU NAKOUDO¹!

Disseram ao mesmo tempo, Naruto, claro, sobressaindo-se a voz do Sasuke.

— Mas para ser Nakoudo, tem que ser mais velho, ou estou enganada?

— Eu quero o Sasuke. — Cruzou os braços e fez bico. Ichiou o imitou.

— Esqueça — Sasuke respondeu.

— Você não pode fazer uma desfeita dessa comigo! — Naruto esbravejava. —Você foi o que mais me ajudou a ficar com a Hinata-chan!

— Não por escolha.

— Sakura, me ajuda, por favor — Naruto apelou para mim.

Fitei Sasuke me segurando para não rir, fiz minha melhor cara de pidona, mas ele bufou e cruzou os braços impaciente, dizendo:

— Limpa essa bagunça que você fez e cai fora da minha casa.

A expressão de Naruto mostrava o seu desapontamento real. Ichiou, alheio a tudo, imitava o “tio” e chutava os montes de folha seca que Sasuke tinha juntado. Sasuke corria, tentando contê-lo, e Naruto me fitava tristonho. Acenei com a cabeça para ele entrar, e assim ele me acompanhou para dentro.

— Está esfriando — comentei caminhando para a cozinha. — O inverno já está chegando, parece que esse ano virá mais cedo.

— Por isso quero casar logo — disse emburrado, sentando entediado na cadeira mais próxima enquanto eu desembrulhava nossa janta. — Isso é Ichiraku rámen? — perguntou com uma expressão completamente diferente da de segundos atrás. Assenti. — Você é demais, Sakura-chan! — Beijou minha bochecha. — Estava faminto. Sasuke não para de varrer desde que cheguei. Não me dá atenção, não importa o que eu faça.

— Atrapalhar o trabalho dele não é uma maneira muito inteligente de chamar sua atenção — alfinetei enquanto procurava os potes e hashi pelos armários. Para a minha surpresa, Sasuke havia mudado de lugar, e estavam bem melhor localizados do jeito dele, que tantas vezes eu repudiei.

Organizados por tamanho, tipo de material e frequência de uso. Uma lógica funcional que eu não seguia antes, mesmo ele me explicando. Para mim, o importante era o visual, a aparência simétrica do empilhamento dos utensílios. Isso parece algo fútil de reparar e comentar, mas me arrancou um sorriso, um sorriso meio amargo, mais amargo ainda ao perceber que sua geladeira tinha sido abastecida com uma pequena quantidade de alimentos frescos, e que de enlatados só havia pêssegos em calda.

Aquele pensamento orgulhoso de que ele não saberia se virar bem sem mim era uma grande ilusão. Sasuke virou-se sozinho desde pequeno, podia ter se desacostumado, porém sabia muito bem fazer com que as coisas funcionarem da sua maneira. A reação que ele teve nas primeiras semanas da nossa separação reforçou essa minha ideia de que ele era totalmente independente. Talvez, parcialmente, ele de fato fosse, mas nada que o tempo não resolvesse. Esse tempo de afastamento foi um tapa na cara de nós dois. Sentia que o conhecia e o entendia mais o observando daquele ângulo, afastada dele.

— Veio aqui só para convidá-lo? — Naruto sorriu aquele sorriso de quem gostaria de falar mais, mas não podia. — Não precisa me olhar assim, já entendi. Eu só acho que é uma perca de tempo pedir algo assim para o Sasuke.

— Eu pedi porque realmente achei que ele fosse aceitar.

— Acho que se você chamar o Iruka-sensei, ele ficaria muito feliz e aceitaria de prontidão.

— Verdade... O Iruka-sensei... — repetiu pensativo.

— Come. — Estendi um pote cheio de rámen ainda fumegando. — Vou chamar o Sasuke.

— Espera. — Segurou meu braço. — Ele ainda está arrumando a bagunça que fiz lá fora. Senta aí, vamos conversar.

Entendi o que ele queria. Queria falar sobre o que aconteceu no Distrito Hyuga, porém eu não estava a fim de fingir que já sabia, e por incrível que pareça, também pouco curiosa por conhecer uma versão dos fatos distinta da que a Ino me contara anteriormente. Mesmo assim, sentei e esperei-o falar. Suas bochechas ficaram avermelhadas, o que poucas vezes testemunhei, e então sua boca se abriu.

— Eu consegui, Sakura. Eu finalmente consegui. Vou me casar com a Hinata.

Seu sorriso era bobo, seu dedo contornava distraidamente as bordas do pote cheio de rámen esfriando, sua perna se movimentava sob a mesa em um tique ininterrupto.

— Você já sabia. Eu imaginei que soubesse. Mas queria que ouvisse isso de mim. Você é a primeira pessoa que escuta isso de mim. Sasuke e Shikamaru não contam, eles estavam lá — explicou.

Assim que ele disse isso, me senti culpada. Quem sabe se eu tivesse fingido direito? Talvez ele não demonstrasse tanta ansiedade.

— Sasuke não gostou muito — disse tristemente fitando a própria comida. — Pensei que ele ficaria mais feliz por mim. Poxa, ele é meu melhor amigo, sabe? Ele estava lá... Achei que vibraria tanto quanto eu.

