Pilares de Areia
8 God knows what is hiding in those weak and sunken eyes
Notas iniciais
— Sakura-senpai? — Hotaru interrompeu a explicação, desculpando-se em seguida com uma reverência — Naruto-sama a espera na recepção.
Olhei para o relógio de parede. Faltava cinco minutos para a turma ser dispensada.
— Ele disse o que queria?
— Não, senhora.
Suspirei desapontada
— Tudo bem. Podem ir embora — disse para a turma.
Hotaru me acompanhou até a recepção onde encontrei Naruto sentado de maneira relaxada nas cadeiras de plástico, três ou quatro enfermeiras falando algo com ele.
— Sakura-chan! — Levantou em um salto — Que horas você termina seu trabalho?
— Ahm... Daqui algumas horas.
— Eu a dispenso — Passou o braço pelo meu ombro e caminhou pomposo até a porta.
— Espera! — parei — Ichiou está com Shizune, tenho relatórios para fazer...
— Hotaru-chan! — Naruto chamou — Por favor, avise à Shizune que saí com Sakura e peça para ela cuidar do Ichiou por um tempinho. Obrigado — Piscou e as enfermeiras por pouco não desmaiaram de paixão (ou descaradamento).
.o0o.
— Por que me trouxe aqui?
Estávamos deitados na relva, uma pequena parte do bosque onde as sementes dos carvalhos não germinaram, um colchão de grama e ervas daninhas coberto pelos galhos altos, grossos e carregados das árvores ao redor, com sua imponência pareciam estender seus braços rústicos umas para as outras, formando uma cobertura vazada para Naruto e eu. A luz vermelha do fim de tarde atravessava as folhas e chovia sobre eu e ele. Seus olhos azuis ganharam um tom tão fantástico que imaginei aquele momento como um quadro perfeito.
— Aqui é quieto e isolado — respondeu hipnotizado pela dança do vento e dos galhos — Eu não consigo voltar para casa — Começou — Eu precisava falar com alguém. Eu precisava falar com você — Neste momento seus olhos se voltaram para mim afiados, fixos nos meus.
— O que aconteceu? — Naruto sorri. Eu sorrio também. Sorrio contagiada, não por querer — Você a viu.
— Vi — Admitiu.
Voltei o meu olhar para os galhos e suas folhas embutidas. Algumas amareladas caíam sobre nós, rodopiando na atmosfera, sendo embaladas de um lado para o outro e pousando sobre nossos corpos como se tivessem sido treinadas para perecer de uma maneira delicada e sutil.
— Ela estava linda — peguei uma folha no ar, a centímetros de sua testa. Ele despertou e me olhou curioso. Minha expressão era impassível.
— Vocês se beijaram de novo.
— Mais do que isso — Assumiu ruborizados. Eu o olhei pasma.
— Não é possível.
— Não só é, como foi.
— Você está ficando louco?
— Talvez — Deu os ombros — Estou apaixonado, Sakura. Estou amando a Hinata — Dizia sorrindo, os olhos brilhavam como cristais — Não consigo voltar para casa ou para o trabalho, não consigo me concentrar em nada, só penso nela, em nós dois...
— Como isso aconteceu? — perguntei curiosa e preocupada.
— Fui para o Vale do Fim meditar nesta manhã, antes de sentar no local onde sempre costumo ficar, percebi a presença dela, seu chakra tranquilo inconfundível, seu cheiro adocicado — Devaneava — Ela foi me ver. Eu sei que ela foi me ver, não havia mentira bem contada que me enganasse. O olhar dela não negava. Deixei de lado a meditação e fui estabelecer minha paz com ela. Foi mágico! — Exclamou — Estou reprisando isso na minha mente desde que ela me deixou à beira da cachoeira.
— Eu pensei que você tinha um pouco de juízo.
— Eu tenho juízo.
— Vocês transaram, Naruto. Ela está noiva, em menos de um ano se casará, e você se deitou com ela.
