Pilares de Areia

5 I'm just a silouhette, a lifeless face that you'll soon forget


Notas iniciais
Título: "Sou apenas uma silhueta, um rosto sem vida que você irá esquecer logo" Daughter - Youth . Betato por Anjo das Trevas . Queridas, demorei demais! Mas como disse, tive problemas com o capítulo. Tive que modificar toda a história e mexer no capítulo, passar e repassar com a minha beta para ver se ficava tudo okay. Finalmente lhes entrego mais um pedacinho de Pilares de Areia. Espero que gostem! . Um agradecimento especial à Hime Chan e Ariadne pelas recomendações, eu adorei! Agradeço também as meninas que ficam nos grupos do Facebook fazendo o maior marketing das minhas fanfics! Obrigadão gurias! . Boa leitura!

2 meses depois

Assim que tive os primeiros sintomas, providenciei tudo para fazer o teste e descobrir rapidamente se estava grávida ou não. Desde a detestável cerimônia do Clã Hyuuga eu havia parado de me prevenir, nada mais natural se eu estivesse, contudo essa possibilidade me deixava inquieta por diversos motivos, e nenhum era positivo.

O primeiro sinal foi tudo menos sutil, ainda mais porque Sasuke viu. Era uma noite de quinta-feira, eu estava de folga, e Sasuke havia chegado de uma missão, permaneceria alguns dias em casa para descansar. Eu tirava a mesa do jantar, e ele preparava um chá de folhas. Quando aquele aroma emergiu do bule, eu mal consegui segurar o refluxo. O cheiro de folhas de limoeiro era tão comum quanto agradável, era de se estranhar que pudesse me dar tanto enjoo. Corri para o pequeno banheiro social adjacente à sala e nem tive tempo de fechar a porta, regurgitei todo o jantar. Sasuke logo veio me ajudar, visivelmente preocupado, me carregou para o andar de cima e entrou no box comigo.

— O que você tem? — Eu já imaginava o que tinha, mas preferia falar alguma coisa quando tivesse certeza. Sendo assim, continuei fitando a água descer pelo ralo.

— Como foi a missão?

— Fácil.

Tentei distraí-lo puxando assunto, mesmo o conhecendo bem para saber que ele não era do tipo que prolongava conversas banais, ainda mais se houvesse um segundo assunto mais interessante.

Curei pequenos machucados em suas costas, tórax e braços. Embora fosse cedo, não descemos para sala ou fomos fazer qualquer outra coisa senão ir para a cama. Ainda que não tivéssemos muito diálogo, era bom estarmos juntos sem o estranhamento que geralmente se instalava entre a gente.

Eu já havia me acostumado a dormir próxima ao calor do corpo dele, tanto que quando ele viajava eu demorava muito tempo para adormecer. Sasuke havia melhorado em mais alguns pontos nesses oito meses de união, um deles foi na sua brutalidade. Ele não me forçava a nada, depois de uma discussão percebeu que o fato de sermos casados não lhe dava o direito de me ter a hora que bem entendesse.

Na manhã seguinte, me sentei no chão do banheiro depois de vomitar o café da manhã e comecei a fazer as contas que toda mulher faz em algum momento de sua vida. Eu sabia que estava grávida, mas um teste tiraria qualquer resquício de dúvida.

O fiz no hospital mesmo. Adiantei boa parte do meu trabalho e encontrei um intervalo de meia hora antes de assumir uma cirurgia da ala principal. Me encaminhei para a sala de triagem e peguei um pote de coleta de urina e outros objetos nos armários, alegando que era para um paciente. Deixei o potinho de urina em cima da mesa da minha sala como se o inofensivo palito de plástico fosse uma bomba prestes a explodir. Voltei depois de dez minutos e encarei os dois riscos vermelhos indicando o sinal positivo. Ali era oficial.

O choro veio brando e cessou rapidamente. Eu já havia me preparado para isso. Sendo uma mulher saudável, era de se esperar que eu engravidasse assim que parasse de me prevenir, demorei dois meses para fecundar, então era algo que já estava previsto há semanas. Se eu tivesse escolha, consideraria a ideia de ter um filho dali mais alguns meses, quem sabe anos, contudo o receio de Sasuke me deixar era maior do que qualquer capricho que eu poderia tomar só para me assegurar de que ele permaneceria comigo independente de uma criança.