— Ele sempre o alertou sobre a confusão que esse romance de vocês dois poderia dar, e tudo o que ele disse, aconteceu. Do mesmo jeito que eu também sempre disse para vocês tomarem cuidado. Não é que não queremos sua felicidade, só nos preocupamos demais com você.

— Mas Sakura, já deu tudo certo!

— Sim, deu. Mas poderia não ter dado nada certo. — Naruto abaixou a cabeça. — Eu não vou mentir, soube agora há pouco o que aconteceu...

— Sasuke não te contou? — Neguei. — Então quem foi?

— Bom, a pessoa me disse que uma das regras primordiais da fofoca é não revelar de onde veio a informação, então...

— Foi a Ino. — Naruto revirou os olhos. — Ela vive dizendo isso... Depois descubro quem contou para ela. Mesmo assim, te garanto que deu tudo certo.

— O que é “tudo certo” para você? — provoquei-o.

— Vou me casar com a Hinata — respondeu com a voz embolada, tinha colocado sua primeira porção de rámem na boca.

— E sua relação com os Hyuga?

— Vejamos... — Mastigava e ponderava mirando com os olhos diversos pontos do teto. — Hiashi não quer mais me matar nem cortar relações com a vila.

— Você terá uma boa relação com ele depois que casar-se com Hinata?

— Sim. Desde que faça isso o quanto antes.

— O quanto antes, eu soube que é uma semana.

— Sim. O que é que tem? — perguntou ainda entre uma porção e outra de macarrão.

— É muito pouco tempo para organizar um casamento. Você podia conversar com ele e com a Hinata para adiar alguns dias isso.

— E correr o risco dele achar que estou dando para trás com ele? Melhor não.

— É melhor do que fazer algo mal feito.

— O que tanto tem em um casamento que não dá para fazer em uma semana?

— Eu nem vou me arriscar a te perguntar o quanto você sabe sobre casamento.

— Tenho que comprar um hakama², alianças e mandar Shiakamaru arranjar um local e as comidas. A Ino arranja as flores, já que é uma linguaruda. — Voltou a comer.

— Naruto, me escuta pelo menos uma vez na vida: não dá tempo.

— Lógico que dá, quem não liberaria espaço e buffet para o hokage? — disse brincalhão, presunçosamente.

— Você sabia que a Hinata terá que trocar de roupa cinco vezes, e por estar grávida, os cinco trajes terão que ser encomendados? Não dá tempo de fazer cinco trajes em uma semana. E isso é o de menos!

— Mas precisa disso? — Naruto perguntou assustado.

— Em um casamento tradicional, sim. — Naruto abaixou o hashi, preocupado. — Não estou te desanimando, porém se Hiashi exige um casamento bem feito, nesse tempo recorde, será impossível.

— E o que eu devo fazer?

— Acredito que seria bom você e Hinata elaborarem uma lista de tudo o que precisam, e separarem o que não dá para fazer no tempo estipulado. Leve essa lista como argumento para adiar o casamento, pode convencer Hiashi dizendo que são coisas primordiais para a cerimônia. Se ele contestar, não insista, mas deixa claro que fará o que estiver ao se alcance.

— Não sei se funcionaria. Ele não quer mais me matar, mas parece que para querer de novo não precisa de muito.

— Você precisa tentar. Não falei com a Hinata, porém garanto que, sendo mulher como ela, eu gostaria que esse momento fosse especial, não algo conturbado, feito às pressas. É o momento de vocês. — Segurei a mão do Naruto. —Vocês acabaram de descobrir que serão pais...

— Eu nem tenho pensado muito nisso...

— Mas deveria. Esse bebê é muito mais importante do que uma cerimônia contratual. — Revirei os olhos.

— Tem razão. Eu deveria pensar mais nisso. Eu... Eu esqueço por alguns momentos que serei pai. Não sei te explicar. Eu só quero me livrar da influência do Hiashi sobre minha relação com a Hinata. Eu quero sair do trabalho sabendo que ela está lá me esperando e que poderemos comer juntos, conversar sobre o nosso dia e dormir abraçados, sem medo, sem pressa — dizia com o olhar distante. — Você não sabe o que é isso, não é, Sakura? — Neguei com a cabeça. — Eu sei que nos julgou. Sasuke também. Era errado, todos sabiam. Mas você já passou por isso? Uma vontade incontrolável de estar ao lado da pessoa e não poder? Se esconder, mentir, enganar, só para estar com alguém? — indagou-me com os olhos marejados. — Só quero que isso acabe de uma vez. — Respirou fundo, retirando sua mão debaixo da minha, e comendo o restante do rámem em silêncio.

Naruto tinha razão, eu não os entendia. Eu podia imaginar o que era viver aquela situação, o sofrimento, o perigo, a dúvida, a culpa... Contudo, jamais saberia o que era essa vontade desenfreada de amar e apenas amar. As barreiras entre Sasuke e eu foram colocadas propositalmente por ambas as partes. Se quiséssemos, com alguns passos estaríamos juntos, desimpedidos para viver a intensidade dos nossos sentimentos.

— Estou me sentindo culpado agora...

— Para, Naruto. Você não é culpado de nada.

