Pilares de Areia

32 And I'm ready to suffer and I'm ready to hope


Sasuke

Não me lembrava da última vez que vi Ichiou chorar tanto. O dente já estava mole há dias, por isso eu arranquei. Cheguei a procurar alguma informação nos livros da Sakura sobre dentes, mas só encontrei teorias e procedimentos de medicina avançada. Era como ler em outro idioma. Ichiou brincava o dia inteiro de balançar o dente para trás e para frente. Eu já estava impaciente, pois sabia que ele queria tirá-lo fora da sua boca, mas não o fazia por medo.

Durante o treino de reflexo que fazíamos, lançando as bolas um para o outro, acabei deixando uma escapar para longe do quintal e fui buscar. Quando voltei, encontrei-o distraído com o dente novamente. Quis puni-lo por isso e joguei a bola com uma força mediana em direção à mão que brincava. A expressão de Ichiou foi um misto de mágoa e desespero, me fuzilou com os pequenos olhos lacrimejando pela traição. Segundos depois, a boca começou a sangrar.

— Meu dente! — gritou em desespero. Quando ele se deu conta, correu para a cozinha com a mão no rosto, tentando estancar a quantidade mínima de sangue que descia pelos seus lábios em um filete. A parte de mim que estava satisfeita por ter resolvido um problema, em seguida frustrou-se por ter que resolver um novo. Acabei entrando para ajudar o menino em prantos a lavar o sangue que fluía do buraco da gengiva:

— Onde está o dente? — Ele não me respondeu, parecia muito magoado. Não me importei, era apenas um dente. Sakura que talvez fizesse questão de guardar como lembrança, ainda mais por não ter estado presente quando o primeiro dente de leite dele caiu.

Coloquei um pedaço de algodão na gengiva e segui-o pela casa. Dei de cara com a porta do seu quarto. Aparentemente ele não queria ser consolado por estar banguela.

Dias depois, Ichiou já tinha esquecido do dente caído e se gabava pelo dente permanente já estar despontando na gengiva rosada. Ele dizia que um segundo dente estava mole, contudo eu achava que estava bastante firme. Evitava mexer, pois eu poderia arrancar sem querer antes da hora e depois ter que lidar com a fúria dele e da Sakura.

Durante o recesso das aulas por causa do rigoroso inverno, mantive o estudo de Ichiou sobre as matérias básicas em dia, além do treinamento físico. Tentava ensiná-lo da melhor forma, e até gostava da didática, embora não fosse muito paciente a erros persistente, mesmo que provindos de uma criança. Orgulhava-me por ele conseguir aprender rapidamente tudo o que lhe era apresentado, ainda que com uma chantagem ou outra para manter o foco.

Depois de dias de estudo, treinamento e confinamento, também influenciado pela insistência de Ichiou e o meu tédio, decidi leva-lo para visitar o hokage em um domingo. Fui à casa do Naruto na esperança de que não estivesse, pois desde que ele saíra enfurecido da minha casa dias atrás, nosso contato tinha sido abreviado.

Quando Hinata nos recebeu, sua expressão mudou para cautela. Abriu espaço para entrarmos e não disso uma palavra. Assim que retiramos nossas capas, Hinata indicou que Naruto estava na cozinha e convidou Ichiou para conhecer o quarto do primogênito ou primogênita dela. Encontrei Naruto sentado encarando alguns papéis. Sob seus olhos, fossas negras como olheiras, os cabelos em desalinho, a comida ao seu lado parecia intacta e fria. Contemplei-o em um estado de exaustão que jamais vira. A vaga possibilidade das minhas decisões terem tido severo impacto naquela versão deplorável do meu amigo fazia minha mente pesar, embora pelas razões contrárias.

— O que quer? — indagou-me erguendo os olhos azuis opacos na minha direção. Eu ainda estava na entrada da cozinha, ao lado do batente, e ele, sentado desleixadamente na cadeira de madeira. Sua coluna curvada como um arco.

— Ichiou quis vir vê-lo — respondi simplesmente.

— Por um momento, pensei que o seu remorso tivesse o trazido aqui — respondeu sem olhar-me. — Sente-se. — Indicou. Sentei-me encarando-o com desgosto pelo comentário. — Eu até gostaria de tomar algo forte para esquentar, mas preciso ficar sóbrio. Esses papéis não serão lidos só com a minha força de vontade e determinação — ironizou servindo sua própria xícara com café e levantando-se para pegar uma para mim, repetindo a mesma ação.

