Phantom Waltz
2 Capítulo II
Notas iniciais
Anyways, hope you like it!
Jane demorou alguns segundos infinitos para processar exatamente o que Maura quis dizer. Só então ela notou o afastamento da cadeira, e, então, olhou para baixo, e foi como se tivesse acabado de levar um coice de um dos garanhões da fazenda. Ou, provavelmente, pior – um sentimento que tirou seu fôlego e enfraqueceu suas pernas. Tinha que ser uma piada. A loira era tão perfeita em todos os sentidos.... A garota dos sonhos, Jane sabia. Não podia ser – simplesmente não podia.
Mas seu olhar continuou focado nas pernas, na cadeira de rodas. No modo em que a saia preta acabava em cima dos joelhos, revelando panturrilhas levemente definidas, com músculos em estágios iniciais de atrofia, e pés delicados com sapatilhas pretas simples, quase despejados nos suportes da cadeira naquele jeito típico – nesse caso, o pé esquerdo virado para dentro — que indicava paraplegia.
Deus do céu, ela se sentiu um verme, e nunca teve tanta vontade de engolir palavras como naquele momento. Sua primeira reação foi virar as costas e correr o mais rápido possível na direção contrária, parando no máximo para pensar numa desculpa aceitável antes de sumir completamente do mapa.
E o pensamento a deixou envergonhada. Aquela expressão no rosto da outra era um sinal claro de quantas vezes ela já passara por isso, de quantas vezes tantos idiotas tomaram esse mesmo curso de ações assim que notaram a cadeira de rodas. E, por mais que você tentasse se acostumar a esse tipo de coisa, não havia maneira de não sentir como se você valesse um pouco menos a cada vez que isso acontecia, ou pelo menos foi o que Jane pensou. Ao que parecia, Maura já havia sido machucada no passado, provavelmente mais de uma vez, renegada e excluída por uma coisa que ela simplesmente não podia fazer nada sobre.
Pensar que estivera prestes a cometer o mesmo erro fez Jane sentir ânsia de vômito. Ela não era apenas mais um canalha que corria assim que se deparava com um problema –ou, no caso, com uma cadeira de rodas. Era só um encontro, certo? Não precisava significar nada mais que isso, e, provavelmente, a loira poderia se valer de mais um amigo, se tudo o mais desse errado.
Maura tinha certeza que Jane Rizzoli iria inventar uma desculpa e sair dali como se o lugar estivesse pegando fogo. E não seria culpa da morena, do mesmo jeito que não fora culpa dos outros que tiveram a mesma reação antes dela. Era simplesmente o jeito que as coisas eram; ninguém, em sã consciência, estaria disposto a entrar em uma relação com alguém que não pode mexer da cintura para baixo. Mas, observando a face morena se contorcer rapidamente por alguns segundos, maura percebeu que devia dar-lhe algum crédito: a surpresa foi escondida quase tão rapidamente quanto fora mostrada, e segundos depois um sorriso de canto foi mandado em sua direção.
– Bem, então acho que sair para dançar está fora de cogitação. A não ser, claro, que eu consiga arrumar uma dessas pra mim também, daí a gente pode tentar o tango da cadeira de rodas.
Raras pessoas mencionavam esse detalhe sutil como um touro bravo. Poucas tinham coragem suficiente para sequer falar a palavra, quem dirá olhá-la nos olhos enquanto o faziam. Maura sentia vontade de se bater ou ser engolida por um buraco toda vez que isso acontecia, de modo que mal conseguiu prevenir sua boca de abrir idiotamente quando percebeu que o de sempre, dessa vez, não havia acontecido.
– Temos algumas outras opções fora sair pra dançar, claro. – Jane apoiou novamente os cotovelos na fórmica e o rosto na mão direita, enquanto franzia as sobrancelhas e listava mentalmente outras atividades possíveis — O que você acha de um jantar seguido por um bom filme?
