Pilares de Areia
20 In the mourning, I'll rise. In the mourning, I'll let you die
Notas iniciais
Eu só abri os olhos quando Sasuke diminuiu a velocidade dos passos até parar em algum lugar.
— Coloque-a aqui. — Escutei Naruto falar.
A capa de Sasuke cobria todo o meu campo de visão de modo que só soube que estava na casa do Naruto quando Sasuke me deixou sentada no sofá dele.
Eu sentia meu rosto quente e grudento pelas lágrimas, senti vergonha e depois me recriminei por pensar na minha aparência em um momento como aquele.
Sasuke me encarou, em pé de frente a mim, porém mantive o olhar por pouco tempo, comecei a observar a casa. Fazia um bom tempo que eu não ia àquele lugar, à humilde quitinete onde Naruto passou toda a sua vida e onde, mesmo depois de tornar-se hokage, permanecia morando. Entretanto, ele havia feito algumas reformas, o sofá confortável no qual eu estava sentada foi uma das mudanças.
— Faz alguns anos desde que esteve aqui, não é mesmo? — Naruto comentou ao perceber que eu observava a sua casa.
— Ficou bem aconchegante — respondi simplesmente.
As paredes foram pintadas com um tom de bege, quase amarelo; havia um poster da campanha de hokage do Naruto colado na parede adjacente à janela da entrada. No meio da sala, em frente ao sofá, havia uma mesinha repleta de embalagens de rámen instantâneo usadas e algumas pastas; um rack com uma televisão e alguns objetos aleatórios e três porta-retratos. Um eu não precisei nem olhar para saber que era a icônica foto do Time 7, o segundo parecia ser o Jiraya quando mais novo abraçado com um rapaz parecido com o Naruto, certamente o yondaime hokage; o terceiro e último era de Hinata, uma foto belíssima.
Ela não olhava para a lente, parecia envergonhada, serena, seus cabelos voavam revelando seu rosto e deixando riscos pretos sobre a paisagem atrás, uma larga e violenta cachoeira. Sorri reconhecendo o “ponto de encontro” dos dois.
A iluminação era baixa. Embora fosse dia, o céu estava nublado, como uma prévia de uma tempestade já encaminhada. Toda a fonte de luz daquela sala provinha de um abajur amarelado, o que deixava o ambiente mais íntimo e melancólico.
Depois de um longo silêncio, Sasuke anunciou que iria preparar-nos um chá, deixando, assim, Naruto e eu sozinhos na sala de estar mal iluminada. Tudo o que eu queria era ficar em paz e não ser questionada ou consolada por ninguém, não queria estar só, mas também não queria estar acompanhada por inquisidores do meu luto. Embora fosse o momento de sofrer a morte da minha mãe, eu iria apenas ficar reclusa em meus pensamentos e lembranças. Pelo menos, era isso o que eu queria e sabia que conseguiria ao lado de Naruto e Sasuke. Eles entendiam meus sentimentos, foram criados pelo luto e pela falta dos pais, respeitariam minha quietude. Porém, eu quebrei isso, quebrei o silêncio tão necessário que Naruto odiava e que eu gostaria de manter. Não fui capaz, não consegui. Enquanto metade do meu coração estava em luto, a outra metade estava em chamas de raiva, remorso e angústia.
— Você não me visitou nenhum dia — falei sem olhá-lo, fitando a foto de Hinata como se eu fosse capaz de encontrar mais características de sua perfeição.
Naruto virou-se imediatamente para mim, depois abaixou o olhar para os próprios pés. Pareceu ponderar o que dizer, demorou para falar algo, mas falou:
— Eu estive ocupado. Konoha... Hyugas... — proferiu o último nome de maneira quase inaudível.
— Eu costumava pensar que você era meu melhor amigo. Incondicionalmente — acrescentei, fitando-o com mágoa.
— Ora, Sakura-chan! — Levantou-se em um salto, exibindo sua ofensa quanto ao que eu disse. — Por que está falando isso? Você é minha amiga! Dattebayo! — exclamava. — Eu me preocupo com você, mas...
— Tudo isso é culpa sua — acusei-o.
— Minha? — indagou, mais indignado do que antes.