Ficamos em silêncio. Ao fim do café, Naruto tentou concentrar-se na papelada, e eu, em qualquer coisa que não fosse ele. Depois de alguns minutos, a brincadeira ficou chata e eu levantei anunciando minha saída. Naruto notou-me e perguntou.

— Aonde vai?

— Embora — respondi virando-me minimamente para olhá-lo.

— Por que veio, Sasuke?

— Porque Ichiou pediu.

— Se tem algo a me dizer, fale.

— Por que acha que eu teria?

— Sasuke, eu fui atrás de você nesses dias e não foi uma vez só. Consegue deixar de ser orgulhoso e admitir por que está aqui? — Fiquei em silêncio. — Você sabe que não está completamente certo como eu também não estou completamente errado.

— Não se tratava mais de uma missão rank-s — respondi o que ele queria.

— Sim, exatamente por isso que insisti tanto. — Naruto se levantou.

— Tomou proporções que não deveriam.

— Por isso era a mais arriscada, a mais demorada, e foi deferida a você.

— Foi deferida a mim porque ela se apaixonou. Nem com esforço eu consegui ser simpático e amável. Poderia ser qualquer outro no meu lugar, não faria diferença.

— Era de você que ela gostava. Tinha que ser você. Pensei que fosse algo simples, não imaginei que Sakura se magoaria tanto...

— Poderia ser um homem solteiro. Ambos poderia começar a se gostar e terem uma visa juntos.

— Eu não confiaria algo tão importante a qualquer um, Sasuke.

— Ela era só uma garota — comentei com pesar. Sabia que Myumi estava mal.

— Você nunca teve tato para isso — Naruto acusou-me irritado.

Baka — Rosnei partindo para cima dele.

Não era justo me julgar pelo o que eu fui. Eu tinha mudado. Tinha convicção disso. Reafirmar que eu era péssimo em expressar sentimentos e emoções só fazia com que eu me fechasse mais. Sempre foi uma das minhas fraquezas. Eu amava Sakura e Ichiou mais do que a mim mesmo. Amava o Naruto como amava meu irmão de sangue. Amava Kakashi como um pai. Enfurecia-me a desconfiança de que eu sequer fosse um humano, com sentimentos humanos e emoções humanas. Cometi erros irreparáveis, fiz muitas pessoas sofrerem, sabia disse e admitia, não precisava que Naruto me lembrasse, que jogasse contra mim a pessoa que já fui um dia e que certamente eu não era mais. Por isso, parti para cima dele. Porque ele sabia. Só ele conhecia minha luta contra mim mesmo para amenizar minha culpa, meu arrependimento e meu tempo perdido com aqueles que amava. Naruto sabia, e mesmo assim me julgava como alguém desprovido de empatia.

Obviamente eu não amava Myumi, mas tinha simpatia por ela. Treinamos e realizamos missões juntos, a ajudei a melhorar suas habilidades, mostrei lugares que conheci, contei histórias e vi seus olhos brilharem como os de uma criança. Myumi tinha a ingenuidade para o deslumbre diante das maiores frivolidades, que aos seus olhos, era a descoberta de uma nova fração do mundo. Durante toda a minha vida, pouco lidei com pessoas mais novas do que eu. Focado em vingança e amargurado, acreditava que eu não era mais criança desde a morte dos meus pais. Não me lembrava de como era ser jovem e sedento pelo novo, pela descoberta e pelas sensações. Foi uma página virada da minha juventude que eu não poderia revisitar. Doía-me porque eu queria que tivesse sido diferente

Antes que eu conseguisse alcança-lo para fazer qualquer coisa que quisesse fazer, Hinata impediu-me colocando-se entre nós dois em posição de ataque.

— Na minha casa, não — disse com os olhos de Byuakugan furiosos para mim.

A barriga que ela arrastava com tanto esmero não parecia mais um impedimento para ela se meter em assuntos que não tinham nada a ver consigo.

— Saia — ordenou.

— Hinata, deixe. — Naruto tentou interferir.

