Pilares de Areia

19 I try to forgive but it's not enough to make it all okay


Notas iniciais
Título: "Eu tentei perdoar, mas isso não é o suficiente para fazer tudo ficar bem" Broken String - James Morrison feat. Nelly Furtado . Postei mais um capítulo porque vocês merecem, porque estive inspirada e de folga. "Perdi" uma quinta-feira inteira, mas tudo bem. Amo escrever, amo vocês que leem e to amando os comentários! hahaha Podem me odiar, gente! Sejam sinceras, acabem comigo! Os comentários que me motivaram a ficar mais de seis horas escrevendo para dar uma continuação digna para vocês! Obrigada pelo impulso! . Betado por Alice Alamo Boa leitura!

Tsunade praticamente morava no hospital. Tinha um quarto reservado em um hotel muito próximo para o qual ela voltava quando o hospital estava tranquilo. Era nesse quarto que eu ficaria.

Eu não era uma viciada em injetáveis, eu usava o calmante para conseguir manter-me estável, conseguir dormir, trabalhar, conversar, pensar sobre as coisas e não ter ataques de pânico. Como eu poderia negar que estava mal? Eu estava muito mal. Eu queria comer, mas não tinha apetite; eu queria dormir, mas não tinha sono; eu queria estudar, mas não conseguia me concentrar em nada. A maior parte do dia eu passava na cama ou sentada na janela, a mente trabalhando exaustivamente em sentir pena de mim mesma.

Passou dois dias desde que tudo aconteceu, eu me afundava em vergonha, arrependimento e tristeza aos mesmo tempo que me centrava em aparentar estar bem, afinal eu precisava ver o meu filho, voltar para a minha casa e cuidar da minha mãe.

Eu não estava louca, eu só estava desesperada. Negar a loucura é o primeiro sinal de insanidade, contudo eu estava normal, Tsunade sabia. Prometeu-me que iria acabar com os boatos e que eu logo estaria em casa. Eu não estava fazendo nenhum tipo de tratamento com remédio, dieta ou terapia, somente ficava naquele quarto, eu comigo mesma, esperando aquela tempestade passar.

Ouvi a tranca da porta e em seguida ela ser aberta.

— Tsunade-sama — Saí do peitoril da janela e fiquei de pé.

— O que está fazendo? — perguntou fechando a porta atrás de si, deixando as chaves sobre o criado-mudo e tirando o jaleco.

— Estava apenas na janela. Olhando lá fora — respondi pausadamente voltando meu olhar para o vidro e em seguida para ela — Eu tenho uma pergunta para fazer.

— Diga. Já estou de saída — respondeu enquanto procurava algo dentro do guarda-roupa.

— Quando eu estava no hospital, assim que eu acordei, você falava em nós, não somente você.

— Como assim?

— Você disse “nós quase te perdemos”, “nós ficamos desesperados”... Quem estava lá? — Tsunade sorriu.

— Você sabe, você só quer ouvir da minha boca. Esse “nós” referia-se a equipe médica, à Shizune, ao Naruto, ao Sasuke. Todos estavam preocupados com você, todos os que te amam por pouco não a perderam por conta da sua irresponsabilidade. Isso vai alimentar sua autoestima e seu amor próprio por um tempo, o que é necessário neste momento, contudo saiba que ninguém está feliz com o que aconteceu.

— Você pode dizer ao Naruto que...

— Diga você mesmo — Tsunade interrompeu-me — Eu deixo eles virem te visitar e você fala. Seja lá o que você tenha a dizer, é melhor ouvirem da sua boca.

— Tsunade-sama — chamei-a antes que ela saísse — Muito obrigada. Eu jamais poderia te recompensar por tudo.

— Pode sim. Seja forte. Seja forte como foi no começo. Você é a mulher mais forte no mundo, está sendo derrubada por um homem só — falou com deboche — Você não é nenhuma civil para ficar chorando na janela por homem, você é mulher de batalha. Encare isso como mais uma missão. Quando eu vê-la reerguida, irei me sentir recompensada — Ela já estava lá fora, prestes a fechar a porta, quando lembrou-se de algo. Colocou a cabeça para dentro do quarto e perguntou — Ele também pode vir?

