Ele chegou em casa absurdamente cansado. O dia havia sido o pior do ano na empresa e ele se arrependia amargamente de ter trocado o jaleco branco do laboratório da indústria Hale Banquet e assumido o cargo na direção da companhia que era de sua irmã antes daquele acidente no final do ano.

Derek se sentia preparado para o cargo, havia cursado Administração e Contabilidade ainda durante o curso de Engenharia de Alimentos. Mas os problemas que um alto executivo enfrentava eram ainda pior do que os incidentes com produtos químicos no laboratório.

Trancou a porta do apartamento, afrouxou o nó da gravata e jogou a pasta sobre a mesa de madeira que ficava na sala de jantar. Tudo o que queria naquele momento era uma cerveja. Pegou a bebida na geladeira, abriu a tampa e deu um gole sentindo o líquido amarelo e levemente amargo refrescar sua garganta.

Foi até a sala de TV, praticamente arrastando os pés e pela primeira vez não achou ruim que a empresa de limpeza houvesse deixado as portas da varanda abertas. Sentiu, satisfeito, a brisa que entrava pelo apartamento e se jogou no sofá macio, de tecido claro, ligando a TV num canal de esportes qualquer. Deu mais um gole na garrafa e jogou a cabeça para trás, suspirando e sentindo o cansaço o consumir de vez. Soltou um longo suspiro acompanhado de um gemido e provavelmente teria cochilado se não notasse um brilho prateado e rápido piscar do lado de fora da janela.

Chuva àquela hora? Não fazia sentido, pois quando entrou no prédio o céu estava mais que estrelado! Andou até a sacada, olhou para o céu e constatou que não tinha nada que indicasse de onde aquele brilho prateado havia vindo. Deu de ombros e voltou para seu tão merecido descanso.

Quando foi se deitar, umas duas horas mais tarde, torcia para que tivesse um dia mais produtivo e calmo. Quem sabe até pudesse sair para correr no parque, ou ir ao cinema. Fazia semanas que não saía de casa e até mesmo a ideia de tomar uma cerveja com os rapazes do laboratório depois do expediente parecia tentadora. Adormeceu fazendo planos para o dia seguinte.

Mas Derek não teve o descanso que queria. Aquela devia ser a semana dos problemas. Tudo que podia dar errado na empresa havia acontecido e em dobro: duas máquinas do laboratório haviam estragado, um dos advogados da empresa (o que ele de fato considerava o mais competente) havia pedido demissão parar terminar seu doutorado em Direito Empresarial em Oxford. E se não bastasse isso, ainda havia aquela maldita convenção com a imprensa para desmentir os boatos sobre irregularidades no processo de fabricação dos suplementos alimentares fabricados pela Banquet.

Ele não queria ter chance de encontrar com o empregado que havia falado a besteira de que os suplementos eram desenvolvidos a base de restos de alimentos rejeitados para consumo humano e por isso eram "reciclados" em forma de ração animal. Se encontrasse esse sujeito, seria capaz de parti-lo ao meio.

O resultado disso é que agora os outros sócios da empresa, especialmente Peter que detinha junto com Derek 65% das ações, queriam reverter o constrangimento a qual a companhia foi exposta, elaborando uma campanha publicitária inovadora.

Derek jogou sua pasta de qualquer jeito sobre a mesa de vidro da sala de jantar, atirou o paletó sobre o sofá e tirou os sapatos ainda no corredor, soltando um gemido de satisfação quando sentiu os pés tocarem o piso frio da cozinha. Abriu a geladeira e tirou uma garrafa de cerveja lá de dentro, junto com alguns ingredientes para um sanduíche quando a campainha tocou.

Ele simplesmente odiava o fato de morar num prédio onde, além do porteiro parecer um enfeite, tipo um gnomo de jardim da terceira idade, seus vizinhos ás vezes tinham a péssima mania de aparecer sem avisar. A campainha tocou mais uma vez e ele apenas rastejou até a porta, abrindo-a de mau humor e encarando o rapaz, no mínimo estranho, a sua frente.

- Olá, vizinho! — o rapaz cumprimentou, de um jeito que Derek achou excessivamente animado.

- Vizinho? — ele ergueu as sobrancelhas — Não sabia que os Madson tinham se mudado.

- Ah não! — o rapaz balançou os braços, desfazendo o mal entendido — Não moro nesse andar. Na verdade, não moro nem mesmo nesse prédio.

- Como é?

- Eu sei, soou estranho para mim também. Mas eu moro no prédio ao lado, apartamento 609. Meu nome é Stiles.

- E a sua política da boa vizinhança é vir conhecer os moradores do prédio ao lado porque, aparentemente, um edifício de 18 andares, com quatro apartamentos por andar, não tem gente o bastante para você conhecer.

- Uau, você parece que me conhece há séculos. — o menino desdenhou, apoiando o braço direito no batente da porta — Olha só, já vi que você não está de bom humor e ainda tenho outros apartamentos para visitar. Só vim aqui mesmo pedir sua autorização.

- Autorização? — Derek indagou, com espanto, vendo o papel que o rapaz estendia a sua frente e no qual se lia "Autorização de Uso de Imagem".

Aquilo era um pesadelo.

Notas finais
Capítulo curtinho só pra começar... muita coisa ainda vai acontecer aqui, mas só posto se acharem que vale a pena continuar a leitura!