Pilares de Areia
30 If you could find a reason, a reason to stay
Notas iniciais
As temperaturas já estavam baixíssimas há dias, porém quando o inverno chegou, despencaram mais ainda. Eu estava mantendo Ichiou agasalhado com pelo menos três calças e três blusas para ele aguentar o caminho até a creche. Desde bem novinho, ele sempre teve a saúde pulmonar frágil, o inverno era uma estação que todos os anos testava a sua saúde.
O singelo jardim na casa do Distrito Uchiha morreu, a sacada da hospedaria há muito não era aberta para receber as visitas repentinas de Sasuke, todos os edifícios de Konoha pareciam terem se vestido com grossos casacos brancos de neve e as casas de banho, o Ichiraku Lámen e o Mōfu Kōhī não poderiam estar lucrando mais com o volume de clientes em busca de calor.
Hinata estava quase tendo um colapso, com medo de que uma nevasca estragasse o grande dia, porém, geograficamente falando, seria difícil Konoha alcançar temperaturas tão baixas a ponto de tornar o casamente ao ar livre impossível.
Quando o grande dia chegou, deixei Ichiou sob os cuidados de Sasuke para ajudar Ino, Hanabi e Tenten com os últimos detalhes da cerimônia. Passamos a manhã trabalhando, tanto na decoração quanto no bem-estar de Temari que jurava não aguentar a gravidez nem mais um dia sequer. Eu apostava que a criança seria prematura, mas para isso ainda faltava um mês e meio. Hinata estava menos enjoada nos últimos dias, em contrapartida, estava mais emotiva. Tivemos que mostrar a decoração algumas horas antes da cerimônia começar e dos convidados chegarem porque temíamos que ela chorasse só de ver os lindos ornamentos de flores, plantas e objetos brilhantes que decoravam o local. Era melhor chorar antes, e assim ela fez. Esperávamos que ela chorasse somente por estar casando, quando deixamos todo o resto não ser novidade.
Ino estava afobada com os preparativos. Sendo a que mais entendia do assunto, ela nos liderou do início ao fim. Tenten e eu praticamente não dávamos palpites, Hanabi que às vezes faltava ataca-la quando discordava de alguma proposta. Era uma relação de amor e ódio cansativa de se ver, mas às vezes engraçada.
Uma hora antes dos convidados chegarem, nós quatro fomos para uma das cabanas do Distrito Hyuga, onde o casamento aconteceria nos jardins. Karin chegou pouco depois e se juntou a nós. Nos ajudamos, conversamos, rimos e bebemos um pouco para relaxar. Estava um clima muito agradável até ouvirmos batidas à porta. Hanabi atendeu:
— É para você, Sakura — disse com um ar aborrecido.
Saí para ver quem era, já sabendo que era o Sasuke. Ele só tinha ido para me informar que chegara, que arrumou Ichiou da melhor maneira que pode, mas preferia que eu desse a palavra final. Prometi que logo me juntaria a ele e aos outros convidados. Como não tinha ninguém por perto, cochichou elogios e provocações no meu ouvido, em seguida eu dei um selinho rápido em seus lábios. Quando fui abrir a porta da cabana para entrar e terminar de me arrumar, ouvi um estrondo de várias coisas pesadas caindo do chão. Coloquei a cabeça para dentro pela fresta da porta e vi as quatro meninas, Ino, Tenten, Hanabi e Karin caídas uma por cima da outra.
— O que aconteceu? — perguntei assustada, entrando na ponta dos pés para não pisar em nenhuma parte do corpo delas.
— O que aconteceu? Eu que pergunto — Ino ergueu-se do chão toda desajeitada e vermelha. — Caiu na fraqueza da carne. Vimos você toda amorzinho com o Uchiha lá fora. — Apontava para a porta como se ela fosse a culpada.
— Na verdade, quem viu foi Hanabi, que contou para gente — Tenten se defendeu. Hanabi ainda estava no chão com um bico enorme e não refutou a acusação.
— Que fraqueza é essa, Sakura? Tudo bem que ele é lindo de morrer, contudo você está na fase do menosprezo, tem que pisar no macho até ele dizer chega — Ino discursava fazendo pose, batendo palmas e gesticulando como se o fato de eu estar mais íntima do Sasuke fosse uma afronta à humanidade.
— Não é fraqueza. Eu queria que ele mudasse, e ele provou que mudou. Não vejo motivos para continuar desprezando ele — comentei calmamente caminhando em direção à penteadeira e revirando minha bolsa atrás dos brincos.
— Ele deve estar sendo gentil com você só para conseguir sua...
— Hanabi! — Karin, Tenten e eu gritamos juntas para impedir que ela terminasse de falar suas profanidades.
— Ah! Seja sincera! Até eu que não entendo muito dessas coisas sei que quando um cara sussurra coisas no ouvido da moça e ela dá aquele sorrisinho de safada que você deu, que meu byakugan bem viu, só pode estar falando sacanagem.
— Hey — reclamei envergonhada.
— E se estiver? Eles ainda são um casal, têm filho juntos, não é novidade que os dois tenham intimidade para isso — Tente retrucou me defendendo. Num canto mais afastado do cômodo, pude ver Karin dando risadinhas sem graças, parecia bem incomodada com o assunto.
— Sério que vocês estão debatendo minha vida íntima? — perguntei bem-humorada, mas dando o gancho para encerrar o tema da conversa.
— Estamos nos preocupando com o seu futuro, Testuda. — Ino de aproximou de mim. — Que garantia você tem que o Sasuke não vai voltar a ser aquele embuste de antes quando vocês voltarem?
— Ele não vai... — tentei convencê-la.
— Como você... — Ino se interrompeu. Fitou um ponto qualquer no quarto, olhou para mim de novo, depois voltou-se para as meninas que a observavam atentamente. — Pergunto ou não pergunto, meninas? — indagou para elas.
— Pergunta — Tenten respondeu rindo.
— Melhor não... — Karin se manifestou.
— Para quê? Tá óbvio que-
— Sakura, você dormiu com o Sasuke na fase “menospreze o macho”? — perguntou na lata.