— Mas meu filho...

— Calma, uma coisa de cada vez. — Acariciei seu cabelo. — Faz o que eu te disse, converse com a Hinata, façam a lista, mostrem para o Hiashi. Está tudo muito corrido. Não faz bem para nenhum de vocês dois. Três — corrigi-me contando com o bebê. — A Hinata também precisa de exames, vou falar com a Tsunade sobre isso.

— Obrigado, Sakura-chan.

Naruto afastou sua cadeira e me abraçou meio sem jeito, e eu o acomodei no meu ombro como pude, acariciado seus ásperos cabelos dourados. Eu não tinha certeza se meu conselho tinha sido o melhor, contudo sabia que ele e Hinata mereciam mais do que teriam. Se eu pudesse ajuda-los de alguma forma, faria o que estivesse ao meu alcance para que o dia fosse memorável para ambos.

Minha felicidade pelo Naruto poderia não estar visualmente explícita nas minhas expressões, mas estava viva no meu peito e dissolvida das lágrimas presas nas minhas córneas. Finalmente, finalmente, meu melhor amigo teria aquilo que sempre quis, o buraco que tapou com as amizades adquiridas ao longo dos anos. Naruto, em pouco tempo, teria uma família. A família Uzumaki: homem, mulher e filho. Por fim, seus sonhos estariam realizados, realizando também os meus.

Sasuke surgiu na sala com Ichiou, parecia cansado. Olhou na nossa direção, Naruto de costas para ele apoiado no meu ombro, eu lacrimejando a fitar Sasuke de volta. Sorri, ele me devolveu um aceno. Subiu para o andar de cima nos deixando em paz.

Depois de alguns minutos, lembrei o Naruto que tínhamos uma reunião marcada com os kages dali poucos minutos e precisávamos nos apressar para chegar a tempo. Ele foi na frente, já que tinha outras coisas para resolver antes da reunião, e eu fiquei de chegar lá acompanhada da Ino para evitar atrasos.

Subi para falar com o Sasuke e só ouvi barulho de água e a gritaria do Ichiou. Aquela parte da casa também havia sido limpa. Enquanto eu andava em direção ao barulho, não pude evitar notar que sobre o aparador de vidro no corredor Sasuke havia colocado fotografia antigas da sua família, fotos que eu não vira antes. Com seus pais, com seu irmão, uma só de Itachi com a farda da Anbu, a mesma que Sasuke usava nos dias atuais, e por fim, uma foto de Ichiou tirada ano passado, com os traços muito similares aos do próprio pai e aos de Itachi também.

Ponderei se eu poderia ficar chateada por não estar ali, contudo lembrei-me que raras foram as vezes que fomos fotografados juntos, eu sequer me lembrava da última vez. Geralmente, fotos assim são tiradas em eventos ou comemorações, e em ambas ocasiões, quase nunca Sasuke e eu estamos juntos. Consolei-me com a possibilidade de eu não estar sobre aquele aparador simplesmente porque Sasuke não tinha uma fotografia minha, o que me fez pensar também se teríamos uma oportunidade de mudar isso com uma foto em família, igual à que ele tinha da família Uchiha, Mikoto, Fugaku, Itachi e ele.

Reparei também na limpeza do corredor, que estava recém encerado, e o próprio aparador com o vidro lustrado. Perguntei-me como Sasuke conseguiu dar conta de tudo (incluindo Ichiou) nas poucas horas que fiquei em reunião com a Ino.

Cheguei ao meu antigo quarto. Nosso antigo quarto. Mudara apenas a arrumação da cama, mais simples, menos travesseiros e dobras. O criado mudo que eu usava, tinha apenas um abajur em cima. A penteadeira onde eu me arrumava estava com a madeira antiga lustrada, vazia senão pelos quadros, mais quadros, desta vez do Time 7, outro quadro tirado da nossa equipe no dia em que Naruto se tornou hokage, e mais um do Ichiou, ainda bebê, em seu berço dormindo.

Fui desperta pelo chuveiro sendo desligado, os gritos agudos e animados de Ichiou cessando. Quando dei por mim, Sasuke estava na porta da suíte, ainda pingando, com o Ichiou nu no seu colo. Sasuke mesmo estava com a toalha envolta do quadril, mas isso não mudava muita coisa já que a toalha estava bem curta e justa. Eu devo ter corado, como uma imbecil, porque gaguejei um pedido de desculpas e emendei o anuncio de uma nova saída para a reunião de kages. Ouvi, quando já descia as escadas, o pedido para eu espera-lo antes de ir.

Foram os cinco minutos mais longos da minha vida espera-lo se trocar e trocar também Ichiou. A vontade era de sumir dali. Há dois dias eu tinha visto bem mais do que aquilo, e tinha feito muito mais do que apenas visto aquilo, aí de repente fico tola, embasbacada com a visão de Sasuke saindo do banho, todo molhado, cabelo encharcado pingando água, coberto apenas por uma toalha minúscula. Se isso era possível, eu estava envergonhada por estar com vergonha dele. Encará-lo era uma das últimas coisas que eu queria fazer antes de uma reunião extremamente importante.