— Eu a amo, Sakura!
— Eu sei que a ama, contudo você já parou para pensar que o Hyuga também pode amá-la?
— Isso não faz diferença, ela já disse que me ama.
— De qualquer forma, isso não está certo — insisti.
Sua feição ficou sóbria de um segundo para o outro. Ele me fitou sério e indagou:
— Você não está do meu lado?
Suspirei e desviei o olhar. Não poderia respondê-lo, embora meu silêncio pudesse significar mais um não do que um sim.
— Eu não confio esse segredo a mais ninguém. Nem ao Sasuke — Falou me surpreendendo — Imaginei que você me entenderia, Sakura-chan.
— Eu te entendo, Naruto. Vocês estão apaixonados, isso é lindo, contudo devido as circunstâncias, não é certo.
— Não é certo o pai dela obrigá-la a casar-se com um homem que ela não ama — bradou.
— Com certeza isso foi uma crueldade, visto que a vila inteira sabia que ela te amava desde criança. Entretanto, nem tudo na vida é justo.
— Eu não vou ficar sentado vendo Hinata se entregar para aquele sujeito só porque a vida não é justa — trovejou — Eu vou amá-la, vou pedir a mão dela em casamento para Hiashi e fazê-la minha esposa — disse convicto.
— E se ele recusar sua oferta? — ponderei.
— O mandarei à merda e pegarei a Hinata para mim — respondeu.
— Isso não está certo.
— Para de repetir isso! — irritou-se. O observei respirar descontroladamente por vários minutos.
— Você é meu melhor amigo, Naruto. Eu sempre vou estar ao seu lado quando precisar. Isso não quer dizer que vou aprovar tudo o que fizer. Você já é adulto, sabe que isso não é certo, mas está cego de amor.
— Você não está numa boa posição para me alertar sobre cegueira de amor, Sakura-chan — cuspiu as palavras com resquícios de mágoa. O fitei pasma, não esperava que ele reagisse de forma tão ácida, porém me recompus.
— Não desejo para ninguém o que eu não desejo para mim — disse — Creio que você não se sentiria bem caso Hinata te traísse. Acredito que o Hyuga não gostaria de saber que ela se entregou para o hokage sob a cachoeira no Vale do Fim.
Naruto ponderou, calado. Cruzou as pernas e remexeu as folhas caídas. Estava com o pensamento tão profundo que parecia ter-se desligado do mundo exterior.
— Saber que a pessoa com quem você escolheu dividir uma cama prefere dar amor à outra pessoa é o sentimento mais devastador que existe.
— Como sabe? — Ergueu os olhos brilhantes e curiosos.
— Isso não vem ao caso. Estamos falando da Hinata e de você.
— Vem ao caso sim, eu quero saber — suspirei — Eu quero saber, Sakura — repetiu.
— Eu... — tentei, depois de alguns minutos ponderando se eu faria o melhor desabafando com o Naruto — Eu não sei se devo falar.
— O que você viu? — sua voz se tornou mais branda, seu olhar mais terno. Quando ele tocou minha mão, me senti mais segura.
— Vi algo que me destruiu — respondi — Sasuke esqueceu-se de levar uma pasta para o trabalho. Acreditei que era algo muito importante, então resolvi levar até a Anbu antes de seguir para o hospital. No meio do caminho encontrei Sasuke com uma garota muito próxima dele. Estavam tomando um bebida no mesmo copo, Sasuke a tocou... — respirei fundo e tentei prosseguir, aos poucos, medindo cada palavra — Eu estava com o Ichiou naquela hora, ele estava amarrado junto a mim, seu corpinho quente, aqueles olhos curiosos que não paravam fixos em nada — sorri ao lembrar no meu filho — Se eu não estivesse com ele, Naruto, eu não sei o que eu faria — segurei o choro — Eu agarrei o meu filho e chorei da forma mais discreta que pude. Eu o abracei como se minha vida dependesse daquilo. Eu depositei nele minha vida. Aquela vida que eu havia entregado ao Sasuke... Aquela vida não é mais dele. É do meu filho — Naruto apertou um pouco mais a minha mão — Eu finalmente enxerguei o meu maior erro. Me entreguei de corpo e alma para um homem que me faz infeliz. Eu estou infeliz, Naruto — uma lágrima desceu pela minha têmpora — Invejo o amor que Hinata tem. Eu queria ser amada calorosamente, eu queria ser desejada, queria ser a razão de um sorriso, a primeira pessoa em quem ele pensasse quando acordasse. Não acredito que seja egoísmo, eu só — suspirei pesarosa — Eu só queria significar um pouco mais do que uma silhueta no lado oposto da cama.