— Eu não estaria passando por isso se não fosse você.
— Sakura, que culpa eu tenho de sua mãe ter morrido? — Ajoelhou-se na minha frente. — Eu entendo que esteja chateada...
— Chateada? — interrompi-o novamente. — Eu estou devastada! — disse com a voz embargada, sentido a garganta apertar, os olhos arderem, o lábios tremerem, o choro possuir-me rapidamente. — Você não devia ter mandado o Sasuke cuidar dessa menina. Você não podia. Você não podia fazer isso comigo, com o meu casamento. Você me desrespeitou, desrespeitou a minha família. Você mentiu.
— Sakura, calma! Eu te expliquei tudo, eu tive que tomar essa decisão.
— Você mentiu para mim. Você sabia como eu estava desconfiada, como eu estava sofrendo, e simplesmente cruzou os braços e esperou ver no que dava.
— Eu não poderia falar algo confidencial. Você trabalha no ramo, sabe que é ilegal. Esse é o meu trabalho e ele vem acima de qualquer um e qualquer coisa.
Naruto levantou-se para sentar ao meu lado, envolveu-me num abraço enquanto tentava explicar suas atitudes:
— Eu precisei tomar essa decisão para alcançar meus objetivos em prol da vila. Nenhum outro além do Sasuke poderia retirar algo daquela menina.
— O Sasuke tinha família — exclamei, fitando-o com ódio, indignada por Naruto achar que explicar mais uma vez ia fazer eu acreditar que eles estavam certos e que somente eu era a ciumenta possessiva da história.
— O Sasuke tem uma família — Naruto falou calmamente depois de alguns minutos.
Ele foi retirando o braço ao redor do meu corpo e juntando as duas mãos entre as pernas, cruzando os dedos cumpridos e grossos num gesto de ponderação. Seus sapatos novamente eram contemplados por um cenho franzido. O que Naruto achava que resolveria justificando os seus atos? Uma atitude em prol da vila destruiu minha vida.
Se fosse egoísmo meu pensar assim, eu sequer sentia-me mal por isso, seria pior se eu fingisse estar honrada em ter colaborado com o sucesso de uma missão feita em cima da minha desgraça.
— Vocês só precisam de um tempo, relaxar um pouco. Vocês vão ficar bem, Sakura.
— Não, não vamos — garanti.
Assim que respondi, meu olhar migrou para a saída da cozinha, Sasuke aproximava-se com uma bandeja. Com certeza, ele ouvira a discussão e notara o clima em que Naruto e eu nos encontrávamos. Serviu-nos chá de camomila, o meu com bastante açúcar, o dele, provavelmente, sem nenhum grão.
Sasuke sentou no outro sofá, no lugar onde Naruto anteriormente estava até sentar-se ao meu lado. Bebericou da sua xícara e permaneceu em seu silêncio. Naruto não disse mais nada. Em certo momento, anunciou que sairia para comprar comida e voltaria em breve. Eu permaneci estática com o chá na mão fumegando, encolhida no canto do sofá.
Eu sentia as lágrimas caindo, porém não conseguia saber pelo o quê. Acreditava que era por tudo, mas não era justo com a minha mãe.
Eu não tinha muita paciência com ela quando estávamos juntas. Eu quase não ficava em casa, vivia em bibliotecas, depois de Tsunade, passava boa parte do dia na Central de Konoha estudando ou no hospital, saía em missões, saía pela vila. Minha mãe mesmo uma vez dissera que eu evitava passar o mínimo de tempo com ela e com meu pai. Não era uma mentira, detestava admitir, mas eu também tinha motivos e ela sabia.
Minha mãe merecia mais de um marido e de uma filha única. Meu pai e eu falhamos amargamente. Aquele seria um arrependimento que eu carregaria comigo por toda a vida, uma contrição que sempre estaria presente em mim. Eu esperava ao menos que ela soubesse que eu a amava muito. Amava mesmo que minhas atitudes provassem o contrário. Eu a amava.
Mais do que nunca, eu desejava que ela estivesse viva e bem para me abraçar e me aconselhar naquele momento da minha vida, cuidar de mim como ninguém mais no mundo que eu conhecesse poderia.
— Vamos.
