Pilares de Areia

11 I'd stop the world and make you mine and everyday would stay the same


Notas iniciais
Título: Se eu tivesse uma arma (If I had a gun) — Noel Gallagher (Se eu tivesse uma arma). . Chegou!!! Desculpem-me a demora, meus amores! Este capítulo foi betado pela linda Alice Alamo! Também dedico este capítulo para ela que passou em medicina da UFRJ! Um grande abraço para todos que comentaram e recomendaram Pilares de Areia! . Tenham uma boa leitura!

No início, eu achava que Ichiou iria afastar ainda mais Sasuke de mim quando nascesse. Obviamente eu estava muito enganada. Ichiou era o elo entre nós. E como dizem, “há males que vêm para o bem”, a doença do Ichiou era um desses males benéficos. Nos uniu de uma maneira surpreendente, e não digo apenas no meu casamento, nos uniu como família. Foi como despertar de uma vida desconexa e nos isolarmos numa redoma de vidro para cuidar um do outro. E havia muita coisa para ser curada. Inflamações mais profundas do que água nos brônquios.

Sasuke e eu estávamos vivendo juntos há quase quatro anos, entre altos e baixos, e no fim nada mudava significativamente. Ele permanecia comigo porque me tornei sua família, eu permanecia com ele porque o amava. Isso estava bem claro para ambos. O maior ápice foi Ichiou, e só. Questões como voltar a trabalhar, ter mais filhos, missões, despesas, educação do Ichiou... Eram coisas tão rotineiras que eu não mais considerava, portanto o que realmente precisa estar claro é que até chegarmos ao ponto de quase perder nosso filho, nos engasgávamos e explodíamos, respirávamos fundo e fazíamos as pazes pela boa convivência. Depois do banho em família, depois de sentir o toque cuidadoso do Sasuke em cada dobra do meu corpo, eu vislumbrei um panorama de todo esse tempo, tempo perdido, tempo investido, tempo vivido... Aposto que ele também pensou o mesmo. Foi um acordo silencioso: precisamos mudar.

Nos afastamos dos nossos empregos por alguns dias. Não era como férias parciais. Na verdade, era uma licença para cuidar do Ichiou, contudo não foram oito dias restritos somente a ele porque ele já estava melhor em comparação a crise mais recente. Essa pausa serviu para nós como casal, não exclusivamente como pais.

Primeiro Dia

De um dia para o outro, ficamos praticamente virados. Acalmei o Sasuke para que ele pudesse descansar mais, nem que fossem cochilos de poucos minutos, ele precisava. Eu fingia que dormia, mas mantive o pulso de Ichiou entre os dedos durante toda a madrugada. Shinobis são acostumados com o sono, não com o desgaste emocional, e no nosso caso, o que acabava com a gente era a incerteza de que Ichiou ficaria bem.

Quando o dia clareou, por volta das seis da manhã, Sasuke levantou-se da cama, tomou um banho rápido e perguntou pela terceira vez do Ichiou desde que ficou de pé.

— Vou pedir ao Naruto uns dias de folga da Anbu — anunciou enquanto se vestia.

— Com certeza ele irá conceder.

— Vou pedir para você também.

— Não é necessário, só precisa avisar no hospital. Eu sou chefe, esqueceu-se? — pisquei com um pouco de humor na voz. Ele não me olhou, mas deu um sorriso de canto. O que será que estava pensando? — Traga xaropes do hospital. Shizune-san saberá quais são.

— Okay — beijou o topo da minha cabeça.

Ele saiu do quarto e minutos depois pude escutar a porta de entrada batendo no andar de baixo. Torcia para ele voltar rápido e ficar com o Ichiou para eu fazer as tarefas de casa. Com o Ichiou daquele jeito, eu temia virar as costas por poucos minutos, e ele ter outra crise.

Como eu disse, o fato de eu ser médica não mudava muita coisa, pois eu era mãe de primeira viagem, e embora eu tratasse todos os pacientes com empatia e muito cuidado, é diferente quando o seu próprio filho se torna o paciente.

