Phantom Waltz

1 Capítulo I


Notas iniciais
Não devia ter começado outra fic. Não devia, não devia.

Esqueça o popular soltar fogo pelas ventas ou subir pelas paredes. Jane Rizzoli estava com tanta raiva que poderia incendiar a cidade toda, ou quebrar um tronco na metade. Um de seus tratores estava quebrado, e as partes e peças de que ela precisava para consertá-lo deveriam ter sido entregues dois dias atrás.

Já havia passado da metade da manhã, e ainda nenhum sinal das partes. Quando as ligações de Jane também não surtiram efeito, ela decidiu que iria buscá-las por si mesma.

Com o ombro, ela empurrou a porta do The Ranchers, a maior loja de provisões de Blackcrest. No começo, tudo não passava de um pequeno armazém fundado por Joseph Isles, que prosperara imensamente na pequena cidade. Quando ele morreu, o filho, Richard, assumiu os negócios, e o que antes era um cubículo acabara se transformando no maior dos empreendimentos de Blackcrest. Os Rizzoli, assim como outras famílias de rancheiros, tomaram por costume fazer todo tipo de encomendas lá. Mas agora o tamanho do lugar era quase sinônimo de preocupação. Bem estocado com desde equipamentos pesados a roupas de couro, o estabelecimento parecia enfrentar um dilema: quanto mais as vendas aumentavam, mais a qualidade do serviço parecia diminuir.

Se Richard não conseguisse fazer seus empregados entrarem em forma, acabaria perdendo clientes. Atrasos como esses, no meio da época de plantio, não eram toleráveis. Especialmente quando, devido à neve ter permanecido por mais tempo na região, todos os fazendeiros já estavam atrasados no calendário, e cada dia sem serviço podia significar a perda de muitos dólares.

Jane se encaminhou ao fim da loja, à seção em cuja placa de madeira pendurada estavam escritos à tinta Partes, Peças e Reparos, as botas de montaria tatuando o chão de concreto. Quando chegou ao balcão de madeira nos fundos, permeado por catálogos e pecinhas, ela afastou uma pilha de revistas de agricultura, apoiou os cotovelos na fórmica e encarou a mulher esguia que sentava em frente a um computador perto da máquina registradora.

Longas e brilhantes mechas de cabelos dourados escondiam parcialmente a face da mulher. Os dedos finos com unhas feitas voavam pelo teclado com velocidade e eficiência. Jane esperou por alguns momentos, e ser ignorada não ajudou em nada no seu humor. A manhã já estava quase no fim, ela constatou, quando olhou de relance para o relógio em seu pulso e fechou a cara.

- Com licença. – ela disse, mal contendo a impaciência. – Será que é possível que alguém me atenda aqui?

A loira, finalmente, ergueu a cabeça em sua direção. Jane estancou e encarou a mulher à sua frente. Ela tinha olhos impressionantes, expressivos, delineados por cílios compridos e curvados, e, ao focar o olhar nas orbes castanho-esverdeadas que cintilavam no que parecia um caleidoscópio permeado por grãos dourados, Jane simplesmente esqueceu de todo o resto. Normalmente, ela riria dos clichês excessivamente românticos que homens e poetas às vezes usavam para descrever mulheres. Ela já olhara para milhares de pessoas, mas nunca se sentira no perigo iminente de se afogar... nem de entregar seu coração.

-Eu geralmente não faço atendimentos, mas posso tentar te ajudar. – a mulher respondeu, sorrindo, e Jane jurou que, se raios de sol tivessem um som, seria o da voz dela.

Mas a morena não conseguiu desviar o olhar, quem dirá falar alguma coisa. O rosto à sua frente era pequeno, delicado, perfeitamente simétrico, os malares esculpidos, queixo fino e boca macia, com lábios cheios. A ponta do nariz era salpicada por pequenas sardas, o que apenas garantia que a complexão perfeita era completamente natural.

- Como posso ajudá-la? – a mulher perguntou, agradavelmente.

Jane abriu a boca para falar, mas sua mente continuava em banco como uma folha de papel, e ela não tinha certeza nem se lembrava o motivo de estar na loja, para começo de história.

Ela sentia as coisas mais estranhas, encravadas no peito – um senso bizarro de reconhecimento, talvez? -, como se ela subconscientemente estivesse procurando por essa estranha durante toda sua vida. E isso era ridículo. Amor à primeira vista não existia, e Jane sabia muito bem disso. Não era um rostinho bonito que iria mudar toda uma ideologia.

Não só um rostinho bonito, na verdade. Ela tinha certeza que nunca vira alguém mais... perfeita. Mas isso ainda não mudava nada.