— Saia já, Sasuke — ordenou novamente. Estava com tanta raiva que seus lábios finos tremiam.

— Eu já estava de saída — respondi à Hinata, mas fitava o Naruto atrás dela.

Dirigi-me para a sala para pegar minha capa no suporte da parede ao lado da porta. Ichiou observava tudo à distância com uma expressão de extrema mágoa e preocupação. Não perguntei se queria vir, simplesmente saí esperando que ele me seguisse. Depois de ponderar, e talvez depois de algumas palavras sussurradas por Hinata, Ichiou seguiu-me correndo.

— Pode dividir sua capa comigo? — perguntou com a inocência e dependência que ainda tinha.

— Venha — Abri espaço e ele caminhou lado a lado comigo de volta para casa.

— Por que você e o Naruto-san brigam tanto? — indagou-me quando estávamos quase chegando em casa. Ichiou pegou-me de surpresa.

Há um tempo, talvez eu tivesse uma resposta, mas naquele momento, eu só conseguia pensar em mais de um motivo e nenhum parecia plausível. Parecia que Naruto e eu sempre iríamos discordar e que ele sempre receberia apoio contra mim. Sempre. Diante disso, respondi Ichiou sinceramente:

— Não sei, filho. — Abracei-o pelo ombro. — Podemos brincar com algum dos jogos de palavras da sua mãe, o que acha?

— Sim — concordou com contida animação.

— Vamos. Está começando a nevar.

Naquele momento, senti que a ligação que eu tinha com Naruto estava se enfraquecendo porque nossa vida tinha mudado, nossas prioridades, nossos objetivos. Não nos entenderíamos facilmente levando filosofias tão distintas.

Aos poucos, meu melhor amigo e confidente seria meu filho, e o melhor amigo do Naruto seria o filho dele.

.o0o.

Dias e semanas passaram. As cartas de Sakura não passavam de promessas. Eu detestava ler todas. Os sentimentos expressados aumentavam a vontade de tê-la por perto para saber se eram reais, pois há mais de um mês, quando Sakura estava em Konoha, eu era mais repelido do que necessário, como ela exaustivamente alegava nas linhas. Não podia negar minha raiva e descontentamento. Duas semanas que se tornaram quase dois meses. A neve já dera trégua, o gelo derretia gradativamente, as aulas voltaram, tudo se reorganizava para a primavera: Sakura ainda não estava de volta.

Enfurecia-me ter concordado. Enfurecia-me Naruto, enfurecia-me Gaara, enfurecia-me a maldita da Karin que não ia embora logo de Suna para acompanhar Sakura, enfurecia-me Ichiou que não parava de questionar.

— E se ela não voltar? — ele perguntava.

Eu queria ignorá-lo, mas não seria honesto. Eu me perguntava aquilo todos os dias constantemente. E se ela não voltasse? Achava difícil por conta de todas as coisas que ela dizia nas cartas, pelas próprias cartas, pois mostravam que ela queria manter contato. Ainda assim, eu desconfiava.

Aconteceram muitas coisas que a desestabilizaram. Mesmo que ela dizendo que me amava, o vínculo mais forte que Sakura tinha em Konoha era o nosso filho. Era difícil imaginar uma mãe abandonando a própria cria, talvez ela até se ofendesse por eu cogitar algo do tipo, contudo, não era um pensamento descartável.

Sakura estava extremamente focada na carreira e talvez abrisse mão de tudo para realizar o seu projeto caso não tivesse outra escolha. Não tinha garantias de que ela não deixaria mais nada ou ninguém para trás. Também não poderia culpa-la por agir de forma egoísta uma vez que minha vida foi levada na mesma forma.

Otou-san — Ichiou chamou-me a atenção. Estávamos na mesa da cozinha. Eu o ajudava com os deveres de casa e no reforço à leitura e escrita. — Veja se está certo — pediu estendendo o caderno onde copiou o texto que eu lhe dera.

Seu incentivo para o treino eram as cartas recebidas da mãe, lidas e relidas incontáveis vezes por ele. Trabalhávamos na mais recente, e para o deleite de Ichiou, uma das maiores recebidas até então. Sakura pedia para que o dente de leite do Ichiou fosse enviado por Garuda para Suna como “uma parte da infância dele que ela não pode acompanhar”. Eu tinha enviado a resposta há alguns dias, com um pouco de atraso por conta dos avanços de Ichiou na parte linguística e estratégica.