Havia um chiado no peito persistente por conta do excesso de catarro no pulmão. Ele tossia quase que o tempo todo. A tosse é um mecanismo de defesa do organismo que se dá quando há algo estranho no pulmão e o corpo se comprime todo para expelir. Isso requer uma grande quantidade de energia. Quando a tosse é eventual, essa energia gasta é quase imperceptível, porém quando fica regular, como acontece com o Ichiou, o corpo fica dolorido e exausto pelo esforço em tirar das paredes pulmonares o que está afetando os brônquios, e, por conta disso, Ichiou estava dormindo quase que ininterruptamente desde que adormeceu na banheira.

Eu possuía um cesto enorme onde colocava os brinquedos pequenos do Ichiou, os que ele brincava mais. Espalhei-os em cima do tapete central da sala e forrei a cesta com colchas e travesseiros macios, então coloquei Ichiou lá dentro. Era o único lugar onde ele cabia. Coloquei o cesto em cima da mesa e fiquei na cozinha preparando o café-da-manhã, olhando de tempo em tempo para trás para verificar se estava tudo bem.

Terminei de preparar um desjejum reforçado, coloquei na parte livre da mesa e olhei o relógio de parede. Passara-se quase três horas desde que Sasuke tinha saído. Era mais do que suficiente para ele ir ao QG, ao hospital e voltar para casa. Esperei-o por mais uns trinta ou quarenta minutos, estava faminta e decidir comer sozinha.

Ichiou acordou, dei uma salada de frutas e iogurte para ele. Esperei Sasuke por mais meia hora e, como ele não apareceu, desmontei a mesa do café-da-manhã, logo daria a hora do almoço. Eu já começava a me preocupar. Com Ichiou acordado, ficava difícil prestar mais atenção nos serviços domésticos, por isso decidi deixar tudo de lado e ficar com ele no carpete brincando com os animais e homens de madeira que ganhara recentemente do capitão Yamato.

Sasuke chegou em casa quando eu já tinha cansado de o esperar. Levantei de súbito, ansiosa para saber o motivo da demora. Ichiou exclamou ao vê-lo, não tinha energias o suficiente para correr até lá.

— Como ele está? — indagou antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa.

— Um pouco febril — Sasuke o pegou no colo e beijou o topo da cabeça —, as tosses continuam, às vezes ele chora de dor... — sentei-me no sofá — Em comparação à ontem, ele está bem melhor.

— Mais ainda ruim — comentou como se estivesse engasgado na própria voz.

— Onde esteve?

— Nos lugares onde disse que iria.

— Demorou todo esse tempo para ir ao QG e ao hospital? — Sasuke finalmente me olhou, como se eu tivesse dito algo que o despertou.

— Por que insiste?

— Porque fiquei preocupada — exclamei — A menos que tenha ido arrastando, é de se estranhar que demore mais de quatro horas para falar com o Naruto e com a Shizune — seu maxilar trincou. Não pretendia começar uma discussão, só saber o que tinha acontecido para ele chegar tão tarde, não havia alarde no meu tom — Por falar nisso, trouxe os xaropes?

— Não encontrei a Shizune — respondeu tirando o casaco e pendurando no cabide de parede. Shizune deveria estar lá naquele horário. Será que tinha acontecido algo?

— Você não falou com Shizune, não trouxe os xaropes e ainda assim chega aqui a essa hora?

Eu não queria bancar a esposa ciumenta, mas naquele momento não tinha como. Tinha alguma coisa errada. Sasuke bateu com força a porta da geladeira e caminhou em minha direção com um olhar acusativo.

— O que está insinuando?

—Nada, só quero que me diga onde estava, porque você não estava nos lugares onde disse que iria.

— Já disse que passei no hospital e que Shizune não estava.

— Demorou todas essas horas para saber que ela não estava lá? — Sasuke suspirou olhando para o teto — Me desculpa, Sasuke, mas você está me lesando.

— Não começa, Sakura.

— Fica tranquilo, não vou insistir nisso. Vou ser a boa esposa que assiste as coisas acontecer, fica calada e oferece uma massagem — passei por ele e segui para a cozinha para preparar o almoço — Cuide dele, por gentileza.

Irritada, procurei alguns legumes nos quais pudesse descontar a minha irritação. Sasuke estava claramente mentindo, e, quando eu pensava sobre isso, automaticamente a imagem daquela mulher vinha a minha mente. Descontava tudo cortando perfeitas rodelas de beterraba sobre uma tábua gasta de madeira. Em outros tempos eu choraria pela imbecilidade do Sasuke, entretanto meu filho merecia melhor minha atenção.