— Espera aí — disse descendo as escadas uns três degraus por vez. Ichiou veio atrás, apoiando-se no corrimão e pulando um por um. Sasuke e eu teríamos tempo até ele chegar ao fim da escadaria. — Vai demorar muito? — Indagou colocando as mãos nos bolsos da calça de moletom.

— Ahm... Eu não sei. — E de novo a vergonha voltara. — São negócios, não sei muito bem como funciona...

— Tudo bem. — Sasuke me cortou, para minha própria salvação. — Dá tempo de vir jantar aqui?

— Hoje? — indaguei meio perdida, meio incrédula.

— Sim.

— Aqui? — Um quase imperceptível sinal de irritação do Sasuke escapou como um suspiro só pelo nariz.

— Você quer ir para algum lugar? — sugeriu para a minha surpresa.

Sasuke evitava sair mais do que evitava as brincadeiras idiotas do Naruto. Era muito gentil da parte dele oferecer uma opção, mas eu sabia que ele não se sentiria bem, mesmo que a proposta me tentasse. Respondi que não, que jantar ali estaria perfeito, porém não tinha hora para chegar.

Quando Ichiou finalmente alcançou o último degrau e correu até mim indagando aonde eu iria, ouvi um “click” na minha cabeça e lembrei que era segunda-feira, Ichiou tinha creche e eu tinha certeza que avisara Sasuke para leva-lo.

— Quis passar mais tempo com ele — Sasuke respondeu quando eu indaguei.

À princípio, tudo bem, afinal Ichiou faltara a creche para ficar com o pai, e parecia estar se divertindo bastante. Contudo, pensando na imagem do Sasuke pós-banho e tudo o que poderia ter acontecido caso Ichiou não estivesse ali, comecei a ficar com raiva.

Antes de eu sair, Sasuke me surpreendeu de novo: deu um beijo tímido no meu maxilar. Tímido, demorado. Ele respirou ali e eriçou todos os pelos do meu corpo. Quando voltou à sua postura normal, me fitou com lascívia, mas não fez mais nada, nem eu. Estava inebriada com o cheiro fresco de sabonete que a pele dele alastrava.

— Boa reunião. — Disse abrindo a porta.

— Até mais — respondi ainda presa no mesmo olhar até a porta se fechar completamente.

.o0o.

— Sakura, aonde você estava com a cabeça?

Ino indagou-me furiosa assim que a reunião com os kages acabou. Já era mais de sete horas da noite. Todos estavam muito cansados. Havia muitas dúvidas a respeito da instalação desse projeto nas outras vilas, problemas de profissionalização. As outras nações não eram tão evoluídas na área da saúde quanto Konoha, isso era um impasse, afinal, não havia muitos profissionais nem para os atendimentos básicos, imagine especialistas em casos pontuais.

— Você não seguiu o que combinamos. — Ino me seguia, colada no meu calcanhar. Sua fúria era evidente pelas suas fortes passadas chocando-se com o assoalho de madeira do prédio do hokage.

— Só uma parte... — respondi sem prestar muita atenção. Queria muito chegar em casa. Eu estava abusando da boa vontade do Sasuke de cuidar do Ichiou no seu dia de folga.

— Só a parte principal — corrigiu-me indignada.

— Você sabe que eu tenho filho, Ino. Eu não posso ir para Suna.

— Eu também não poderia. Eu tenho um negócio aqui que administro com a minha família. Vou deixá-los na mão para seguir esse projeto, que à princípio foi ideia sua, e aí você me deixa na mão desse jeito? — dizia me encurralando nos corredores da Central.

Eu continuava caminhando rapidamente de volta para a casa do Sasuke. Não queria ter aquela discussão com Ino daquela forma e naquele momento.

— Esse projeto é nosso e a gente se sacrifica nos nossos limites. O meu limite é esse: não posso viajar para Suna. — Eu tentava explicar, mas Ino estava possessa.

— Eu e a Karin também não podemos viajar para todas as nações. Precisamos da sua ajuda, Sakura.

— Eu sinto muito, eu não posso ficar tanto tempo afastada do meu filho.

— O que aconteceu? — Colocou-se à minha frente obrigando-me a parar. — Você parecia tão decidida hoje de manhã sobre isso, tão certa sobre ceder mais ajuda para o mizukage, e agora vem com essa história de “o máximo que posso fazer é capacitar seus médicos para executar o trabalho”.

— Ino, deixa ela — Karin pediu gentilmente.

— Não, Karin, eu não deixo. Ela não foi honesta com a gente.

— Eu nunca garanti que ia. Nunca disse isso aos kages — tentei argumentar.

— Mas disse isso para mim, para Karin. Ou não podemos confiar no que diz?

— Ino, agora chega. Eu entenderia seus motivos se você não quisesse ir, acho que o mínimo que você pode fazer é respeitar os meus.

— Eu não respeito porque sei que você só quer ficar por causa do Sasuke. Se fosse pelo o Ichiou, desde o início ele seria sua desculpa.

— E se fosse pelo Sasuke, Ino? Qual o problema?

— O problema é que você é uma estúpida! Uma mulher estúpida! — Se exaltava. — Sabe que ele foi um merda com você e novamente vai se submeter as vontades dele.