Todos os alarmes possíveis começaram a apitar na mente de Maura. Amedrontador, ela queria dizer. Sim, porque essa reação não podia desencadear outro sentimento que não o do incerto – que deixava a loira completamente apavorada e sem senso nenhum. Jane deveria estar disparando para o outro lado, procurando loucamente pela saída mais próxima. Ela flertava o tempo todo. Afinal de contas, uma garota tem que ter algum tipo de diversão. Mas ninguém, homem ou mulher, a levara tão a sério nesse joguinho inofensivo em todos esses anos. E isso era, ao mesmo tempo, emocionante e assustador. Sim, porque Jane Rizzoli, completa com cachos bagunçados, olhos expressivos, feições intricadamente esculpidas e energia exalando por todos os poros no que fazia um equilíbrio perfeito entre uma força andrógina e uma personalidade complexa não era o tipo de pessoa que olhava duas vezes para alguém como ela. Quando mais nova, Maura não frequentara a mesma escola que a outra, e, sendo alguns anos mais nova, certamente não pertencera a um grupo de amigos nem levemente próximos, o que, se provara, não a impedira de ouvir boatos e anedotas sobre a morena. Vez por outra, ela a via em algum rodeio ou leilão de cavalos, mas era isso. E, agora, observando-a com atenção a menos de meio metro de distância, Maura entendia completamente por que metade das mulheres da cidade tinham uma queda – ou abismo, talvez – por ela. Mesmo aquelas que diziam gostar de homens apenas, era sabido, não fariam questão de flexionar um pouco seus limites quando a mulher em questão era Jane Rizzoli.
– Eu... Hm... – Maura balançou os ombros, sua mente ainda em branco e completamente inútil, a arte de juntar pensamentos coerentes numa frase simples muito trabalhosa para o cérebro carregado. Se seu irmão Collin estivesse ali para presenciar essa cena, era certo que isso seria usado como arma contra ela pelo resto de sua vida.
O olhar de Jane, de novo, foi desviado para os lábios rosados dela. Havia alguma coisa sobre eles, talvez a aparência ou a curvatura tentadora ou o modo como eles se destacavam macios e gentis no contraste com a expressão dura da face, um dos lados tremulando quase imperceptivelmente, como se a loira estivesse reprimindo um sorrisinho.
– Sei que não é muito imaginativo da minha parte. – Jane começou, ainda sem saber o que a outra possuía que lhe fazia falar instintivamente e sem raciocinar direito – Vou pensar em alguma coisa mais interessante para uma próxima vez.
E essa afirmação pegou ambas de surpresa, por motivos distintos. Uma porque não fazia o menor sentido o fato de há cinco minutos ela ter pensado em dar as costas e nunca mais aparecer por ali para agora já estar pensando em um possível segundo encontro, e a outra porque, em sua cabeça, a ideia de sair uma vez com alguém já era complicada de aceitar e acreditar como verdade. Duas vezes, então, parecia ser tão crível quanto um potro com três cabeças.
E, realmente... Próxima vez? Já era ruim o prospecto de a morena ter tido a ideia de saírem por sentir pena da situação e da cadeira de rodas. Prosseguir nessa loucura era inaceitável. Maura sempre apreciara o fato de ser independente e autodidata desde pequena, e não se sentia exatamente confortável quando dependia de alguma outra pessoa para lhe prover o que quer que fosse. E então, todo o controle que se orgulhava de ter lhe fora tomado no acidente, trocado por uma cadeira que a deixava, aos olhos dos outros, incapaz, debilitada e frágil. Alguém para se ter cuidado com, alguém que devia ser supervisionado todas as horas do dia. As pessoas lhe darem atenção por sentirem pena já era ruim o suficiente sem ter de envolver uma possibilidade – por mais remota que fosse – de envolvimento romântico em tudo isso. Não, isso não iria acontecer. Ela não aceitaria o convite para sair. Não mesmo. E ela se repreendeu por ter prosseguido no que parecera um flerte inocente, por não ter mostrado logo a cadeira e acabado logo com toda essa besteira.
Além do mais, apesar de suas pernas não funcionarem, seu coração – coloquialmente falando, na verdade seu sistema límbico, mais a ínsula e o estriado – estavam em perfeito estado. Jane Rizzoli era território perigoso, e ela sabia muitíssimo bem disso. Com aqueles olhos brilhantes e aquele sorriso sexy de lado, não seria muito difícil sucumbir à tolice e acreditar que alguma coisa pudesse realmente acontecer.