Sasuke despertou-me daqueles pensamentos. Eu chorava e nem me dava conta. Reparei que minhas mãos tremiam e eu não conseguia controlá-las.
— Eu estou bem. Só me deixa aqui um pouco — pedi, encolhendo-me mais ainda.
— Você está aí há horas — disse, tirando a xícara vazia da minha mão e colocando-a na mesinha de centro. — Vamos para o quarto. O Naruto já arrumou tudo.
Contra a minha vontade, eu fui ao único quarto da casa. Ao contrário do que esperava de Naruto, estava tudo limpo e organizado. Sasuke caminhou até o guarda-roupa e retirou de lá uma camiseta limpa, estendendo-me em seguida.
— Vista — insistiu quando viu que eu não faria nada além de fitar a camiseta com confusão.
— Eu estou bem assim — recusei, sentando-me na beirada da cama.
Sasuke suspirou, irritado, fechou o guarda-roupa e veio em minha direção, ajoelhando-se em frente às minhas pernas. Pegou a barra na minha blusa e começou a levantá-la até eu bloqueá-lo.
— O que está fazendo? — perguntei, alarmada.
— Te vestindo. Como uma criança — disse, irritado.
Forçou o movimento e, então, retirou a camiseta branca que eu vestia, deixando-me exposta, vestida somente com o sutiã. Eu só consegui ficar imóvel e encará-lo buscando entender o por quê de ele estar fazendo aquilo.
Embora Sasuke já tivesse visto cada canto do meu corpo que só Deus conhecia, era difícil não me sentir envergonhada com ele me despindo depois de tanto tempo sem nos falarmos, sem nos vermos, sem nos tocarmos.
Ele fez eu ficar em pé e parada enquanto desamarrava o nó da calça mescla de moletom e a abaixava, passava pelos meus pés, retirava minhas meias, dobrava tudo e deixava aos pés da cama. Sasuke passou a gola da camiseta pela minha cabeça, deslizou as mãos pelos meus braços e guiou cada um para dentro das mangas folgadas da camiseta masculina, não desviou os olhos de mim em nenhum momento.
De repente, o mundo pareceu parar diante de nós dois, um em pé de frente ao outro, ambos em silêncio, ambos com o olhar preso por um magnetismo peculiar. Parecia que nossas mentes estavam fundidas mesmo os corpos estando separados.
— Eu sinto muito — foi tudo o que ele disse, três palavras, e eu já estava entregue.
Literalmente, joguei-me no seu peito, abracei-o, apertei-o, trouxe-o para mim como se pudéssemos nos fundir em um só. Chorei, só que dessa vez não em silêncio. Chorei sem vergonha de ser fraca, de mostrar que estava sofrendo. Naruto e ele sabiam exatamente o que era uma vida sem uma mãe e o quanto isso nos deixava vulneráveis.
Sasuke me colocou na cama e deitou-se ao meu lado. Eu só consigo me lembrar dele mexendo nos meus cabelos e beijando minha cabeça. Em algum momento, de tanto chorar ou de tanto ser acalentada, dormi.
.o0o.
Quando acordei, Sasuke não estava mais ali e já era dia. O sol forçava a entrada entre as pequenas frestas da janela do quarto do Naruto. Eu não fazia ideia de onde Sasuke e ele tinham dormido.
Eu peguei as minhas roupas que Sasuke tinha dobrado e as vesti rapidamente. Embora eu não quisesse comer, meu corpo clamava por comida. No dia anterior, não havia comido absolutamente nada. Antes de sair do quarto, a porta abriu, Sasuke do outro lado.
— Vim ver se estava acordada. O que quer comer? — perguntou como se adivinhasse que eu estava faminta.
— O que tiver, pães, frutas, não sei.
Ele saiu, e eu o segui até a cozinha. A pequena mesa do Naruto estava farta, as sacolas vazias em cima da pia indicavam que Sasuke quem teve que comprar tudo e preparar, pois Naruto jazia deitado no sofá dormindo desconfortavelmente.
— Onde está Ichiou? — indaguei, sentando-me.
— Está bem — respondeu, indiferente, escolhendo seu desjejum dentre as opções em mesa.