Ponderei um pouco, fitando a janela. Balancei a cabeça dizendo ‘sim’, mas ainda acreditava que não estivesse pronta para ele.

.o0o.

Naruto demorou para vir, demorou um dia inteiro. Quando apareceu já era hora do jantar, a criada do hotel tinha acabado de levar a bandeja, então ele apareceu logo em seguida, e para a minha surpresa, não estava sozinho. Meu sorriso se abriu para ele quando ele entrou, porém olhei por cima de seu ombro o Sasuke e não consegui disfarças o meu espanto. Eu tinha permitido que Sasuke viesse, mas esperava que tivéssemos um encontro sozinhos. Embora Naruto fosse como um irmão para nós dois, havia coisas que não eram possíveis de dizer um ao outro com plateia.

— Boa noite, Sakura-chan — Cumprimentou simpático, contudo sem a costumeira alegria — Chegamos em uma hora boa! — Exclamou vendo a bandeja. Pegou uma maçã que estava no canto e começou comer enquanto explorava o quarto.

Sasuke manteve-se de pé encostado na porta, me fitava de uma maneira dúbia, mas eu não sustentava olhá-lo por muito tempo. Ele estava com o uniforme da Anbu e parecia cansado, como alguém que não dorme bem há um tempo. Suspeitei que se ele também me reparasse, constataria o mesmo.

— Você sabe o que você fez, Sakura-chan — Naruto finalmente começou. Ainda comia a maçã fitando além da janela — Você poderia estar presa agora —Falou de uma vez me olhando intensamente, a maçã mordida erguida, a postura ereta.

Não era Naruto-kun meu amigo que falava, era Naruto-sama o hokage. Olhei para o Sasuke, seu braço cruzado e expressão séria também me dizia o mesmo. Por isso ele estava uniformizado, devia estar ali representando a Anbu.

— O que me impede de fazer isso são seus fortes aliados, Sakura. A diretora do hospital, Tsunade; Sasuke, um dos líderes da Anbu; Shikamaru, meu Conselheiro; Shizune, sua mentora... Eu não pude ignorar a opinião dessas pessoas no momento de decidir o que eu faria com você. Não é fácil ser imparcial quando estamos tratando de amizade, da minha melhor amiga — Naruto engoliu um seco — Você estaria presa se essas pessoas que te amam não tivessem intercedido por ti.

Era isso mesmo? Naruto realmente me prenderia?

— Contudo, não foi de graça — Naruto aproximou-se, sentando-se na ponta da cama.

— Naruto, você pode ser direto? — pedi da forma mais branda que consegui — Eu sei o que eu fiz, contudo eu não sei no que isso acarretou, Tsunade não me disse nada. Nem sei que a garota está viva, não ficou claro...

— Para a sorte do mundo shinobi, está — Falou em um tom tranquilizador — Mas preciso dar-lhe o devido respaldo, afinal, ela foi levada para a emergência para que sua vida fosse salva e quase acabou morta por uma médica. Ela sabe apenas que quase morreu por conta de uma dose alta de remédio que foi aplicada nela por engano. Não sabe por quem e ninguém sabe. Os membros da Anbu, a pedido de Sasuke, “limparam” o local, é como se nada tivesse acontecido. Entretanto, nada aconteceu para os funcionários do hospital, para Myumi, para os aldeões. A Anbu sabe, Shizune e Tsunade sabem, meu conselheiro e eu sabemos e desaprovamos sua atitude.

— Eu entendi. Tentei assassinar uma pessoa, assassinar um Anbu e isso é um crime grave. Eu deveria estar presa, mas outras pessoas o convenceram a não fazer isso. Eu terei que dar algo em troca, só preciso saber o que é, Naruto — falei pausadamente, às vezes olhando o Sasuke pelo canto do olho — eu tenho repassado na minha mente o que aconteceu... Sinto-me envergonhada, arrependida. É um alívio saber que ela está viva, eu me culparia para sempre caso não estivesse, eu...