Sakura — eu o ouvi me chamar da sala. Embora o tom não fosse de urgência, eu corri até lá perguntando se era o Ichiou.

Sasuke estava sentado com ele no colo brincando com os bonecos talhados.

— Estive na Anbu. Fiquei enrolado lá.

Respirei fundo, um pouco de alívio, um pouco de precaução. Poderia ser uma mentira em cima de outra.

— Com o quê?

— Uma missão que faria durante esses dias que ficarei aqui em casa — explicou — Tive que passar para outro, muita burocracia, você sabe como é.

— Sei — afirmei — Por que não quis me falar?

— Porque não confirmei ainda a transferência. E não sei se quero. Achei que pensaria que sou egoísta deixando o Ichiou aqui e indo trabalhar.

— Você vai?

— Amanhã darei minha resposta.

— Tudo bem.

Caminhei de volta para cozinha o mais rápido que consegui. As cenouras me esperavam aflitas, minha raiva seria descontada nelas.

Segundo dia

Durante a madrugada, a febre do Ichiou aumentou. Consegui conter com compressas de água e banhos, Sasuke me ajudou nesta parte, porém o corpo do Ichiou só respondeu lá para as oito da manhã. Sasuke e eu estávamos piores do que antes.

Assim que ele dormiu, com a temperatura do corpo normalizada e a respiração menos cansada, permiti-me uma soneca de descanso. Quando acordei, uma hora e meia depois, Sasuke não estava mais lá, nem na casa e nem fora dela. Provavelmente tinha ido para a Anbu.

A pequena discussão da tarde anterior não tinha prosseguido, de forma que continuamos agindo normalmente embora eu estivesse cabreira com a possibilidade dele viajar justo agora que Ichiou está doente. Apesar de eu não ter engolido totalmente a história de ontem, ignorava devido as circunstâncias.

Sasuke surgiu em pouco tempo, trancou a porta, tirou as botas e pendurou o casaco. Perguntou de Ichiou, respondi que ainda estava dormindo na cesta. A partir daí, Sasuke assumiu meu posto e eu preparei um café-da-manhã reforçado e levei para o piso superior. Ichiou deu algumas mordidas em uma banana, mas não demonstrava muito apetite. O restante da comida da bandeja foi igualmente devorada por Sasuke e por mim.

— Transferi a missão — informou-me.

— Fico feliz — encostei a cabeça na cavidade do seu ombro.

Ele afagou de leve minha cabeça e disse:

— Poderíamos ficar assim todos os dias.

Terceiro dia

Era fim de tarde. Ichiou parecia revitalizado, finalmente se levantou do tapete e voltou a correr pela casa com seus bonecos de madeira, batendo nas paredes, nos móveis, no corrimão das escadas. Gradualmente sua energia ia esvaindo-se. Era sempre assim quando anoitecia, a febre voltava e recomeçavam as crises de tosse, contudo pelo modo como ele passou o dia, eu só esperava que a noite fosse melhor do que as duas primeiras.

Eu estava revezando o dia com o Sasuke, já que durante a noite não conseguíamos descansar muito bem. Ele já tinha cumprido o turno dele, e eu já notava que ele estava pescando sentado no sofá. Num desses rápidos cochilos, lhe roubei um beijo que o deixou estupefato.

— Minha vez — sussurrei.

Ele ajeitou-se, saiu do sofá e agarrou minha cintura, levando-me com ele para a escada. Havia uma nostalgia em seus olhos, um sorriso quase despencando da máscara típica dos Uchihas. Um cheiro no cabelo, um beijo no topo da cabeça e um poke na testa:

— Cuide bem dele.

Sorri em resposta.

Geralmente, aqueles afetos espontâneos eram promessa de uma noite agradável.

— Conto com você, Ichiou — falei para mim mesma, baixinho, enquanto observava o Ichiou correr com um gavião na mão.