As cartas de Sakura chegavam por Garuda que só as entregava para Naruto, Kakashi, Ichiou ou para mim. Garuda andava aborrecido por viajar tamanha distância com poucos intervalos de descanso, então a entrega das mensagens que antes eram praticamente exclusivas a mim, passou a ser ao destinatário mais próximo que encontrasse. A última carta, por ventura, acabou sendo recebida por Ichiou que conseguiu ler o conteúdo — principalmente a parte que lhe dizia respeito.

— Mamãe mandou uma mensagem e eu já escrevi a resposta. Olha. — Estendeu-me uma folha do caderno da escola. Ele havia recebido Garuda lá dentro, o que me rendeu quase vinte minutos de sermão das instrutoras sobre as regras da instituição de ensino.

O papel que Ichiou me deu para ler era a resposta:

“oi sou eu papai rancou o dente com força e crueldade (parte ilegível) quatro moles vou esperar você rancar com jutsu papai e Naruto-san não falam e Hinata gritou com o papai e papai (parte ilegível) neve ficou gelada e com água podia tossir e adoecer chorei de noite no treinamento meu braço ficou roxo (parte ilegível) árvore caí no chão duro tem gente quebrando tudo aqui na casa fonte dos fantasmas eles quebraram (parte ilegível) martelo papai não quer falar mamãe eu te amo volta rápido.”

— Mas o que...? — Olhei para o Ichiou sem entender nada.

— Ficou bom? — perguntou inocentemente.

— Filho. —Agachei-me para ficar da sua altura. — Onde está a carta que sua mãe enviou?

— Dentro da mochila.

— Pode me dar?

— Só em casa.

— Ichiou, o que a sua mãe disse?

— Para não arrancar meu dente, mas você já arrancou — respondeu com uma expressão de rancor.

Não acreditei, mas decidi não insistir. Começamos a caminhar para casa. Seria melhor mesmo discutirmos isso lá. Ainda assim, quis verdadeiramente entender aquela bagunça que ele escreveu, por isso, perguntei-lhe durante o caminho:

— O que você estava contando para ela na carta?

— Então não ficou boa... — disse para si mesmo diminuindo o ritmo dos passos. Pareceu decepcionado.

— Eu não disse isso. Só queria entender o que você estava tentando dizer — procurei tranquiliza-lo.

— Ainda não estou escrevendo bem — concluiu tristemente. — Para ser um shinobi, eu preciso aprender isso primeiro. É o que mamãe sempre diz. Preciso aprender a escrever como um shinobi.

— Você só tem cinco anos. Não precisa saber tudo. Ainda está aprendendo e já evoluiu muito.

— Você acha? — Assenti e o fitei da forma mais segura que pude. Ele tinha que sentir que eu estava sendo verdadeiro e que tinha orgulho das suas tentativas e progressos. Achei que estivéssemos bem até chegarmos em casa, eu ler o conteúdo da carta e Ichiou se negar a colaborar.

Conseguir arrancar o dente da sua gengiva tinha sido mais fácil do que lhe arrancar a informação do esconderijo secreto onde ele havia colocado o incisivo.

Sakura havia escrito “deixe o dente de Ichiou cair sozinho. Você pode traumatiza-lo se arrancar o dente antes da hora e doer demais. [...] Se cair antes de eu voltar, mande-me o dente por Garuda, seria possível?”, além de outras coisas que só me deixavam mais comprometido com o Ichiou. Eu precisava então achar o bendito dente e não sabia aonde ele tinha escondido.

Estávamos há quase uma hora sentados na mesa da cozinha, cada um em um extremo numa espécie de interrogatório. Por mais estranho que fosse, Ichiou estava levando muito a sério o interrogatório. Tão a sério que não falava absolutamente nada de aproveitável desde que eu disse, figurativamente, que o interrogaria.

Outra coisa que despertou meu interesse pelo dente foi o fato de ser era um material genético de um Uchiha. Com o Orochimaru em ação, qualquer deslize como esse poderia ser aproveitado em suas pesquisas lunáticas em busca de um kekkei genkai Uchiha sintético.