Eu estava sentada na cama com a bandeja sobre minhas pernas, ele tirou a bandeja de cima que tremia tanto que a qualquer momento poderia cair. Cruzei as pernas, então ele se aproximou mais, chamou Sasuke, mas ele preferiu continuar em pé, observando de longe.

— Todos nós te conhecemos, Sakura. O que você fez foi grave, sim, contudo você estava visivelmente alterada. Não é justificativa, mas qualquer um que te conhece sabe que em seu estado normal você jamais faria isso. Se Myumi tivesse morrido, a postura de todos seria diferente, porém ela está viva, está se recuperando bem.

Meu suspiro foi de alívio, porém meu coração ricocheteava no peito. Eu comecei a ficar ansiosa, minhas mãos não paravam de tremer, Naruto tentava ser firme e ao mesmo tempo cordial, Sasuke apenas observava. Será que ele me odiava?

— Você esteve mais perto da morte do que ela. Shizune-sama disse que a frequência cardíaca dela abaixou muito, a sua simplesmente parou. Parou por muito tempo.

Finalmente Sasuke esboçou uma reação, puxou profundamente o ar e caminhou para a janela do quarto, dando as costas para mim. Naruto e eu percebemos e Sasuke provavelmente sabia disso.

— Não vou te enrolar mais. — Ajeitou a postura e levantou-se em seguida — Não poderia deixar de me sentir culpado, afinal você me buscou para saber o que acontecia, eu aticei sua curiosidade sem dar uma garantia de que não havia nada errado com o seu casamento...

— Naruto, eu vi — interrompi — Não tirei conclusões precipitadas, eu os vi juntos — Fitei as costas de Sasuke com mágoa, mas Naruto logo chamou minha atenção.

— Estou aqui não somente para dar bronca, estou para explicar o que aconteceu, o que eu devia ter feito antes. Quem sabe isso poderia ter sido evitado — Balançou a cabeça para os lados — Myumi Takahaghi não é dessa vila originalmente. Quando veio para Konoha, não tinha registro em nenhuma vila. Foi encontrada próxima aos limites da vila por uma equipe Anbu. Estava sem memória. Depois de passar um tempo no hospital, a Anbu a pegou de volta para tentar descobrir de onde ela viera, porém sua mente é uma fortaleza, nenhum membro do Clã Ibiki conseguiu acessar. Nossa primeira suspeita era de que ela era uma espiã mandada de algum lugar para Konoha, porém suas atitudes diziam o contrário, ela cooperava conosco, sua mente que estava sendo bloqueada por alguém de fora.

“Depois de um tempo, suas habilidades começaram a ser reveladas. Ela não era apenas uma menina, era uma kunoichi, e muito boa. Mesmo sem memória, parecia lembrar-se de tudo o que alguém em algum lugar a havia ensinado. Myumi destacou-se tanto que membros da Anbu, inclusive Sasuke, fizeram uma reunião comigo para saber se seria apropriado admiti-la em um esquadrão.”

Sasuke deu uma olhada para atrás e logo em seguida voltou a fitar além da janela.

— Eu permiti, afinal, era como matar dois coelhos com uma tacada: eu teria mais um na equipe Anbu e ela poderia ser investigada de perto. Tudo ia bem para você, para mim, para a Anbu, até um dia Myumi demonstrar interesse pelo Sasuke — Foi instintivo eu olhar para ele novamente. Naruto riu pelo nariz — Não sei que mel esse Teme tem, contudo fisgou o coração dela. Ela tinha apenas uns dezessete, dezoito anos... Garotas dessa idade se apaixonam mesmo.

— Foi aí que eles começaram um caso? — perguntei impaciente para Naruto, alto o suficiente para o Sasuke ouvir também.

— Quer parar de presumir as coisas e ouvir? — Sasuke exclamou nervoso.

— Sakura, acontece que aquela era a deixa que precisávamos para poder investigar essa menina melhor. Ela se abriria para ele, seria fiel a ele, consequentemente a nós também.