Por sorte, Ichiou não teve febre, o que persistia era o chiado no peito. Eu evitava ao máximo usar ninjutsu, contudo meu filho estava sofrendo daquele jeito. As tosses violentas deixavam seu corpo todo dolorido, ele mesmo falava “meu coração tá doendo, okaa-san”, e eu estive me policiando todos os dias, desde que Ichiou adoeceu, para deixar que o corpo dele lutasse sozinho e seu organismo não ficasse dependente, entretanto que mal tinha se eu tirasse um pouquinho da secreção?

Ichiou já estava em sua cama, brincando dessa vez com um bichinho de pelúcia que Sasuke lhe trouxera de outro vilarejo. Enquanto eu massageava seu peito, e ele cantarolava as cantigas de dormir que ouvia de mim, deixei fluir um pouco de chakra. Inicialmente ele ficou encantado, “olha mãe, a luzinha verde, tá brilhando”, depois ficou agitado. Vieram as tosses: peguei a frauda mais próxima que encontrei e coloquei abaixo do seu queixo; o coloquei sentado e esperei seu corpo comprimir e expelir o catarro; foram quase dois minutos tossindo, Sasuke até apareceu na porta para ver o que acontecia; de repente, Ichiou parou e respirou cansado.

— Olha, papai — apontava para o catarro.

Sasuke sorriu e sentou-se na cama do filho.

— Vá tomar um banho, eu faço ele dormir.

Foi um dos banhos mais rápidos que tomei na vida. Sasuke estava tão ameno naquele dia... Eu esperava uma extensa noite de amor se Ichiou continuasse assim durante toda a noite. Fazia um certo tempo que tínhamos nos tocado. Se a frequência no início do casamento já era péssima, àquela altura era novidade. A culpa era de ambos. Ele sempre queria quando estávamos meio estranhos um com o outro, e eu recusava. Eu sempre queria quando ele estava muito cansado ou acabava de voltar de uma missão. Mesmo com essa falta de assiduidade, quando nos tocávamos, compensava todos os outros dias afastados e frios.

Sasuke entrou no quarto quando eu estava tentando passar creme na parte mais inacessível das costas. Ele encostou a porta, deixando uma pequena fresta aberta para podermos ouvir o Ichiou, e caminhou em minha direção. Sasuke pegou o creme da minha mão e despejou um punhado na sua própria, espalhando não só na parte onde eu não alcançava, mas em todas as minhas costas. Nos ombros fez uma breve e suave massagem, então desceu as mãos labuzadas por toda a extensão da espinha e abriu as palmas quando passou o cóccix, moldando minha bunda como se meu corpo fosse um vaso de argila.

— Vi que acelerou as coisas com o Ichiou — sussurrou no meu ouvido, massageando minha bunda.

— Não quero ver meu filho sofrer.

— Eu também não — respondeu com os lábios na minha nuca, entre meus fios de cabelos. Era uma das partes mais sensíveis do meu corpo, me contorci inteira — É uma coincidência você estar me esperando nua?

— Talvez — me virei — O que você acha?

— Eu acho que não — me empurrou na cama.

Antes que ele se deitasse sobre mim e dificultasse as coisas, tirei rapidamente sua camisa. Eu gostava de tocar seu tórax, sua barriga... Se Sasuke tem um defeito em quesitos avaliados entre quatro paredes, é querer controlar tudo. Algumas mulheres gostam, ouço dizer, eu gosto às vezes, e naquele dia eu não estava gostando, mas aceitaria se ele insistisse. Beijos, apertos, lambidas, mordidas e tapas de leves, uma fungada perto da orelha, arranhões em pontos estratégicos e uma série de outras investidas deixavam tudo mais interessante, para ele e para mim. Quando estávamos assim, em harmonia, céus!, ele me levava às nuvens!

Naquela noite, eu tenho certeza que ultrapassei os limites.

Ficamos cerca de três horas explorando todos os cantos do quarto. Os corpos de ambos estavam repletos de marcas, grudento de suor, meu cabelo estava grudando na cabeça e eu já me sentia dolorida. Fizemos quatro, cinco vezes... Não me lembro bem.

Àquela altura, Sasuke tinha me colocado sentada sobre uma cômoda no corredor dos quartos. Havia alguns brinquedos, uns objetos decorativos em cima, e, à medida em que o Sasuke ia se chocando contra mim, a cômoda balançava como se estivesse prestes a quebrar, e uma a uma as coisas caiam e faziam um barulho terrível. Eu abafava o riso no seu ombro e podia ver de relance o Sasuke com uma discreta expressão de perversidade e divertimento. Ele estava exausto, teve algumas câimbras durante a maratona, vez ou outra eu tinha que assumir a cena, não por escolha dele.