— Eu perguntei onde — repeti com mais firmeza.
— Com Tsunade. — Voltou sua atenção ao café da manhã. Como ele estava tão atencioso há algumas horas e, naquele momento, tão... Sasuke?
— Quando vão deixá-lo comigo?
— Quando estiver bem — disse de imediato.
— Eu sempre estive bem para cuidar do meu filho — disse, expressando minha ofensa. Estavam me tratando como uma pessoa mentalmente desequilibrada.
— Você perdeu sua mãe ontem, Sakura. Dizer que está bem não adiantará o processo. — Deu um gole no café. — E eu também sei cuidar do nosso filho. — Lançou-me um olhar reprovador.
— Eu quero vê-lo — exigi com o tom mais afável do que antes. — Tem muito tempo que não o vejo.
— Quinze dias.
— Dezessete — corrigi. Meus olhos já voltavam a ficar marejados. — Por favor.
Depois de um longo silêncio, ponderação e suspiros, Sasuke cedeu. No mesmo dia, encontrei-me com Ichiou na casa-quarto-de-hotel de Tsunade (e que era minha também por tempo indeterminado), passamos o dia todo juntos, brincando e conversando sobre assuntos de mãe e filho.
Sim, eu tinha perdido minha mãe há pouco mais de vinte e quatro horas, eu estava no chão, mas, de repente, só de ver o Ichiou, já me senti impulsionada e inspirada a sair daquele buraco que eu cavava cada vez mais fundo.
Ver meu filho maior, mais encorpado e rosado, era uma visão prazerosa, ele estava saudável e feliz. Eu não tinha direito de contagiá-lo com minha tristeza, minha auto piedade. Eu queria viver e viver bem para poder acompanhar seu crescimento, acompanhar todas essas palavras novas que ele tinha aprendido, queria que Ichiou tivesse boas lembranças da infância e que elas estivessem relacionadas a uma mãe feliz e presente.
Sasuke tinha razão, afirmar que estou bem não adiantava o processo de estar bem de fato, mas estar com o meu filho, sim. Foi a melhor terapia que eu poderia ter.
.o0o.
Quando completara dois meses que eu estava morando com Tsunade, um delicado assunto veio à tona: onde eu iria morar definitivamente?
A casa dos meus pais já estava fora de cogitação, eu não queria nem poderia conviver com um senhor alcoólatra. Pensei em interná-lo em uma clínica de reabilitação, mas ele não estava disposto a melhorar, na verdade, acha que não tinha problema algum com bebida, que podia controlar o seu consumo. Eu não poderia interná-lo à força a menos que ele causasse um dano grave a si mesmo ou a alguém, do contrário, meu pai tinha que ir por livre e espontânea vontade.
— Você pode voltar a morar comigo e escolher um quarto separado na casa — Sasuke propôs durante a pequena reunião entre Tsunade, Naruto, ele e eu.
Aparentemente, os outros dois concordavam com a brilhante ideia do Sasuke, porém estava claro para mim como aquilo terminaria. Embora fossem quartos separados, ainda era a mesma casa, os mesmos corredores, o mesmo jardim, a mesma cozinha, a mesma sala para um casal recém separado. Ou poderíamos piorar a situação em que estávamos ou encerrá-la de maneira abrupta e impensada. Não era nada disso que eu queria.
Toda a minha história com o Sasuke foi assim, intensa, rápida, impulsiva. Nada ocorria em um ritmo comum, de uma maneira saudável. Era por isso que estávamos quebrados. Eu estava quebrada e descontente comigo mesma, todos aqueles anos arrastando questionamentos, dúvidas, angústias... Se, desde o princípio, desde aquela noite no Ichiraku, eu tivesse apanhado as rédeas e não tê-las entregue de boa fé e vontade nas mãos de Sasuke, talvez, não estivéssemos assim.
Talvez, se Sasuke e eu fôssemos como pessoas normais, as coisas teriam dado certo. Se fôssemos como essas pessoas, sairíamos para conversar algumas vezes, então, em uma noite, depois do terceiro ou quarto encontro, nos beijaríamos na porta de casa. Então, começaríamos a nos ver com maior frequência, nos apaixonaríamos, nos entregaríamos um ao outro e faríamos planos. Nos casaríamos, construiríamos uma vida juntos, uma casa, uma carreira, uma família. Filhos planejados ou concebidos para presenteá-los. Uma vida de cumplicidade. Eu queria. Gostaria muito, mas sabia que não seria assim. Não foi uma vez e já estávamos muito velhos para tentar.