— Então usaram os dois?

Ela foi usada. Está perdidamente apaixonada por ele — apontou para o Sasuke — Ele tinha apenas que fingir que era recíproco e tentar tirar o máximo de coisas que fosse possível dela.

— Não faz sentido — levantei-me da cama e comecei a caminhar pelo quarto — Se ela estava sem memória, o que ele ia tirar dela que os outros não conseguiam tirar? Nada!

— Seu marido, feito de mel e de sangue de clã Uchiha, tem o sharingan. Quer contar para ela o que você fazia com ela, Sasuke? — Naruto perguntou zombeteiro, Sasuke ignorou. Se eu já estava nervosa antes, naquele momento fui para um nível além. — Ele usava genjutsus — Disse por fim — Cruel, não acha? — Eu não tinha entendido.

— Criei na mente dela situações que não existiam, fora do genjutsu eu só precisava manter — Sasuke acrescentou. — Quando eu entrava em sua mente, via algumas coisas, então soube que aquele teatro estava sendo útil. Depois de mais de um ano começamos a ter pistas.

— Nossa intuição sobre ela estava certa. Myumi, inconscientemente, era a espiã de Orochimaru, o bloqueio mental foi criado por ele. A garota apaixonar-se pelo Sasuke foi um triunfo para Orochimaru, pois além de estudar a força de elite de Konoha, ele estudava também sua musa, o Sasuke-chan!

— Cala a boca, Naruto.

— Com o tempo, para ser mais específico...

— Há quatro meses — Sasuke falou.

— Isso, há quatro meses, esse bloqueio começou a enfraquecer e reagir de um jeito diferente.

— Antes, Orochimaru via através dela, mas não podia ser visto. Em uma das vezes que entrei em sua mente, eu consegui vê-lo e ter uma ideia da localização do seu esconderijo.

— Continua confuso para mim — falei — Depois da guerra, Orochimaru não se uniu a Konoha, deixou de ser uma ameaça?

— Por um tempo, sim. Permitimos que ele ficasse em um laboratório, ainda dentro dos limites da vila, contudo não deu certo por muito tempo...

— Isso é irrelevante — Sasuke disse impaciente, saindo da janela e ficando a poucos metros de mim.

— Então hoje ele é uma ameaça? — indaguei para o Naruto.

— Para usar uma garota para espionar Konoha, acredito que sim. Ele é imprevisível. Desde que perdemos o controle sobre seus experimentos, não sabemos o que ele está aprontando. Qualquer ameaça contra a nossa vila ou contra às outras precisa ser eliminada — Naruto sentou-se novamente na cama — Se importa se eu beber a sua água? Falei demais, minha boca ficou seca — Antes que eu esse permissão, Naruto bebeu.

Sasuke e eu nos encaramos por alguns segundos até Naruto voltar a falar.

— Isso tudo é um resumo, Sakura. Há coisas nas entrelinhas que dão maior veracidade, mas em suma, é isso — pegou um pedaço de carne do meu prato — Sinto que tudo poderia ser evitado caso eu te dissesse antes, só que quando se trata de assuntos políticos e confidenciais, eu tenho que ser mais racional, entende?

— Você não é culpado de nada, Naruto — voltei o meu olhar para o Sasuke.

— Agora que sabe que o Sasuke nunca teve nada com aquela menina — falava andando em minha direção, colocando-se entre Sasuke e eu —, já pode voltar para casa e ser feliz para sempre — Naruto abriu o melhor de seus sorrisos, mas ao olhar a minha expressão e a de Sasuke, soube que não seria assim tão simples — Você queria a verdade, Sakura, a verdade é essa. Não tem nada mais que eu possa dizer.

— Não precisa, Naruto — falei segurando mais ainda as lágrimas que eu prendia, tentei sorrir, contudo entreguei meu nervosismo — Eu sempre serei grata pelo o que fez por mim. Peço desculpas, sei que não muda nada, contudo...