Todas as garotas estavam me fitando, ansiosa pela resposta que eu não queria dar. Era muito pessoal e eu seria muito julgada, porém o meu silêncio já foi considerado um sim. Tenten e Hanabi caíram na gargalhada. Hanabi, literalmente. Mal tinha se levantado do chão e se jogou de novo. Karin riu também, mas mais da cara da Ino de inconformada. Ino parecia uma mãe dando bronca na filha, no caso eu. Estava com as duas mãos na cintura e o pé batendo freneticamente no assoalho de madeira. Se investisse mais um pouco de força poderia abrir um buraco ali.
— Se me disser que foi só uma vez, eu te livro de um sermão porque a carne é mesmo fraca, eu mesmo que o diga com aquele Gaara. NÃO CONTEM PARA NINGUÉM — falou apontando o dedo para as meninas.
— Eu acho que uma vez é perdoável — Hanabi disse — Afinal, é o Sasuke. O cara pode ser o traste que a Ino fala, porém é irresistível.
— Hanabi, se controla! — Karin bronqueou-a.
— Para de fazer a santa que Ino me contou que você também já se derreteu pelo dito cujo.
— Isso foi há muito tempo — defendeu-se. — E ela também é outra que é cheia de julgar a Sakura, mas já saiu nos tapas com ela pelo “embuste” que ela chama hoje.
Ino, que me encarava decepcionada, deu um giro de 360º que o rabo de cavalo quase ricocheteou no meu rosto como um chicote:
— Eu pelo menos já superei esse meu passado de chave-de-cadeia, agora só aceito homens nível hokage, querida. Fale-me sobre você. — Cruzou os braços encarando Karin que apenas revirou os olhos.
— Gente, isso tudo está muito engraçado, porém temos um casamento rolando, e você estão falando do pai do meu filho, não posso fingir que não estou ouvindo...
— Verdade, meninas. A Hinata não ia gostar de ver briga hoje.
— Eu sou irmã dela e adoraria — Hababi comentou dando um generoso gole na bebida alcoólica que compartilhávamos.
— Todas estão prontas? — perguntei, e elas assentiram. — Então vamos.
.o0o.
O casamento de Naruto e Hinata foi uma das coisas mais lindas que pude presenciar na vida.
Tudo ocorreu como esperávamos: perfeitamente. A neve tinha dado trégua há pelo menos dois dias de modo que as flores resistiram mais tempo à geada, o espaço da cerimônia, sobre a grama, pode ser forrado por um extenso tatame de bambu que permaneceu enxuto durante todo o dia. Ainda estava frio, porém suportável para aguentarmos horas no relento. As comidas ainda chegavam quentes aos convidados e os músicos tocavam com uma energia contagiante.
Por todo canto, os comentários que se ouvia eram sobre a beleza extraordinária de Hinata, sobre como ela era a noiva mais linda que já tinham testemunhado, como eram um casal abençoado por terem um ao outro e também sobre os filhos perfeitos que teriam — poucos sabiam que em breve já teriam um. A decoração e organização também foi muito elogiada, o que encheu Ino de orgulho e futuros serviços para no mínimo meia dúzia de noivas que foram lhe falar.
Sasuke, que era uma das pessoas mais antissociais da turma, demonstrava estar bastante confortável ali, entrando em rodas de conversa com os meninos da Academia, Kiba, Shino, Lee, Chouji, Shikamaru, entre outros. Vez ou outra, seus olhos me procuravam através do jardim repleto de pessoas menos atentas que eu. Poucas foram as vezes que ficamos próximos um do outro durante a cerimônia, porém eu sentia o tempo todo, a cada rito, a cada risada e tintilar de taças, que nossos pensamentos estavam interligados.
Naruto e Hinata não se fixaram em nenhum canto específico. Esta última agradeceu com exageradas reverências a equipe de meninas que a ajudou durante toda a organização, Naruto trocou um toque de mão comigo e prometeu ajudar no meu. Novamente, um comentário infeliz que engoli seco. Sasuke e eu não nos casaríamos. Poderíamos voltar a viver como casados, porém não casaríamos. A ideia de uma cerimônia daquela com Sasuke e eu como protagonistas já não era algo que minha mente conseguia reproduzir.
Com os noivos ocupados em dar atenção para todos os convidados e com grande parte dos nossos amigos bêbados, muitos foram embora, e a festa que duraria até o pôr-do-sol, acabou de prolongando até tarde da noite, dentro de uma das choupanas do clã Hyuga, com som, o resto das comidas, bebidas e os convidados mais próximos.
Algo que Naruto e Hinata decidiram que eu achei extremamente atencioso foi o fato de não terem deixado a cerimônia mais cedo para a lua de mel. Naruto contou-nos que não queria deixar a festa por uma mera tradição, afinal, não tinha pressa para ficar com a pessoa com quem viveria o resto de sua vida.
Essa foi a brecha para o Sasuke, pela segunda vez no dia, fazer comentários impróprios no meu ouvido.
— Eu tenho pressa — disse em contraste com o discurso do Naruto.
Como eu não respondi nada, nem com voz, nem com gesto, Sasuke continuou:
— Quantas peças de roupa terei que tirar de você? — sussurrou mais próximo ao meu ouvido, o que me deu calafrios por toda a espinha.
Estávamos em uma sala ampla, porém cheia de gente, um semicírculo entorno dos recém-casados cujos olhos poderia facilmente migrar para nós dois. Sasuke era discreto normalmente, porém tinha bebido bastante shochu¹. Estava atrás de mim, bem colado ao meu corpo, com a cabeça abaixada na altura do meu pescoço para sussurrar as provocações que me desfocavam de tudo.
— Acredito que umas quatro — respondi entrando no seu jogo sujo.
— Ainda acho que terei menos trabalho do que o Naruto.
— Eu não posso concordar com você em relação a isso visto que você parece estar mais bêbado do que ele.
— E mais sedento também — disse passando os braços em torno da minha cintura, o que me surpreendeu tanto que não tive reação.
— Opa! Parece que temos mais um casal se formando hoje! — Temari gritou como uma gralha, puxando um coro de risada, balançando sua barriga enorme.
