Pilares de Areia
31 I need you like a heart needs a beat, but it's nothing new
Notas iniciais
Sasuke

— Pai! Está na hora de ir para a escola! — o aviso agudo de Ichiou foi a primeira coisa que escutei.
Olhei para a janela buscando uma noção das horas pela luz do dia, mas Ichiou pegou meu rosto e virou para ele novamente. Eu acreditava que devíamos ter perdido a hora de novo. Sakura ficaria furiosa.
— Temos que tomar banho, vestir, pentear e comer — explicava categorizando cada atividade matutina nos dedos.
— Não está muito tarde? — Ichiou negou com a cabeça. Saiu de cima de mim e foi pegar o relógio de ponteiro na penteadeira onde Sakura deixava cosméticos e pentes de cabelo.
— É hora de acordar. — Indicou os ponteiros. — Quando eles estão assim, temos que sair.
Foi uma surpresa Ichiou já saber ler as horas. Ele era muito inteligente, contudo, cada vez mais revelava características de uma criança metódica, com regras e rotina ensaiadas.
Eu observava isso há meses, desde a época em que ele passou a ficar somente comigo. Tudo o que Ichiou fazia tinha um jeito próprio de fazer. Se eu fizesse diferente, estava "inadequado", e eu precisaria repetir na maneira correta. Isso se aplicava para a forma de segurar o hashi, amarrar os laços dos sapatos, tomar banho e organizar os brinquedos.
Não enxergava isso como um problema. Por conviver mais com a Sakura do que comigo, era esperado que Ichiou crescesse como uma criança polida e responsável. Intrigava-me reconhecer parte daquele pragmatismo infantil em mim com a mesma idade. Eu só não sabia que sentimentos isso me trazia.
Cresci sob uma grande pressão. Sendo filho do patriarca do clã e tendo um gênio como irmão, não havia muito o que fazer além de me esforçar cada vez mais para ser digno de alguma atenção. Eu não nutria sentimentos ruins pelo meu pai ou pelo Itachi cobrarem cada vez mais de mim — embora um fizesse isso conscientemente, o outro não. Treinar, estudar e melhorar em busca da perfeição parecia-me o certo a fazer. Cerco como respirar.
Apesar das lembranças serem turvas depois de quase vinte anos, recordo-me das manias que enraizavam na minha rotina: Disciplina. Foco. Esforço. Orgulho. Imponência. Lembro-me de acompanhar minha mãe pela vila e ela ensinar-me a ser um Uchiha: queixo para o alto; ombros abertos, rígidos; “mova os olhos, não a cabeça. Se algo estiver fora do seu campo de visão, vire-se”, dizia.
Minha mãe era gentil. Era linda, lembro-me bem. Ao lado dela, qualquer ordem, por mais dura que fosse, soava como um pedido singelo que podíamos recusar se quiséssemos, mas todos a atendíamos. Meu pai foi um dos homens mais difíceis de lidar que já conheci na vida e eu não duvidava que minha mãe o deixava de joelhos. Digo isto como constatação. Não há riso pela devoção do meu pai quando estou aos pés de uma mulher também.
Minha mãe... Ela era linda. Eu tinha certeza disso mesmo não me lembrando dos traços do seu rosto. Gostaria de ter uma filha parecida com ela já que não pude ter uma irmã.
Escapou-me uma expressão com essas lembranças, não sei se um riso ou um resmungo. Ichiou percebeu que eu estava em outro mundo enquanto ele ditava toda sua rotina com a mãe e eu o preparava para ir à escola. Bateu palmas em frente ao meu rosto e me puxou de volta para o presente. Aqueles olhos puxados, castanhos, de certa forma pareciam-se com os da minha mãe, mas a sagacidade das suas expressões era mérito da Sakura. Era isso o que eu mais lembrava, do olhar sereno da minha mãe.
Normalmente eu evitava pensar no passado, ainda mais relacionar coisas do passado ao presente, como fiz comparando Ichiou com o meu eu com cinco anos de idade e com a aparência da minha mãe, mas às vezes era inevitável.
Com o tempo, aprendi a selecionar o passado, separando pedras de feijões. Voltar alguns anos não trazia mais um significado exclusivamente ruim, tornara-se uma forma de reflexão sobre o presente e conexão com aqueles que eram importantes para mim.
— Tudo certo? — perguntei ajudando-o a terminar de abotoar os botões do uniforme.
— Agora tem o café. — Olhei o relógio.
— Não vai dar tempo de comer aqui, Ichiou. Vamos em um lugar diferente hoje — Ichiou assentiu prontamente. Mesmo metódico, era como uma criança normal que gosta de surpresas.
Levei-o em uma cafeteria próxima à creche onde ele estudava. Tínhamos poucos minutos até bater o sinal de entrada. Ele pareceu satisfeito quando uma caneca de chocolate foi posta diante de si com bastante creme e canela. Diferente de mim e idêntico à mãe, Ichiou adorava doces.
— Podemos mandar uma carta para okaasan? — Ichiou perguntou entre um biscoito e outro.
Pensei um pouco em como responder, afinal Sakura ainda devia estar no caminho para Suna, só conseguiríamos contatá-la assim que ela parasse e estabelecesse-se em algum lugar.
— Ela precisa mandar uma carta primeiro para sabermos onde ela está — expliquei.
— Você não sabe onde ela está? — Neguei. — Mas ela disse que logo voltaria — argumentou me fitando.
Era decepcionante, de certo modo, saber que mentiras bobas como aquelas sanavam a curiosidade de Ichiou. Ele já tinha cinco anos, em breve seis. Logo teria dez, quinze, minha idade. E eu, estaria velho. Mais velho do que já me sentia. Eu não via eficiência em esconder coisas das quais ele teria que saber mais cedo ou mais tarde. Contudo, a característica principal da infância é a ingenuidade e pureza para ver o mundo. Dosar a realidade para Ichiou, naquela idade, era um trabalho penoso.
— Eu sei aonde ela está indo, não sei com precisão onde ela está — respondi da forma mais sincera possível.
— Ela está doente de novo, otousan? — perguntou tocando no meu braço para chamar minha intenção. Ao fitar seus olhos, enxerguei temor, não por ele, mas pela mãe. Sakura e eu sofremos muito quando nos separamos, porém poucas vezes paramos para nos preocupar sobre como todas as mudanças afetaram Ichiou.
Quando me virei para responder sua pergunta e enxerguei medo em suas expressões, percebi que havia mais ali do que uma manha pueril e sim um trauma enraizado de ser afastado da mãe de novo. O quanto me senti responsável por aquele sofrimento é imensurável. Tinha consciência de que toda a minha história com Sakura, a parte conturbada da nossa história, não era exclusivamente culpa minha, mas o impulso veio de mim. Feria-me assumir tamanha responsabilidade pelo receio do meu filho e até mesmo pelos sofrimentos da Sakura comigo, mas infelizmente, eu fora o gatilho de tudo, desde a Academia até o fatídico dia em que Sakura encontrou-me no restaurante com Myumi.