— Vem cá — ele me interrompeu me puxando para um abraço. Nesse momento, minhas lágrimas criaram vida própria e rolaram pela sua capa de hokage, quando abri os olhos, Sasuke me fitava intensamente. Seu olhar era triste.

— Ainda não falou minha punição. — Lembrei-o.

— Sasuke encarrega-se disso. Preciso ir agora antes que o Ichiraku feche. — Deixou um beijo na minha testa e um aceno para o Sasuke e saiu, fechando a porta atrás de si.

O silêncio que instalou-se no quarto depois foi intenso, além de constrangedor, angustiante. Eu não sabia onde manter meus olhos, nele, no chão, nas paredes, nos pés... Entretanto os olhos dele não saíam de mim, fixos, acompanhados por aquela tristeza que eu raramente havia visto.

— Você quase morreu — Ele quebrou o silêncio com a afirmação. Eu assenti fazendo com que uma gota de lágrima pingasse no chão sem nem tocar o meu rosto — Você ficou mais de cinco horas desacordada — Depois de dizer isso, eu não consegui mais me controlar, tapei a boca e o nariz para abafar o som do meu desespero, assim que fechei os olhos, as lágrimas escaparam por cima dos meus dedos, a força das minhas pernas fora se esvaindo e eu tive que me sentar na cama. — Eu vi seus batimentos caírem e eu não pude fazer nada além de assistir Tsunade tentar salvá-la. O meu filho iria crescer sem uma mãe ao lado — Disse em um fôlego só. Eu o fitei, a respiração ainda irregular. Sasuke estava sendo baixo, meu filho era meu ponto mais fraco. Ele queria me deixar vulnerável, me ver daquele modo, mas por quê?

— E você estaria sem mulher — retorqui o olhando intensamente. O que ele tinha a dizer em relação a ele?

Sasuke sentou-se na cama, do mesmo lado que eu estava, mas afastado de mim. Olhava agora para a parede, parecia segurar algo na garganta, uma bola, um nó, parecia sufocado. Devia ser muito difícil para ele falar. A luz do quarto vinha apenas dos dois abajures ao lado da cama, uma luz dourada que dava um ar de intimidade.

— Onde está Ichiou? — Voltei a falar, também sem olhá-lo.

— No saguão com o Kakashi e o Shikamaru.

— O que eles fazem aqui?

— O que aconteceu com suas pernas? — Desconversou. Olhei para as minhas pernas, uma parte da coxa não era coberta pelo short que eu vestia, apareciam as marcas dos cortes que os cacos de vidro deixaram — Ichiou me contou que te viu colocando vidro nas pernas — Virei-me abruptamente para ele — Você podia ter curado isso, por que não o fez? — Desviei mais uma vez meu olhar do dele, envergonhada. — Essa história não está fazendo bem para ele.

— O que eu posso fazer? — perguntei mais para mim mesma do que para ele.

— Volte para casa — me virei para ele — Assim ele não tem que escolher entre nós dois, terá você e eu com ele, como deveria ser.

— E eu, Sasuke? Como eu ficaria? — indaguei perscrutando meus olhos por todos o seu rosto tentando captar qualquer emoção.

— Você já sabe de tudo agora, não faz mais sentido continuar afastada.

— Por que não?

— Por que faria?

Eu me levantei, voltei a andar pelo quarto todo ansiosa, abraçando eu mesma, tentando controlar minhas emoções, procurar dentro de mim algo que guiasse para a decisão certa.

— Eu nunca te traí, era apenas o meu trabalho, eu te disse — Ele também se levantou, porém permaneceu onde estava — Eu jamais me interessei por outra mulher.

— Que interesse você teve por mim, Sasuke? — Ele não respondeu. — Eu realmente não sei. Por que eu?

— Porque você me amava — respondeu na mesma hora com um tom de voz mais forte, como se dissesse contra a sua vontade.

— Outras te amavam.

— Isso não vem ao caso.

