Pictures of You
13 Capítulo 13
Notas iniciais
A semana passou sem que eles se falassem. No primeiro dia, logo após a discussão, Stiles ainda ficou em casa, a atenção dividida entre o celular e a varanda, esperando que Derek se acalmasse e o procurasse para explicar o motivo de uma reação tão exagerada. Mas isso não aconteceu.
Ele pensava que não tinha feito nada demais. Apenas omitiu um fato sobre seu trabalho, mas iria contar, naquele dia mesmo, depois que almoçassem juntos.
No fim do terceiro dia, ele desistiu de esperar que o empresário fizesse algum movimento em sua direção e tentou se focar em seu trabalho. Precisava terminar as malas, tomar algumas vacinas, ligar para a embaixada americana.
Mas por mais atividades que ele acumulasse, nada fazia sua alma se aquietar. Como se aquela discussão, ou melhor, como se distância de Derek havia feito um buraco em seu peito, por onde entrava um vento frio que lhe enregelava a alma.
Não ia negar que todo aquele silêncio lhe entristecia. Muito. E lhe irritava também. Tudo o que ele queria era conseguir viajar com a alma em paz para dar o melhor de si em seu trabalho de despedida.
Ele já não aguentava mais essa vida sem ter um lugar para chamar de seu, morando em hotéis, barracas no meio do nada, ficando dias sem tomar banho, sem ter uma refeição decente. A ideia de mudar o mundo através de suas fotografias lhe encantou durante um tempo e ele sabia que tinha sensibilidade para aquela profissão. No entanto, mesmo com toda sensibilidade, havia alguma coisa faltando.
Sentia saudade do pai, dos amigos, de ter uma casa. De ter um emprego com hora para chegar e hora para sair. De poder dormir sem medo de uma bomba cair no meio do acampamento. Estava cansado de viajar sem saber se voltaria para casa, correndo o risco de ser sequestrado por fundamentalistas.
E foi quando Scott, seu melhor amigo, sua referência de irmão, lhe mandou um e-mail dizendo que estava noivo e queria que Stiles fosse seu padrinho, que ele decidiu que estava na hora de parar. Queria estar por perto para ver todos os preparativos do casamento. Queria ser o primeiro a saber quando Scott e Allison encomendassem seu primeiro filho, queria ser o tio que ensina todas as coisas erradas para o sobrinho, que deixa comer bala e sorvete antes do jantar e que compra as melhores revistas em quadrinho.
E quando ele voltou, disposto a ficar, Scott fez a proposta de trabalharem juntos com marketing. E durante sua primeira experiência, na campanha da Banquet que ele percebeu que sentia falta de outra coisa: a chance de ter com alguém o que Scott tinha com Allison.
Passeios despreocupados, mãos dadas no cinema, mensagens de bom dia no celular... As pequenas coisas que ele experimentou com Derek e que lhe davam a certeza de que ele tinha feito a escolha certa.
Pelo menos até aquela hora, em que ele se via afundado em seu sofá, os olhos voltados para o teto, pensando que Derek nem havia lhe dado a chance de contar que depois que voltasse da Jordânia, ele ficaria de uma vez por todas ali mesmo, ao alcance de suas mãos. Suspirou, terrivelmente cansado, enquanto esperava a hora de ir para o aeroporto. E ele teria ficado ali as 14 horas, sem coragem de se mexer, se a campainha não tivesse soado, estridente.
Ele se levantou para abrir a porta para Scott que devia ter vindo se despedir. Ele sempre vinha. Mas quando abriu a porta, a figura inquieta de longos cabelos pretos entrou no apartamento sem nem mesmo dizer oi.
– Cora! – ele chamou, a voz um pouco rouca depois de tanto tempo mergulhado em seu próprio silêncio.
– O que eu faço com vocês? – ela perguntou, se virando para encarar Stiles, as mãos firmas na cintura e batendo o pé no chão.
– Do que está falando?
– Dessa mania de serem dois idiotas com a amplitude emocional de uma colher de chá.
– Citar Harry Potter é legal, mas não torna as coisas mais claras para mim.