— Não, Sasuke. Obrigada — respondi, enfim, educada e firme, acreditada de que pudéssemos voltar um dia, mas não naquele momento, daquela maneira.
— Aquela casa é sua também — disse num tom totalmente contrário ao meu.
— Eu dispenso. Não é correto dividirmos o mesmo teto se não somos mais nada um para o outro.
Sasuke jogou a cabeça para trás e suspirou, estava bem irritado, afinal, aquela conversa infrutífera iria completar uma hora.
— Sakura, eu sei que estão em um momento delicado, porém seria bom se não pensasse somente em você, mas no Ichiou — Naruto sugeriu. — O ideal seria criá-lo junto aos dois, não de casa em casa. E você também poderia vê-lo a todo instante, sem ter que esperar que Sasuke o traga até você.
— O que você falou não faz nenhum sentido, Naruto. Eu não vou deixar de criá-lo porque morarei em uma casa diferente.
— Estará ausente a maior parte do tempo — retrucou.
— Ao menos que o deixem comigo.
— Não — Sasuke rejeitou a ideia na mesma hora.
— Por que não? Ele é meu filho também! Ele tem que estar comigo!
— Chega — Tsunade interviu, prevendo uma discussão desnecessária.
A guarda de Ichiou era assunto para outro momento. De mais imediato, deveria ser decidido onde eu deveria morar. Eu não havia sido intimada por Tsunade-sama ou algo do tipo, porém aquela decisão veio ao caso porque eu estava inerte e deprimida. Dois meses morando em um quarto, saindo raramente, trancafiada com livros e lembranças, mais uma dieta de serviço de quarto altamente calórica.
— Sakura — Tsunade olhou para mim. —, você sabe que pode ficar o tempo que precisar, contudo, estamos preocupados com o que fará daqui em diante. Os acontecimentos não precisam ser mencionados, sabemos que é difícil, te entendemos, de verdade. Porém existe um mundo lá fora cheio de novas oportunidades. — Deu uma piscadela para mim. O que ela queria dizer?
— Eu estou bem, Tsunade-sama. Só estou em dúvida sobre onde vou morar e o que eu vou fazer já que não tenho mais emprego. — Sentei-me na ponta da cama exausta só de pensar naquilo. Eu estaria afastada do hospital pelo resto da minha vida.
— Bom, quanto a isso é fácil — Naruto comentou. — Você foi banida do hospital, mas ainda é uma kunoichi, uma Iryou-nin, o que a torna bem mais útil e valiosa para cumprir missões.
— Sakura não vai voltar a fazer missões — Sasuke se opôs.
— Já que não trabalho mais no hospital e Ichiou não é um impedimento porque você está cuidando dele, não vejo impasse para que eu não volte às minhas atividades — retruquei.
— Você acabou de queixar-se sobre estar com o Ichiou e agora quer sair em missão?
— Qual o problema? Você vai deixá-lo ficar exclusivamente comigo se eu não for?
— Não — Sasuke respondeu imediatamente.
— Então, eu acho sua ideia ótima, Naruto. Posso voltar a fazer missões de bom grado. — Sorri vitoriosa para Sasuke.
—Tsunade? — Sasuke recorreu à minha mestra como se não aceitasse que ninguém mais fosse repudiar a ideia.
— Não vejo impasse. Sakura deixou de fazer parte do grupo hospitalar, mas não deixou de ser uma Iryou-nin. Alguns dias de treinamento e ela estará apta para receber missões de curto prazo.
— Estou com problemas no QG pela falta de Iryou-nin, você não taparia apenas um buraco, mas uma cratera — Naruto enfatizou. — Como já teve experiência de docência no hospital com os estagiários de Suna, talvez pudesse até formar novos médicos para o campo de batalha.
— Calma, Naruto. Uma coisa de cada vez — Tsunade interviu. — Embora Sakura tenha tido essa experiência, ela não completou o ciclo.
