Pictures of You
1 Capítulo 1
Ele chegou em casa absurdamente cansado. O dia havia sido o pior do ano na empresa e ele se arrependia amargamente de ter trocado o jaleco branco do laboratório da indústria Hale Banquet e assumido o cargo na direção da companhia que era de sua irmã antes daquele acidente no final do ano.
Derek se sentia preparado para o cargo, havia cursado Administração e Contabilidade ainda durante o curso de Engenharia de Alimentos. Mas os problemas que um alto executivo enfrentava eram ainda pior do que os incidentes com produtos químicos no laboratório.
Trancou a porta do apartamento, afrouxou o nó da gravata e jogou a pasta sobre a mesa de madeira que ficava na sala de jantar. Tudo o que queria naquele momento era uma cerveja. Pegou a bebida na geladeira, abriu a tampa e deu um gole sentindo o líquido amarelo e levemente amargo refrescar sua garganta.
Foi até a sala de TV, praticamente arrastando os pés e pela primeira vez não achou ruim que a empresa de limpeza houvesse deixado as portas da varanda abertas. Sentiu, satisfeito, a brisa que entrava pelo apartamento e se jogou no sofá macio, de tecido claro, ligando a TV num canal de esportes qualquer. Deu mais um gole na garrafa e jogou a cabeça para trás, suspirando e sentindo o cansaço o consumir de vez. Soltou um longo suspiro acompanhado de um gemido e provavelmente teria cochilado se não notasse um brilho prateado e rápido piscar do lado de fora da janela.
Chuva àquela hora? Não fazia sentido, pois quando entrou no prédio o céu estava mais que estrelado! Andou até a sacada, olhou para o céu e constatou que não tinha nada que indicasse de onde aquele brilho prateado havia vindo. Deu de ombros e voltou para seu tão merecido descanso.
Quando foi se deitar, umas duas horas mais tarde, torcia para que tivesse um dia mais produtivo e calmo. Quem sabe até pudesse sair para correr no parque, ou ir ao cinema. Fazia semanas que não saía de casa e até mesmo a ideia de tomar uma cerveja com os rapazes do laboratório depois do expediente parecia tentadora. Adormeceu fazendo planos para o dia seguinte.
Mas Derek não teve o descanso que queria. Aquela devia ser a semana dos problemas. Tudo que podia dar errado na empresa havia acontecido e em dobro: duas máquinas do laboratório haviam estragado, um dos advogados da empresa (o que ele de fato considerava o mais competente) havia pedido demissão parar terminar seu doutorado em Direito Empresarial em Oxford. E se não bastasse isso, ainda havia aquela maldita convenção com a imprensa para desmentir os boatos sobre irregularidades no processo de fabricação dos suplementos alimentares fabricados pela Banquet.
Ele não queria ter chance de encontrar com o empregado que havia falado a besteira de que os suplementos eram desenvolvidos a base de restos de alimentos rejeitados para consumo humano e por isso eram "reciclados" em forma de ração animal. Se encontrasse esse sujeito, seria capaz de parti-lo ao meio.
O resultado disso é que agora os outros sócios da empresa, especialmente Peter que detinha junto com Derek 65% das ações, queriam reverter o constrangimento a qual a companhia foi exposta, elaborando uma campanha publicitária inovadora.
Derek jogou sua pasta de qualquer jeito sobre a mesa de vidro da sala de jantar, atirou o paletó sobre o sofá e tirou os sapatos ainda no corredor, soltando um gemido de satisfação quando sentiu os pés tocarem o piso frio da cozinha. Abriu a geladeira e tirou uma garrafa de cerveja lá de dentro, junto com alguns ingredientes para um sanduíche quando a campainha tocou.
Ele simplesmente odiava o fato de morar num prédio onde, além do porteiro parecer um enfeite, tipo um gnomo de jardim da terceira idade, seus vizinhos ás vezes tinham a péssima mania de aparecer sem avisar. A campainha tocou mais uma vez e ele apenas rastejou até a porta, abrindo-a de mau humor e encarando o rapaz, no mínimo estranho, a sua frente.
- Olá, vizinho! — o rapaz cumprimentou, de um jeito que Derek achou excessivamente animado.
- Vizinho? — ele ergueu as sobrancelhas — Não sabia que os Madson tinham se mudado.
- Ah não! — o rapaz balançou os braços, desfazendo o mal entendido — Não moro nesse andar. Na verdade, não moro nem mesmo nesse prédio.
- Como é?
- Eu sei, soou estranho para mim também. Mas eu moro no prédio ao lado, apartamento 609. Meu nome é Stiles.
- E a sua política da boa vizinhança é vir conhecer os moradores do prédio ao lado porque, aparentemente, um edifício de 18 andares, com quatro apartamentos por andar, não tem gente o bastante para você conhecer.
- Uau, você parece que me conhece há séculos. — o menino desdenhou, apoiando o braço direito no batente da porta — Olha só, já vi que você não está de bom humor e ainda tenho outros apartamentos para visitar. Só vim aqui mesmo pedir sua autorização.
- Autorização? — Derek indagou, com espanto, vendo o papel que o rapaz estendia a sua frente e no qual se lia "Autorização de Uso de Imagem".
Aquilo era um pesadelo.
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