Ichiou foi literalmente jogado para lá e para cá. Semanas em uma casa, semanas em outra. Embora estivesse ou comigo ou com a Sakura, toda essa modificação o deixou confuso, o afetou de alguma forma. Aquele olhar quase apavorado era a prova de que ele não aguentava mais mudanças e separações. Eu tinha que concordar que também não aguentava mais.
— Ichiou — Olhei em seus olhos para explicar aquilo de uma forma que ele não desconfiasse de mim. — A Sakura é uma shinobi, como eu. Você entende isso, não é? — Ele não respondeu. — A sua mãe tem habilidades médicas muito especiais, por isso ajudava muito no hospital, você lembra?
— Sim, eu ia com ela. Brincava com Shizune-san e com a Tsunade-sama.
— Só que ela também tem outras habilidades — continuei. — Ela é uma guerreira.
— Igual a você — concluiu.
— Hai. Igual ao guerreiro que você também será em breve — expliquei. — Lembra que eu viajava e demorava de chegar? Eu estava em missão. Trabalhando para proteger você, a okaasan e toda Konoha. Sakura foi também em uma missão para nos ajudar. Vai demorar um pouco para ela chegar.
— Ela vai voltar para o sanganichi¹?
— Não.
Ichiou ficou pensativo, mas pareceu entender. Paguei o que consumimos e fomos para a creche. Deixei-o no portão com uma das sensei e segui para o meu trabalho, desta vez, para a Central de Konoha ao invés da sede da Anbu, por isso eu nem estava uniformizado.
Naruto, Kakashi, Shikamaru e eu estávamos tentando decifrar os próximos passos do Orochimaru. Seria ingenuidade pensar que tudo estivesse resolvido só porque seus laboratórios foram destruídos e as cobaias capturadas. Exemplo maior de persistência do que o Naruto era ele.
— Chegou em uma boa hora, Sasuke-kun — ignorei Kakashi.
Ele sabia que eu detestava ser chamado com aquele sufixo. Quando eu era um garoto, era tolerável, mais de dez anos depois era vergonhoso para ele me chamar assim.
— Têm notícias de Suna? — perguntei diretamente ao Naruto.
— Epa! Eles partiram ontem! Demoram alguns dias para chegar à vila — ele respondeu na defensiva. Shikamaru me respondeu:
— Eu mandei um telegrama para Matsuri avisando que Temari vai permanecer em Konoha para dar à luz. Provavelmente quando a carta voltar, o grupo já tenha chegado à Suna e teremos informações — assenti.
— Tudo isso é saudades? — Naruto perguntou com um tom pervertido. — Você anda com uma cara melhor esses dias. A Sakura deve ter dado um trato no seu mal humor.
— Calado! — mandei o fitando com o meu pior olhar.
— Novidades, Sasuke? — Shikamaru indagou-me enquanto Naruto ria baixinho no meu constrangimento. Sentei-me na cadeira livre de frente para ele. Kakashi e Shikamaru estavam ao seu lado encostados na grande janela. Neguei com a cabeça. Na verdade, eu não estava muito concentrado na missão nos últimos dias. Tentei me dedicar ao máximo ao Ichiou e à Sakura, já que ela iria viajar. Estava muito estressado com todos os eventos. Desejei por algum tempo me concentrar em algo que não fosse problemas de Estado ou dos outros já que os meus pareciam ter dado uma trégua como Naruto bem observara.
— Não tive contato com Myumi recentemente — respondi.
— É importante que você mantenha esse contato, independente dos seus problemas pessoais, Sasuke. — Shikamaru observou com um tom de desaprovação.
— Eu sei meus deveres, Nara.
— Isso é questionável — rebateu de forma desafiadora. — Como não tivemos novas informações, tomei a liberdade de pedir para que outros membros da organização fizessem um relatório sobre qualquer mudança de comportamento significativa que a garota pudesse ter. Infelizmente, recebemos algumas notas. — Fitou Naruto e Kakashi. — Isso refuta sua resposta negativa a novidades. Tem algo acontecendo e você não está monitorando.
— Do que se trata essa reunião? — indaguei ao Naruto. Se eu respondesse Shikamaru de bate e pronto, não seria uma resposta agradável.
— É apenas um alinhamento de informações, Sasuke — respondeu-me simplesmente, mudando sua postura e massageando as têmporas. Apesar de bem-humorado, parecia exausto. — Takahaghi não é confiável perto nem longe de nós — afirmou. — O pior e que todos esses meses trabalhamos para domá-la e...
— E eu estraguei tudo — concluí a frase para ele.
Os três me olharam de maneira desconfortável. A confirmação.
— Faça um documento agora. — Inclinei-me sobre a mesa fitando Naruto — Temos duas testemunhas, uma autoridade e um culpado. Assumo toda a responsabilidade por qualquer coisa que a garota fizer, seja para impedir, seja para ser punido. Diga-me onde assinar e redija o texto por cima.
— Sasuke, não seja imprudente. Estamos falando sobre trabalho. Não é como se você tivesse escolha — Kakashi pronunciou-se pela primeira vez de maneira ríspida, um tom de bronca. Saiu do escoro da janela e caminhou até mim, dando a volta na mesa do Naruto e parando um pouco atrás da cadeira onde eu estava — Foi irresponsabilidade de vocês dois deixarem que uma missão interferisse na vida pessoal de alguém. — Apontou para mim e para o Naruto. — Não falo de você, Sasuke. Falo de Sakura e do garotinho. Ninguém foi mais prejudicado do que eles.
— Nem mesmo Takahaghi Myumi? — Shikamaru indagou para Kakashi.
— Pelo relatório dos seus olheiros, ela recuperou-se bem, não é mesmo?
— Sim — confirmou o Nara.
— Uma família foi destruída por negligência.
— Calma, Kakashi, também não é assim — Naruto interferiu. — Sasuke e Sakura já se resolveram, não é mesmo, teme? — Desviei o olhar. Naruto entendeu como um “sim” e continuou falando.
Sakura me deixava no escuro quanto a isso. Parecia determinada a me deixar de joelhos, situação que eu já estava há tempos. Era difícil saber se estávamos plenamente resolvidos quando Sakura muitas vezes fugia do assunto. Dormir juntos novamente era um grande passo, mas não era uma garantia. Partindo do pressuposto que nos separamos ainda com sentimentos um pelo outro, era compreensível haver desejo, e talvez tenha sido esse impulso que nos uniu novamente sobre o único lugar onde nos entendemos muito bem.