Ela alisou os amassões invisíveis da saia, apenas a fim de ter mais uns poucos segundos para ponderar sua resposta. Com certeza havia um jeito elegante de sair de uma situação como essa.
– Na verdade, Miss Rizzoli, o motivo da minha hesitação é que acho que poderei estar ocupada sábado à noite.
Maura não podia mentir, claro. Mas, tecnicamente, ela apenas flexionara um pouco a verdade aqui e ali. Não era exatamente necessário comentar o tipo de ocupação a que estava se referindo. Cozinhar um prato mais elaborado para si mesma ou arrumar novamente o closet podiam, sim, ser consideradas ocupações.
Mas, para sua surpresa, a cowgirl foi rápida no gatilho – e na réplica.
– E na sexta, está ocupada também? – mas, assim que acabou de falar, ela bateu a mão na testa, como se estivesse se repreendendo por sugerir algo assim. Maura se atreveu a ter esperanças de que ela iria esquecer o assunto, mas sem sucesso. – Não, sexta não é possível. Acabo de lembrar que um dos meus cavalos vai competir na hípica esse sábado, e eu tenho que estar lá.
– Hípica? – Maura não conseguiu segurar a língua, e a palavra escapou num tom tão empolgado que Jane teria notado mesmo que fosse surda.
– Você é mais uma entusiasta com cavalos? – perguntou, genuinamente interessada.
– Desde bem pequena.
– É uma surpresa. Não são muitas as mulheres esses dias que parecem ser interessadas. A maioria esmagadora dos frequentadores são homens.
– Talvez eu tivesse gostos incomuns para uma garota. – a loira replicou, com um balançar de ombros.
– E por que o verbo no passado? Se você aprecia cavalos, seria um prazer te levar comigo na sexta.
Maura tinha certeza: a morena nunca tinha convivido com um paraplégico. – Não, não. Eu não lhe deixaria passar por uma experiência dessas.
– Por que não? – Jane perguntou, curiosa.
– Porque entre o estacionamento e a entrada, há uma boa caminhada por dentro de lama e cascalho.
– E...? Você tem algum problema quando as coisas ficam um pouco sujas? – zombou, uma sobrancelha arqueada.
Maura sentia agudamente as batidas de seu coração ecoarem nos ouvidos. Ela engoliu em seco, aproveitando para respirar fundo e se acalmar. Não, não havia nenhum tipo de segunda intenção ali. Jane só estava tentando ser gentil. Ela devia se focar nisso, e tentar amenizar o clima com um pouco de humor aqui e ali, como se isso acontecesse todos os dias. Mas, pensando melhor, levar na brincadeira não havia funcionado até então. Hora de uma dose de realidade.
– Para uma pessoa capaz de andar, não seria problema nenhum. – disse devagar – Mas minha cadeira tende a atolar em pisos desnivelados, o que é o caso desse em especial, visto que choveu esses dias e a umidade está alta. Me empurrar por essa distância seria extremamente demorado e beirando o impossível.
– Você sente algum tipo de dor quando é carregada? – Jane perguntou outra vez.
– Perdão? – o tom incrédulo não podia ser escondido. – Você realmente não está pensando em me carregar, está?
– Por que não?
Por que não? Maura realmente não sabia responder a essa pergunta, e não tinha nem uma pista do que dizer. – A questão não é se eu me machucaria, é que suas costas provavelmente não aguentariam o abuso. – disse, balançando a cabeça para os lados – É muito gentil da sua parte oferecer, Miss Rizzoli, mas...
– Jane. – ela corrigiu – E eu não estou “sendo gentil”. Realmente gostaria que você me acompanhasse.
– Certo então, Jane. Entenda meu ponto. Além da caminhada desconfortável do estacionamento até a entrada, ainda há as acomodações. Não seria muito fácil mover uma cadeira de rodas pelas arquibancadas, e isso requereria que várias pessoas se movessem ou cedessem passagem, o que é extremamente inconveniente. Além disso, digamos que eu precise, por exemplo, usar o banheiro, que fica no térreo, um pouco depois do salão de entrada. Eu teria que descer, ou no caso ser carregada, por todo o percurso mais duas vezes. No final da noite, você estaria orando para que nunca tivesse me convidado.