— Eu vou fingir que nunca disse isso, okay? — virei as costas para ir embora, tentando ao máximo controlar meu impulso de responde-la, de justificar minha atitude, de provar que ela estava errada, mas como disse, aquela não era a hora nem o local.

— Você vai acabar voltando com ele...

— E se eu voltar, Ino? E se eu quiser que dê certo? E se eu quiser tentar mais uma vez? Qual o problema? — Encarei-a. Não conseguiria ignorá-la por mais tempo.

— O problema é que ninguém muda de um dia para o outro! O Sasuke não vai mudar! Vai acontecer tudo de novo!

— Isso não será um problema seu!

— É problema meu quando envolve a minha melhor amiga — disse chorando. — Acha que eu gostaria de vê-la do mesmo jeito que estava nos últimos meses? Acabada por causa de um homem? Você me motivou quando surgiu com sua ideia brilhante para as crianças, você me deu um novo objetivo de vida, você me colocou de volta na sua vida, agora, só porque ele voltou, você desfaz o nosso combinado, decide não ir mais com a gente para as outras vilas, quer nos deixar na mão...´

— Ino, é melhor vocês conversarem em outro lugar. — Karin tentou acalmá-la. Ao nosso redor, já havia alguns jounins de guarda, prontos para interferir a qualquer momento. Ouvimos o som de grandes portas se abrindo. Sabíamos que era da sala de reunião onde estávamos, os kages vinham em nossa direção, Naruto à frente.

— Está tudo bem aqui? — indagou preocupado ao ver Ino com o rosto vermelho de raiva e choro.

Ela limpou as lágrimas, ainda me fitando furiosa, e assentiu para o Naruto.

— Gomen nasai — desculpou-se com uma demorada reverência aos kages, em seguida, saiu, sendo seguida pela Karin que sustentava uma expressão preocupada.

— Imagino que seja sobre a viagem — a tsuchikage arriscou. Não pude mentir. Pelo meu olhar passivo ela soube que sim.

— Se quiser entrar novamente para conversarmos... — o mizukage propôs gentilmente.

— Por favor, vemos isso outro dia. Estou faminto — disse Darui passando por todos eles e seguindo para a saída.

— Vou conversar com Ino e darei uma resposta definitiva para vocês o quanto antes — garanti-lhes.

— Fica tranquila, estaremos aqui mais uma semana até o casamento do Naruto. — O mizukage deu um amigável tapinha nas costas do Naruto, que sem graça, sorriu amarelo e coçou a cabeça. Isso também era sinal de nervoso, já que eu o convencera a adiar um pouco a data. Se isso acontecesse, talvez nem todos os kages pudessem prolongar a estadia na vila.

Quando todos nós saímos do prédio, deixando apenas Naruto para trás, cada um seguiu para um lado, provavelmente para a hospedaria onde estavam, ou para o restaurante mais próximo atrás de janta. Perto da saída, pude ver Gaara conversando com Ino, ela só assentia. De repente, eles seguiram para o caminho do centro da vila, eu, que gostaria muito de estar no lugar de Gaara trocando uma palavra com a minha amiga, segui para o lado oposto, sentido ao Distrito Uchiha. A excitação pelo jantar inédito com o Sasuke havia esfriado.

.o0o.

Chegando pela segunda vez no dia no hall de entrada, bati na porta e esperei-o abri-la para mim. Notei que ele havia deslocando alguns vasos de planta para aquela varanda, e que trocara as lâmpadas também, de modo que a fachada de madeira da casa estava iluminada, revelando o estilo rústico da construção, as marcas do tempo nas tábuas de carvalho do oriente.

Ele me atendeu com uma camiseta preta de gola alta e uma bermuda offwhite, o que automaticamente me lembrou de como ele se vestia na infância, quando estávamos na academia. Era estranho também porque estava frio, porém entrando na casa percebi que estava bem quente e aconchegante, ele ligara a lareira. Ichiou dormia no tapete com uma das almofadas do sofá e uma sobre o seu corpo.

— Se eu o levasse lá para cima, ele iria acordar — Sasuke explicou quando notou que eu reparava o menino adormecido.

— Acho que ele está confortável assim — concordei sorrindo. — A casa está bem aquecida — comentei tirando o meu casaco e deixando sobre o sofá.

Sasuke voltou para a cozinha e eu o segui reparando novamente nas outras coisas da casa, na limpeza completa que ele fez milagrosamente em apenas um dia. Puxei uma das cadeiras da ponta e sentei. Não ofereci ajuda por pura preguiça, embora quisesse e devesse oferecer. Sasuke devia estar exausto do mesmo jeito que eu estava.

Ele estava na pia, de costas para mim, com a coluna curvada sobre a pia baixa demais para a sua estatura. Observei novamente suas roupas, tão parecidas com as do Sasuke de oito anos da academia. Talvez na arrumação ele tenha encontrado essas peças, pois nos últimos anos Sasuke usa calças e camisas predominantemente. Ou talvez, ele estivesse mudando (também) o seu jeito de se vestir, o que era estranho para aquela época do ano, mas compreensivo dado o fato de que ele iria sair da Anbu e não teria mais que ponderar sobre suas vestimentas como uma extensão do seu uniforme.