— Ichiou — insisti exausto da situação. Ele estava na minha frente, ereto, com os punhos cerrados em determinação. Como aquela coisa diabolicamente chantagista emocional poderia ser meu filho? — Já te expliquei a importância desse dente. Não vou pedir de novo: me diga onde está para eu enviar a sua mãe. — Ele apenas fitou-me com cara de choro, mas ainda em silêncio. — Nesse caso, vou ter que para Hinata me ajudar a procurar.

— Por quê?

— Ele enxerga através das coisas com o seu byakugan. Vai me ajudar a encontrar. E quando eu encontrar, vou dizer a sua mãe na carta o quão malcriado você foi por esconder algo tão importante de nós — tentei chantageá-lo, o que finalmente resultou em alguma ação.

Ichiou ponderou um pouco. Assim que ouviu o ranger da minha cadeira sendo afastada e meus passos indo até a porta, ele correu até mim. Sem olhar-me nos olhos e sem proferir todas as sílabas, ele finalmente revelou:

— Gaveta da cozinha... — resmungou.

Não poderia ser um lugar mais ridículo. Fiquei bravo por minha preguiça não ter permitido que eu poupasse toda aquela cena que Ichiou estava fazendo. Com certeza a cozinha seria o primeiro lugar onde eu procuraria — e encontraria o dente.

— Eu perdi — Ichiou murmurou, então voltei-me para ele.

— O que disse?

— Eu perdi o interrogatório.

— O que te faz pensar isso?

— Eu revelei onde o dente estava. Eu traí a vila. Não sou um shinobi de confiança.

— Filho — chamei-o da forma mais branda que podia, embora estivesse irritado. — Foi só uma brincadeira, e você se saiu bem.

— Não foi uma brincadeira! Foi um teste! — vociferou. — Você sempre está me testando. — Levantou-se da cadeira e me fitou — Eu falhei na missão.

— Ichiou, estamos nisso há muito tempo. Você pode simplesmente...

Eu mal tinha terminado de falar quando ele chegou no limite do seu aborrecimento e quebrou a cadeira na qual estava sentado com o punho, chamando minha atenção. Os olhos lacrimejavam e sua expressão raivosa era algo inédito.

— Eu quero minha mãe de volta — sentenciou.

Continuamos trocando farpas com o olhar por alguns segundos. Ichiou havia me deixado sem reação. Ele tinha levantado a voz para mim e me desrespeitado (e quebrado uma cadeira de madeira trabalhada com um soco). Um Uchiha jamais faz algo do tipo, mesmo se tiver o sangue quente de um Haruno.

Enquanto eu o fitava, aquele pedaço de gente que eu insistia que cabia sob a minha capa ponderava que atitude tomar diante da afronta. O calor da raiva desaparecia gradativamente do corpo de Ichiou, seus ombros e pernas foram relaxando, assim como as expressões do rosto. Eu continuava impassível:

— Você tem até amanhã de manhã para consertar essa cadeira...

— Mas e-

— Se me desrespeitar mais uma vez, eu não vou enviar somente o dente caído para Sakura, e sim, todos os outros que te sobram na boca — ameacei em um só fôlego com o mangekyou ativado. — Isso é um teste.

.o0o.

Não dormi de noite. Fiquei na cama prestando atenção aos bagulhos do andar debaixo e até quando Ichiou continuaria tentando. Ele não consertaria a cadeira, nunca fizera nenhum tipo de trabalho de marcenaria, além de ainda não ter muita destreza motora e força para manusear as ferramentas.

Pensei durante a madrugada se minha atitude tinha sido certa, errada, ou pelo menos humana. Pensei ser um pai horrível, mas se descesse e o mandasse dormir, eu seria um babaca igual ao Naruto. Na dúvida, permaneci na inércia, fitando o teto e praguejando a maldita missão da Sakura que não acabava. Tudo dava errado quando ela não estava. Eu não sabia como ela lidava com a malcriação do Ichiou, mas tinha a impressão de que talvez lidasse melhor do que eu.

Ao nascer do sol, um pouco antes do horário que eu acordava normalmente, resolvi parar de fingir e desci para a cozinha. O barulho das ferramentas tinha cessado há um tempo, então achei que Ichiou tivesse terminado o serviço ou desistido. A minha surpresa foi dúbia ao notar que não tinha sido nenhum dos dois. Três pés da cadeira já tinham sido arrumados e Ichiou dormia sentado, encostado na quina da mesa.