— Vem, sim. Começamos tudo errado, Sasuke. O que você enxergava em mim? Você só via uma mãe para seus filhos? Uma esposa fiel? O que eu tinha de especial que as outras não tinham? — Ele permaneceu calado — É tão difícil achar pelo menos um motivo para ter se casado comigo? — Minha voz já sumia entre o choro. Eu esperava que o Sasuke não tivesse o que dizer, porém constatar isso era mais duro ainda.

— Eu não sou bom com palavras, Sakura.

— Não estou pedindo para ser bom com palavras, Sasuke, estou pedindo para ser honesto. Eu quero saber por que você me quis ao seu lado durante esses anos e por que me quer de volta agora.

— Você é mãe do meu filho...

— Esqueça Ichiou — exclamei nervosa, um sentimento de humilhação tomava meu peito — Estou falando de nós dois. Quantas vezes disse que eu sou bonita? Quantas vezes me levou para sair, para um jantar? Quantas vezes você disse que me ama? Eu nem sei se você me ama!

— Estamos juntos há anos, Sakura.

— Isso não quer dizer nada.

— Eu não estaria com alguém de quem eu não gostasse.

— Então por que não diz? — Ele engoliu um seco — Por que é tão difícil? Eu não entendo.

Sasuke cautelosamente aproximou-se de mim, tinha uma expressão preocupada, ainda assim contida.

— Eu sou uma mulher, não tenho mais idade para viver um amor platônico, quero um amor real. Eu sei que você pode me dar, eu sei que você não é essa frieza toda. Por que então você não se abre comigo?

— Eu não sei o que eu posso fazer para você acreditar em mim, você cobra muitas coisas, Sakura.

Eu não conseguia mais falar, só chorava. Sasuke deu mais dois passos e me abraçou, ainda cauteloso, devia esperar que eu o repelisse, mas não o fiz, assim como não retribuí. Minha cabeça encaixava exatamente embaixo do queixo dele, o cheiro dele estava me matando, fazendo-me querer voltar atrás da minha palavra, mas eu não podia.

Sasuke começou a acariciar minha cabeça, ele cheirou os meus cabelos, suspirou, senti o ar quente da sua respiração arrepiar minha espinha. A cada soluço que eu dava, ele me trazia mais para perto como se pudesse me fundir a ele, agarrar aquele sentimento que me assolava.

— Quando seu coração parou, o meu também não bateu mais — falou por cima da minha cabeça. Eu tentei me afastar para fita-lo, mas ele me puxou para mais perto de seu peito — Eu entrei em choque, eu... — Ele parecia medir as palavras, dizia pausadamente, baixo, contido — Eu não sei dizer o que senti ou o que sinto. É muito...

— Abstrato — falei por ele.

— Você cresceu muito desde que eu fui embora. Você tornou-se uma mulher forte. E não importava o que eu fizesse, você continuava me amando. Você me perdoou — disse em um fôlego só — Eu te escolhi porque eu, no seu lugar, não teria ido tão longe por uma paixão de infância. Eu sabia que você iria mais longe ainda.

Ele estava se abrindo. Finalmente estava se abrindo. Ficou longos minutos sem falar nada, sem me soltar, sem se mexer, depois continuou:

— O meu pai não era muito atencioso comigo, mas a minha mãe dizia que era o jeito dele, que no fundo ele me amava muito. — O peito dele subiu e desceu profundamente — Ele era ótimo com a minha mãe. Ela entendia ele. Ela era feliz. Eu... Eu quis fazer diferente, quis ser um bom pai para o Ichiou e achei que estivesse sendo um bom homem para você também, como meu pai era.

Naquela hora, eu o abracei e eu o puxei para mais perto. Eu não conseguia subir minha cabeça para olhá-lo, não sabia se estava chorando com a lembrança da sua família, mesmo se estivesse, eu não iria desrespeitá-lo. Ficamos abraçados em silêncio por muito minutos. As mãos dele não pararam um minuto de alisar os meus cabeços, não afrouxaram o aperto ao redor do meu corpo, não me afastaram.