Algumas lágrimas escaparam do meu controle, deixei-as livres para fugir de mim e repousarem na relva como as folhas que forravam Naruto e eu. Quando me acalmei, virei minha cabeça para olhar o Naruto, que por nenhum momento tirou os olhos de mim.
— Sakura — Começou — Você sabe que o Teme cresceu sozinho, se manteve sozinho e preferiu ficar assim por muitos anos. Isso ainda é novo para ele.
— Novo? Há dois anos vivemos juntos!
— Multiplica isso por dez. É o tempo que ele viveu sozinho — Refleti — Creio que você já imaginava que seria difícil. Quando você aceitou ser a mulher dele, também aceitou os prós e contras disso, certo? — concordei — Não significa que você tenha que viver uma vida que não deseja porque se comprometeu. Embora não seja muito tempo, dois anos também não são dois meses, em alguma coisa ele deveria ter mudado nesse tempo.
— Ele mudou, claro que mudou. Melhorou em muitas coisas, contudo quando eu o vi naquele dia, eu simplesmente ignorei tudo.
— Mas você sabe o que viu?
— Claro que sim! Não estou ficando louca, nem uma ciumenta obsessiva!
— Quero dizer, você já perguntou para ele o que tinha sido aquilo?
— Não.
— E por que não?
— Porque não quero parecer tão insegura — virei o rosto para o lado oposto.
— E vai conviver com isso? — Neguei com a cabeça.
— Estava pensando e me mudar com o Ichiou.
— O quê?! — perguntou exaltado, quase deitando-se em cima de mim.
— Pare de gritar! Idiota!
— Você quer abandonar o Sasuke?!
— Fala baixo, imbecil! — lhe dei um cascudo — Talvez ele tenha te escutado do outro lado da vila!
— Não, Sakura. Isso, não — Me olhou de forma reprovadora — Você perderia todo o meu apoio — falou sério — Sasuke te ama! Ele nunca a perdoaria se você fugisse com o filho dele.
— Ele ficaria bravo pelo Ichiou, não por mim.
— Sakura — Sentou-se em cima de mim, o infeliz. Agarrou meu rosto com as duas mãos e me obrigou a olhá-lo nos olhos — Eu conheço o Sasuke. Ele te ama.
— Ele nunca disse que me amava — o tirei de cima de mim sem esforço e sentei-me. Estava cansada de ficar deitada, deixando as folhas me cobrirem.
— Você já perguntou?
— Sim.
— E o que ele respondeu?
— Nada.
— Tola. Sasuke seria bem honesto com você caso não a amasse, ele apenas diria de uma só vez. Entretanto ele se calou, sinal de que ele a ama sim. Desde o momento em que ele te pediu perdão, no fim da guerra, eu sabia que era questão de tempo até ele criar coragem para admitir. Sasuke sequer olhou para outra garota da vila. Você se lembra das meninas insuportáveis o seguindo por onde quer que ele ia? Diga-me se alguma vez você o viu reconhecendo alguma delas.
— Nunca.