O resultado tinha sido mais ou menos o que eu esperava: não estava impecável, mas resolvia o problema da cadeira quebrada, que era o mais importante. Mais uma vez, Ichiou provara-me seu gênio de determinação e orgulho. Aquilo era típico de um Uchiha.

Fui o mais delicado o possível para pegá-lo no colo e leva-lo à cama do seu quarto. Tinha sido uma longa noite de trabalho e uma longa manhã de desconto. Não havia mais o que fazer. Deixei um bilhete sobre o criado-mudo. Esperava que ele conseguisse ler e interpretar. Depois, resolvi ir ao centro da cidade comprar o restante dos materiais para consertar a cadeira, ter atualizações sobre a Academia, afinal, seria a próxima etapa de ensino do Ichiou e acertar alguns pontos da negociação da casa.

Poucas coisas me deixavam entusiasmado ou ansioso. A compra da casa fez as duas coisas comigo. Era provável que eu não demonstrasse, pois as pessoas responsáveis pela venda me perguntavam com frequência se eu estava de acordo, se estava satisfeito ou se achava que tinha algo de errado. O que meu semblante não demonstrava, minhas ações falavam por mim. Fechei rapidamente o negócio — em poucos dias —, e já acertava a decoração. Eu não entendia nada, nem tinha saco para detalhes, mas fiz questão de adequarem para a nova os móveis que eu já tinha e a divisão do quintal — uma parte para treinamento e outra para o cultivo de ervas e hortaliças que a Sakura gostava. A parte frontal seria o jardim que ela também gostava. Eram esses meus pedidos. Além de agilidade, claro. Meu apego pelo Distrito Uchiha dissipava-se como fumaça.

Demorei algumas horas para resolver tudo na cidade. Ainda passei na Central de Konoha e esperei Naruto por quase uma hora, mas ele não apareceu. Imaginei que Ichiou pudesse muito bem se cuidar sozinho quando saí, contudo, ao cair da noite, senti-me irresponsável e extremamente rancoroso, afinal ele não tinha comida pronta. Gastei mais trinta minutos no Ichiraku Lámen com um pedido para viagem para o jantar. Desculparia-me com Ichiou de alguma forma, pelo menos.

Há poucos passos da entrada, notei uma segunda presença na casa e percebi, para o meu alívio, que era o Naruto. Observei da janela os dois lá dentro. Naruto ajudava Ichiou com a cadeira — agora consertada, lixando as partes remendadas enquanto Ichiou vernizava as outras partes. Olhei para a minha sacola com ferramentas de carpintaria e me senti um tolo. Achei que estivesse sendo bom para o Ichiou lhe dando meios de aprender algo, Naruto tinha feito melhor do que eu ensinando. Eu não estava ensinando nada ao Ichiou, estava o castigando. Foi um dos meus piores momentos como pai e eu jamais esqueci aqueles segundos antes de girar a maçaneta da minha porta.

Naruto estava tão concentrado que não me notou, e quando o fez, eu já estava de pé na sala os observando. Ele levantou-se rapidamente do chão, com uma expressão séria, e acenou para mim com a cabeça.

— Sasuke. — Fitou-me.

— Naruto. — Acenei de volta.

Ichiou pareceu acuado ao me ver, agachei e o chamei para perto de mim. Ele veio relutante, como se tivesse medo de mim. Eu não era o Fugaku. Eu não queria ser um Fugaku. Eu queria apenas que Ichiou me respeitasse e tivesse disciplina, naquele momento eu senti que ele apenas me temia.

Abracei-o e perdi desculpas em seu ouvido. Levantei-me rapidamente, desconcertado, para falar com o Naruto.

— Te procurei mais cedo na Central.

— Eu soube. Você já tinha saído há horas quando cheguei. Imaginei que já estivesse em casa quando cheguei aqui.

— Faz muito tempo que está aqui? — Ele pareceu sem graça de revelar.

— Faz algumas horas — falou como se não fosse nada. — Ele pediu para não o deixar sozinho. — Olhou para Ichiou que ainda estava próximo de mim. — Ele não interpretou muito bem o bilhete... Achou que você o abandonou.