Novamente, uma ocasião que deixou minhas bochechas vermelhas de vergonha. Esperava que Sasuke se afastasse por conta da atenção indevida que recebíamos, porém ele permaneceu imóvel com os braços ao redor do meu quadril e o queixo apoiado no topo da minha cabeça, aparentemente indiferente aos olhares para nós.
— Esses dois aí são uma novela — disse Ino com um tom de superioridade dando um gole da sua bebida.
Eu quis me vingar falando do seu pseudo romance com Gaara, contudo a sensatez que Ren tanto dizia que me faltava veio à tona naquela hora. Veio para mim mesmo, passou longe da Hanabi:
— Já que é para falar de “casal novela”, explica para a gente você e o Gaara.
Entretanto, a reação ao comentário da versão bêbada de Hanabi mais chocou do que provocou riso. Ino parecia ter perdido o sangue do corpo, Gaara tinha a mesma expressão sem expressão, e o restante das pessoas do cômodo os fitava curiosos.
— Estamos nos conhecendo — Gaara falou olhando para Ino que o fitou de volta ainda sem cor no rosto.
— Se conheçam bastante porque o Gaara precisa mesmo arranjar alguém. Já estava preocupada com essa solteirice — Temari comentou divertidamente, relaxando a atmosfera pesada que Hanabi causou sem intenção.
Era o jeito dela, espontâneo e afiada, porém a maioria dos comentários ácidos não eram de todo maldosos. Ino, contudo, parecia ter ficado furiosa. Com exceção de Temari, Hinata e eu, as meninas estavam com certa porcentagem de álcool no corpo, era esperado que mais cedo ou mais tarde algum comentário pessoal saisse. Além de amizade, existia a rivalidade comum entre as meninas.
Gaara e Ino saíram da festa sem dizer adeus. Sai foi logo em seguida, parecia agitado. Embora demonstrasse pouco seus sentimentos, os meses de convívio com ele me ajudaram a decifrá-lo um pouco, o que era suficiente para eu saber que a revelação do romance entre Gaara e Ino havia mexido com ele. Eu não via muita diferença de personalidade entre Sai e Gaara, em questão de entusiasmo, e para mim, uma pessoa tão enérgica como a Ino ficar com um ou com outro era igual seis e meia dúzia. Contudo, mesmo que Ino não tenha conversado comigo a respeito disso, eu imaginava que ela quisesse manter sigilo para evitar pré-julgamentos indevidos a seu respeito, como ela ter preferido o Gaara, um kage, ao Sai, um Anbu. Eu a conhecia e sabia que não era nada disso. A forma como ela olhava para Gaara na festa de recepção era olhar de paixão, não de ambição e cobiça pelo status e respeito que ele suporta.
Quando Ichiou finalmente se cansou de pular e correr o dia todo, decidi ir embora. Sasuke estava para lá da embriaguez e ninguém, nem eu, estava o reconhecendo dando risada e trocando beijos no rosto com um Naruto tão bêbado quanto. Era o casamento do seu melhor amigo. Eu não sabia mensurar o tamanho da felicidade que Sasuke devia sentir por ele, um amigo que se tornou problemático depois de adulto com romances secretos e atiçador de guerra civil. “Deu tudo certo no fim”, Sasuke disse inúmeras vezes desde que saiu de perto de mim para se pendurar nos ombros do amigo que mal se aguentava em pé.
Hinata foi se deitar também antes de eu sair, Temari e eu a acompanhamos para o seu quarto de solteira. Ela disse que ainda ficaria na casa do pai porque a casa dela ainda não estava completamente decorada e mobilhada, que assim que estivesse pronta, se mudaria.
Antes de eu ir, Sasuke e Naruto me cercaram. Ichiou resmungava agarrado no meu quadril, aborrecido, pedindo desesperadamente para irmos embora para casa.
— Sakura-chan... Se você me ama, fica — Naruto exigia com todo o seu drama. — Você é uma das pessoas...
— Nem começa com a pregação — o interrompi. — Sóbrio já é insuportável, imagina nesse estado.
— Deixa ele falar. Ele vai falar. Espera. Vai. Fala, cacete — Sasuke dizia todo desorientado para o Naruto.
— Veja bem — o louro tentava e explicar fazendo gestos. — É meu casamento.
— Sim.
— Vocês são os meus melhores amigos.
— Sim — afirmei novamente.
— Minha esposa foi dormir, eu vou ficar aqui sozinho. Eu vou chorar.
— Você deveria dormir também — aconselhei.
— Eu não quero dormir sozinho.
— Você quer dormir com quem? — perguntei já começando a rir só de imaginar a resposta.
— Sozinho, não quero — disse de novo.
— Ele quer dormir em casa. Pode? — Sasuke indagou impaciente.
— É a sua casa. Se você quiser, ele pode. Eu vou para a hospedaria com o Ichiou.
— Não! — Naruto exclamou. — Para com isso, Sakura-chan. Você é muito chata, puta que pariu. — Coçou a cabeça.
— Ele dorme no sofá — disse Sasuke.
— E você dorme com ele. Sucesso! — Naruto jogou os braços para cima e quase caiu levando o Sasuke junto.
Ao vê-los naquela situação, eu não pude dar as costas. Ambos iam acordar destruídos no dia seguinte, fora que eu tinha medo deles voltarem de madrugada sozinhos para casa e caírem no meio do caminho, amanhecerem na rua. Sasuke provavelmente nunca tinha bebido tanto na vida, era com ele que eu mais me preocupava. Já era mal-humorado normalmente, numa manhã de ressaca devia ser simplesmente intragável.
Fomos os três para o Distrito Uchiha. Ichiou, adormecido sobre meus ombros, os dois bêbados, abraçados apoiando um ao outro. Chegando em casa, foram direto para a geladeira atrás de bebida, como não tinha, começaram a cozinhar coisas com os ingredientes que encontravam e ficaram nessa brincadeira até altas horas da madrugada. Não acompanhei nada porque estava cansada e sóbria demais para as bobagens dos dois. Ainda achava estranho Naruto não ter ficado no Distrito Hyuga com a Hinata, mas pelo o que ela tinha explicado, os dois só ficariam juntos dentro da própria casa.