— Já o ouviu dizendo o quanto ele gosta de mim? — Neguei — Eu sou o melhor amigo dele. Somos como irmãos. Eu não preciso ouvir da boca dele isso, eu sei, você também deveria saber. Conhecendo o Sasuke, eu sei que ele dificilmente vai demonstrar algo muito profundo, é o jeito dele, isso não quer dizer que ele não sinta, Sakura.
— Naruto, ele me amar ou não me amar não me abala tanto agora. O que me corrói é o desrespeito que ele teve comigo e com o Ichiou. O vi agindo de uma forma tão íntima com uma mulher qualquer enquanto ele dorme de costas para mim — senti meus olhos encherem-se de lágrimas novamente — Eu não estou pedindo demais. Eu só queria que ele me desse o que eu preciso, mesmo que seja uma mentira, só queria... — Naruto pressionou o dedo indicador na minha boca, em seguida me abraçou. Abraçou forte, tão forte que chegou a incomodar, parecia desejar fundir meu corpo ao dele, criar uma crosta segura ao meu redor.
— Dê uma segunda chance a ele. Não faça nenhuma besteira. Acredite em mim, ele a ama. Demais — Ainda abraçados, ele acariciava meu cabelo e eu o ouvia atentamente — Ele superou a perda da família porque nos teve ao lado dele. Sasuke não suportaria uma segunda perda, a mulher e o filho. Ninguém poderia salvá-lo.
— O que eu devo fazer? — sussurrei.
— Pergunte o que aconteceu.
— Como vou saber se ele não está mentindo?
— Eu mesmo investigarei isso — sentenciou com o semblante determinado, levantando-se e batendo a palma das mãos na bunda e nas costas para tirar galhos e folhas secas, terra e toda a sujeira que havia grudado na sua roupa — Não se preocupe, tudo de forma muito discreta. Sasuke não saberá — piscou o olho azulado estendendo a mão para ajudar-me a levantar também.
— Obrigada, baka — o abracei verdadeiramente agradecida por tê-lo ao meu lado — Agora vamos, temos lição de casa para fazer.
— Espere um momento — me parou — Qual é a minha lição de casa?
— Encarar o pai da Hinata.
.o0o.
Depois da conversa com o Naruto, retornei ao hospital para pegar Ichiou para podermos ir direto para casa, contudo me surpreendi ao não encontrar nem ele nem Shizune no prédio.
Saí do hospital quase correndo. Esqueci de perguntar se havia muito tempo que ela tinha saído. Eu não entendia por que ela fez isso, não havia demorado nem uma hora com o Naruto, sem contar que ainda estava no meu horário de trabalho e ela no dela. Tinha esperanças de alcançá-los no meio do caminho, contudo ela poderia ter pegado um atalho, passado em algum lugar, não tinha como eu saber.
De repente, chegando ao Distrito Uchiha, eu comecei a criar mil e uma hipóteses na minha cabeça, ponderando diversas situações em que Ichiou e Shizune pudessem estar. Sasuke me mataria se algo acontecesse. Literalmente. Comecei a correr para casa, passando pelas dezenas de casas fantasmas, rezando para que meu filho estivesse no tapete da sala brincando, no berço cochilando, nos braços do Sasuke, de qualquer forma, em qualquer lugar, desde que em casa.
Abri a porta afoita e já perguntei pelo Sasuke. Subi as escadas e abri a porta do quarto do Ichiou, o alívio foi imediato.
Sasuke estava sentado numa cadeira de madeira velha, nos braços, ninava a razão da minha preocupação. A coisa mais preciosa que eu tinha na vida. Senti ciúmes daquela cena, ao mesmo tempo, me senti paga. Eu poderia reclamar de tudo do Sasuke, contudo não podia recriminá-lo como pai, pois ele se mostrava o mais atencioso possível com Ichiou.