Embora o correto fosse dar a notícia primeiramente ao Sasuke, não resisti e acabei migrando para a ala do hospital que abrigava minha mãe enferma. Dei-lhe a notícia com falsa alegria, ela sorriu, não pareceu entender muito bem o que eu havia dito, mas sorriu, o que significou muito para mim.

No caminho de volta para casa, eu me sentia uma boba. Olhava as pessoas que passavam por mim, algumas me cumprimentavam sorrindo, eu imaginava se elas sabiam que eu estava grávida. Eu sentia que aquele grande segredo estava estampado na minha face. “Eles sabem que estou grávida”, e fiquei com essa paranoia até chegar em casa.

Pensar em como dar a notícia ao Sasuke foi um martírio. Havia diversas maneiras, como um bilhete no espelho do banheiro ou um bolo com a boa nova escrita sobre a superfície com calda de caramelo. Eu poderia segurar a ansiedade por mais um dia e enviar uma carta para seu serviço, ele com certeza chegaria em casa com um ar diferente, quem sabe com um sorriso mais terno. Contudo nenhuma maneira alternativa de informá-lo que seria pai me parecia boa o bastante. Sasuke não tinha o perfil de homem dado a detalhes como esses sendo prático como é, de fato preferiria que eu lhe contasse de uma vez só ao invés de inventar formas românticas de dizer que teremos um filho. Então foi isso o que fiz.

Seguindo toda a sua rotina imutável, esperei pacientemente que ele descesse as escadas, deixando um rastro de pingos d'água do seu cabelo molhado, caminhando em direção a cozinha para jantar. Como todos os dias, eu o esperava encostada na pia, entretida com um livro de receitas ou de medicina, porém naquele dia eu estava com as mãos vazias, apenas o aguardando para a ceia.

Itadakimasu — sentou-se e eu repeti sua ação, um tanto encabulada.

— Como foi o seu dia?

— Como ontem — Essa havia sido a resposta dos dias anteriores — E o seu?

— Diferente — respondi torcendo para que ele me perguntasse o motivo.

Tinha cozinhado legumes e carne de carneiro, deixei no centro da mesa uma garrafa de vinho, caso ele quisesse brindar, e de sobremesa preparei um flan de abacate. Tudo isso feito nas horas em que ponderava maneiras de lhe informar que teríamos um bebê.

— Trabalhou fora?

Era estranha essa pergunta, afinal, ele tinha deixado bem claro que não gostava que eu fizesse trabalhos em outras vilas.

— Não — senti meu rosto pegar fogo. Assim que ele percebeu, parou de comer e me fitou com curiosidade — Hoje eu fiz um teste de gravidez, e o resultado foi positivo.

Eu tinha plena consciência de que estava tão vermelha quanto os tomates cozidos na travessa. Me sentia ridícula por tamanha timidez, entretanto isso não é algo que possamos controlar.

Sasuke deu um meio sorriso e ajeitou sua postura na cadeira, voltando a atenção para seu prato. Ainda estava mastigando, por isso não respondeu de imediato. Assim que limpou os lábios, me lançou um olhar divertido, sustentando o mesmo sorriso de canto galanteador pelo qual me apaixonei há anos atrás.

— Sabia que estava grávida — revelou — Só estava esperando você me contar.

Sob efeito da surpresa, gaguejei ao perguntar:

— Como?

— Faz mais de um mês que não a vejo tomando aqueles remédios, era de se esperar que engravidaria. Além do mais, presumo que suas regras não vêm há um tempo, já que temos passado a noite juntos durante todas as semanas.

Eu não poderia estar mais envergonhada. Aquele poderia ser o momento mais constrangedor da minha vida. Não tinha ideia de que o Sasuke prestava atenção nesses detalhes.

Assim que terminou de comer, ele abriu o vinho e serviu sua taça algumas vezes, eu apenas o observava me olhar intensamente enquanto comia minha sobremesa. De repente, ele saiu da cadeira e veio minha direção, segurou meus braços para que eu levantasse, me guiou para a sala e fez com que eu me deitasse no sofá. Passamos a noite por lá mesmo.

