Notas iniciais
Não me odeiem por favor!

Acordar numa cama diferente da sua era uma sensação a qual Derek não estava acostumado. Não que ele estranhasse o colchão, ou o travesseiro não era adequado ou a luz do sol que entrava pela janela incomodava.

O que havia de diferente ali era o som de mais: mais calor, mais barulho, mais um coração batendo ao lado do seu e um ressonar baixo que fazia sentir como se estivesse com borboletas voando em seu estômago.

Outro detalhe era o peso de um braço sobre seu abdômen e o cheiro de suor, perfume e sono fazendo tudo ficar estranhamente aconchegante. Ele tornou a fechar os olhos, querendo aproveitar a sensação ao máximo, mas não conseguiu evitar que um suspiro satisfeito saísse de seu peito, de modo que fez Stiles mover para o lado e espreguiçar, com um gemido que Derek não sabia definir se achava fofo ou sexy.

– Dia. – o rapaz murmurou ao lado dele, o rosto ligeiramente amassado e os cabelos apontando em direções diferentes.

Derek não respondeu. Apenas ficou em silêncio e se deu a oportunidade de olhar para aquela cena por alguns minutos. Quando Stiles parecia querer quebrar o silêncio, ele se adiantou e depositou um beijo suave nos lábios do fotógrafo.

Um beijo calmo, sem toda a tensão sexual que haviam acumulado ao longo de semanas de convivência. Um beijo com um significado maior do que simplesmente bom dia, significado este que ele não estava pronto para falar, embora se sentisse mais que pronto para sentir e viver.

Stiles sorriu ainda com a boca pressionada pelo empresário e levou a mão até o rosto dele, acariciando o rosto de um modo tão delicado que pareceria impossível a quem visse o fotógrafo hiperativo no dia a dia.

Eles se soltaram por um momento e ficaram se olhando, os rostos distantes apenas alguns centímetros de modo que Stiles se pegou pensando que não havia uma paisagem que ele já havia fotografado que tinha a mesma miríade de cores, mescladas de verde e azul, que os olhos de Derek.

Por fim, ele aumentou a distância e brincou:

– Ok, nem todo esse carinho exclusivamente fofo está resolvendo a questão da minha ereção matinal.

Derek riu e perguntou:

– Um banho pode resolver isso.

– Só se for com você.

– Não tinha nada diferente disso em mente.

Ele levantou da cama, deixando o edredom cair e esticou a mão para puxar Stiles. E o rapaz quase engasgou ao notar que não era o único “animado” naquele quarto. E observando o empresário nu, com aquele sorrio calmo contrastando com a muralha de músculos definidos e rígidos que era seu corpo, ele não conteve suas próprias palavras:

– Você é lindo!

Derek corou. Rapidamente. Ele mesmo sentiu o calor envolver seu pescoço, atingir suas bochechas e correr até a ponta das orelhas. Stiles sorriu mais ainda e levantou da cama, entrelaçando seus dedos e puxando Derek para o banheiro.

Algum tempo depois, ainda de roupão, enquanto preparava panquecas para os dois tomarem café da manhã, enquanto Derek se vestia no quarto, ele pensou que poderia ter acabado com a água do prédio. Um banho de quase duas horas poderia ter esse efeito. Mas, foda-se, ele não ia se sentir culpado se isso tivesse acontecido. Ter a boca de Derek em seu pau realmente valia usar toda a água do reservatório da cidade se fosse preciso.

Preparou os pratos com alguns discos de panqueca, xarope de boldo e mel, duas canecas com café preto e forte e levou tudo numa bandeja para o quarto. Derek estava em pé, na frente da cama, encarando a parede. Um quadro ocupava quase todo o espaço. Uma imagem que ele não notou na noite passada.

Stiles depositou a bandeja na cama e veio para o lado do empresário, ficando ombro a ombro com ele, observando o modo como ele se perdia na imagem em preto e branco.

– Tudo bem? – Stiles perguntou, a voz mais baixa.

– Sim. É só que... Essa imagem... – ele não compreendia o porquê, mas achava que nunca havia visto algo tão carregado de sentimento.

– São meus pais. – Stiles cortou os pensamentos dele – Esta foi a primeira foto que eu fiz, artisticamente falando. Nem pensava em ser um fotógrafo profissional nessa época. Ainda achava que seria xerife, igual meu pai. Essa foi a última foto da minha mãe. Em seu último dia bom. Não sei se você sabe, mas pacientes com câncer tem isso: dias bons, em que a dor é suportável, o estômago não parece vítima de um tsunami de bile e eles até tentam sorrir. E dias ruins: o que acontece está implícito.

Derek puxou a mão de Stiles entre a sua e apertou. A empatia criada com ele era tão forte que ele podia sentir a dor nas palavras, nas memórias que eram compartilhadas naquele momento. Como se seu corpo emanasse saudade, carinho, tristeza, elaborando um perfume que Derek conhecia muita bem por sentir em si mesmo cada vez que pensava em sua família.