Recebi seu olhar gélido com um sorriso terno, ele se irritou porque eu quase acordei o bebê. Deixei-os a sós, virando as costas e seguindo para o meu quarto. Meu corpo suplicava por um banho. Nem me importei em fechar as portas, fui me despindo pelo caminho e entrei debaixo da ducha de água morna. Meu corpo parecia estar com travas, me sentia um robô com as juntas sem óleo, ao sentir aquela água contornar cada pedacinho de mim, foi como eliminar todos os nós que me mantinham tensa.
Senti a presença do Sasuke tarde demais. Ele surgiu em meio a névoa do banho, nu, com a aparência cansada, então eu soube que ele não queria uma transa rápida no chuveiro, Sasuke suplicava por um banho para relaxar.
Ele entrou e fechou o boxe. Pegou um sabonete atrás de mim, porém não me tocou, não falou nada. Molhou a cabeça e se afastou da ducha para se ensaboar, enquanto eu enxaguava meu cabelo afogado em condicionador para tirar o cheiro de grama. Observava os movimentos e a expressão de Sasuke, comecei a me preocupar.
— Aconteceu alguma coisa? — como de costume, ele fingiu não ouvir minha pergunta.
Peguei outro sabonete e comecei a ensaboá-lo e massageá-lo ao mesmo tempo. Ele estava de costas para mim, então seria mais fácil fazer isso não o tendo me encarando daquela forma intimidadora.
— O que está fazendo?
— Cuidando de você — respondi.
Esfreguei suas costas, seu peito, seus braços, suas pernas. Desfiz cada nó em seus músculos como deixei que a água desatasse os nós dos meus. Sasuke seguia cada movimento meu com um olhar confuso, às vezes, me encarava, às vezes roçava discretamente seus dedos na minha pele. Durou poucos minutos, contudo pareceu horas em uma espécie de limbo, só eu e ele.
Eu queria fazer minha lição de casa, queria perguntar o que ele estava fazendo com aquela mulher naquele dia na tenda, mas não tinha coragem e não queria estragar aquele momento. Tive vontade de falar sobre a proposta de Shizune. Pensei em diversas coisas, porém não fiz nada.
Terminando de ensaboar todo o seu corpo, o puxei levemente para baixo do chuveiro para que assim ele pudesse se enxaguar. Nesse momento ele me abraçou. Me abraçou tão forte que quase fiquei sem ar. Sua cabeça estava enterrada no côncavo no meu pescoço. Sua coluna estava no formato de um gancho devido a nossa diferença de altura. Ele ficou ali comigo por tanto tempo que chegou a doer, ainda assim, eu não queria que ele se afastasse.
Quando ele ergueu a cabeça, estava com os olhos vermelhos, o globo branco, não a íris, então eu soube que ele só estava escondendo lágrimas, misturando-as com a água.
Ao invés de importuná-lo com perguntas, eu optei por respeitar seu momento, seja lá o que fosse. Quando ele estivesse mais calmo, eu me arriscaria e perguntaria novamente o que havia acontecido para ele estar tão deprimido, até lá, eu cuidaria dele.
Peguei a toalha, o sequei e enrolei em sua cintura, em seguida cobri meu próprio corpo com outra toalha. Sasuke tinha um olhar indecifrável, me encarava, porém de uma maneira tão dúbia, tão inquietante, que eu fazia de tudo para não notar. O ajudei a colocar um short de flanela e o coloquei na cama. Desci e preparei rapidamente um chá de folhas de limão e a mamadeira para o Ichiou, caso ele despertasse e pedisse. Quando cheguei no quarto, encontrei Sasuke sentado fitando as próprias mãos. Os olhos vermelhos, as sobrancelhas juntas, uma expressão sofrida. Ajoelhei-me na sua frente e coloquei o chá em suas mãos.
— Beba — ele obedeceu, contudo quando pedi para ele se deitar novamente, ele se recusou — Não sei o que você tem, Sasuke. Eu não sei se se você me disser o que é, eu poderei te ajudar. Entretanto você sabe que eu vou cuidar de você, não sabe? — o olhar que ele me lançou pareceu me perfurar.