Sasuke me abraçava, beijava meu rosto e dizia algumas vezes que estava feliz. Fui hipnotizada pela felicidade dele. Fiquei feliz por ele estar feliz, não pelo motivo da sua felicidade. Sasuke e eu fizemos amor devagar, com os olhos presos nos olhos do outro, foi um dos nossos momentos mais verdadeiros. Por volta das cinco da manhã, ele acordou e me levou para o quarto. O vi se trocar de relance, ele sabia que eu estava acordada o observando, mas não pareceu se importar. Saiu para trabalhar, não me deixou um beijo na testa ou um sorriso, quase me magoei, porém eu era inteligente demais para sentir muito.

As primeiras semanas minha gravidez foi tratada como um detalhe a mais. Algumas pessoas já sabiam, como Naruto, Kakashi, Tsunade e Shizune, o restante constataria com o tempo, não havia necessidade de espalhar a notícia.

A reação do Naruto foi a mais positiva. Ele me abraçou forte, me ergueu, ficou alisando minha barriga reta, fez planos para a criança e se convidou para a apadrinhar. Em contrapartida, Kakashi, Tsunade e Shizune ficaram mais receosos, fizeram perguntas como se eu estava segura de que era o momento adequado, certamente respondi que sim, afinal eu não poderia dizer que foi um acidente e que eu estava tão apreensiva com aquilo quanto eles.

Bastou minha barriga adquirir uma saliência mais acentuada para que as coisas mudassem. Sasuke diminuiu sua carga horária e passou a recusar missões para poder ficar mais tempo em casa, cuidando da minha segurança. Se eu fosse uma civil, mera camponesa, uma doméstica qualquer da aldeia, eu me sentiria orgulhosa pelo meu marido fazer isso por mim, mas eu não era uma mulher qualquer, eu era uma kunoichi, tão letal quanto mulher, e me sentia extremamente ofendida com a atitude do Sasuke. Contudo eu não o contestava, aceitava tudo de cara feia, convencida de que não valia a pena iniciar uma discussão por algo que não tinha jeito. Sasuke sempre fazia o que bem queria e entendia.

A gravidez não me deixava frágil, a gravidez era o meu ponto fraco. Obviamente eu não poderia batalhar e realizar diversas atividades por conta dos riscos, contudo isso não justificava o Sasuke praticamente largar o serviço para me olhar de perto, temendo que até mesmo uma partícula de poeira pudesse acabar com o seu herdeiro. Além do mais, crer que Sasuke estava preocupado comigo era muita ingenuidade. Os cuidados de passar mais tempo em casa foi uma decisão premeditada e direcionada ao que eu carrego dentro de mim, apenas. Talvez ele se importasse verdadeiramente comigo, pelo menos um pouco, mas naquele momento eu representava somente a crosta de algo extremamente valioso.

Já estava com cinco meses quando passei a perceber que tudo o que o Sasuke sabia sobre mulheres grávidas era um pouco menos do que nada. Ele sabia como fazer, não sabia como era depois, então era comum eu ser abordada com indagações tão absurdas quanto engraçadas.

Quando dormíamos muito próximos, Sasuke acordava assustado com o bebê chutando as paredes da minha barriga. Automaticamente eu me desculpava, depois me perguntava o porquê de fazer isso. Essa e outras manifestações da chegada da criança pareciam saturar pouco a pouco a ansiedade do Sasuke por ser pai. Me alegrava vê-lo contente, pois eu não esperava que ele se envolvesse tanto, isso me surpreendeu. Contudo aquela velha insegurança sobre como ficaríamos após o nascimento da criança ainda me incomodava.

Embora estivesse feliz, Sasuke me tratava da mesma maneira de antes, talvez um pouco mais carinhoso, mas igualmente impassível. Se eu não estivesse acomodada ao seu jeito inabalável, teria todo o direito de reclamar. Já havíamos completado um ano e alguns meses de casamento, não tinha como não estar habituada a isso.