Minha mulher — sussurrou com os lábios pressionados na minha cabeça.

Eu poderia imaginar que foi apenas uma frase solta e possessiva decorrente da circunstância, mas havia aquele calor em sua fala, havia aquele aperto familiar ao meu redor. Mesmo depois de terminarmos, ele continuou grudado, abraçado, contra meus seios o seu peito explodia. Seus lábios roçando na minha pele, escapando aquelas arfadas de ar quente... O trouxe mais para perto e disse entre lágrimas — que ele, ainda bem, não notou:

— Meu homem — apertei.

Quarto dia

Fui a primeira a acordar com Ichiou nos chamando pedindo leite. Vesti a camisa de flanela do Sasuke que eu tinha jogado no chão algumas horas antes, peguei Ichiou em sua cama e descemos para a cozinha. Meus pés quentes em contato com o assoalho gelado deixavam uns gritinhos escapar da minha boca, fazia Ichiou rir com aquela vozinha rouca. Graças a Deus, ele estava bem melhor.

Deixei-o correndo pela casa com seus brinquedos enquanto eu aquecia o leite e preparava nosso desjejum. Dali a pouco Ichiou surge na cozinha com a capa do pai. Eu só conseguia ver sua barriga e pernas.

— Olha, okaa-san! Sou o otoo-san!

Sequei minhas mãos e me agachei na frente dele o beijando:

— Está igualzinho! — Abracei-o. Um aroma singular subiu nas minhas narinas.

Afastei-o delicadamente e fitei o casaco, ainda inalando aquele perfume. Ichiou balançava os braços como um pássaro. Aquele cheiro... Antes que ele se afastasse, segurei-o pelos bracinhos e trouxe sua cabeça de encontro ao meu nariz. Inalei bem o cheiro, memorizei. Jamais tinha sentido aquele perfume. De quem seria?

Libertei Ichiou, ele realmente parecia um pássaro engaiolado, afastou-se de mim com a pressa de um fugitivo para subir as escadas e mostrar para o pai que estava igual a ele. Aquilo acabou com o meu dia que tinha tudo para ser agradável. Enquanto subia as escadas, desengonçado, degrau por degrau, percebi que um papel havia caído de um dos bolsos. Assim que o Ichiou alcançou o corredor, corri e peguei o papel. Saí pela varanda e abri o papel amassado, vigiando a janela do meu quarto.

Tinha o mesmo cheiro da capa do Sasuke. Era uma carta de confirmação da Anbu, como um recibo da autorização de transferência da missão cujo título, objetivo, esquadrão e rank estavam codificados. A própria referência da carta, Anbu, estava codificada, eu só soube de onde era pertinente porque alguns papéis parecidos e sem importância eram espalhados pela casa quando o Sasuke chegava cansado e sem paciência para organizar em suas pastas. Quase deixei de lado o insignificante papel, então notei que havia uma nota minúscula no rodapé:

“Olha o verso”

E eu olhei.

Havia um endereço e um pedido:

“Não desapareça”

Então o que já tinha ficado ruim, ficou pior. O olhar que antes se dirigia à janela do nosso quarto era de cautela, agora, era de ódio. Uma pena, porque não percebi o Sasuke descer as escadas e me flagrar. Ele, com certeza, era melhor do que eu para encurralar.

— O que está fazendo aí? — indagou com o Ichiou em seu colo, ainda com a capa infestada com perfume de uma suposta vadia, sabe-se lá Kami senão a mesma que avistei naquele dia.

Eu não respondi, minhas mãos tremiam tanto que eu só me concentrava em pará-las.

— O que é isso? — apontou com a cabeça para a carta.

— Você deve saber — coloquei a carta em sua mão livre, encarando-o, e segui para a cozinha. Não demorou muito para ele vir atrás de mim.

— Isso é um recibo, Sakura — informou colocando Ichiou no chão.

— O que está no rodapé e no verso também faz parte do corpo do texto? — ele verificou e ponderou por um tempo.

— Isso é coisa de um dos membros do meu esquadrão, coisa de otário.