Por muitos minutos, ele não falou nada. Eu esperei, tive esperanças de receber ao menos um resmungo, porém nem isso.
— Vou preparar a janta, se precisar de mim... — na hora que me levantei, ele segurou meu punho.
— Não — me impediu de sair.
— Preciso fazer janta, Sasuke — seu olhar era inabalável. Suspirei derrotada e me sentei ao seu lado. Ele não queria que eu me afastasse.
Deitamos lado a lado. Fiquei um bom tempo acariciando suas costas e sua cabeça, achei que ele adormeceria logo, mas demorou. Pouco antes de cair no sono, ele sussurrou um “Obrigado” baixinho, quase inaudível, com os lábios pressionados no meu tórax.
— De nada — respondi dando um beijo terno no topo da sua cabeça.
Era inegável o fato de eu amar aquele homem.
Assim que ele pegou no sono pesado, me desvencilhei dos seus braços e fui para o quarto vizinho dar uma olhada em Ichiou. Ao me aproximar no berço, notei a ponta de algum papel embaixo do travesseiro dele. Curiosa, puxei com cuidado aquela pontinha, quando vi do que se tratava, minha mão automaticamente cobriu minha boca aberta. Olhei para a porta aberta pensando em Sasuke. Agora fazia sentido.
Tratava-se de uma fotografia antiga de Sasuke e Itachi quando crianças. Eu não sabia que Sasuke possuía fotografias. Quando me mudei para a casa, todas as molduras estavam vazias. Atrás da foto havia duas datas escritas numa caligrafia caprichosa que eu bem conhecia.
Há sete anos Itachi morria pelas mãos do irmão mais novo.
Quão grande era a dor do Sasuke?
Tão imensa que eu não tinha ideia.
Coloquei a fotografia no mesmo lugar, embaixo do travesseiro no qual Ichiou dormia um sono pesado. Cobri sua perninha desprotegida e beijei sua cabeça.
— Você deveria se chamar Itachi.
Voltei para o meu quarto e apaguei a luz, deixando no chão a toalha que me cobria e tirando, com cuidado, a toalha úmida envolta da cintura do Sasuke. Nus, sob um fino edredom, ficamos entrelaçados. Quietos e quentes. As partes do nosso corpo que estavam juntas já suavam, grudava e incomodava. Eu só queria dormir daquele jeito patético, era só isso que eu queria, contudo meus pensamentos não paravam. A insônia me tomou a noite toda.
Sasuke sentia muito a morte de Itachi, isso era evidente para qualquer um que conhecesse sua história. Entretanto eu me surpreendi ao vê-lo tão frágil, ele me permitiu enxergar sua dor. Talvez ele não tenha comentado nada sobre Shizune trazer o Ichiou ou eu chegar mais cedo porque no fundo se sentia agradecido por ter o filho nos braços o impedindo de chorar. Ou ele simplesmente não tinha estrutura alguma para dar atenção a banalidades.
Completara-se o sétimo ano da morte da única parte da sua família que restara, a morte que ele mesmo causara, por ser cego demais ou ingênuo demais ou quem sabe os dois.
Desisti do sono pouco antes do sol iluminar a luz melancólica do céu da madrugada. Desci os degraus gelados abraçando a mim mesma, estava frio demais para perambular pela casa de camisola, contudo eu não voltaria para o quarto enquanto Sasuke não vestisse sua máscara impassível novamente.
Ele estava tão vulnerável em seus sonhos, tão sereno, tão pacífico que nem parecia capaz de machucar alguém, fisicamente ou sentimentalmente como ele me magoou. Eu não queria sentir pena dele, não queria ser empática, não queria memorizar uma imagem dele que não fosse uma fácil de sentir raiva. Embora Naruto tenha me orientado a conversar, investigar se eu estava sendo justa, meu coração gritava. A imagem dos dedos ossudos dele tocando outra mulher, os mesmos dedos que exploraram cada centímetro do meu corpo em outra, era tão doloroso quanto uma espada me atravessando.