— Ministrar aulas continua sendo melhor do que voltar a lutar — Sasuke opinou.
De repente, afastei minha mente daquele debate e me senti completamente fora da discussão. Aqueles três estavam falando sobre a minha vida e decidindo coisas por mim, falavam como se eu fosse uma criança ou não estivesse presente. Todos os três, igualmente, agindo como se eu fosse incapaz de tomar uma atitude por mim mesma.
— Com licença — disse, levantando-me da beirada da cama e saindo do quarto.
Cheguei a ouvir alguém perguntando o que eu estava fazendo, aonde eu iria, porém eles deviam estar muito ocupados tomando conta da minha vida para vir atrás de mim e saber se eu estava concordando de fato com tudo aquilo.
Decidi caminhar por Konoha, pelo centro mais agitado. Alguns me reconheciam, acenavam, outros olhavam de canto e cochichavam. Fama era algo que pode ascender uma pessoa ou derrubá-la. Era um privilégio inegável ter pessoas tão ilustres ao meu lado como o Naruto, a Tsunade, o Kakashi e o próprio Sasuke, porém muitas vezes isso tornava-se um peso. Eu já tinha a minha própria luz diante de Konoha e de todo o mundo por conta dos meus feitos como kunoichi, contudo, esses quatro ainda faziam uma sombra sobre mim. Mais do que nunca, eu deveria me desconectar um pouco e agir por mim mesma, como Sakura Haruno, não como a pupila de Tsunade, a colega de time do Naruto Uzumaki, a aluna do Kakashi Hatake ou a mulher do último Uchiha.
Durante aquela introspecção, eu estava passando em frente a um prédio recém construído, só me dei conta quando o barulho das crianças me despertou dos meus devaneios.
O edifício tinha a função de abrigar os órfãos da última guerra, tinha alguns andares e era cercado por um muro de aproximadamente um metro e oitenta, o que achei inútil diante de crianças que poderiam saltar aquilo facilmente com um leve impulso. Há uns três metros para o muro terminar na divisão com o estabelecimento ao lado, havia um portão com grades de ferro pelo o qual eu pude observar um pátio no fundo com dezenas de crianças: algumas corriam, pulavam e gritavam a plenos pulmões imersas nas brincadeiras, porém a grande maioria se isolava completamente, sentando-se em pontos diferentes, afastados uns dos outros, sozinhos, inertes.
Aquilo me chocou. Eram crianças. Eles deveriam estar alegres, brincando. Mas também... como poderiam? Tudo o que tinham a guerra havia lhes tomado há pelo menos sete anos. Muitos deviam ter sido criados nesses abrigos, cresceram sendo jogados de canto em canto até o orfanato estar pronto para acomodá-los. A instituição era capacitada para cuidar da parte física e da educação daqueles jovens cidadãos, contudo, não lidava com a ausência dos pais nem com os danos psicológicos que isso lhes causava.
As últimas guerras foram causadas e incitadas por pessoas com passados traumáticos, especialmente na fase da infância. Naruto e Sasuke são exemplos de vítimas de grandes tragédias. A questão é que alguns seguem por um bom caminho com o apoio dos amigos, como o Naruto, outros não encontram tão facilmente, como o Sasuke que muitas vezes se distanciou da luz.
A cena me tocou, levou-me a um nível de introspecção e inspiração que fez com que eu esquecesse todas as minhas preocupações. Eu tive uma ideia e precisava colocá-la em prática. Aquela era a saída do buraco no qual eu tinha me enfiado e só havia uma pessoa que poderia me ajudar.
No caminho ao encontro dela, eu repassava tudo o que tinha pensado com um sorriso estampado no rosto. As pessoas me olhavam com as mais variadas expressões, talvez achassem que eu estivesse louca afinal, mas era a mais pura felicidade que há tempos eu não sentia chacoalhar no meu peito.
Assim que abri a porta do comércio, o sininho esperneou anunciando a minha entrada, o cheiro de uma gama de flores invadiu meu olfato e me instigou mais ainda para promulgar, dali da porta, a minha salvação e de outras centenas:
— Vamos fundar uma clínica mental para crianças, Ino!
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