– Você não pode pesar mais de cinquenta quilos. Minhas costas aguentam.
– Cinquenta e três e meio. – a loira corrigiu, adicionando mentalmente que mais da metade daquilo era peso morto.
– Tudo isso? – Jane riu, sarcasmo dançando nas orbes castanhas — Querida, eu carrego bezerros com o dobro do seu peso uma dúzia de vezes por dia.
– Não, mas...
– É um encontro, e está marcado. – Jane esticou a mão esquerda em direção a um bloco de notas e uma caneta que estavam em cima do balcão. – Escreva aqui seu endereço e número de telefone. Vou estar na sua porta às seis em ponto da noite de sexta.
– Eu realmente...
– Sem reclamações. Vamos lá, vai ser no mínimo divertido. Não é todo dia que eu encontro uma moça que aprecia realmente cavalos. Onde você esteve durante toda a minha vida?
Maura riu, e tentou mais uma vez desencorajá-la. – Não sou muito de sair. Sério, você não tem que fazer isso.
– Telefone e endereço, já disse. – a morena repetiu. – Não me obrigue a jogar sujo e ter que pedir a seu chefe essa informação. O Rocking R é o maior cliente daqui, Richard não poderia me negar esse favor.
Maura sorriu ao imaginar a reação de seu pai. – Talvez eu devesse te deixar fazer isso mesmo, seria interessante. Você não é uma mulher de apostas, é?
– Isso depende. – Jane se apoiou no cotovelo, inclinando-se sutilmente para mais perto da outra. – Qual seria o prêmio?
– Que o meu chefe não só não te daria essa informação, mas também te expulsaria com uma espingarda de sal. Papai tende a ser um pouco superprotetor com sua garotinha.
– Você é a filha de Richard?
– Primeira e única. – com um ar de resignação, Maura abaixou a cabeça e escreveu o que a outra pedir no pedaço de papel. – Depois não diga que eu não avisei. Quando, no final da noite, você estiver com a coluna doendo, uma cartela de ibuprofeno na mão e desejando um suporte lombar, eu não vou aceitar ouvir nenhuma reclamação.
– Você não vai ouvir.
Maura arrancou o pedaço de papel e o entregou à morena. – Se alguma coisa acontecer e você precisar cancelar, pode me contatar aqui na loja durante o dia, ou nesse telefone durante a noite. Eu realmente apreciaria uma ligação quando você cancelasse. Para uma pessoa como eu, é realmente complicado se aprontar para ir a qualquer lugar que seja. E nem precisa se preocupar com um motivo, eu aceito qualquer desculpa. Falo sério.
– Eu vou aparecer. Pode ter certeza. Sexta, seis em ponto. – e, com mais um daqueles sorrisos adornados por um par de covinhas, ela se virou e saiu.
Assim que a porta bateu, Maura percebeu o som de passos se aproximando. Virou a cabeça por sobre o ombro para ver seu irmão Collin ali já parado ao seu lado, um olhar inquisitivo – e não muito agradável – no rosto.
– O que foi isso tudo? – ele perguntou, a voz grave e extremamente séria.
– Isso o quê? – Maura retrucou, inocentemente.
– Enquanto eu estava descendo, me pareceu muito que ela estava flertando com você. – ele fez uma moção com os ombros em direção à porta pela qual Jane acabara de sair.
Maura ergueu as sobrancelhas. — Flertando comigo? Tem certeza de que não precisa de óculos, Collin?
– Você está paralítica, Maura. Não morta. E ainda assim consegue ser mais atraente que muitas por aí. Eu sei que você deve ser alvo de muitos flertes.
– Então por que a careta?
– Porque essa mulher em particular significa más notícias. Você devia ficar longe dela, Maura. A reputação que ela tem a precede.
Ainda solteiro e com quase trinta anos, Collin também era precedido por uma certa reputação, mas Maura achou melhor não comentar isso. – Reputação de que exatamente?
– Amar e deixar. – Collin se aproximou do balcão, pegou um dos catálogos e tirou uma caneta do bolso da camisa. – Não se aproxime muito desse charco. É perigoso e eu não quero que você afunde.
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