Esse pensamento me fez lembrar da reunião com os kages e da discussão com a Ino novamente, o que me deixou sombria a absorta. Eu esperava que Gaara estivesse a fazendo bem, e jurava para mim mesma que não me chatearia se ela estivesse profanando o meu nome para o kage. Eu merecia, sabia que merecia, pois fui desonesta com ela.

— Como foi a reunião?

Antes que eu percebesse, Sasuke já distribuía as travessas de comida na mesa, assim como os talheres e copos.

— Não muito bem. — Uma garrafa de sake foi posta a trinta centímetros de mim, mal pude segurar a risada ou um olhar incrédulo para o Sasuke.

— O que é isso? — indaguei ainda desacreditada.

— Sake — respondeu sentando-se na cadeira adjacente a minha, da lateral da mesa.

Pelo seu sorriso torto, ele sabia que não era essa resposta que eu queria, mas deixei passar. Me servi com três guioza com recheio de porco, salada de batata e harumaki.

— O que deu errado? — perguntou-me enquanto comíamos.

— Eu decidi não ir para Suna com a Ino. Ela ficou muito chateada porque um dos objetivos dessa reunião era afirmar quem viajaria e quando viajaria. Na hora eu não consegui afirmar nada... Ela ficou possessa comigo.

— Por que não quer ir mais?

— Eu quero ir, mas pensei sobre o que você me disse hoje de manhã. Sobre sair da Anbu para poder ter mais tempo para nós. Eu não sei explicar... Acho que seria muito egoísta se realmente colocasse o projeto acima de tudo. Estou muito empolgada, pois está dando certo e os kages acreditam na gente, entretanto a ideia de ficar semanas longe do Ichiou me entristece. Ele está crescendo tão rápido... Eu quero estar ao lado dele. Já ficamos separados por muito tempo esse ano e só eu sei o quanto isso me fez mal.

Quando eu parei de falar, Sasuke abaixou o olhar e deixou os hashi de lado.

— O que foi? — Ele não me respondeu, ficou me observando até eu ser a primeira a desviar o olhar. — Eu não queria tocar no assunto, mas como você perguntou...

— Você precisa ir. — Me interrompeu com o mesmo olhar penetrante. A guioza presa no meu hashi, pronta para ir para a minha boca, caiu de volta no prato e sujou-me de molho shoyo.

— Que saco — exclamei me levantando.

— Vamos lá para cima. Deve ter algo que caiba em você.

Sasuke foi na frente, subindo três degraus por vez, e eu o seguindo tentando minimizar o estrado na minha blusa clara. Quando cheguei no quarto, ele já estava revirando as gavetas.

— Não precisa se preocupar, não manchou muito.

— Toma. — Estendeu-me uma das suas camisetas mais velhas, cinza e um pouco decotada. Peguei e observei a peça que ele amava vestir.

— Isso vai ficar enorme. Vou parecer ridícula — brinquei.

— Não posso concordar — Sasuke respondeu para a minha surpresa.

Ficamos muito tempo nos encarando: eu, envergonhada, provavelmente; ele com os lábios entreabertos ensaiando um sorriso. Sasuke fitava meus lábios descaradamente, e eu os dele. Porém não estávamos próximos o suficiente para fazer com que um beijo acontecesse de forma natural.

— Vou te esperar lá embaixo.

— Okay.

E saiu.

Demorei mais tempo do que o necessário para vestir a maldita camiseta, imaginando o que fazer. Ter me sujado foi uma maneira muito boa de fugir daquele assunto de forma desproposital. Ter um pseudo jantar romântico com o Sasuke era uma daquelas oportunidades da vida que eu tinha que aproveitar e ver no que dava. Ele se esforçara, cozinhara e organizara a casa toda. Estava sendo atencioso e cordial comigo. Estava dando tudo muito certo. Falar sobre a nossa relação, mesmo que o jantar fosse algo benéfico para o nosso relacionamento (que àquela altura eu já não sabia mais o que era), era dar um tiro no pé, pois sempre terminava em discussão.

Quando desci, reparei que Ichiou ainda dormia tranquilamente, e Sasuke retirava as travessas da mesa. Deixou apenas meu prato com a guioza afogada no molho shoyo e a garrafa e sake no mesmo lugar com os copos de dose envolta. Sentei no mesmo lugar e Sasuke me observou com o sorriso que só eu conhecia. Chamei ele para se sentar, disse que o ajudaria a arrumar a bagunça da janta; ele recusou, mas veio ficar ao meu lado. Sentou-se relaxado, as pernas aberta, o tecido da bermuda justa esticado nas suas coxas, os braços expostos.

— Você não é muito de beber — comecei.

— Nem você — retrucou, sorrindo.

— Por que comprou?

— Achei que gostaria de algo diferente — mentiu.

Ou ele queria me deixar bêbada, exatamente como eu estava no dia da recepção dos kages, ou ele mesmo que queria ficar embriagado para ter coragem de fazer qualquer coisa comigo.

Ambos sabíamos que estávamos numa situação estranha, que tínhamos uma energia muito grande emergente em nós, que precisávamos pôr os pingos nos is, entretanto, nós dois mal nos movíamos. A bebida poderia nos ajudar.