- Eu, hm... – ela correu as mãos pelos cabelos, um dos hábitos que tinha quando ficava nervosa. – Sou Jane Rizzoli, do Rocking R. – foi o que acabou saindo estupidamente de sua boca.

A curva dos lábios da loira ficou mais pronunciada. – Olá, Jane Rizzoli do Rocking R. – foi a resposta, acompanhada de um risinho. – É um prazer conhecê-la. E não fique nervosa, há dias em que eu fico exatamente assim, talvez pior. Ao menos você se lembra do seu nome.

Jane riu. – Você realmente esqueceu seu próprio nome?

E aquele sorriso brilhante apareceu outra vez. – O que me ajuda é voltar ao início. Você é Jane Rizzoli do Rocking R, e veio aqui para...?

A morena estalou os dedos. – Minhas partes.

- Suas partes? – a outra perguntou, sobrancelha arqueada e um sorriso de lado impossivelmente irônico.

- Quero saber onde diabos elas se meteram.

A expressão da loira tornou-se adoravelmente diabólica. – Você não tem noção de onde estão suas partes e acha que eu tenho algo a ver com elas? A maioria das cowgirls que conheço as guardam como se fossem o Fort Knox.

Jane gargalhou, jogando a cabeça para trás. A tensão que havia se enraizado nos seus músculos dos ombros e pescoço por toda a manhã miraculosamente desaparecera.

- Espero que não tenha um encontro sábado à noite. – a mulher adicionou, piscando. – Uma cowgirl que não consegue controlar suas partes acabaria se achando numa situação comprometedora.

Jane levantou um pouco a aba do seu chapéu. – Bem, isso depende. Você já tem algo marcado para sábado à noite? – perguntou num tom tentador.

Foi a vez da loira gargalhar. O som era rico e musical, intenso e acolhedor.

- Eu geralmente evito qualquer um que não tenha controle sobre suas partes.

- Saia comigo, e eu te garanto que acho as minhas bem rápido. – falou a morena, enquanto erguia deliberadamente um canto dos lábios.

- Talvez se você me desse o número do pedido em vez de mais trabalho, eu poderia achá-las para você.

Jane quase soltou uma indireta, mas se conteve a tempo. Havia linhas que não deviam ser ultrapassadas, e ela tinha a impressão de que essa era uma delas. Talvez fosse a suavidade daquele sorriso – ou a fagulha de inocência que ela pensara ter notado naqueles olhos -, mas algo a dizia que a outra não sabia tanto do mundo quanto tentava mostrar.

Enquanto Jane tirava do bolso da calça o pequeno papel do pedido, ela discretamente voltou a analisar a loira. Ela tinha o corpo delicado, quase frágil, o que sem dúvidas explicava por que os olhos pareciam ser a coisa mais marcante sobre ela. Mas, apesar disso, ela era tentadoramente curvilínea. Perfeição em miniatura, Jane não pôde evitar de pensar. A blusa verde evidenciava a curva do pescoço, ossos levemente protuberantes na clavícula, ombros definidos e braços que pareciam surpreendentemente fortes para alguém com a estrutura dela. O decote da blusa era mínimo e profissional, mas mesmo isso não fazia nenhum efeito na tarefa de esconder o busto muito, muito bem proporcionado. Jane, porém, ainda tinha modos, e sabia que não devia ficar encarando – por mais tentador que isso fosse -, de modo que desviou o olhar para baixo, lamentando o fato de que o balcão escondia o resto dela.

Desejando que ela levantasse de modo que Jane pudesse vê-la por completo, a morena entregou o pedaço de papel em que anotara o número do pedido. Enquanto verificava nos arquivos do computador e rastreava o pedido em questão, Maura conseguiu manter a conversa fluindo, durante a qual a morena descobriu que a outra tinha vinte e nove anos, um irmão gêmeo e ninguém de significância na vida exceto a família e um jabuti chamado Bass.

Jane apreciou os minutos de conversa. Mesmo tendo de dividir a atenção entre ela e o computador, a loira não hesitava em responder ou fazer alguma pergunta. Não era muito frequente encontrar beleza, inteligência e uma ótima personalidade por aqueles lados, tudo num mesmo pacote. Jane sabia bem disso.

- Então... Vai me dizer qual seu nome? – a morena perguntou.

- Maura. – respondeu simplesmente, enquanto desviava os olhos do monitor e voltava a encará-la. – Hora de comer poeira, cowgirl. Adivinha onde estão as suas partes desaparecidas.

- Onde?

- A caminho do Rocking R. E não é nossa culpa que estejam atrasadas – acrescentou -. Essas partes em particular são muito procuradas durante essa época do ano, e demoraram dois dias a mais do que deviam para chegar à cidade.