Dormi ignorando a baderna que acontecia no andar debaixo. No dia seguinte, quando acordei, desci as escadas e encontrei Naruto adormecido sobre o tapete da sala e Sasuke com metade do corpo no sofá, metade no chão. Saí de fininho com o Ichiou daquela bagunça antes que os dois acordassem e me usassem como enfermeira ou me implorassem por um ninjutsu médico curador de ressaca.
Dias depois, sem mais motivos para adiar a viagem, Gaara reuniu os estudantes de medicina, seu irmão e conselheiro, Kankurou, e Karin, Ino e eu para irmos para Suna. Estávamos em dez pessoas, cinco não shinobis, então prevíamos que a viagem que para nós durava cerca de dois a três dias, talvez durasse de quatro a cinco para respeitar os limites físicos dos estudantes. Temari viria conosco também, mas como estava se queixando muito de desconfortos por causa da gravidez, Shizune aconselhou-a a evitar uma viagem tão longa e exaustiva. Ela já estava conformada em dar à luz para seu filho com Shikamaru em Konoha mesmo.
Karin foi convidada a ir para Suna primeiro para nos ajudar a instruir os médicos que já haviam lá, em seguida, ela voltaria para Konoha e de lá iria para a outra aldeia tocar a parte dela sozinha.
Despedir-me de Sasuke e Ichiou foi um dos principais desafios dessa missão. Eu estava partindo ainda com o sentimento de que não deveria deixa-los, sabendo que seria bom para mim, para minha carreira, para o meu projeto, contudo me sentindo presa àqueles dois, incapaz de ficar muito distante. Tivemos que mentir para o Ichiou, disse que fui passear com a Ino e a Karin e já voltava. Ele entendeu porque sabia que “já voltava” era algo que significava pouco tempo, mas não era esse o caso. Seriam semanas longe.
Sasuke não me acompanhou até os portões da vila e não pude convencê-lo de fazê-lo. Imaginei que fez isso parte por Ichiou, parte por si mesmo. Estivemos separados por muito tempo, porém nos víamos ocasionalmente e sabíamos onde encontrar um ao outro se quiséssemos. Aquela situação era inédita, eu ir para uma vila tão distante.
Ele se despediu de mim na cozinha, enquanto eu cortava frutas para o Ichiou antes de ir. Abraçou-me por trás e afundou o rosto nos meus cabelos. Ficamos assim por muitos minutos, até eu pedir para sair senão iria me atrasar. Sasuke ainda me prendeu alguns minutos mexendo nos meus cabelos, no meu rosto, nas minhas mãos. Não nos beijamos, apenas ficamos ali. Durante a viagem eu não deixei de pensar um minuto sequer que deveria tê-lo levado para o quarto à força e me despedido como queria.
Eu estivera em Suna anos atrás e pouco me lembrava do percurso exaustivo. Fiquei praticamente tão cansada quanto os estagiários. Isso podia ser por conta do meu sedentarismo, afinal eu não treinava nem saía em missões há um tempo, só estudava e trabalhava no hospital. Pensei isso durante todo o trajeto que, como Gaara assertivamente supôs, durou quatro dias e meio. Quando eu retornasse, gostaria de voltar a treinar pesado, quem sabe até treinar com Sasuke, Naruto e Ichiou. Antes de ser médica, eu era uma kunoichi, afinal.
Quando chegamos em Suna, fomos extremamente bem recebidos. Depois que Gaara assumiu o posto de kazekage, foi sequestrado pela Akatsuki e salvo por equipes de shinobi de Konoha, o que tornou a relação entre as duas vilas bem amistosa, talvez a mais amigável dentre a Nação já que isso só intensificou quando Naruto também se tornou kage.
Os familiares e amigos dos estagiários estavam à espera deles no salão da Central de Suna com flores, presentes e cestas de comida. Karin, Ino e eu também fomos bem recepcionadas por agentes. Elas nos serviram com água e frutas frescas, nos levaram para uma hospedaria muito próxima à Central, onde disponibilizaram quartos separados. Tiramos o dia para descanso, eu mais do que Ino e Karin, que vieram me acordar depois de eu dormir dez horas seguidas. Já eram dez horas na noite e Gaara nos convidara para a ceia na central.
O assunto foi a longa viagem, a estadia do kage em Konoha e o casamento do Naruto. Gaara, sempre taciturno, se mostrou bastante sociável e falante, vez ou outra voltando-se para nós, forasteiras, pedindo nossa opinião sobre algo ou perguntando coisas banais sobre o tema da conversa. Ino estava radiante, tinha o mesmo primeiro olhar para o Gaara que tinha antes.
Ino foi ao banheiro pouco antes de irmos embora e não retornou mais. Não fazia muito tempo, tanto que Karin e eu estávamos dispostas a esperar e quem sabe até ir ver se ela estava bem, porém uma das agentes de Gaara nos disponibilizou disse para irmos para hotel que a outra moça acompanharia Ino para lá ou para o hospital, caso nossas suspeitas se confirmassem. Uma vez convencida, fomos. Como estávamos em quartos separados, não tinha como eu ver quando ela iria chegar, então fiquei de hora em hora indo bater na sua porta para saber se ela estava ali. Preocupada, fiz isso até umas três da manhã, quando Karin saiu do seu quarto, de pijama e sonolenta, e me chamou para dentro.
— A Ino não chegou ainda — expliquei entrando no seu quarto. — Ela deve ter passado mal com a comida diferente, deve estar no hospital, precisamos ir vê-la. Ela não conhece ninguém aqui além de nós duas.
— Ela conhece o Gaara — Karin disse calmamente abrindo espaço na cama de casal enorme em que estava dormindo.
— Eles podem estar se conhecendo, mas não acho que o Gaara passe a noite no hospital com ela — ponderei me deitando no espaço vazio. A cama era mesmo enorme. Dava para umas três pessoas magras dormirem ali confortavelmente.
— Sakura, não seja ingênua — Karin disse com um sorriso entediado e ao mesmo tempo zombeteiro. — Gaara está passando a noite com Ino, e tenho quase certeza que não é no hospital.
Eu não era ingênua, nem me fazia, mas a ideia de Ino e Gaara juntos daquela maneira me parecia inconcebível.
— Por que a surpresa? São adultos, solteiros...