— Mas você já sabe ler, Ichiou — questionei com desconfiança porque eu escrevi uma frase simples.

“Vou resolver umas coisas. Já volto.”

— Mamãe também me disse isso e ainda não voltou — reclamou. Meu olhar encontrou o do Naruto. Ninguém precisava falar mais nada.

— Eu não podia deixa-lo.

— Vou compensá-lo pelo dia perdido...

— Cara, esquece isso. Você sabe o quanto eu gosto do Ichiou. Além disso, tem um bunshin meu na... — Naruto calou-se assim que ergui a sacola suada pelo vapor do Ichiraku Lámen. — Se for esse o pagamento eu vou ter que aceitar. — Engoliu um seco. — Estendi minha mão direita para cumprimenta-lo, ele apertou com firmeza.

— Não vai ouvir isso nunca mais...

— Eu sei — disse com um sorris debochado que eu detestava.

— M-me...

— Meeee? — incentivava.

— Descul... Argh! Para com isso, baka!

— O que foi, papai? — Ichiou perguntou sem entender nada.

— Eu queria só pedir desc-

— É “desculpa” que fala, papai. Des-cul-pa. Gomen nasai. — Naruto gargalhava.

— Acho justo — comentou entre risadas. — Você o ensina a ler e ele te ensina a falar.

— Mas que idiota! Me desculpa, bakayarou! — disse com raiva e pisando firme para cozinha, onde depositei o lámen na mesa de qualquer jeito. Se quisesse comer, que se servisse.

Jantamos e conversamos amenidades. Mais Naruto e Ichiou do que eu, como sempre. Eu era muito participativo como ouvinte, além de estar bem humorado. Não reclamei nenhuma vez do falatório dos dois.

Naruto decidiu ir embora bem depois do lámen, quando Ichiou já estava de banho tomado e dormindo na cama. Tomamos restos de bebidas que eu tinha guardado para a volta da Sakura e conversamos sobre o ano que acabava de começar. Falei sobre a casa e sobre meus dias contados no Distrito Uchiha. Combinamos de manter o templo como patrimônio histórico do clã praticamente extinto. Formalizaríamos isso posteriormente... O que até Naruto soube elogiar é como me abri. Não conseguiria repetir tudo e da mesma forma, mas senti como se tivesse aberto uma torneira e deixado o fluxo seguir sem me importar. Naruto ouviu-me pacientemente. Talvez porque eu não costumava perguntar, nem mesmo perguntas retóricas. O importante é que ele me ouviu e me entendeu, mesmo não concordando em muitos aspectos.

— Talvez, vocês precisavam ter passado por isso para que Sakura pudesse se amar e se superar e para que você pudesse amá-la da forma como ela deveria ser amada — opinou. — Não acredito que seja uma história de amor. É uma história de dor a de vocês... Mas está chegando ao final que todos gostariam. — Levantou-se e caminhou para saída. Acompanhei-o ainda em transe pelas palavras.

— Naruto — chamei-o quando ele já tinha cruzado o portal da entrada de casa. — Não se preocupe com bebê. Hoje você mostrou ser um pai e um amigo muito melhor do que eu. Penso não existir um lar mais preparado para a vinda de uma criança quanto o seu.

— Obrigado, Sasuke.

Baka. — E fechei a porta.

.o0o.

Perto de completar dois meses da saída da Sakura, recebo uma carta sua cujas frases mal terminei de ler.

“A distância de casa parece estar me deixando doente”

“Ainda não tenho previsão de retorno Karin está atrasada para se encontrar com a Tsuchikage há dias.”

“Não acredito que Ino queria voltar tão cedo”

Ichiou quase esperneou para ler e responder antes de mim.

— Tenho que levar isso direto para a Central.

— Mas me deixa responder antes, pai! Por favor! — Respirei fundo e sentei na mesa da cozinha para ele ter um apoio para escrever.

— Você tem dez minutos para escrever quatro linhas. Isso é muito. Então preste atenção, tudo bem? — Ele assentiu. — Escreva “não estou bravo”.

— Mas por que voc-

— Ichiou, só escreve. — Eu sentia meu rosto quase em combustão. — Vamos contar sobre o seu progresso para ela ficar feliz: “Ichiou foi aprovado em todas as disciplinas da creche.”. — Esperei ele terminar e continuei. — “Cuide-se”.