Foi em uma segunda-feira de agosto, alguns minutos depois de Sasuke chegar do trabalho, que senti a famosa dor alarmante. Ele tinha entrado no banho, e eu estava levando as travessas de comidas da copa para a mesa, segurava uma marinex que continha um risoto quando a pontada no colo do útero me corrompeu. Foi tão inesperado que larguei o recipiente de vidro no chão, fazendo-o se partir em inúmeros cacos misturados ao prato principal da noite.

Em segundos, Sasuke surgiu na cozinha, cobrindo apenas as partes íntimas com a toalha ao redor do quadril.

— O que houve? — ajudou-me a levantar.

Eu estava de joelhos com uma das mãos apoiada na parte inferior da barriga, quando olhei para baixo, notei uma poça de um líquido mucoso no local onde eu fiquei ajoelhada.

— Minha bolsa estourou — disse envergonhada, sabendo que Sasuke só sabia o que aquilo queria dizer porque há poucos dias eu tinha lhe dado uma “aula” explicando de modo informal coisas como essa — É melhor irmos para o hospital.

— Mas não está antes da hora? Era para nascer daqui algumas semanas.

— Não vai mais.

Só não havia lhe dito que, em alguns casos, os bebês resolvem nascer dois meses antes do conveniente.

Sasuke me acomodou agilmente em seus braços e me levou para o andar superior, ajudou-me a me limpar, trocar de roupa e arrumar rapidamente a bolsa do bebê, então ele mesmo se vestiu, pois até então ele se cobria apenas com uma toalha de banho, e em seguida fomos para o Hospital de Konoha.

O parto foi rápido, porém as poucas horas que passei no hospital não me safaram da dor aguda. Era um garoto saudável e comprido, rosado como o botão de uma tulipa, já nascera com muito cabelo, negros e sedosos, contudo a cor dos olhos ainda era um mistério.

Sasuke desabotoou um sorriso largo ao mirar pela primeira vez o seu herdeiro. Um Uchiha nascia em mais de dez anos da chacina. Até então o garoto não tinha nome, quando Sasuke o segurou desajeitado, desacostumado a ter nos braços algo tão frágil, tremeu as mãos com receio de machucar a criança. Perguntava se estava segurando da forma correta, e sorria, sorria de uma forma única que eu chegava a invejar.

— Se chamará Ichiou — declarou.

Eu não gostava muito desse nome, mas a palavra de Sasuke era a que valia.

Eu sabia muito bem como cuidar de bebês, era praticamente uma obrigação toda mulher saber, mesmo que seja kunoichi. Era capricho de uma vila patriarcal que não podíamos evitar, e Sasuke esperava que eu me tornasse mais uma kunoichi conformada com a vida de dona de casa, que me entregasse para o Ichiou como ele se entregou, mas eu não conseguia me obrigar a sentir algo que não queria.

Tinha carinho por aquela criança, tinha cuidado, tinha curiosidade, mas ao mesmo tempo eu tinha raiva porque, com o seu nascimento, minha carreira parecia ter sido lacrada; eu sentia ciúmes dela, eu tinha inveja porque Sasuke a amava. Ichiou precisou apenas nascer para ser amado, eu havia passado toda minha vida tentando, insistindo, sonhando com isso. Nem depois de casada e mãe eu havia conquistado um lugar seguro no coração do Sasuke. Então Ichiou chega e sem nenhum esforço já o desarma e o coloca de joelhos.

Mal dava para enxergar Ichiou como meu filho, ele era filho de Sasuke, ele era o “presente” de Sasuke, ele era a pessoa mais importante na vida de Sasuke, entretanto, o que Ichiou era pra mim?

“O que Ichou representa pra mim?”

Às vezes eu chorava quando o Ichiou chorava e eu não conseguia acalmá-lo. Me sentia desesperada, impotente, incapaz, me sentia tudo, menos mãe daquele bebê, e aquilo me corroía dia a dia.

Quando pensava no meu futuro, eu não imaginava que seria assim, um sentimento denso. Em devaneios, chegava a pesar o que eu sentia pelo pai e pelo filho. Já se tornara uma doença, uma obsessão. Na verdade, sempre foi, porém estava se agravando, eu já tinha desenvolvido um certo pânico só de imaginar o Sasuke me deixando. O que mantinha minha mente sã eram os livros que eu lia enquanto Ichiou dormia, folheava qualquer coisa para não enlouquecer como uma sedentária dentro de casa.