— Não posso deixar de concordar que houve erros. Assumo a culpa. — Naruto continuou. — Querendo ou não, acendi o pavio da Sakura e terminou como terminou. Mas Myumi está viva, Sasuke está com a Sakura, as crianças foram resgatadas... — Gesticulou para estimularmos com possíveis finais felizes para aquela história. — Para, gente! Foi um contratempo! Está tudo bem agora! Só não podemos perder essa garota da Anbu de vista. Não espero boas coisas de garotas com coração partido. Ficam malucas! Mais vingativas que Uchihas, se analisarem com cuidado — provocou-me.
— Você precisa terminar isso, Sasuke — Shikamaru disse após um breve silêncio geral.
Eu não queria admitir que ele estava certo, por isso não respondi. Ponderei sobre o que Sakura pensaria se eu me aproximasse novamente de Myumi, se eu deveria contar ou não, pois ainda era uma missão confidencial. Lembrei do Ren e da minha raiva por saber que ele passava o dia todo ao lado dela, conversava com ela, a fazia rir e querer estar com ele. Eu tive que me conter para não o esganar, justamente por saber que ele fazia parte do trabalho dela — embora fizesse questão de deixar claro que não queria apenas isso. Eu tive que me conter até quando Sakura não era mais minha, respeitar seu espaço porque era o certo a ser feito. O mesmo critério cabia a mim, pensei.
.o0o.
Shikamaru entregou-me os relatórios a respeito de Myumi. Passei a manhã na cafeteria próxima à creche do Ichiou lendo-os e marcando as informações mais importantes. Almocei na pousada já que tinha que passar no quarto de Sakura para organizar minhas coisas e fazer uma mala para o Ichiou.
Assim que acabei a refeição, fui ao saguão assinar o caderno de registro de entradas e saídas da hospedaria, não pude deixar de reparar no nome escrito logo acima do meu: Myumi Takahagui. Tinha acabado de sair, mas eu não tinha sentido seu chakra por perto em nenhum momento.
Eu sempre soube que ela morava ali. Achei uma estranha coincidência Sakura decidir morar bem ali, mas não me importei. Acompanhei Myumi em ocasiões pontuais na volta para casa, ou a busquei quando se atrasava para treinos e viagens, porém nunca atravessei sua porta, embora tenha sido convidado mais de uma vez.
Subi para o quarto de Sakura para separar trocas de roupas para o Ichiou passar as próximas semanas em casa. Mesmo que a hospedaria fosse mais próxima da creche do que minha casa, um quarto não poderia ser considerado um lar, por mais confortável que fosse. Só fazia sentido estar ali se Sakura estivesse, senão, era apenas um quarto impessoal de hospedaria.
Depois de alguns minutos, a mala estava pronta. Tranquei a porta dando duas voltas, pois demoraríamos para voltar. Eu esperava que voltássemos apenas para recolher as coisas da Sakura. Ela tinha que voltar para casa para ficarmos todos juntos. Era o que eu mais queria e era por isso que eu lutaria insistentemente assim que ela voltasse.
Seguindo para a escada, estanquei na frente do quarto de Myumi. O cheiro dela estava presente, mas fraco. Como registrado no livro, ela tinha saído há pouco tempo, por isso o cheiro ainda persistia. Fitei a pasta com relatórios na minha mão direita e ponderei mais de duas vezes se seria certo entrar e investigar, uma vez que essa era minha atual tarefa, ficar de olho na espiã do Orochimaru. Deixei a mala do Ichiou no chão e estiquei a mão para a porta. O que me impedia de girar a maçaneta era um moralismo incomum, pois eu não costumava avaliar empaticamente os sentimentos dos investigados antes de investiga-los, entretanto, fiquei paralisado por mais de um minuto, pensando sobre direito, dever e justiça. Retesei. Afastei-me da porta e desci as escadas.
Avisei a senhora da recepção sobre nosso afastamento, mas ela já tinha sido alertada. Sakura havia pago um mês adiantado para manter sua vaga e deixou avisado que, ainda assim, o quarto ficaria vazio. Senti-me um tanto patético por ser previsível, ainda assim, grato por Sakura entender que eu não precisava morar ali para tomar conta do Ichiou.
Chegando em casa organizei o quarto dele trocando os lençóis por limpos e batendo o tapete. Dediquei o resto da tarde para deixar a casa com a aparência mais hospitaleira possível, pois mesmo sendo o meu lar, ultimamente parecia abandonada. Quando só ali, eu sentia que ela podia me engolir a qualquer momento. Ela e todo o distrito se debruçando no único sobrevivente. Mesmo assim, aquela enorme e desajeitada casa de madeira no meio de escombros de lares abandonados era minha casa. Era ali que meus pais estavam quando foram mortos, mas também, era onde Itachi e eu tínhamos crescido. O quintal, certamente, era o que trazia meu pai para os dias atuais. O som da voz dele atrás de mim, pedindo repetidas vezes para eu acertar o alvo, para fazer isso ou aquilo, para tentar me espelhar no meu irmão mais velho... Era nítido. Se eu me concentrasse, poderia ver minha mãe sentada na mesa untada da cozinha ornando a massa das guiozas.
Quando me dei conta, já era fim de tarde, logo escureceria. O tom alaranjado do céu foi como um despertador para eu buscar Ichiou na escola, uma caminha de trinta minutos para mais nostalgia. Essas, a cada dia mais intensas. Talvez tenha sido a solidão o meu gatilho. A única culpa que eu poderia atribuir à Sakura.
Peguei Ichiou na creche e jantamos no centro da vila, já que eu não tinha preparado nada saudável. Ele me contou sobre o seu dia e perguntou algumas coisas sobre a mãe. No caminho para casa, fomos em silêncio. Quando segui por um caminho diferente da hospedaria, Ichiou me olhou, mas não falou nada. Tinha ideia de onde iríamos. Ao chegar em casa, subiu as escadas rapidamente em busca dos brinquedos do quarto que não pôde levar para o quarto da hospedaria. Tomou banho sem minha ajuda, mas me chamou na hora de escovar os dentes, pois não alcançava a pia. Abotoou os botões da camisa do pijama, ainda que nas casas erradas, calçou sozinho a pantufa com os pares trocados e desceu com os cabelos úmidos para a sala se juntar a mim. Brincamos com um jogo de tabuleiro próprio para a idade dele e contei-lhe histórias da guerra até ele cair no sofá mesmo.
Pensei sobre o que fazer, deixa-lo ali no sofá ou deitá-lo confortavelmente em sua cama que eu havia arrumado horas atrás. Ele já se tornava independente em alguns aspectos, podia lidar com a consequência de adormecer no sofá e acordar cheio de dores musculares, talvez. Não, não podia. Ichiou tinha que crescer, eu precisava deixa-lo crescer e adquirir sua independência, contudo ele ainda era um menino e cabia no meu colo. Enquanto eu pudesse acalentá-lo, eu o faria sem remorso, afinal, dali um ano ou dois ele pode me pedir colo e eu não poderei dar.