— Só?

— Sim.

— Não vai falar que eu já sei...

— Sim. Tem razão. Você já sabe lidar com Garuda, não sabe?

— Sei.

— Escreva e enviei para a sua mãe, tudo bem? Eu preciso ir à Central falar com o Naruto.

— Aconteceu algo?

— Sim — respondi sinceramente. — Sua mãe vai demorar mais ainda para voltar. Queremos ela de volta logo, e ela também quer vir embora. Vou tentar resolver isso.

— Tudo bem.

— Posso confiar em você?

— Pode.

E ele fez direitinho. Voltei horas depois e a carta tinha sido enviada. Não perguntei o que ele complementou, mas senti no seu olhar responsável que era algo que faria bem a ela. Só isso que me importava.

Antes disso fui a Central para a reunião convocada com Shikamaru, Kakashi e Naruto. Os três tinham a apática feição de quem não tem nada a dizer. Fiz por eles. Mais uma vez, deparei-me desprovido de filtros e travas:

— Como ela está lá por escolhe se aqui mesmo na carta ela diz que tem que ficar lá. Sakura não tem que absolutamente nada além do que ela queira.

— Sasuke, mal-estar e saudades não é o fim do mundo, ela está assim porque-

— Não ouse — comecei com um tom ameaçador. — Não ouse ponderar algo sobre alguém que você não conhece — disse alguns tons mais cuidadoso.

— Eu conheço a Sakura talvez melhor do que você.

Não serviu para nada o meu cuidado.

— Shikamaru — Naruto o chamou em advertência quando viu que eu estava prestes a ceder à violência.

— Sakura sempre foi extremamente comprometida com o trabalho. Sempre. Acho que ela é verdadeira quando diz que gostaria de estar em Konoha entre família, mas você não pode interpretar isso como um pedido de resgate. Sakura permanece em Suna porque quer estar lá. Se decidisse vir embora hoje, ela viria. Não tem amarras que a prendam. Gaara nos deixou isso muito claro. Mandá-la vir embora poderia causar um conflito diplomático.

— À merda diplomacia!

— Sei muito bem o significado ínfimo de responsabilidade para você, Sasuke. Você por seu pescoço fora para não cumprir uma missão, eu até entendo. Não coloque o da Sakura, pelo amor que você jura ter por ela. Ela te odiaria.

— Se algo acontecer — disse olhando em seus olhos. — Se algo acontecer com ela, a culpa será de vocês.

Com essa surra, voltei para casa sem uma data para tê-la de volta. Mas com um inimigo, o que era ótimo. Prometi esperar o filho dele nascer para acertarmos essa afronta. Faltava alguns meses apenas, para o bem dele.

Pouco depois, Karin chegou sem aviso nenhum, e sem Sakura. Sem notícias, sem preocupação. Ela está bem, garantiu. Garantiu por poucos dias. Quando minha mensagem pedindo notícias chegou à Sakura, ela já tinha saído de Suna sozinha. Nem um mísero Gennin para acompanha-la. Eu achava que ela era capaz de tudo, inclusive vir sozinha para Konoha em uma viagem longa e penosa, mas depois de ela revelar estar tendo mal-estar por conta do clima, como não me preocuparia com uma jornada pelo deserto árido do país do Vento.

Desde o dia que Karin pisara os pés em Konoha sem Sakura, eu não saí da Central, pois sabia que tinha algo errado. Que qualquer coisa podia acontecer. Shikamaru zombava de mim de maneira discreta. Como eu estava tão pilhada sendo que minha mulher era a kunoichi mais forte viva? Reconhecer a força dela não a eliminava de todo e qualquer perigo que pudesse atingi-la.

Quando Garuda pousou em casa para o Ichiou com sangue seco sob as garras e com uma mensagem simplória, eu desconfiei de tudo. Fomos para a Central e calculamos o tempo de chegada até Konoha a partir de variantes de tempo, horário e velocidade. Passou-se dias e Sakura não estava em casa. No limite das possibilidades, quando viajantes emissários já tinham ido e voltado de Suna tranquilamente, eu consegui convencer Shikamaru, Naruto e Kakashi de que tinha algo errado.

Sakura estava desaparecida.