Ichiou completou quatro meses, eu decidi dar um basta. Eu havia emagrecido, estava pálida e sempre sonolenta, minha saúde deveria estar péssima, afinal eu não comia nem dormia direito. Sasuke estava no tapete da sala com o Ichiou no cesto de cobertas e almofadas, eu estava no sofá lendo e de tempo em tempo os espiando por cima do livro. Era capaz do Sasuke dormir ali naquela noite, de novo.

— Quer um chá?

— Depois — respondeu sem me olhar.

— Então depois tomamos um chá e conversamos.

— Conversamos o quê?

— Depois, Sasuke — voltei a atenção para o livro que lia.

— Você sabe que eu detesto quando não é direta.

— Eu queria falar com você agora, mas parece estar muito ocupado com o Ichiou.

— Não estou fazendo nada.

— Tudo bem — suspirei e voltei a ler.

— 'Tudo bem' o quê, Sakura? — indagou com irritação na voz.

Tudo bem, continue sem fazer nada — fechei o livro e subi para o quarto, não estava com paciência para evitar brigas com o Sasuke, pelo contrário, se ele me desse uma brecha mínima eu faria um caos, eu estava precisando disso, xingar, gritar, socar. Eu estava sob um estresse tão grande que me sentia a um passo de explodir.

Tomei um banho rápido e me deitei. Não tinha mais ânimo para ler ou fazer qualquer outra coisa. Já havia amamentado, trocado e medicado o Ichiou, então eu poderia dormir e esperar que dali umas três horas ele me acordasse com fome. Estava cochilando quando Sasuke parou na minha frente, por extinto acordei em defesa, recuando, então ele me disse que queria chá. Como ele costumava fazer, presumi que o 'chá' fosse somente uma analogia a conversa que eu queria ter com ele.

Saí da cama, sem pressa, enquanto Sasuke me observava com o maxilar travado. Parecia estar com raiva, mas eu não via motivo, então não me preocupei. Eu só queria conversar. Passei por ele com a minha camisola transparente, sentindo seu olhar pesando no meu corpo, corpo que ele procurava cada vez menos. Descemos as escadas e fomos para cozinha, ninguém falou nada até o chá estar fumegante nas xícaras, prontos para serem tomados.

— Diga.

— Estou cansada de ficar aqui.

— Quer se mudar?

— Quero voltar a trabalhar.

— Isso não é possível.

— Por que não?

— Por conta do Ichiou.

— Isso não tem nada a ver. Eu me tornei mãe, não me tornei incapaz de executar as tarefas que fazia antes.

— Quem irá tomar conta dele, Sakura?

— Eu pago alguém.

— Não quero estranhos com Ichiou. Quem tem que cuidar dele é você que é mãe.

— Não serei menos mãe se voltar a trabalhar e deixá-lo algumas horas com uma babá ou até mesmo com uma amiga. Sasuke, eu estou cansada de ficar o dia inteiro aqui trocando fraudas e limpando a casa.

— Se o problema é ficar em casa, então saia, visite seus pais, faça o que quiser.

— Que droga, Sasuke, você não entende? Eu quero voltar a trabalhar!

— Mas você não poderá mais voltar. Não até Ichiou ter idade para entrar na Academia.

— Você realmente não entendeu — ri com nervosismo, segurava o choro como podia — Não estou pedindo permissão, estou apenas conversando com você, de qualquer forma eu irei voltar para o Hospital.

Sasuke me olhava de um jeito que parecia que a qualquer momento ele voaria no meu pescoço. Assim que terminei de tomar o chá, recolhi as xícaras e as lavei antes de voltar para a cama, contudo no meio do caminho Sasuke me pegou pelo braço de forma agressiva e autoritária. Era óbvio que ele não deixaria barato.

— Não terminamos — declarou com os dentes cerrados de ódio.

— Sasuke, me larga, eu quero dormir.

Com a outra mão livre, Sasuke segurou meu maxilar e me encarou como um animal.