Pensando sobre isso, meus olhos já lacrimejavam. Sentei na ponta da mesa da cozinha, havia mais luz ali, não menos melancólica, não menos fria. O que eu deveria fazer? Sasuke logo acordaria, dormiu mais cedo do que o costume. Precisava me recompor, precisava decidir como proceder.
Vesti sobre a camisola um casaco do Sasuke que estava pendurado no hall e comecei a preparar o desjejum, ainda ponderando sobre como agir. Preparei um bolo de uvas-passas e um chá para mim, o café sagrado da manhã ele mesmo prepararia. Me lembrava claramente dele reclamando de me ter fazendo tudo para ele, querendo agradá-lo, Sasuke estava certo sobre isso, só errou achando que eu insistiria.
Já fazia um tempo que deixei de fazer muitas coisas, ele não reclamava diretamente, contudo ele se irritava, claro. A surpresa ao ter que fazer as compras porque sua esposa responsável havia deixado de lado o abastecimento dos alimentos da casa foi impagável. Entretanto Naruto me colocou a dúvida. Eu sabia o que tinha visto, eu não estava louca, cega de ciúmes, eu o vi com aquela mulher de uma maneira muito íntima, e aquilo eu não perdoava. Haveria uma explicação? Imaginando coisa eu sabia que não estava, quem sabe tirado uma conclusão errada? Minha mente rodava e rodava na mesma questão. O Sasuke não era assim nem comigo. Eu estava agindo errado?
Sasuke estava no pé da escada me observando de longe, silencioso e com sua cara de nada. Não sei por que eu sorri, mas lá estava meus lábios curvados, me levantei. O chá esfriara e eu não havia tomado um gole. Despejei o líquido no ralo da pia e o senti me abraçar por trás apoiando o queixo no meu ombro. O ar quente saindo de suas narinas, esquentando meu rosto gelado, o cheiro único, o lábio úmido perto do meu pescoço, suas mãos nas minhas laterais, cercando-me, prendendo-me ali. O que Sasuke queria?
Me virei e o encarei, eu ia perguntar se ele havia me traído, contudo e falou primeiro:
— Eu não compreendo esse rancor no seu olhar. Você está amarga. Você não parece você.
— Você não tem nada a me dizer?
— Não te dei “bom dia” — sorriu de canto. Abaixei a cabeça para disfarçar, mas ele sabia que eu sorria com ele.
“Deixa pra lá”, pensei. Talvez aquele não fosse o momento.
— Não quer falar sobre o Itachi?
Na mesmo hora, Sasuke se afastou, andou até a janela e a abriu. Uma corrente fria me embalou, me abracei mais ainda.
— Eu encontrei a fotografia embaixo do travesseiro do Ichiou — comecei com cautela, me aproximando aos poucos dele novamente — Com a data e...
— Você já sabe o bastante. Já viu o bastante. Não há o que falar.
— Não estou tocando nesse assunto por curiosidade, eu realmente me preocupo com você, Sasuke.
— Não insista — pediu caminhando até a mesa — Do que é esse bolo?
— Uvas-passas — respondi de má vontade, pois queria insistir mais na conversa sobre o irmão dele.
— Terei que fazer o meu café?
— Sim.
Então ele começou a pegar os utensílios e ingredientes para o café sagrado que só ele sabe fazer. Fiquei todo o tempo parada de braços cruzados, querendo interrogá-lo novamente sobre Itachi, ou até mesmo sobre a mulher que estava com ele, contudo eu não sabia como começar, nada do que eu falasse o faria dizer alguma coisa.
Sasuke terminou o café rapidamente, então me sentei a mesa com ele. Cortando uma grossa fatia do bolo e me servindo com chá. Quando ele engoliu o que estava na boca, eu decidi quebrar o silêncio:
— Tsunade me chamou para fazer um serviço extra.