Ergui-o do sofá e encaixei sua cabeça no meu ombro. Subi sem pressa para o quarto e o acalentei um pouco antes de deitá-lo e cobri-lo. Fiquei sentado na poltrona do quarto o observando, me perguntando como seria se meus pais e meu irmão pudessem compartilhar esse momento comigo, o meu primeiro filho.
Sakura e eu o deixaríamos um fim de semana com os avós paternos para irmos em uma missão conjunta ou para fazermos qualquer coisa que ela quisesse. Mikoto o esperaria chegar com guiozas de legumes a vapor ou lhe daria doces para agradá-lo? Fugaku usaria o mesmo tom autoritário que usava comigo e com Itachi ou seria mais afável? E Itachi? Mimaria e carregaria ele nas costas por toda a propriedade para arrancar-lhe risos?
Ichiou não tinha ideia da falta que essa família lhe fazia. Seria possível sentir saudades de uma ilusão? Eu estava preso nesse “genjutsu” de lembranças, saudades, solidão e culpa.
.o0o.
Acordei com o Ichiou reclamando sobre a ausência da prancheta de pinturas na sua mochila. Ele acordou antes do despertador e já se arrumava sozinho. Tinha ido dormir cedo na noite anterior ou estava apenas ansioso. Levantei ainda sonolento para ajuda-lo a procurar o caderno, mas era certo que eu tinha deixado na hospedaria.
— Não podemos comprar outro no caminho? — sugeri. A expressão que Ichiou me deu como resposta era a mesma que a Sakura fazia quando ouvia algo que a contrariava. Baguncei seus cabelos escuros e cumpridos. — Tudo bem — respondi fitando com satisfação aquele rosto semelhante ao meu com as expressões de Sakura. — Vou procurar no quarto e depois levo para você na creche.
Passei na hospedaria assim que deixei o Ichiou no pátio da pré-escola. Assinei meu nome na entrada e subi com pressa. Encontrei o caderno e brinquedos dos quais Ichiou sentiria falta depois. Levei comigo para não ter que voltar mais lá. Tranquei o quarto e segui para escada, mas estanquei – mais uma vez – na frente do quarto da Takahaghi. A porta estava semiaberta, mas não senti a presença dela ali.
Desta vez, não ponderei muito sobre certo ou errado, empurrei os noventa graus de abertura da porta e observei o quarto dali mesmo. Menor e menos mobilhado do que o da Sakura. Entrei com mais curiosidade do que cautela ao observar as paredes que chamaram minha atenção à primeira vista.
Minha imagem estava estampada em fotos e desenhos. Fotos de treinamentos da Anbu, alguns momentos mais descontraídos do meu esquadrão, retorno de missões... Porém a maioria focava em uma única pessoa. Havia recortes de fotos minhas coladas ao lado de fotos dela, desenhos de momentos que existiram somente em sua cabeça ou nos seus desejos íntimos. Após digerir os painéis, o pensamento que me atordoou foi a possibilidade de Sakura ter visto aquele mural.
— Eu te pedi muitas vezes para entrar aqui. — Olhei para trás. Sem surpresa, fitei Myumi parada à porta do quarto. — Em todas as muitas vezes, você recusou — continuou. — Pergunto-me se está aqui porque pensa que os convites ainda são válidos depois de semanas ou porque sua crise de arrogância o fez achar que tem o direito. — Cruzou os braços enquanto me encarava com uma expressão vitoriosa. Não expressava raiva ou irritação, e sim, triunfo e interesse.
— Deixou a porta aberta.
— Você poderia ter tido a gentileza de fechar — rebateu fechando a porta atrás de si.
— Jogue isso fora — disse de maneira firme. Logo, a postura confiante que sustentava, se desfez. Myumi queria fazer joguinhos comigo, usar do seu charme, mas eu estava irado pelo o que eu tinha encontrado. Ainda estava em missão, precisava manter as brechas, contudo o que eu encontrara ali me deixou furioso.
— Não tem nada de errado. São apenas imagens.
— Imagens minhas.
— Imagens nossas.
— E qual o problema? Não temos muitas fotos juntos — explicou aproximando-se. — Eu criei esses murais para manter vivo os momentos que tivemos... Todos juntos ou só nós dois — disse de maneira dócil.
— Myumi — comecei, mas ela me interrompeu.
— Eu tenho medo de perder a memória e esquecer tudo o que aconteceu — disse afoita chegando até mim. Desvencilhei-me das suas mãos no meu tórax da forma menos rude que consegui. Caminhei até a porta respirando fundo. Eu estava traindo a confiança da Sakura mais uma vez só por estar ali. — Sasuke — chamou-me com a voz embargada. Virei-me e contemplei os olhos lacrimejando.
Ela era muito jovem e já estava sofrendo por alguém. Por mais que fosse uma missão — uma missão que me prejudicou drasticamente — e eu não devesse me importar com ela, eu me importava, pois o que ela passava comigo, Sakura já tinha passado um dia. A rejeição. Eu já tinha visto aquele olhar desolado me mirar de diferentes olhos. Outras garotas. Espremi o orgulho delas até o sumo. Myumi estava despedaçada há semanas. Para cada remendo, eu fazia três rasgos. Aquela empatia só desenvolvi até provar da mesma rejeição, comendo-a crua das mãos da Sakura. Ainda sentia o gosto.
Embora eu não sentisse nenhuma atração por Myumi, eu tinha respeito e consideração. Passamos muito tempo juntos, acompanhei seu progresso, seus sucessos e fracassos. Eu sabia que em determinado momento, ela seria descartada. À princípio, essa ideia não fazia diferença para mim, mas conforme os meses, notei que Myumi era apenas um fantoche. Sua mente era de uma garota jovem, ingênua, encantada com a possibilidade de uma vida cheia de aventuras e emoções. Isso tudo morreria com ela em algum momento. A expectativa de um futuro e uma vivência baseada em mentiras, manipulações e ilusões.
— Já te pedi. Jogue tudo isso fora.
— Está dentro do meu quarto. Se não entrar mais aqui, não precisará ver mais. É simples — disse alguns tons mais alto e mais agressiva.
— Isso me ofende. Eu tenho...
— Não precisa me lembrar que você tem uma família — interrompeu-me. — Eu entendo, de verdade. O que você fez comigo foi errado. Ora, eu sou uma mulher! Eu entendo sua esposa ter ficado irada, entendo você ter ficado chateado com tudo o que aconteceu... Entretanto, isso já passou. Passou há meses — explicava. — Você pode estar se sentindo mal por ter feito tudo da maneira errada, só precisa entender que sentir algo por outra pessoa não é errado. — Aproximou-se novamente de mim. — Às vezes, o amor dura, às vezes, não.
— O que está dizendo? — perguntei de maneira retórica recuando para a porta.