— Coisa de otário é o que você faz comigo — vociferei com os olhos cheios de lágrimas.

— Você acha que... — ele olhou para os lados cheio de descrenças — Você está desconfiando de mim?

Nem respondi. Apertei as bordas da pia de mármore com mais força do que o necessário, uma das pontas perfuraram minha palma. Eu precisava parar de chorar, precisava me acalmar ou acabaria estragando tudo. Meu sangue pingou no assoalho, e, no mesmo instante, Sasuke pegou meus punhos e os ergueu.

— Cure isso — mandou com os olhos cheio de ódio, desestabilizando-me mais ainda — Cure logo isso, Sakura!

Minha cabeça tombou e então além do sangue, lágrimas começaram a manchar as tábuas de madeira também.

Como eu não obedeci, Sasuke colocou minhas mãos na pia e abriu a torneira, quando as tirou debaixo do fluxo de água, o sangue voltava a brotar da pele, então ele começou a sugar até estancar. Fez isso em ambas, em seguida me encarou. Eu nem tinha forças para olhá-lo. Minha maior vontade naquele momento era sair dali com meu filho e ficar um bom tempo sem ver o Sasuke.

— Você não confia em mim? — neguei — Como você não confia em mim? — indagou nervoso — Você dorme ao lado de uma pessoa que você não confia?

— Convivo com uma série de pessoas nas quais não confio.

— Eu não sou qualquer pessoa! — Balançou meus ombros — Eu nunca te dei motivo para desconfiar de mim — tirei suas mãos de cima dos meus ombros e tentei passar para a sala, só que ele me impediu — Eu jamais iria te trair — garantiu olhando nos meus olhos — Eu não preciso disso.

— Eu não confio em você... Sequer sei o que sente por mim!

— Está há quatro anos comigo e não sabe?

— Não sei! — exclamei — A única certeza que você me deu quando viemos morar juntos era de que não me amava e só tinha interesse em ter uma família comigo. Apenas!

— Você está indo muito longe, Sakura.

— Estou apenas dizendo o que está preso há tempos! — As lágrimas não cessavam — Você passa mais tempo na rua do que em casa, não estranharia se você tivesse outra mulher, quem sabe outra família!

— Então você não me conhece, Sakura.

— Realmente, não te conheço.

Continuei chorando e Sasuke me encarando, isso durou alguns poucos minutos, aqueles minutos insignificantes que deixam uma atmosfera de vergonha e rancor. De repente, ouvi o som do papel sendo amassado, a tampa da lixeira abrindo e fechando. Ele me pegou, pressionou-me contra seu tórax e com o queixo apoiado na minha cabeça, disse:

— Tudo o que eu disser perderá o valor a partir do momento no qual eu fechar minha boca. Essa coisa de sentimento... Palavras não exprimem. Você só sente. E eu sei que a faço sentir — afastou-me um pouco e encostou seus lábios nos meus — Não há outra, Sakura. Não seria eu se houvesse.

Sem dúvidas, aquela declaração me arrepiou, devolveu minhas estruturas e me fez chorar mais. Foi como abrir meu peito e enchê-lo de calor. Calor. Eu me sentia quente. Sasuke ficou por muito tempo me abraçando e acariciando meus cabelos. Só saiu daquela cúpula invisível que formou ao nosso redor quando Ichiou o chamou para ver algo que estava no jardim. Durante todo o dia, ele ficou por perto, encarando-me, rodeando-me, assustando-me quando chegava de repente e abraçava-me.

Eu entendi o que ele quis dizer. Poderia não sair em forma de palavras, mas ele exprimia o que sentia de outras maneiras, dava-me a segurança necessária, embora que da sua forma. Ele me amava, se meu desejo era saber.

Não há outra, Sakura. Não seria eu se houvesse.

Embora eu soubesse, Sasuke, embora eu me alegre por isso, não posso me sabotar.

É claro que, quando a licença passou e Ichiou melhorou totalmente, eu fui tirar minhas conclusões. O endereço, o cheiro e a caligrafia estavam memorizados.

Notas finais
O poke a qual me refiro é o peteleco clássico do Itachi! . Espero que tenham gostado do capítulo, peço desculpas pela demora. . Curtam a página "Distímica" no Facebook! . Shalom!