Aos poucos as minhas mãos foram descendo as suas costas, parando na lateral do meu corpo. Ele afastou-se e me fitou, estava sério, os olhos vermelhos, os orbes. Se ele não havia chorado, havia se esforçado muito para isso. Ainda cauteloso, ele abaixou a cabeça segurando meu rosto pelo queixo, a outra mão continuava a acariciar minha cabeça. Ele ergueu meu rosto e encostou nossos lábios. Os dele frios, os meus quentes e salgados por causa das lágrimas. Ele avançou mais uma vez, contudo dessa vez delicadamente eu virei o rosto, o beijo morreu próximo aos lábios, na bochecha, e parou aí.

— Volta comigo — pediu com a voz rouca, baixa como se contasse um segredo ou como se saísse da alma.

Balancei minha cabeça para os lados negando.

— Você não foi o único errado nesse casamento. Eu também errei em não te compreender, errei em não ter acreditado em você. Eu preciso desse tempo para refletir, organizar a minha mente, redimir-me comigo mesma.

Sasuke assentiu. Abraçou-me novamente e deixou um beijo cálido da minha testa.

— Eu vou te esperar.

Foi a última coisa que ele disse antes de sair.

.o0o.

Minha mãe morreu.

Eu não havia recebido notícias de que ela piorara, eu não a visitei nenhuma vez desde que passei a “morar” com Tsunade e então não houve despedida.

Ela estava tão mal de tantas coisas que eu julguei que uma autópsia não fosse necessária, só mutilaria o corpo para responder uma pergunta que eu e meu pai, seus únicos familiares vivos, não queríamos saber.

Fazia quarenta e três dias que eu havia deixado o Sasuke. Fazia vinte e dois dias desde que Sasuke e Naruto conversaram comigo. Tsunade me atualizava sobre o processo no qual eu estava envolvida, minha punição não poderia ter sido pior: afastada para sempre do hospital.

“Um talento jogado no lixo”, Tsunade lamentava. Dizia ter me perdoado, mas seu olhar não escondia a decepção. Eu tinha tudo para ser sua sucessora e joguei tudo no lixo. Naruto e ela jamais voltariam atrás de suas palavras e eu teria que conviver com isso.

Como minha mãe tinha morrido de madrugada, o corpo foi liberado cedo, assim que o sol nasceu. Pedi para não anunciarem o velório, minha mãe não tinha ninguém próximo, para os vizinhos e conhecidos, ela estava morta há anos, desde que ficou doente, ainda assim, alguns apareceram para me desejar seu pêsames.

No meio da cerimônia, meus amigos mais próximos chegaram: Shizune, Kakashi, Naruto com a Hinata, Ino e Sasuke.

— Ichiou está com Tsunade. Achamos melhor ele não ter essa lembrança — Shizune disse antes que eu perguntasse.

Fui abraçada por todos, demoradamente pelo Naruto, por fim, Sasuke. Foi o abraço que liberou uma descarga elétrica por todo o meu corpo. Eu não tinha chorado até então, nos braços dele, eu desmoronei. Ele ficou comigo o tempo todo. Quando o corpo dela foi posicionado para descer a cova, ele parece ter sentido uma batida mais forte no meu coração, cobriu minha cabeça com a capa e não em deixou olhar. Eu ouvia o barulho da terra caindo em cima da caixa de madeira como punhaladas no meu estômago. Cada uma, eu contava. Quando eu não conseguia mais me sustentar nas minhas próprias pernas, Sasuke disse a todos:

— Vamos embora — Senti apenas seu braço passar por baixo das minhas pernas, ele me erguer e sair rapidamente dali.

Eu não sabia para onde ele iria me levar, eu nem sequer me importava, eu só sabia que não queria estar com ninguém que não fosse ele.

Notas finais
Gente, vamos conversar. Ainda não respondi todos os comentários, mas estou lendo todos. Acalmem-se. Eu não vou matar a Sakura que vocês acompanharam até aqui, matar eu digo... Acabar com a personagem. como toda história, esta está em um ápice ruim. Garanto que o final vai ser feliz, mas infelizmente, nem sempre o meio é! Um beijão! Espero que tenham gostado.