— M-mas é tão recente... — pensei comigo mesma, logo em seguida refutando meu julgamento, afinal eu tinha sido pedida em casamento do nada, no meio da rua, e praticamente no dia seguinte já estava morando com o Sasuke.
— Eu espero que dure — Karin me fitou com um olhar sonhador. — Não o amor, a paixão. O amor se transforma com o tempo, mas a paixão... Nossa, é incrível. É incrível vive-la, não só desejá-la.
Sabia que aquele sorriso mascarava o olhar triste dela para todo mundo, mas não para mim. Eu estava tempo o suficiente com Karin para saber quando ela mentia para si mesma, e também quando fazia referências aos sentimentos pelos Sasuke.
— Karin, eu tenho que te perguntar isso...
— Se eu ainda amo o Sasuke? — Ela chutou antes que eu falasse.
— Você ainda o ama? — fiz a pergunta mesmo assim. Precisava que ela ouvisse a minha voz perguntando isso.
— Não vou mentir... Eu não sei, Sakura. Me desculpa, só que eu não sei. — Engoli um seco. — Isso não quer dizer que eu queira atrapalhar o relacionamento de vocês dois de alguma forma, que eu vá tentar algo, que eu desejo o mal para você...
— Eu nunca pensei isso — disse sinceramente.
— É complicado para mim vê-lo com você, ao mesmo tempo é reconfortante porque ele está claramente mais feliz do que nunca esteve. Talvez, se fosse eu no seu lugar, tudo fosse diferente... para pior.
— Jamais saberíamos, Karin. Talvez ele estivesse melhor com você.
— Não, pode crer que não — reafirmou rindo. — A história de vocês é mais antiga do que qualquer conexão que eu tenha tido com ele. Sasuke parece ter se guardado para ti. Nunca vi sequer olhar para uma mulher que não fosse inimiga ou aliada, e o olhar para estas é estritamente estratégico. Ele nunca se dirigiu a mim para algo além da utilização dos meus poderes. Como esperar felicidade de alguém que me vê como um cão farejador? — riu. — Não... Ele jamais me amaria. Eu não seria feliz com ele, nem ele comigo. Vocês estão com quem deveriam estar. Estão ligados pela Akai Ito² — disse sorrindo, encostando a ponta do seu dedo indicador no meu. — Meu fio está embaraçado, mas sinto que logo vou achar a outra ponta. Só preciso esperar.
— Eu também acho — disse me sentindo mais leve depois daquela conversa.
Dormimos tranquilamente, esperando que Ino também estivesse tendo uma boa noite de sono seja lá em que cama ou com quem estivesse. Teríamos muito trabalho pela frente naquela vila para ficarmos de vigília toda a noite.
.o0o.
Sasuke e eu trocávamos mensagens por meio de Garuda, sua invocação de Gavião. Ele ensinou-me, ainda quando estávamos na vila, como recepcioná-lo e enviá-lo de volta, aos poucos a ave familiarizou-se comigo e com a frequência das mensagens. As minhas, enormes, as de Sasuke, não mais que algumas linhas.
A primeira que recebi de volta foi depois do ano novo:
Dia 4:
“Que bom que chegou bem.
Ichiou e eu passamos o ano novo na casa do Naruto e da Hinata.
A vila está entregando casas prontas para venda. Tenho pesquisado.
Tirei férias da Anbu para ficar tempo integral com Ichiou. — US”
Sempre direto, objetivo, em contraste comigo, sempre tão carente.
No começo, a espera pelos bilhetes era tão agonizante quanto gostosa. Abri-lo e ler aquelas linhas, aquelas escassas linhas, era meu prazer do dia. Prazer que eu repetia inúmeras vezes para sanar a falta e a vontade de tê-los perto de mim.
Dia 15:
“Sasuke,
Espero que esteja tudo bem por aí. Aqui, as coisas ainda estão desorganizadas, pouco do que prevíamos antes de vir foi a realidade que encontramos, mas não foi de todo ruim.
Pretendo acelerar as coisas para terminar minha contribuição em no máximo duas semanas e poder voltar para vocês. Cheguei há pouco e já não suporto dormir sozinha. Me conte mais sobre vocês, sobre o que têm feito.
Como que é a casa do Naruto? E como são essas casas da vila? Veja se alguma tem quintal e jardim. Planejo financiar um cantinho para mim quando voltar para Konoha. Gaara está sendo extremamente generoso com a nossa recompensa.
Por falar nele, o romance com Ino é real, contudo ainda não sei quando vão assumir publicamente. Espero que logo. Ino está apaixonada.
Mande uma resposta rápido! Não suporto a ansiedade.
Com amor, Sakura.”
.o0o.
Como imaginávamos, e como afirmei para o Sasuke, o trabalho foi grande.
Desde Konoha, tínhamos um planejamento pronto para cada semana que passaríamos, mas tratando-se de outra vila, outros médicos e outros pacientes, a história é outra. Pouco aproveitamos da organização feita anteriormente.
Os primeiros dias de trabalho foram mais de conhecimentos e exploração do ambiente onde teríamos que trabalhar e a equipe que teríamos. Pelas falas da Temari, do Gaara e dos próprios estagiários, eu esperava uma equipe médica menos preparada, a única barreira que encontrei foi desatualização. Os médicos ali eram filhos, sobrinhos ou netos de médicos, os conhecimentos eram repassados de boca a boca, de geração para geração. Não havia uma formação oficial dos médicos. Os que se tornavam, na maioria das vezes, era por experiência e prática.
Isso era ruim, mas não queria dizer necessariamente que os médicos eram ruins. Os métodos naturais e antigos eram eficazes, contudo agiam mais devagar ou não funcionavam sempre como o esperado. A estrutura do hospital também não ajudava, contudo não parecia incomodar os médicos. Em um dos relatórios que entregamos ao Gaara, além da sugestão de criar um projeto oficial para formação de enfermeiros e médicos em Suna, acrescentamos o investimento nos hospitais, pois não adiantava ter a melhor equipe quando as ferramentas de trabalho são precárias.