— Estou dizendo que eu não ligo mais para a Anbu, para a diplomacia, para nada! Eu estou me abrindo para você. Mais uma vez. — Segurou minhas mãos. — Eu estou disposta a tudo, Sasuke. O que a gente viveu não tem provas tangíveis, não tem fotos, não tem presentes... Mas foi real! Foi, sim! — disse com os olhos cheios de esperança. Virei o rosto e abri a porta. — Sasuke — chamou-me.
— Vamos conversar em outro lugar — disse saindo dali e descendo as escadas. Já tinha me arrependido de ter entrado. Tinha me arrependido de ter tido compaixão pela posição dela. Myumi parecia disposta a humilhar-se por menos do que nada. Não culpava sua esperança. Sua mente era uma colcha de retalhos de lembranças e ilusões, para ela, tudo era real e possível em relação a nós dois.
— Que lugar? Eu quero conversar agora, Sasuke — Seguia-me.
A recepcionista me observou ser seguido por Myumi com uma expressão desgostosa. Mais uma vez, eu estava em uma situação delicada assistida. Apenas um dia após a ausência de Sakura. Para qualquer um de fora, era somar dois mais dois. Não julgaria quem me julgasse. Parei em frente à hospedaria, não queria chamar mais atenção. Myumi também parou e me fitou esperando uma resposta. Ela achava que eu estava indo contra minha vontade, que estava sendo moralista. Criei um mundo para ela em que eu realmente a amava e era nisso que ela acreditava.
Eu ia contar a verdade ali, porém dei mais uma chance à missão. Detestava o fato de ela ser a chave da porta que nos levaria ao Orochimaru. Eu tinha que terminar o que comecei, para isso, precisava agir. Vasculharia mais uma vez sua mente em busca das respostas e a deixaria ir.
— Aqui não é um bom lugar — expliquei tentando acalmá-la. — Vamos conversar amanhã no treinamento.
— Mas você não vai mais aos...
— Eu vou amanhã. Deixo o Ichiou na creche e sigo para o campo. Conversamos lá. — Virei as costas, porém sua mão me puxou para si. Próximo. Próximo demais.
— Prometa-me — sussurrou numa súplica.
— Até amanhã — respondi no mesmo tom e me afastei incomodado. Myumi nunca tinha chegado tão perto. Foi perto demais.
Caminhando para casa, senti-me culpado. Os pensamentos iam e viam sobre certo e errado, sobre dever, direito e obrigação. Era sempre assim. Tudo o que eu fazia. Sempre ponderando, filtrando, comparando, lembrando.
Eu não queria errar mais. Errar foi tudo o que fiz na minha juventude.
Naruto dizia que eu me parecia com um boneco sem vida quando não falava muito. Não falava porque meus pensamentos gritavam e eu tinha que escutá-los, senão enlouqueceria. Sempre estava errando, dois passos para frente, um para trás. Entendia melhor o porquê da Sakura ter sido tão firme em me deixar. Eu era um atraso. Não conseguia dizer que a amava. Todas as ações ficavam encarceradas dentro de mim.
Parei na varanda de casa, estendi a chave para a porta e reparei nas minhas mãos: a esquerda com a chave; a direita vazia. A prancheta de pinturas do Ichiou ficou no quarto da Myumi, junto aos seus brinquedos prediletos. Ichiou ficara na creche me esperando levar seus materiais. Eu não os levaria. Segunda pessoa decepcionada no dia.
Bati a cabeça contra a porta ainda fechada. Eu só queria ela ali. Eu precisava dela ali. Seriam longas semanas e eu não tinha superado nem o primeiro dia.
.o0o.
Depois de conversar com Myumi, encontrei-me com Naruto no Ichiraku para almoçarmos. Ele falava empolgado sobre a vida de casado, detalhes dos quais eu não tinha interesse em saber, e se arrependia de não o ter feito antes.
Naruto falava. Eu prestava atenção em boa parte, em outras, minha mente viajava. Sakura e a equipe ainda estavam a caminho de Suna, não teríamos notícias em breve. Naruto organizava suas bagunças administrativas e me cobrava retorno sobre a missão.
— Em andamento — respondia simplesmente.
Ele sabia que eu estava fazendo aquilo por consideração a ele e contra a minha vontade. Era o suficiente para não me importunar mais. Talvez ele também estivesse em uma situação difícil, sua amizade com a Sakura foi abalada por conta da maldita investigação. Contudo, era um fardo do ofício que ele carregava e dividia. Não havia o que lamentar.
— Onde ficará durante a virada no ano?
— Em casa. — Dei os ombros.
— Vá para a minha. Ichiou vai adorar! Tenho um quintal duas vezes maior do que o seu, Teme. Ele vai correr e pular lá até dormir de cansaço. — Ri pelo nariz.
Naruto gabava-se por ter um quintal maior do que o meu, mas esquecia-se de que eu possuía apenas um distrito inteiro.
— Pensarei a respeito. — Naruto me deu um tapa das costas para expressar toda a sua falta de paciência com minhas respostas evasivas.
— Não se atrase! — Bagunçou meu cabelo. — Te mando notícias da Sakura — disse e então seu clone desapareceu antes que eu revidasse todas as inconveniências.
Com a chegada do inverno, escolas e comércios menos movimentados fecharam. Andar pelas alamedas de Konoha era como enfrentar dezenas de kunais invisíveis ferindo o corpo a cada lufada de vento. Sensação de congelamento e imobilidade. Os habitantes mais velhos da vila diziam não se lembrarem de um inverno tão rigoroso. Eu já enfrentara temperaturas semelhantes e até piores, mas admitia que aquela mudança climática era uma máquina de estorvos, começando pela comunicação.
Sakura e todo o grupo chegaram bem à Suna. Eu poderia enviar um retorno imediato da mensagem particular de Sakura se Garuda não se recusasse a viajar naquele tempo. Como não teríamos novidades, resolvi esperar o ritual de passagem de ano para empolgar Sakura com alguma notícia além de que eu estava buscando por casas mais próximas ao centro da vila.
Toda vez que deixava Ichiou na creche e seguia meu caminho para casa ou para a Anbu, pegava o atalho de uma alameda em reconstrução, destruída ainda na Quarta Grande Guerra Ninja. As casas estavam na etapa de acabamentos. Duas ruas atrás de comércios como o Ichiraku Lámen. Sakura talvez gostasse de morar em lugar como aquele.
Ichiou e eu nos preparamos para ir à casa do Naruto e da Hinata. Seria o primeiro ano novo dele em família, com Hinata e a criança ainda no ventre. O que mais Naruto poderia pedir no Hatsumode²? Talvez rámen ao invés de chá³.
Quando saímos de casa, não pude resistir ao ímpeto de pegar Ichiou no colo e cobri-lo com a minha capa.
— Eu estou bem, otou-san! — bradava irritado. — Não sou mais criança! — A afirmação me fez soltá-lo na hora. Paramos no meio do caminho, antes mesmo de alçarmos a saída do Distrito Uchiha.