– Ela amava piqueniques. – Stiles continuou, agora com um sorriso pontuado de melancolia – Antes de ela ficar doente, nós fazíamos piqueniques todos os fins de semana. Mas depois, ela passava mais tempo no hospital do que em casa. Então, aproveitamos esse dia bom, pedimos autorização dos médicos e a levamos ao parque. Não havia cesta porque ela não podia se alimentar adequadamente. Mas colocamos nossa toalha xadrez no chão e nos sentamos, como nos velhos tempos, observando as pessoas passeando com os cachorros, as crianças jogando baseball e sentindo o sol em nossas peles. Quando meus pais se deram as mãos, senti que eu precisava sair dali, deixar que eles tivessem um momento a dois. Foi quando fiz a foto. Meu pai só a descobriu meses depois, quando pegou a cópia revelada que eu guardava no caderno.

– Aposto que ele ficou com a foto depois disso. – Derek comentou, sem entender porque mantinha a voz tão baixa.

– Não. Ele preferias as fotos dela da época em que dias bons eram todos os dias. Eu ainda carrego essa foto comigo. Aliás, foi bom ter falado nisso. Tenho que pegar o porta retrato no armário e guardar na mala. Mas vamos tomar café primeiro. Na cozinha, porque essas duas xícaras já devem estar geladas.

Derek sorriu e seguiu o rapaz pelo corredor, apenas de calça jeans e descalço. Ligou a cafeteira enquanto Stiles despejava o café frio na pia e lavava as canecas. Sentaram-se de frente um para o outro e comeram envoltos por um silêncio confortável, até que Derek notou o que ele havia falado há alguns minutos.

– Você disse... – ele limpou a garganta, procurando as palavras certas – Disse que tinha que colocar o porta-retratos na mala.

Não era uma pergunta, mas a necessidade de uma explicação estava mais do que óbvia.

– Vou para Jordânia na próxima semana.

– Jordânia? Como no Oriente Médio?

– Sim. Jordânia, no Oriente Médio. Devo ficar uns dois meses lá, fotografando o campo de refugiados sírios. A National Geographic quer uma matéria sobre as crianças refugiadas e me fizeram o convite.

– Você vai ficar dois meses fora?

– Foi o que acabei de falar.

– Eu ouvi. Mas porra, desde quando você sabe disso?

– Um mês. – Stiles respondeu, meio que se encolhendo na cadeira.

– Você sabe... Um mês... Um maldito mês inteiro e nenhuma tentativa de me falar sobre isso?

– Não queria estragar... – Stiles se levantou da cadeira e só então Derek percebeu que também havia se levantado – Não era pra ser grande coisa.

– Oh não, realmente não foi grande coisa. Apenas uma foda rápida realmente não é grande coisa.

– Do que você está falando? – Stiles levantou a voz – Você acha mesmo que isso foi só uma foda rápida?

– Eu não sei, Stiles! Me diz você o que acharia se eu estivesse lhe dizendo “ei, bom dia, foi ótimo te comer, mas agora deixa eu fazer as malas porque vou pro outro lado da porra do oceano”!

– O que você queria que eu fizesse? Que eu tivesse dispensado o trabalho com o argumento de que eu tenho um vizinho gostoso e estava tentando levar ele pra cama?

– Ainda bem que você não dispensou, porque agora que você já levou o idiota do vizinho gostoso pra cama, pode viajar tranquilo.

– Você fala como se eu estivesse indo para a Disneylândia. Eu vou pra guerra, se é que não percebeu isso ainda. Um campo de refugiados é um alvo ainda maior do que um quartel general. Vou viajar para ver crianças passando fome e morrendo de desnutrição simplesmente porque na cabeça desse povo essa morte é mais aceitável do que ser vítima de balas e bombas e você está aí apenas se preocupando com o fato de que não te contei sobre a porra desse trabalho.

– É muito mais que isso, ok? Você dormiu na minha casa, você me falou da sua família. Te apresentei pra minha irmã, cacete! Será que em algum intervalo entre essas coisas você não encontrou um tempo pra me falar que estava indo embora?

– Do que isso ia adiantar? Eu te falo que estou indo embora e você faria o quê? Ia chutar minha bunda para fora da sua vida?

– Talvez. Talvez eu tivesse feito isso mesmo.

O fotógrafo abriu a boca, chocado com a reação de Derek e ele não conseguiu responder, porque o empresário simplesmente deixou a cozinha, foi até o quarto, vestiu a camiseta e saiu pelo apartamento com o sapato e a jaqueta nas mãos.

– Derek, espere! – Stiles chamou.

– Vá se foder, Stiles! Você não me deixou, como você disse mesmo? Ah é, “chutar a sua bunda” para fora da minha vida antes, então estou fazendo isso agora!

Ele bateu a porta do corredor deixando o fotógrafo sem saber como reagir, sentindo a garganta apertada e uma vontade insana de gritar de frustração.

Notas finais
Eu sei que não era isso que vocês esperavam... Mas eu sou uma sádica literária e uma drama queen assumida, então, precisava colocar um draminha por aqui. Espero os comentários (e o apedrejamento).