Eu olhava para o meu prato, cortava o bolo em pedacinhos pequenos e simétricos enquanto esperava uma reação de Sasuke, que não veio.
— Todo ano chegam turmas de Suna para aprender medicina, e Shizune está sozinha lecionando e dirigindo o hospital desde que fui para a outra ala. Tsunade me sugeriu assumir os grupos de enfermeiros e médicos, porém eu disse que só daria minha resposta depois de falar com você.
Todo o pedaço de bolo estava cortado em cubículos e fatias iguais, os farelos empurrados para a borda do prato. Terminada minha distração, pude finalmente olhar para o Sasuke e saber o que sua expressão me diria disso. Ele me fitava com a borda da xícara entre os lábios. Se eu pudesse classificar aquele olhar, diria que ele parecia no mínimo desconfiado.
Sorri e continuei.
— Terei que arrumar uma creche para o Ichiou ou alguém de confiança que cuide dele.
— Negativo.
— Ou eu o deixo aos seus cuidados quando você chegar em casa, e vou para o hospital à noite — falei sorrindo, e ele colocou mais café na xícara.
— Não há necessidade de você trabalhar mais.
— Eu sei, só que eu quero trabalhar.
— Você tem que trabalhar em casa.
— Eu tenho que fazer o que eu quiser — vociferei.
Sasuke ergueu os olhos para mim no mesmo instante em que elevei a minha voz ao afirmar aquilo. O encarei na mesma intensidade que ele me olhava e esperei ele falar alguma coisa.
— Se eu dizer que não, adiantará de alguma coisa? — Neguei com a cabeça.
— Ainda assim, eu ficaria feliz se me apoiasse.
— Tsunade que colocou isso na sua cabeça.
— Ela só sugeriu porque eu mesma tinha lhe dito que estava cansada de fazer a mesma coisa há mais de um ano com o Ichiou amarrado nas minhas costas.
— Você tem um filho agora, ele tem que estar com você.
— Não estou reclamando do Ichiou, estou reclamando da rotina. E também, ele logo completará três anos, ele sabe andar, falar, comer e ir ao banheiro sozinho. Qual o problema de eu deixá-lo em uma creche ou até mesmo com você?
— Ninguém tem obrigação de cuidar de uma criança senão a mãe dela.
— E você? Não pode cuidar do seu filho para eu trabalhar assim como eu cuido para você?
— Eu tenho coisas a fazer.
— O que são todas essas coisas que você tem que fazer? Porque eu não entendo! Você faz horas extra quase todos os dias, trabalha nas folgas e ainda tem coisas a fazer quando chega em casa?
— O que está insinuando? — indagou entredente com a sua expressão raivosa quebrando a costumeira serenidade e indiferença.
— Naruto me disse que te dá folgas às quintas e domingos para você ficar com a gente, mas onde está você? — No andar de cima, Ichiou chorou chamando por um de nós.
Levantamos da cadeira ao mesmo tempo. Ele queria fugir da conversa, com certeza, e eu queria levar adiante porque finalmente tinha engatado algo. Subimos juntos, disputando quem o pegaria primeiro. Chegando no berço, Ichiou preferiu vir nos meus braços, braços nos quais ele já se acostumara a ficar o dia inteiro, estando acordado ou dormindo. Olhei para o Sasuke emburrado, encarando Ichiou como se o repreendesse por ter preferido o colo da mãe do que do dele.
— Você não deixa de cuidar e amar o Ichiou mesmo trabalhando tanto como diz. Eu também não deixaria de cuidá-lo e amá-lo — o passei para o colo do pai.
— Não te darei apoio nenhum nisso.
— Só preciso que esteja em casa às seis, senão o deixarei com outra pessoa — dei um beijo em seus lábios curvados em desagrado — Começo em alguns dias.
Saí do quarto sem esperar uma resposta, um resmungo ou qualquer reação do Sasuke que me frustrasse ou me intimidasse.
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