Jane já havia ouvido aquilo antes, e sempre achava que não passavam de desculpas. Vindo dela, porém, as palavras pareciam ser críveis. – Ainda bem que não levantei muita poeira então, huh? – falou, antes de se virar em direção à saída.

- É preciso mais do que uma cowgirl irritadiça para me deixar balançada, acredite. – ela apoiou os cotovelos nos braços da cadeira, ainda sorrindo. – Boa sorte consertando seu trator. Pena que você não é uma empregada, assim poderia cobrar as horas extras.

Jane sentia-se segura afirmando que a outra sabia quem ela era, então. Nenhuma surpresa. Praticamente todos em Blackcrest, Oregon, já haviam ouvido da família Rizzoli. Ela tirou o chapéu e se despediu, sorrindo. – Obrigada, Maura. Foi um prazer.

- Qualquer hora. – veio a resposta, quando ela se virou e foi saindo.

Jane já estava quase na porta quando parou abruptamente. Que se dane ir embora. Em seus trinta e dois anos de vida, ainda não havia cruzado com uma mulher que a interessasse tanto. Maura. Ela era linda, gentil e engraçada. As únicas outras mulheres que conseguiam acabar com seu mau-humor em menos de três segundos eram sua mãe e sua cunhada. Não, ela não ia sair sem, ao menos, um número de telefone. Um encontro, se conseguisse.

- Sei que pode parecer cedo demais... – ela começou, enquanto se voltava novamente para o balcão.

Já de volta ao trabalho, Maura ergueu os olhos da tela, as sobrancelhas franzidas dando lugar a outro sorriso acolhedor. – Não me diga que já perdeu suas partes outra vez.

Jane riu. – Não, não. Eu só... – ela sentia seu coração batendo na garganta. Nunca, nunca, ela ficara tão nervosa antes de chamar uma garota para sair, exceto, talvez, na adolescência. – Sobre sábado à noite. Eu sei que estávamos só brincando, mas, falando sério agora, eu gostaria de te conhecer melhor. – quando a resposta imediata foi um olhar quase amedrontado, Jane continuou. – Hey, eu sou até legal. Seu chefe, Richard Isles, pode confirmar isso.

- Não, eu tenho certeza de que você é maravilhosa, mas...

Jane levantou a mão, pedindo silêncio enquanto franzia o cenho. – Que você acha de um jantar e dança? Nós saímos, vamos a um bom restaurante, nos conhecemos melhor. Então podemos ir a algum pub ou salão, você escolhe.

Os lábios da loira se contorceram num sorriso saudoso. – Você gosta de dançar?

- Muito. Você não? – Jane retrucou, malícia levemente escrita no rosto.

Maura desviou o olhar. Jane teve vontade de se bater por ter ido muito rápido. Ao que parece, o charme de que seu irmão tanto comentava não havia funcionado. Mas tudo o que ela podia fazer agora era cruzar os dedos e esperar que não tivesse arruinado tudo.

- Eu costumava gostar muito de dançar, sim. – a loira batia ritmicamente a caneta na fórmica, segurando-a com tanta força que os nós dos dedos ficaram esbranquiçados.

Jane a encarou mais firmemente, colocando força no pedido com o olhar. – Vamos lá, querida, me dê uma chance. Vamos nos divertir, prometo. Te dou minha palavra que vou me comportar como um cavalheiro.

- Não é isso. – Maura suspirou.

- O que é, então? – Jane retrucou, levemente irritada e desapontada. Para seu desalento, o sorriso e as brincadeiras nos olhos de Maura pareciam ter sido eclipsados por sombras. Ela sentiu que havia dito ou feito algo para causar aquilo, mas não poderia dizer o que, exatamente, nem que sua vida dependesse disso.

- Se você acha que não dança muito bem, não tem problemas. Você pode seguir meus passos. Dez minutos, e você vai jurar que tem asas nos pés.

Maura empurrou a cadeira para trás, não mais escondendo-se atrás do balcão, e juntou as mãos no colo, encarando Jane com um levante ligeiramente orgulhoso do queixo. – Por mais que eu queira, não posso concordar com você. – o sorriso intenso já não mais aparecia, em seu lugar uma expressão tentativamente neutra, acompanhada de um leve corar nas bochechas. – Você não acha?

Jane levou um segundo infinito para entender o que aquelas palavras significavam, até que seu olhar desviou para o chão e ela percebeu o porquê.

Maura sentava numa cadeira de rodas.

Notas finais
Tu dum bass! Mini-cliffhanger. Not sorry.

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