— Quer falar sobre a reunião? — Neguei com a cabeça. — Eu acho que deveria ir. Vai ser importante para você e para sua carreira. Eu cuido do Ichiou até você voltar.

— Vamos fazer um jogo? — perguntei o ignorando.

De verdade, eu não queria falar de trabalho ou problemas com ele. Me alegrava muito saber que ele me apoiaria, e eu estava disposta a aceitar sua proposta, mas naquele momento eu só queria falar sobre nós, e quem sabe, resolver nossa situação de uma vez por todas.

Sasuke me olhou confuso, ajeitou a postura, e ficou me observando abrir a garrafa e servir os copinho de dose.

— Não é nada demais — garanti. — Karin que ensinou para a Ino e para mim. Só que temos que adaptar as regras.

— Que regras?

— Karin contava algum vexame pelo qual passou, depois tomava uma dose de sake; em seguida, cada uma de nós repetíamos, contando um caso de vergonha alheia e bebendo uma dose em cima da revelação. — Sorri me lembrando, e também com medo de Ino estar naquele momento falando mal de mim para Gaara e revelando meus maiores vexames da vida.

— Qual o objetivo disso?

— Desabafar — respondi. — Mas vamos adaptar. Eu acho que você nunca passou vergonha na vida. — Esperei ele me contrariar, mas como esperado, ele não o fez. — Sério mesmo? Você nunca passou vergonha na vida? — Sasuke olhou para o lado, pensativo, abriu a boca duas vezes, mas desistiu no meio do caminho. — Pode falar! Qualquer coisa. E bebe essa dose depois.

— Só consigo me lembrar de quando você entrou no restaurante e...

— Verdade, você ficou vermelho como um tomate! — Ri como uma atriz tão boa quanto a Hanabi.

Era claro que aquela lembrança, para mim, não era engraçada. Para o Sasuke também não, já que ele considera um vexame. Só que eu precisava fingir que era divertido, pois não queria que o clima ficasse estranho por não ser uma boa lembrança.

Sasuke bebeu o shot fazendo uma careta muito engraçada que tirou um riso meu de verdade. Me perguntava o quão desacostumado com aquilo ele estava. Depois que casamos, e principalmente depois do nascimento do Ichiou, era raro ver Sasuke bebendo destilados.

— Sua vez. — Bateu o copo de vidro vazio na tábua da mesa.

— Vejamos... — Diferente do Sasuke, meu estoque de vexames era muito maior. Selecionar só um era difícil. Filtrei as vergonhas da minha vida por alguma que ele tivesse presenciado. — Acho que foi no dia em que o Naruto viro hokage, naquela hora que o Kakashi abraçou nós três e disse que tudo estava encaminhado, só faltava você me pedir em casamento. — Sasuke riu pelo nariz.

— Eu também fiquei com vergonha — assumiu.

— Pensei que tivesse ficado com raiva dele... — comentei surpresa.

— Toma o seu — desconversou me estendendo o copinho cheio.

Senti o líquido descendo por minha garganta, queimando-me por dentro como lava. Tive uma leve ânsia, meus olhos lacrimejaram. Sasuke observou-me com um riso contido até eu me estabilizar.

— Entendeu como funciona? — Sasuke concordou com a cabeça. — Nossa versão da brincadeira é falar dos nossos sentimentos.

— Sentimentos?

— Sim, eu sei que você tem — brinquei.

— O que quer saber? É só perguntar.

— Eu sei. Mas se brincarmos será mais divertido. — Ele deu os ombros. — Eu começo: — Enchi novamente os dois copinhos. — Eu queria que você conversasse mais comigo... Eu fico muito magoada quando você chega em casa, toma banho, come e dorme e mal olha para mim. Acho que é isso. Queria que você fosse mais comunicativo. — Bebi todo o líquido sentindo menos impacto do que na primeira vez.

Nessa rodada, não houve risos meus ou dele. Sasuke me olhava sério, absorvendo o que eu disse. Ele entendera a proposta, isso era bom. Queria saber se ele entraria no meu jogo também.

— Sua vez — incitei.

— Não gosto quando você duvida dos meus sentimentos. Eu posso conversar mais, porém falar do que eu sinto sempre vai ser uma dificuldade. — Fez uma pausa e me fitou antes de continuar. — Talvez, hoje você seja a pessoa que mais me conhece e mais deveria me entender. — E bebeu.

— Eu queria que você fosse mais presente. Que saísse mais comigo, me acompanhasse nos eventos... Não gosto de estar sempre sozinha nos lugares. — Bebi.

— Você nos compara com outras pessoas. Isso me enfurece. Há coisas que não podemos mudar. Eu posso te trazer flores, mas não vou fazer demonstrações públicas de afeto. — Naquele terceiro shot, ele não fez mais careta.

— Eu não quero carinho somente nas, se me permite dizer, raras vezes que fazemos amor. Não precisam ser demonstrações públicas de afeto. Um beijo de bom dia, de boa noite, quando chegar ou quando sair, não faria seus lábios caírem da boca. — Bebi mais uma vez já sentindo meu rosto quente.