Gaara mostrou-se tão engajado quanto a isso que praticamente todos os apontamentos que fazíamos, ele acatava. Na nossa terceira semana em Suna, os planejamentos que ele fez já estavam instalados e em funcionamento. Isso ia do projeto de instrução dos profissionais à compra de equipamentos modernos e essenciais para o hospital. Todos os funcionários, inclusive aqueles que não cuidavam dos pacientes, recepcionistas e equipe de limpeza, por exemplo, tinham aulas específicas para otimizar o seu trabalho.
Ino cuidou das aulas para essas pessoas, cortesia, postura, termos médicos e seus significados para saberem explicar se fossem questionadas por alguém, e até mesmo psicologia, que era o forte da Ino, para lidar com certas situações corriqueiras em hospitais.
Karin e eu revezávamos aulas de manhã e tarde para os enfermeiros e médicos passando o geral que achávamos que eles deveriam rever a partir das nossas observações durante os primeiros dias no Hospital de Suna. Encontrávamos dificuldades com alguns médicos mais velhos relutantes em se atualizar, porém a grande maioria, principalmente os mais jovens, viam as aulas como um incentivo a continuar, pois não mostrávamos coisas atuais apenas por serem atuais, mas porque facilitavam tanto a vida dos médicos quanto a dos pacientes. Aos poucos, todos foram percebendo isso a aceitando sem relutância.
Quando não estávamos dando aula, estávamos trabalhando nas crianças órfãs, cobaias do Orochimaru. Elas ainda seguiam os padrões que percebemos nas outras, contudo eram mais inquietas e irritadiças. Demoramos quase um mês para perceber que era o clima da Suna que os aborrecia, pois quase não se comunicavam conosco. Quanto a isso, mudamos o local onde eles ficavam para quartos mais arejados e trocamos a roupa de hospital por regatas e shorts frescos para aliviar o desconforto que sentiam. Com isso, em poucos dias, pudemos notar melhoras o suficiente para darmos continuidade à pesquisa e instrução daqueles que ficariam no nosso lugar.
Como eu já mencionei, boa parte do que planejamos precisou ser planejado de novo partindo das circunstâncias atuais da vila, e entre essas mudanças, inclui-se o tempo de estadia. Karin já deveria ter partido para Iwagakure há dias, e eu ter ido com ela, pois é caminho para Konoha, mas tudo foi adiado.
Dia 32:
“Não gosto do Gaara.
Há casas de todos os tipos.
O dente do Ichiou está mole. Posso tirar?
Volte logo. – US”
.o.o.o.
Dia 39:
“Sasuke,
Não vejo muitos progressos por aqui. Temo ficar bem mais tempo do que o estimado. Conversei com Gaara a respeito da minha estadia, ele pediu cordialmente para entregarmos um serviço completo e eficiente, pois ele decidiu nos ajudar também com os órfãos. Um favor por um favor. Temos que um mês se transforme em dois, três, quatro... Vou te atualizando.
Você podia escrever mais. Sei que você não é um comunicador nato, mas cartas são conversas mudas. Não vou te achar tagarela se escrever mais linhas.
Deixe o dente de Ichiou cair sozinho. Você pode traumatiza-lo se arrancar o dente antes da hora e doer demais. Ele vai ficar com medo quando cair os outros. Se cair antes de eu voltar, mande-me o dente por Garuda, seria possível? Assim eu teria um pedacinho do meu menino comigo. Uma parte da infância dele que não pude acompanhar...
A distância é realmente um remédio. Não sei como suportei tanto tempo longe de você por livre e espontânea vontade. Algumas semanas e eu já estou subindo pelas paredes. Sinto muito a sua falta, Sasuke-kun... Espero que eu esteja errada e volte o quanto antes.
Sua, Sakura.”
.o.o.o.
Dia 45:
“Já arranquei o dente. Ele chorou.
Não foi esse o combinado. Você tinha data para voltar.
Não precisa de dinheiro, já temos o bastante. Apenas volte. – US”
.o0o.
Enquanto Karin e eu estávamos aflitas pela incerteza de quando poderíamos ir embora com certeza de que o trabalho estava feito, Ino parecia já fazer parte do local. Se adaptara tão rápido que às vezes eu tinha até inveja. As pessoas de locais que frequentávamos diariamente, como padaria, restaurante, farmácia e cafeteria já a chamavam pelo nome e a cumprimentavam na rua se a reconhecessem. Já Karin e eu só ouvíamos “sensei”. Eu, às vezes, era chamada de “pupila da Tsunade”, por causa da vez que desenvenenei Kankurou. Foi como fiquei reconhecida na região. Ino, não, enraizou em Suna como erva daninha e parecia não ter vontade de voltar para Konoha.
Em uma das raras tarde em que coincidiu de estarmos livres, fomos para uma cafeteria. Eu estava angustiada por não receber uma carta de Sasuke há dias, além da saudade dele e de Ichiou, e Karin não via a hora de poder ir para um lugar “onde as roupas brancas permanecem brancas o dia inteiro”.
Arrisquei fazer a pergunta premiada:
— Você e Gaara estão mesmo namorando? — perguntei após ela descrever um dos jantares que ela teve com ele e seu irmão, jantar para o qual somente ela foi convidada.
— Como ele já disse, lá em Konoha, estamos nos conhecendo — respondeu de forma sucinta fingindo concentração em adoçar o seu café.
— Você dorme por lá, no mínimo, uns três dias por semana... Não sei o que mais falta ele conhecer para te assumir — Karin comentou fazendo Ino bater com força o talher em cima da mesa e chamar a atenção de todos do estabelecimento para nós.
— Vocês têm me vigiado? — Karin e eu não respondemos, porém estávamos sim observando Ino desde que pisamos os pés em Suna, cuja primeira noite ela já não dormiu no hotel. Nossos quartos eram separados, mas um adjacente ao outro. O de Ino ficavam entre o meu e o da Karin, de modo que nós duas escutávamos o barulho da porta sendo trancada e destrancada para as saídas ou visitas noturnas da Yamanaka. Mesmo inconscientemente espionando nossa amiga, não assumimos nada. — Isso não é da conta de vocês — vociferou.
— Talvez não seja, mas somos suas amigas, você poderia confiar na gente para dizer o que está acontecendo — insisti.
— Para zombarem de mim? Para me criticarem como todo mundo faz ou vai fazer quando souberem?