— Você não é mais criança? — Ichiou negou com a cabeça e desamarrotou a roupa nos lugares onde eu havia o segurado. Vaidade, era isso que aquele pedaço de ser humano tinha. — Quis te proteger, pois sei que não está acostumado com essa temperatura.
— Mamãe me disse que...
— Sua mãe não está aqui — repeti a frase que tinha que repetir em inúmeras situações em que Ichiou me contrariava. — Eu não vou mais pegá-lo no colo. A partir de agora, você será para mim um rapaz. Quase um igual. Certo?
— H-hai — afirmou trêmulo. Não sei se pelo frio ou por temor. Suspirei exausto apenas com aquele fragmento de conversa. Considerei a possibilidade de dar meia volta. Ichiou encarava-me de cabeça baixa, o vento gelado ricochetando seus cabelos negros e a ponta do nariz e as maçãs do rosto rubescendo. Ainda uma criança.
— Ainda quer ir? — Ichiou me fitou. — Você é um rapaz agora, pode tomar algumas decisões. — Ele continuou me encarando. — Precisa tomar decisões rápidas, ou congelará nessa ventania.
— Quero visitar Naruto-san.
— Ótimo. — Dei-lhe as costas e segui o caminho.
Quase trinta minutos caminhando com neve até o tornozelo. Não olhei para trás em momento algum, acompanhei seus passos pelo som, gemidos e instabilidades no chakra. Aquele talvez tenha sido o primeiro grande desafio da sua vida, vencer meu orgulho. Eu treinava Ichiou para ser um ninja, mas o acalentava no momento seguinte. Não sabia como mensurar nada disso. Quando agarrar, quando largar.
Hinata recebeu-nos com uma reverência. Procurou Ichiou ao meu lado, encarou o vaziou. Fitou-me como uma indagação; olhei para trás; Ichiou vinha chutando a neve para poder passar. Os dedos roxos, o rosto vermelho. Hinata encarou-o assombrada.
Foi ao encontro dele arrastando sua gravidez como se seu ventre fosse de vidro. Tentou pegá-lo, mas Ichiou negou. “Não sou mais criança”. Chegou sozinho à varanda da casa, onde não nevava mais sobre sua cabeça protegida por uma touca fina. Esperava ódio e raiva no seu olhar, mas só contemplei orgulho e satisfação.
— Você chegou aqui sozinho — parabenizei-o com um sorriso. Ichiou repetiu meu gesto. — Mas precisa se esforçar mais — Ichiou me olhou sem entender. Apontei para suas roupas, então ele olhou para si mesmo: sapatos e haori molhados, além dos cabelos desgrenhados.
Hinata voltou para a varanda aquecendo os próprios braços, observando a cena com rugas na testa, talvez julgando meu tratamento em relação ao Ichiou. Esperava que com a pequena demonstração de gênio intenso da criança ela tenha entendido que a luta de Ichiou era dele com ele mesmo.
Retirei minha capa impermeável, revelando minha vestimenta intacta. Ichiou pareceu envergonhado, virou o rosto. Hinata riu timidamente, provavelmente entendeu o que tinha acontecido.
— Gomenasai, otou-san. — Ichiou pediu curvando-se totalmente antes de entrar.
Aceitei suas desculpas com um aceno de cabeça, mas pelo restante da noite, tratei-o como um rapaz.
— Tomara que eu tenha uma criança tão determinada quanto a sua. — Hinata desejou fechando a porta assim que entramos.
Naruto recebeu-nos da forma mais escandalosa possível. Eu sequer poderia reclamar, pois não estava na minha casa. Hinata observava todas as conversas intervindo pouco. Notei que era da sua natureza calma falar pouco, não se atribuía somente à timidez. Era uma atitude louvável calar-se quando não há nada de relevante a dizer. Eu tentava praticar o máximo que podia.
— E então foi assim que decidimos colocar o quadro do Time 7 no centro da parede da sala — Naruto terminou a história que contava há vinte minutos sobre o retrato do Time 7 na sala de estar da casa dele. Hinata ria apaixonada a cada vírgula do Naruto, eu, bebia e assentia.
Ao contrário do que Naruto previra, Ichiou não se matou de brincar no quintal enorme da sua casa, pois estava decidido a comportar-se como um adulto. Contudo, logo cansou-se disso, de sentar ereto no sofá e ouvir os elogios de Hinata sobre ele ser uma “criança polida”. Caiu no sono e Hinata teve a bondade ir ao seu encontro, no cômodo adjacente, para acalentá-lo.
— São os hormônios da gravidez — Naruto sussurrou para que Hinata não ouvisse.
Observávamos da cozinha ela: ela penteava os cabelos de Ichiou com os dedos e cantarolava notas de uma melodia de ninar. Vez ou outra ele espirrava e fazia com que os olhos da Hyuga lacrimejarem. Naruto se esforçava para não rir. Eu mesmo estava tendo dificuldades de manter minha máscara imutável de indiferença, ainda mais quando Ichiou me desafiara horas antes sobre sua maturidade.
— Esse vai ser dez vezes mais mimado e metido do que você, Teme — Naruto comentou bebericando o chá. — Pelo menos dez vezes.
Ri pelo nariz e beberiquei meu próprio chá.
— Já respondeu a Sakura? — perguntou. Neguei com a cabeça.
— Garuda não viaja nesse tempo. Não tenho notícias para dar, também.
— Tem visto as casas, não é? — afirmei a ele. — Ela pode gosta de saber que está tomando conta de algo que não seja do seu interesse.
— É do meu interesse. — Pousei a xícara no pires.
— Sakura pode continuar dizendo as mesmas coisas quando voltar. Já pensou nisso? — Afirmei com a cabeça, mas a verdade, era que eu tentava não pensar sobre isso. Para mim, tudo já devia estar bem. Tinha que estar. — A Sakura mudou, Sasuke.
— Eu sei — disse num tom de encerramento de conversa, mas Naruto pareceu não entender.
— Sabe merda nenhuma — rosnou baixo, tentando não chamar a atenção de Hinata que ainda embalava Ichiou. — Você acha que é uma fase...
— Você não sabe de nada — interrompi sua fala. — Dá para parar? — encarei-o.
— Não — Naruto respondeu-me calmamente. Olhou para a sala. Desta vez, Hinata observava nossa tensão. Ela levantou e foi para o interior da casa, deixando Ichiou no sofá coberto com um manto. — Sasuke, esse projeto da Sakura é algo bem maior do que nós dois poderíamos imaginar. Está dando certo e continuará. Essa clínica fez com que ela se reerguesse quando pensávamos que ela não ia mais se levantar. Preste atenção, Sasuke. É um conselho de irmão. — Segurou com firmeza meu antebraço. — Seja o apoio dela. Ajude-a. Não coloque empecilhos nos seus sonhos, eles são maiores do que ela. Você pode ficar irritado por ela ter partido ou por ela não ter tempo para nada. Só tente se lembrar de que não faz muito quando a Sakura só tinha ela mesma em um quarto de hotel emprestado. Esse objetivo a reergueu. Não foi você, não fui eu. Tenha paciência, esse momento é dela. Beleza?