— Você não vai dormir.

— Ah, eu vou sim — o contrariei com ódio.

— Você não vai sair daqui até que eu diga que essa conversa acabou.

— Essa conversa acabou, Sasuke! Você não vai fazer a minha cabeça, eu já decidi, eu vou voltar a trabalhar e...

Nem pude terminar minha fala, ele me puxou para perto dele, logo em seguida pegou meus cabelos e os jogou para trás, fazendo meu queixo se erguer e expor meu pescoço. Ele mordeu aquela parte alva e sensível com um misto de raiva e luxúria. Não precisava olhar no espelho para saber que ele tinha deixado sua marca possessiva ali. Por hora, eu deixava Sasuke brincar comigo, mas quando eu começasse a brincar também ele não iria gostar.

— Ichiou precisa mais de você do que seus pacientes no hospital.

— Não vou deixar de dar atenção pra ele se eu voltar a trabalhar.

— Meu pai também costumava dizer isso para minha mãe — sussurrou no meu ouvido e se afastou em seguida para mirar minha reação.

O objetivo dele era me apunhalar com uma realidade sua e, infelizmente, ele havia conseguido. Levou um certo tempo, muita conversa, muita briga, algumas noites ficando um grudado no suor do outro para que eu entendesse a ideologia do Sasuke de uma família bem estruturada. Eu entendi e fiz as coisas à minha maneira. Se o problema era deixar Ichiou sozinho, não tinha problema, eu o carregaria comigo por onde eu fosse.

Com a ajuda de Kurenai, eu aprendi a usar o shijira, um pano que carrega o bebê confortavelmente como se fosse uma bolsa de canguru amarrada ao corpo da mãe. Sasuke a princípio buscou motivos e argumentos para me impedir, mas ele não tinha muito o que dizer porque eu estava com o meu filho o tempo todo, mesmo que estivesse trabalhando. Acerca dos riscos iminentes de contaminação no hospital, eu já havia o vacinado contra algumas doenças e no ambiente hospitalar eu colocava uma máscara infantil nele que cobria nariz e boca. Meu trabalho no hospital também era escasso, triagem, curativos, relatórios e controles.

Com isso me mantive entretida por um tempo, por quase quinze meses, sempre com o Ichiou embalsado no pano, observando-me com os olhos atentos e brilhantes. Ele se desenvolveu sendo um garotinho calmo e observador. Falava e andava pouco para uma criança de quase dois anos, contudo era muito inteligente, sabia o que era um estetoscópio se o perguntássemos, sabia balbuciar seu sobrenome e comer sozinho.

Os primeiros meses de convivência com o Ichiou foram difíceis, várias vezes me peguei amargurada num canto da casa, praguejando o momento em que decidi parar de tomar contraceptivo. Contud,o depois que voltei para o Hospital, passando tanto tempo literalmente amarrada com ele, a convivência fez germinar em mim algo que eu até então desconhecia.

Ichiou era tão pequenino. Quatro meses, suas perninhas ainda flexionadas, o pescoço firme, e os olhos rolando curiosos para qualquer coisa colorida e animada. Ele reconhecia a minha voz, ficava me encarando com aquela carinha como se tentasse decifrar meu rosto. Ele cheirava a coisa nova, cheirava como presente de Natal, e me esquentava de uma maneira que me fazia desejar estar sentada numa poltrona para apreciar o seu calor, observar suas costas subir e descer enquanto dormia. Foi questão de tempo para eu cair nos encantos de Ichiou gradativamente.

O acompanhávamos crescer a cada dia, no tamanho e na esperteza. Ele já pegava objetos e respondia com sons quando alguém falava com ele; com seis meses ele já sentava sem apoio e se arrastava por toda a casa; não demorou muito para andar apoiado nos móveis da casa e pronunciar algumas sílabas; chamava Sasuke e eu de “mama”, sem especificar a princípio.

A evolução de Ichiou estimulava a minha, cada dia era uma coisa nova que ele aprendia, um gesto engraçado, um olhar terno, pequenas coisas dele que preenchiam aos poucos todos as fendas dentro de mim.