– Oh céus! Eu estou falando de meu irmão e você. Dois idiotas que vão disputar o troféu Cara de Bunda 2013. Porque, sério, você parece tão miserável quanto ele.
Stiles se deixou cair sobre o sofá, esfregando os olhos com força e dando um suspiro carregado de desalento.
– O que aconteceu com vocês, Stiles? – ela perguntou, sentando-se também no sofá e puxando uma das mãos do fotógrafo – Num momento eu estava fazendo planos sobre a decoração de sua festa de casamento e no dia seguinte meu irmão se tranca no quarto e se recusa até mesmo a olhar na minha cara. E quando aceitou sair da apatia, foi para enfiar a cara no trabalho de um jeito quase psicótico.
– Não sei, Cora... – ele não tirava os olhos dos próprios sapatos enquanto respondia – Até agora não sei o que aconteceu. Estávamos bem. De verdade. Até que ele surtou quando descobriu que vou ter que viajar. Ele foi completamente irracional, grosseiro, estúpido!
– Viajar? Você vai viajar para onde?
– Jordânia. Tenho um trabalho para fazer lá e vou ficar fora algum...
– Espera! Você vai quando?
– Hoje de madrugada.
– Porra, Stiles! – ela se levantou rapidamente e começou a andar pela sala.
– Olha, não é como se eu fosse largar seu irmão, ok? Quer dizer, eu não sei o que a gente tem, ou tinha, mas não pensava em terminar com ele para viajar e ele nem me deu tempo de explicar isso...
– Cacete! Stiles, não tem nada a ver com terminar ou não. – ela tinha um olhar tão triste quando disse isso que o fotógrafo sentiu seu coração afundar ainda mais.
– Então... O que foi tudo aquilo?
– Derek tem... – ela parou, apertando os lábios e suspirando, procurando as palavras para explicar a situação – Meu irmão tem um problema com aviões.
– O quê? Isso não faz sentido! Ele nem vai chegar perto de um, eu nem esperava mesmo que ele me levasse ao aeroporto.
– Stiles, preste atenção. Derek não gosta de aviões, ele não viaja neles a menos que esteja dopado. E ele não se sente bem quando sabe que alguém que ele gosta vai entrar em um.
– Você veio da Itália de avião e ele foi buscar você no aeroporto. – ele argumentou, com um tom de voz que indicava bem que nada do que ela falava fazia sentido.
– Sim, mas esta viagem estava programada há dois meses. Tempo suficiente para ele ir ao terapeuta, o Dr Deaton, para conversar, se preparar para isso.
A expressão confusa no rosto do fotógrafo fez Cora se sentar novamente e falar, agora com o olhar perdido em algum ponto da parede a sua frente:
– Quando Derek tinha 15 anos, ele viajou com a escola para um campeonato de baseball. Eles gastaram quase uma semana de ônibus para chegar a Nevada, onde defenderiam o título do campeonato escolar juvenil pela primeira vez. Nossos pais acharam que seria uma boa dar um apoio pessoalmente a ele e fomos para lá de avião, na véspera do jogo. Só Laura ficou em casa, porque ela estava se preparando para a faculdade e não podia matar aula.
Stiles prestava atenção quase sem respirar. O tom de voz dela era distante, quase frio. Uma defesa, ele pensou, uma defesa de algo que deve machucar seu coração e por isso ela se mantém distante até mesmo das lembranças.
– Não chegamos a Nevada. Derek não jogou a final do campeonato. Não sei muito o que aconteceu na época, porque acordei quase dois meses depois do acidente, recebendo a notícia de que talvez eu não voltasse a andar e que meus pais... – a voz dela falhou e Stiles não resistiu ao impulso de puxar sua mão e apertar, de forma solidária – Fiz quase três anos de terapia para me reabilitar e Derek ia comigo em todas as sessões e me via chorar de dor dia após dia. Os pinos que colocaram no meu fêmur, a placa que tenho no ilíaco, tudo doía fodidamente. E muitas vezes eu pensava que devia ter morrido com eles, sabe? Mas aí eu via o olhar que Derek carregava, sentindo-se culpado, e aquilo me dava forças para tentar salvar meu irmão.