Não respondi. Não entendi por que Naruto me deu um sermão a troco de nada. Eu pensava sobre aquelas coisas, mas evitava. Sakura tornou-se mais do que minha companheira, ela tornou-se minha vulnerabilidade e eu detestava isso. Quase fui embora de tanto estresse, porém resolvi exibir minha melhor expressão de descontentamento para ele mudar logo de assunto. Ichiou provavelmente pegaria uma pneumonia se saíssemos novamente. Não demorou para Naruto se tocar e começar com as neuras de ser pai: outra coisa que eu não entendia. Quando a Sakura engravidou, não me lembrava de ter aqueles temores. Tinha certeza de que queria ser pai. Ichiou foi planejado e aguardado. Lidei mais facilmente com o nascimento dele do que a Sakura.
— Não me sinto maduro o suficiente — confessou coçando a cabeça.
— Você não é — confirmei servindo minha xícara vazia com a bebida alcoólica que Naruto achou em algum armário. Ele fez careta para o meu comentário, mas não discordou.
— Não estou com medo nem arrependido. — Vigiou as portas. —Digamos que eu não iria me importar de ter um filho daqui uns quatro anos, talvez. Que Hinata não me escute jamais...
— Em quatro anos você terá outro filho4. Pelo menos não serão dois de uma vez.
— Como sabe disso? — Dei os ombros. — E você? Não se preocupa?
— Apenas com ataques à vila, epidemias e acidentes que possam matar o Ichiou.
— Nada mais?
— Não que eu me lembre.
— Não te incomoda a possibilidade de ser um pai ruim?
— Às vezes. — Reparei na minha bebida descendo o nível. Eu queria continuar bebendo, mas ficaria embriagado antes do Hatsuhinode5.
— E o que você faz?
— Dedico meu tempo livre a ele.
— Só?
— A maioria dos problemático que encontramos não teriam crescido problemáticos se os pais ou alguém tivessem lhes dado atenção — respondi. — Você não pode discordar disso. Você é um deles.
— Hey! Sou o seu hokage! Não sou problemático.
— Já foi. — Servi a xícara de chá com mais aguardente e bebi metade num gole. Foi como engolir as labaredas que eu costumo soprar.
— O contrário é verdadeiro — Naruto retrucou com um sorriso vitorioso, servindo sua xícara vazia de chá de bebida também. — Somos parte de uma fatia pequena que deu certo, Sasuke. — Era uma frase simples, mas de toda a pregação do Naruto, foi a que mais me fez pensar. “Deu certo”. — Um brinde a nós!
Naruto ergueu a xícara e chocou contra a minha. A porcelana delicada trincou inteira, mas não caiu nenhum pedaço. Naruto e eu nos encaramos em choque:
— Herança? — Naruto assentiu com lágrimas nos olhos. — Quem deu está vivo? — Naruto negou em prantos. — Presente de casamento? — Ele teria berrado como uma criança em profundo desespero se eu não tivesse lhe dado uma das ideias mais idiotas que tive na vida. — Coloque no pires. Com cuidado, Dobe! — rosnei.
— De que adianta? O estrago está feito. Hinata vai pedir divórcio assim que ver isso.
— Põe a porcaria da xícara no pires. — Fiz o mesmo. — Pronto. Agora saia de perto.
— De longe, nem parece que está...
— Pois é.
— Sasuke, mas quando a Hinata pegar...
— Choque térmico. — Naruto olhou para mim deslumbrado.
— Você é um gênio, Uchiha.
Não, eu não era. Não fazia sentido nenhum essa desculpa, contudo eu precisava inventar alguma coisa para o Naruto não entrar em desespero.
— Bom, acho que não virá mais ninguém. — comentou indo para a sala. Ichiou dormia na mesma posição no sofá.
— Quem mais viria?
— Chamei o Shikamaru, Kakashi, Tsunade... O Shikamaru eu até entendo, Temari está grávida e é complicado sair nesse tempo maluco. Mas Kakashi e Tsunade...
— Eles não têm família. Essas reuniões podem incomodá-los mais do que acolhê-los.
— Sasuke, veja só! — Naruto começou com um entusiasmo repentino. — Temari e Hinata vão parir com poucos meses de diferença. Nossos filhos serão amigos! Talvez até fiquem na mesma equipe genin depois da academia!
— Hm — fingi interesse. Queria mais daquela bebida quente. Ela tirava a sensação de frio.
— Se a Sakura tiver outro filho agora, nossos filhos podem crescer juntos e formar o time mais poderoso que o mundo já viu! — dizia com brilho nos olhos. A frase inteira, para mim, parecia uma formulação errada de palavras de tão absurda que soava.
— Hm.
— O filho do Shikamaru, o cara mais inteligente que conhecemos; mais o seu filho, a criança mais vingativa da face da Terra; juntos com o meu filho, herdeiro de sangue do shinobi mais poderoso que o mundo já viu — dizia teatralmente. — Teríamos que lançar o cargo de Kage do mundo com três vagas para os três liderarem.
— Essa bebida queimou meu esôfago, mas em você o efeito deve ter sido queimar o restante do seu cérebro.
— Sasuke, eu estou falando sério!
— Não esperava escutar isso.
— Você não pensa em ter outro filho? — Eu pensava.
— Talvez. — Dei os ombros.
— Ichiou já tem cinco anos, não quer mais colo e essas coisas. Já é um rapaz! — Se Naruto soubesse...
— Realmente.
— Então! Está na hora certa de ter mais um filho! Reconciliação com a Sakura, término de missão, casa nova, emprego novo... Tudo propício para a vinda de uma criança.
— Preocupe-se com a sua que já está pronta e a caminho.
— Exato! A sua que ainda não foi encaminhada que precisamos dar um jeito nisso.
— Eu não acredito no que estou ouvindo — fitei o teto da casa nova. Tinha cheiro de nova, recém pintada, madeira jovem, distração.
— Você e a Sakura chegaram a ficar juntos depois de tudo, não é? — Não respondi. — Então, já pode ter mais um Uchiha no mundo. — Naruto presumiu pelo meu silêncio que a resposta era “sim”. — Vai vir para somar na reconstrução do clã, para nossa alegria e o desgosto do Tobirama.
— Naruto, eu vou embora.
— Cara, eu sei que esse assunto mexe com a gente. Eu sou homem também, cara. Tenho essas inseguranças.
— Do que você está falando?
— Você fala que foi muito seguro com o Ichiou, mas eu duvido.
— É verdade.
— Não é.
— As circunstâncias foram diferentes da sua.
— Mas não bateu um medinho?
— Só ansiedade.