— Não gosto que fale dos nossos problemas para outras pessoas que não sabem nada sobre a gente. — Bebeu.

— Não gosto quando sai completamente molhado do chuveiro e respinga água por toda a casa. — Pela primeira vez, rimos pelo nariz.

— Não gosto das suas roupas curtas.

— Quanto a isso não posso fazer nada.

— A proposta do jogo era só falar o que penso.

— Minhas roupas não são tão curtas.

— Aquele vestido listrado estava curto — referiu-se ao vestido que usei na recepção dos kages que batia no joelho.

— Bebe. — Ele bebeu. — Gostaria que você assumisse que sente ciúmes de mim.

— Já disse que não gosto que me pressione sobre...

— É só repetir.

— Eu tenho ciúmes de você — repetiu entediado.

— Eu também tenho de você. — Pisquei. Ele sorriu sacana, do mesmo jeito que sorriu lá em cima quando me entregou a camiseta. — Bastante.

— Não gosto da sua falta de confiança. — Bebeu.

— O que quer dizer?

— O jeito como você se sente sobre você mesma em relação a outras mulheres.

— Eu já melhorei muito, tá.

— Eu sei. Seu cabelo está bonito inclusive.

E ele já estava bêbado. As bochechas branquelas já estavam rosadas e ele piscava lentamente,

— Eu gostaria que me dissesse mais vezes que estou bonita. — bebi a penúltima dose da garrafa.

Sasuke bebeu a última dose antes de falar. Debruçou-se desajeitadamente sobre a mesa, aproximando-se de mim, e disse num sussurro:

— Eu queria que soubesse que você é a mulher mais bonita que já vi, que nenhuma mulher me atrai mais do que você. E também que você está me deixando louco vestida nessa camiseta sem sutiã por baixo.

Era exatamente o que precisávamos.

As cadeiras se afastaram no mesmo instante com ruídos. Sasuke apagou a luz da cozinha com o cotovelo, enquanto me beijava, e me guiava em direção às escadas. Uma rápida espiada no Ichiou: dormia tranquilamente. Chegando afobados no pé da escada, Sasuke me ergue e me joga sobre seus ombros como um saco de batatas. Sobe as escada, agora, uns cinco degraus por vez, e só atende meu pedido para me soltar quando já estamos no quarto, e só me solta em cima da sua (nossa) cama.

Eu o observo ofegante, vermelho, com um raro sorriso descarado que deve refletir no meu próprio. Ele tirou a própria camisa, desabotoou o short e o abaixou: estava nu. Antes que eu tivesse reação, Sasuke debruçou-se sobre mim e levantou a camiseta que me emprestara, se livrando em seguida de todos os panos que me cobriam.

Desde o início, eu queria que aquela noite terminasse daquele jeito, mas além disso, eu queria uma definição, uma resposta, uma solução. Precisei interromper os deliciosos beijos para saber:

— Sasuke, o que nós somos agora?

— O que você quiser — respondeu acariciando meus cabelos.

— Eu quero uma família com você.

— Já somos uma família. — Me beijou. — Amanhã buscamos suas coisas na hospedaria...

— Eu não quero voltar para cá — neguei.

— Por quê?

— Estive pesquisando casas para comprar mais próximas do centro da vila, com vizinhança, parque, escolas e comércios envolta. Eu quero viver em um lugar assim.

— E o que quer que eu faça? Essa é a nossa casa. Esse é o Distrito do meu clã, não posso sair daqui.

— Eu sei, eu entendo! — me explicava. O que eu menos queria era um mal entendido em um momento daquele. — Mas eu quero criar o Ichiou em um lugar com crianças, com cor. Sei pela sua cara que odiou a ideia, só que é algo em que eu tenho pensado muito.

— Mas eu, não.

— O que acha de irmos revezando? Você dorme um dia lá na hospedaria e eu durmo um dia aqui. Ou uma semana em cada lugar. Poderia funcionar!

— Isso seria igual...

— Namorados — completei. — Eu sei. E, se quer saber, acho que seria uma boa ideia.

— Você acha? — indagou absorto novamente no meu corpo, como se sua parte libidinosa tivesse sido ligada do nada.

— Acho — respondi entre suspiros quando ele abocanhou meu peito.

— Vou pensar mais sobre isso enquanto você estiver viajando — respondeu com a voz embargada.

— Obrigada, Sasuke. Muito obrigada...

Qualquer diálogo depois disso seria incompreensível entre nosso gemidos e sussurros. Mesmo bêbado e cansados, ficamos horas acordados até eu dormir por desconforto e exaustão. Elencar a melhor noite com Sasuke era difícil, contudo aquela experiência, dois bêbados em reconciliação, poderia ser elencada como uma das melhores da vida. Uma das melhores de muitas que viriam com a nossa volta.

¹ convidado de honra, geralmente uma das pessoas responsáveis pela união do casal.

² quimono preto usado pelo noivo.

Notas finais
Espero que tenham gostado! ♥ Divulgue a fanfic para a amiga que tá na ressaca de SasuSaku, mulher! Faz eu ficar famosa, como a xDebora18 falou ontem! shaushauuas Beijos!