– Laura...?
– Laura teve que virar a adulta da família. Nós tínhamos o patrimônio todo para administrar, apesar de Peter cuidar de quase tudo e ser nosso tutor. Mas ela mudou seu sonho de cursar de Nutrição para Administração para dar conta de tocar a empresa e passava mais parte entre o escritório e a faculdade do que com a gente de verdade.
Ela precisou de algum silêncio para conseguir continuar a história.
– E aí algum idiota inventa que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Mas cai sim. Em cima da nossa família, pelo menos. Há um ano e meio Laura também se foi num acidente de avião. Eu já estava morando na Itália e não pude nem ao menos vir em seu funeral, Stiles. E sabe por quê? Porque se eu entrasse num avião naquele momento, Derek iria desabar.
Ela puxou a mão que ele segurava e esfregou os olhos com força, respirando fundo antes de falar:
– Eu sei que você não sabia de nada disso. Mas, se você sentir mesmo alguma coisa pelo meu irmão... Alguma coisa que vai além de um caso qualquer, tente entender.
– Eu sinto, Cora! Claro que eu sinto. Mas ele pareceu tão determinado ao sair daqui e não deu nenhum sinal desde então que... Não sei! Quer dizer, como posso ter certeza de que é isso que ele quer também?
– Oh céus! Se eu pudesse fazer você enxergar o que vi de vocês na semana passada... – ela começou a falar, ligeiramente desanimada com a incapacidade dos dois homens para lidar com seus sentimentos até que seu rosto pareceu se iluminar – Onde estão as fotos?
– Fotos?
– Sim, as fotos. Do nosso passeio. Você já embalou a câmera?
– Não, elas estão ali... – ele apontou para o canto da sala, onde a maleta com a câmera estava e não teve tempo de falar mais nada porque a moça se levantou e correu pegar o aparelho.
– Ótimo. Cadê seu notebook? Vamos descarregar essa belezinha.
Stiles ergueu a sobrancelha, pensando em como os Hale eram estranhos. Ele conhecia três deles e ainda assim achava todos imprevisíveis.
O processo de descarregar as fotos para o notebook não durou mais que uns cinco minutos, já que Stiles sempre se recusou a fazer fotos com baixa resolução. Mas quando estava pronto e Cora abriu as imagens, ele começou a entender o que ela queria lhe mostrar.
Nada do que ele tinha registrado. Eram as fotos que ela fez enquanto ele estava com Derek, no lago, nadando, conversando, rindo. Mas a mais sugestiva foi uma foto logo após o piqueniquei quando Stiles saiu de perto dos dois e se deitou ao sol.
Na imagem, Derek estava sem camisa, os cabelos ainda úmidos, agachado perto da mochila. Mas apesar de seu rosto estar focalizado pela câmera, seus olhos estavam distantes, fixos na imagem desfocada, em segundo plano, que Stiles sabia ser ele.
A expressão no rosto do empresário revelava tanto carinho, um sorriso discreto curvando seus lábios e um brilho no olhar que fazia o estômago de Stiles revirar e ele sentir a respiração presa no peito.
– Então? – Cora falou, sua voz, ainda que baixa, fazendo o fotógrafo sobressaltar.
Ele a encarou de um jeito perdido, levantando de uma vez da cadeira, mas sem saber o que fazer, dando pequenos passos em direção a lugar nenhum. Cora o observava sorrindo, quando levantou segurou ele pelos ombros virando seu corpo em direção à porta da sala e disse:
– Ele vai estar na empresa até hoje a noite. Agora vá!
Stiles assentiu e correu, pegando carteira e celular no caminho para a Hale Banquet. Ele não tinha ideia do que fazer quando chegasse lá, não sabia o que dizer para Derek, como se desculpar e como dizer ao outro que entendia.
Mas aquilo era o de menos. Ele iria ver Derek. Em poucos minutos. E mais que isso, ele iria ver Derek e se deixar ter o coração arrebatado pelo empresário.
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