— Se acha que farei isso, você não deve me conhecer — rebati magoada. Ela podia esperar isso da Karin, que de fato era uma analista cruel de conduta, mas de mim, não.
— Acham que é fácil para ele sair por aí dizendo que sou sua namorada? Uma estrangeira? — indagou-nos com sussurros. Sussurros raivosos.
— Se é fácil estar com você, é fácil te assumir — Karin insistiu. — Não me importo que fique brava comigo. Nem precisa acreditar no que eu estou dizendo. Para mim, nenhum homem é confiável até colocar um anel no nosso dedo — sentenciou batendo a xícara vazia em cima da mesa, por cima da nota de dinheiro, sua parte da conta.
Saiu ignorando meus chamados, magoada, afinal se preocupava com Ino há tempos e a loura só lhe atira pedras.
— Ela está brava? Pois que fique — disse após eu confirmar com a cabeça. — Nunca viveu o que eu estou vivendo, não consegue me entender, só julgar. Não preciso disso agora.
— Quem bom que Karin não está aqui para ouvir você dizer algo tão atroz...
— Sakura, eu estou feliz! Finalmente encontrei alguém que eu amo de verdade, e que também me ama! — explicou com lágrimas nos olhos.
— E eu estou feliz por você. Ela também está. Mas não deixamos de nos preocupar. Você acha que pode ficar brava com a gente por nos preocuparmos com você?
— Acho, pois não vejo necessidade.
— Tudo bem. De mim, não escutará nenhum comentário a respeito do seu relacionamento com o Gaara. Nem para o mal, nem para o bem.
— Honestamente, prefiro assim — concordou com minha proposta.
E assim foram os dias seguintes àquele café, absolutamente nenhum comentário sobre suas fugas noturnas da hospedaria, sobre seus jantares foras que duravam a noite toda, sobre as marcas no seu corpo, seu sono durante o dia, seu conto de fadas adolescente vivido tarde demais.
Gaara era bom para ela, disso eu não tinha dúvida. O que me preocupava eram questões burocráticas que poderiam ser um obstáculo para os dois. Ino ficaria arrasada caso Gaara a dispensasse por diplomacia. Porém, como ela era teimosa e orgulhosa, se isso acontecesse, ela sofreria sozinha e sem ajuda, como foi sua vontade.
.o0o.
Minha saudade de Konoha era tangível, insuportável, às vezes eu pensava. Eu sonhava com meus amigos, com Sasuke e Ichiou, sonhava com os parques da vila, com os festivais, a comida, as frutas frescas... Minha mente reproduzia aquilo que eu mais queria: voltar para casa.
As cartas sucintas de Sasuke eram desanimadoras às vezes, em outras, quando meu me sentia sozinha e ansiosa, eram tudo o que eu tinha. A espera por elas passou a ser a maior das minhas preocupações ali.
Dia 51:
“Sasuke,
Agradeço por enviar o dentinho do Ichiou. Mal acreditei quando vi. Chorei tudo o que segurei desde que cheguei neste lugar. Diga a ele que o amo e que não vejo a hora de vê-lo novamente. Jamais me afastarei dele por tanto tempo.
A distância de casa parece estar me deixando doente. Tive alguns episódios de pressão baixa nos últimos dias, mas nada alarmante. O calor está fazendo mal para as crianças cobaias, deve estar fazendo para mim também.
Sobre o dinheiro, você pode ter herdado uma generosa herança de todos os membros mortos da sua família, mas eu só me viro com o fruto do meu trabalho e pretendo continuar assim.
Esse dinheiro vai me ajudar a comprar o terreno para construir o hospital infantil em Konoha, quanto mais eu tiver, mais fácil será de construir.
Ainda não tenho previsão de retorno, sinto muito. Karin está atrasada para se encontrar com a Tsuchikage há dias, talvez quando ela for liberada eu vá com ela para não voltar sozinhas para Konoha. Não acredito que Ino queria voltar tão cedo para a vila, se adaptou muito bem aqui, diferente de Karin e eu.
Imagino que esteja bravo pela demora, mas prometo compensá-lo quando eu voltar.
Sinto sua falta. – Sakura.”
.o.o.o.
Dia 57:
“Não estou bravo.
Ichiou foi aprovado em todas as disciplinas da creche. Começa mês que vem na nova escola. Já escreve frases inteiras.
Cuide-se. – US.”
.o.o.o.
Como eu ainda não tinha enviado uma resposta ao Sasuke, quando um pássaro pousou na minha janela eu estranhei, achei até que fosse engano, mas havia uma mensagem presa em sua perninha e ele se recusava a ir embora. Quando abri, dei de cara com uma mensagem em letras garrafais e borradas, por um momento pensei que fosse Ichiou, depois vi que só poderia ser o Naruto.
Dia 59:
“SAKURA-CHAN!
UM ANÔNIMO INVESTIU NO SEU PROJETO, DOOU UMA ÁREA DO TAMANHO DE SEIS ARENAS DAQUELAS IGUAIS A PROVA CHUNNIN.
AVISA A INO E A KARIN.
QUANDO VOLTAREM, SÓ ESCOLHEREM A DATA DA CONSTRUÇÃO.
O PROJETO ESTÁ MAIS DO QUE APROVADO, DATTEBAYO!
— Uzumaki Naruto, Nanadaime Kazekage, pupilo de Jiraya, membro do Time 7 de Hatake Kakashi, recordista do Ichiraku Lámen.
Eu ainda não estava crente que alguém pudesse ter feito algo assim por mim e por Ino, por um projeto incerto. Para mim parecia mais uma brincadeira de mal gosto do Naruto, talvez até ideia do Sasuke para me deixar ansiosa e fazer com que eu volte logo para a vila. Eu nem sequer sabia se havia uma área tão ampla na vila para construção. Konoha crescia em um ritmo assombroso, casa metro quadrado já estava comprometido para construções futuristas, prédios, estabelecimentos etc.
Por estar cética, não compartilhei a informação com as meninas, nem respondi a carta de Sasuke e Naruto. Fiquei focada na recuperação dos últimos “garotos Shin” que não estavam reagindo bem aos testes psicológicos, embora o físico estivesse adequado para cada IMC.