Nessa fase, estava tudo indo bem, a possessividade de Sasuke já era algo neutro, praticamente inofensivo. Ele já não se importava de eu sair por aí com Ichiou como se ele fosse uma bagagem, pois toda vez que eu perguntava se ele preferiria que eu o deixasse com a Ino ou a Kurenai, ele recusava.

Sasuke voltou a fazer sua carga horária e trabalhos externos normalmente, e nossa antiga rotina foi retomada, com a pequena e relevante presença de Ichiou nela. Às vezes prolongava sua jornada, dizia que queria adiantar serviço, contudo eu estranhava, vivíamos tempos de completa calmaria e praticamente não havia trabalho para as forças militares. Entretanto eu não questionava, gostaria apenas de ser avisada se ele fosse chegar mais tarde, já não tinha paciência de requentar a comida depois de uma ou duas horas posta na mesa.

O trabalho extra do Sasuke não era o que mais me incomodava, a falta de afeto era que vinha me deixando insatisfeita. Nos víamos no café-da-manhã e no jantar — quando ele chegava a tempo —, quando ele tinha um tempo livre, era dedicado exclusivamente ao Ichiou. Embora meu ciúmes infantil tenha sido dissipado assim que me apeguei ao meu filho, ainda me incomodava o abismo que Sasuke cavava entre nós dois. Ele poderia, mesmo cansado, se esforçar por pelo menos cinco minutos para uma pequena conversa, um afago, um olhar.

— O que faremos no aniversário de Ichiou? — perguntei assim que ele se deitou ao meu lado após sair do banho.

— Você que sabe — se acomodou e deu as costas para mim.

— Estou pedindo sua opinião.

— Você sabe que não tenho tempo para essas coisas. Depois conversamos.

— Então me diga quando é depois porque há tempos eu tento conversar com você, e é só isso que você me diz: depois.

— Sakura, eu estou cansado para discutir, deite-se e deixe para resolvermos isso amanhã.

— Não, eu quero resolver isso agora.

A partir daí ele começou a me ignorar. Se eu insistisse mais acabaria acordando Ichiou.

Fui dormir tarde, praticamente amanhecendo o dia. Andei pela casa, molhei meus pés no orvalho da grama do quintal, fiquei a observar o crepúsculo, pensativa e melancólica. Não era como nossos primeiros meses juntos, era completamente diferente. Sasuke me repelia como se eu fosse um inseto, evitava conversa, toques e até mesmo um olhar. Eu já havia me esquecido qual fora a última vez que havia dormido em seus braços. Sasuke se mostrava desinteressado, cada vez mais distante.

Passando pelo quarto do Ichiou, comecei a chorar o observando dormir tranquilamente, totalmente absorto de qualquer aborrecimento. Eu sempre soube que ele me descartaria assim que conseguisse o que queria. Certamente ele faria isso. Desde o começo ele deixou explícito que me queria para fins reprodutivos, eu já imaginava que seria assim, contudo, se ele pensava que eu iria aceitar de bom grado ser deixada de canto, ele estava enganado.

Eu tinha o meu valor e não deixaria Sasuke me diminuir com o seu egoísmo. Independente do Ichiou, ele tinha me tirado da minha casa para eu morar com ele, se comprometeu com isso, quis ter uma família, e foi isso que tentei constitui desde o começo. Sasuke tinha que aprender a me amar como mulher e não me suportar como uma fábrica de Uchiha's.

Notas finais
Vish! E agora? hahaha Só em Fevereiro para saberem! Como já devem esperar, esse é o último capítulo do ano. Em Janeiro estarei viajando, irei para Bahia, curtir roça, cidades pequenas e a belíssima Porto Seguro! Eu mereço, né! Tanto tempo trabalhando naquele McDonald's, estudando e tento ataques de asma por causa desse ar lixoso de São Paulo... Mereço férias com estilo, seja de roça de terra vermelha ou de praias limpinhas! . Vou levar meu notebook, se eu conseguir escrever alguma coisa, bônus para vocês, contudo não prometo nada. . Vamos à sessão mendigagem? Deixe review, favorita, um recomendação, nem que seja indicação no Facebook, tudo tá valendo! . A Milk agradece! Shalom! Boas festas!