— Ansiedade é medo.
— Não necessariamente.
— O que você sentia?
— Queria que nascesse logo. Ver se era menino ou menina. Essas coisas.
— Pensei que fosse dizer algo mais profundo.
— Você não entenderia.
— Sasuke, eu não virei hokage pelo carisma. Eu sou um homem inteligente.
— Você virou hokage pelo carisma e impera com burrice.
— Repita isso e eu ordeno a sua prisão por desacato.
— Burro carismático.
— Não ultrapasse os limites de Konoha nos próximos dias!
— Não ia me prender?
— Vou esperar o fim do Sanganichi.
— Eu vou esperar deitado.
— Ainda com aquela fantasia de achar que é mais forte do que eu? — Naruto riu debochado. — Acho que a bebida não queimou só o seu esôfago também!
— Vai dormir, Naruto.
— Vou só encostar aqui para não deixar você sair... — Deitou-se no sofá adjacente. — Você está preso, de verdade.
— Hm.
Só acordamos no dia seguinte. Hinata, assim como eu, vinha de uma família muito tradicional, então praticamente todos os ritos de ano novo ela seguiu. Naruto participou com ela da maioria. Era bom saber que Hinata compreendia a ignorância do Naruto e seus momentos específico para participar ou observar, sem reclamar ou cobrar. Eles eram a dualidade um do outro.
No último dia, houve uma estiagem e Ichiou e eu decidimos voltar para casa. Como o Sanganichi já tinha acabado, pude tocar em assunto de trabalho com Naruto. Trouxe comigo o relatório final da missão. Entreguei a ele antes de sair avisando que estava de férias e que aquele assunto não era mais meu. A missão não tinha de fato acabado, minha participação nela que estava encerrada.
Descobri a natureza do poder da Myumi. Ela transformava sonhos, pensamentos, desejos e ilusões em coisas concretas. Ela não sabia muitas vezes diferenciar o que era pensamento do que era realidade, lembrança ou ilusão.
Desconfiava de algo nessa linha há um tempo. Tive a certeza quando tentei invadir sua mente com o sharingan e no meio da ilusão, Myumi me respondeu:
— Isso não é real. — E no instante seguinte, me lançou para longe com um chute no estômago. — Minha consciência me ensinou a diferenciar. Agora, você não me engana mais, Sasuke. — Myumi também não parecia a mesma garota colecionadora de fotos. Eu preferia a versão vingativa.
Com a farsa acabada, eu não tinha mais nada a contribuir para a Anbu que outro shinobi não pudesse fazer.
— Todos vocês têm me observado. Só fiz parte de um estudo. Cobaia. Semelhante àquelas que resgatamos.
— Sim e não. Você foi cobaia, mas do Orochimaru. Para Konoha, você foi aliada.
— Fui usada como aliada. Uma cobaia usada como aliada.
Em nosso encontro, ela disse coisas que omiti no relatório. Não faria diferença alguma Naruto saber e isso só iria expô-la. Ela passou a me odiar a partir do momento que descobriu que a enganei. “Você e a louca do hospital se merecem”, gritava depois de desabafar todas as injúrias que sofreu.
Eu não me desculpei por nada, contudo, sentia por ela. Myumi era só uma garota.
Lutamos brevemente, porém o seu poder era incomparável ao meu. Consegui detê-la sem muita dificuldade. Com o auxílio de outro Anbu, a prendemos na sala de interrogatório do Ibiki com travas em todos os pontos de articulação, uma mordaça para impedir que ela mordesse a língua, vendas e protetores de ouvido, assim ela não poderia ser influenciada pelo ambiente externo para tentar escapar de qualquer forma.
A ideia era contê-la e trazê-la de volta para o lado de Konoha. Seria muito difícil visto que Orochimaru agia como sua consciência. A única coisa que não poderíamos prender seriam os seus pensamentos. Orochimaru tomaria o controle total.
“Tirei férias da Anbu para ficar tempo integral com o Ichiou”, escrevi na quarta linha da carta de resposta à Sakura. Ano novo; casas de Konoha e férias. Três notícias. Era bastante. Sakura gostaria de saber que tudo isso aconteceu em poucos dias. Pelo menos era o que eu imaginava.
Pensei, nas semanas seguinte, que tudo estivesse encaminhado. Embora Naruto estivesse possesso comigo, eu sabia que era temporário. Ninguém poderia negar que a minha parte eu cumpri do início ao fim.
— Você deveria tê-la mantido por perto! — esbraveja.
— Às vezes o amor dura, às vezes, não — repeti a sábia frase de algum quadro decorativo que li por Konoha.
— Sasuke, a garota escapou! Só pensa em vingança e retaliação! Você sabe do que uma pessoa com ódio é capaz de fazer?
— Posso te mostrar se não me deixar em paz agora.
— Você tem noção da gravidade dessa fuga?
— Naruto, estou de férias.
— Mas eu, não! Os outros líderes estão cobrando um posicionamento sobre isso.
— Resolva o problema da estadia da Sakura em Suna, que já dura mais de um mês, que podemos negociar algo em relação a essa menina.
— Sakura está lá porque quer! Eu já disse!
— Ela está lá porque o Gaara insiste. Ela tem que vir embora no tempo que foi acordado.
— Você não decide isso por ela. Eu não posso fazer nada se ela escolheu ficar para ajudar o Gaara. — Puxou os fios de cabelo. — Sasuke, a Myumi tornou-se um problema de grande proporção. Ela viveu aqui em Konoha ao lado dos melhores shinobis. Orochimaru estudou tudo isso. Achamos que estávamos um passo a frente, porém estávamos errados. É questão de tempo para ela fazer algo.
— Não fui eu quem deixou-a escapar.
— Mas você é o único que pode recuperá-la.
— Eu não vou, Naruto. Essa missão acabou para mim quando lhe entreguei o relatório final. Isso já afetou minha vida mais do que deveria. Eu estou fora.
Naruto me fitou com decepção por uns segundos antes de sair batendo a porta. Estava possesso. Já estava decidido: eu não tinha mais nada a ver com isso.
Meu tempo livre era dedicado apenas aos treinamentos do Ichiou, às negociações da casa e do terreno. Mais nada. Eu ansiava pela nova vida, pela vinda de Sakura. Tudo seria diferente. Ninguém tiraria isso de mim.
¹ = Sanganichi¹ = três primeiros dias do ano novo que os japoneses passam com a família e com os amigos.
² = Hatsumode = primeira visita ao templo do ano para pedir prosperidade e saúde no ano que chega.
³ = Referência ao Hatsugama, primeira cerimônia de chá do ano, feita com familiares e amigos mais próximos para manter firme as relações mais íntimas no ano seguinte.
4 = Referência à Himawari. Não, o Sasuke não é vidente, mas eu quis fazer parecer que fosse.
5 = Hatsuhinode = primeiro nascer do sol do ano.
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