Gaara e Kankurou verbalizaram sua satisfação com nossa evolução mais de uma vez. Respeitavam nosso envolvimento na área da saúde e nos incluía em reuniões decisivas sobre os novos investimentos para a área.
Quando completou sessenta dias, todos os garotos cobaias estavam bem e entrosados com os outros garotos do orfanato de Suna. A mudança física e emocional era assombrosamente visível. Os funcionários do hospital não paravam de comparar as crianças alegres com os zumbis que chegaram lá.
Como último favor, Gaara pediu para eu ajudar sua equipe a desenvolver as fórmulas das vacinas de varíola, pois uma epidemia havia acontecido há poucos meses e ele queria evitar um novo surto.
Aceitei, afinal, Sasuke, Naruto ou qualquer outra pessoa não me mandavam cartas se eu não mandasse. Fiz o teste, não enviei nenhuma, e nem notícias minhas para o Kazekage pediram. No fundo, eu sabia que Sasuke era taciturno e objetivo, porém ele poderia se esforçar uma vez que eu passei dois meses ansiosa por notícias dele e do meu filho, e tudo o que recebi foram algumas linhas e um dente. Ainda estava doente de saudades do meu filho, e do Sasuke também, mas não daria o braço a torcer. Só teriam notícias minhas se pedissem.
Eu aceitei o trabalho que Gaara agregou, mas Karin recusou. Já tinha recebido 4 cartas da Tsuchikage cobrando sua presença lá, prometida há semanas. Não pedi para ela ficar para irmos juntas, eu não tinha esse direito. O caminho era longo, mas por mim já era conhecido. Conseguiria viajar tranquilamente sozinha por todo o percurso. Ino não iria comigo porque seu “contrato” com Gaara era por tempo indefinido, como eu já esperava, e ele parecia fazer de tudo para prolongar isso, dando mais e mais trabalhos para a garota que os aceitava dando saltos de alegria. Às vezes, desconfiava que ela não voltasse mesmo mais para a vila, para sua Floricultura, sua família. Se assim que seria, que ela pelo menos fosse feliz.
Karin partiu num sábado, eu parti no outro. Continuava com a moleza no corpo, a falta de apetite, o mal-estar, porém parti em viagem sem reclamar de nada, do contrário, me deixariam internada no hospital até eu estar cem por cento para viajar. Eu tinha essa consciência de que estava com as forças limitadas, o clima do lugar simplesmente acabou comigo, contudo que acreditava que se eu me policiasse, poderia ser uma viagem tranquila.
Em um ponto do deserto, Garuda veio até mim. Havia umas quatro horas que eu caminhava, estava cansada para continuar correndo na areia. Ele me alcançou, pousou no meu braço tirando um pouco de sangue quando suas garras prenderam na minha carne em busca de um apoio. Dei um grito contido de dor, contido para não o assustar e o retirei o papel da sua perna.
“Mande notícias. – US”
— Mais direto, impossível — reclamei comigo mesma. — “Estou a caminho” — escrevi de volta no verso do bilhete e dispensei a ave que machucara meu braço esquerdo. Esperava que suas garras não estivessem tão sujas, pois se estivessem, logo uma infecção tomaria conta das minhas feridas.
Peguei uma tira de gaze se enrolei em torno do antebraço esquerdo para estancar o sangue e fechar a ferida, talvez retardasse ou até impedisse a infecção. Em seguida, continuei andando por mais algumas horas. Meu objetivo era acampar na floresta, o deserto era muito perigoso.
Alcancei a floresta à noite, já no País do Rio que dividia o País do Fogo e o País do Vento. Já estivera ali antes, sabia que devia haver uma pousada perto, mas não sabia que caminho seguir. Continuei caminhando sem pausa até sentir que estava sendo seguida.
Eu vinha com essa sensação há horas, porém analisava os arredores e não encontrava nada nem ninguém, e então continuava a andar. Porém a sensação tornara-se algo tangível. O som de galhos e folhas secas se partindo era real e cada vez mais próximo. Parei e me atentei aos sons, sacando uma kunai em cada mão para me defender de qualquer coisa. Quando a primeira sombra tomou forma, notei que era um cachorro selvagem, tão nocivos quanto lobos. Provavelmente tinha me encontrado por causa do cheiro de sangue da ferida que Garuda fizera no meu braço, ou apenas me escutou adentrar a floresta. O que me preocupava não era apenas um cachorro selvagem, se um eu até poderia dar conta, o problema era que esse animal anda em matilha, e dependendo do tamanho dessa matilha, eu poderia estar condenada.
Aos poucos, mais sons e mais sombras foram de revelando e eu me vi cercada por esses animais que rosnavam e latiam alto a cada simples movimento que eu fazia. Eu não tinha ainda um plano, mas se me atacassem, eu abriria fendas e crateras no chão para atrasá-los ou afugentá-los tempo o suficiente para eu encontrar abrigo. Contudo, antes que qualquer um avançasse em mim, uma sombra diferente surgiu dentre as árvores. Um homem. Não pude distingui-lo melhor. Ele tinha em mãos um arco e algumas flechas. Não demorou para mirar a primeira em mim. Esquivei-me de todas que conseguia, pois para onde eu corria, os cães me cercavam. Todas as kunai lançadas em direção ao inimigo acabavam enterradas na carne de um dos animais que se sacrificavam por ele.
Uma das flechas riscou de vermelho meu ombro, um corte simples, contudo, para meu assombramento, começou a sangrar como se tivesse pegado uma artéria, o que não era verdade. Logo percebi que as flechas continham veneno nas pontas. Logo minha força começou a sumir. Aos poucos, minhas pernas foram cedendo, a visão ficando turva, minhas costas descendo pelo tronco da árvore que estava atrás de mim. Incapaz de me esquivar, senti outra fecha atingir meu ombro esquerdo.
A última coisa que eu me lembrava de ter visto antes de desmaiar eram as sombras do homem misterioso se aproximando com seus cães. O resto, era um vazio.
Shochu¹: um dos destilados típicos do Japão.
Akai Ito²: fio vermelho invisível que une as pessoas que estão predestinadas a ficar juntas
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