Persona Gêmea
8 Tribunal de denúncias
Notas iniciais
O local escolhido fora uma sala ampla e semelhante a um anfiteatro, o que tornava o banco do réu um lugar extremamente opressivo.
Principalmente para quem não fizera nada.
O tribunal começou com o anúncio da chegada do juiz de corte, o que fez o homem sentado à cadeira ao seu lado mordesse o lábio inferior e franzisse o cenho, mostrando-se ligeiramente ameaçado.
-Declaro aberta a sessão- o juiz anunciou- Que se inicie a tribuna.
-O julgamento ocorrerá em função do réu Vergil Sparda, acusado pela tortura e homicídio de cinco homens- o orador declarou. –A acusação procede?
-Desculpa aí, meritíssimo... –o réu se ergueu e franziu o cenho, convicto do que estava dizendo. –Mas há um engano. Meu nome... É Dante Sparda.
-O que o senhor quer dizer com isso?- o orador indagou, sério.
-De fato meu nome era esse, mas... Eu não atendo por esse nome desde os oito anos de idade- Dante argumentou, dando um muxoxo- Eu não sei mais quem é Vergil Sparda.
-Está querendo nos dizer que outro homem está usando o seu nome para cometer os crimes e para que você seja culpado- o juiz sugeriu- Parece-me um disparate. Seja como for, dirijo a palavra para o advogado do senhor Arkham Chandler.
-Senhor meritíssimo, lógico que há possibilidade de roubarem o nome de uma pessoa, como sugere o senhor Sparda... –o advogado, um homem franzino e de óculos sem armação, se levantou e falou. –Mas não há possibilidade de roubarem sua aparência. A discrição é a mesma e meu cliente alega ter conversado com o acusado antes do crime proceder. Ainda assim, o senhor continua dizendo que essa pessoa não era você mesmo?
-Olha... Eu queria dizer que tenho certeza que não fui eu... Mas não tenho- Dante suspirou, impaciente- Eu não tenho memórias da noite anterior.
-Então o senhor estava usando drogas psicoativas?- o advogado indagou.
-Não, eu estava limpo- o réu retrucou, já irritado com as acusações.
-Eu protesto, meritíssimo- o advogado de Dante, se erguendo- Há, sim, uma forma de outra pessoa roubar sua aparência e eu tenho meios de provar.
-Protesto aceito- o juiz anuiu, intrigado. –Faça-me o favor, senhor Morrison.
-Chamo ao banco de testemunhas, Trish Williams- o advogado, Morrison, pediu e a loira caminhou até o banco de testemunhas, sentando-se confortavelmente com uma perna cruzada. Após o costumeiro juramento, ele perguntou: –Pode nos explicar como é possível isso, senhorita?
-Claro- ela concordou, tornando-se um pouco mais pesarosa. –O senhor Sparda manifesta sintomas de um distúrbio raro, mas nem por isso ele deixa de ocorrer. Eu o diagnostiquei como portador do transtorno dissociativo de identidade.
-Pode explicar isso, senhorita Williams?- o juiz indagou, cruzando os braços.
-Trata-se de dupla personalidade- ela concluiu- É um transtorno onde duas ou mais identidades rotineiramente tomam controle do corpo com suas diferentes formas de interagir com o meio.
-E como acreditar que o réu possui esse transtorno?- o juiz interrogou.
-O réu apresenta cefaléias constantes, ansiedade, níveis instáveis das funções, amnésia cognitiva, também descrita como “tempo perdido”, e recorre ao uso de drogas psicoativas para não encarar o problema- Trish explicou.
-Certo- o juiz anuiu- Mesmo que o acusado possua tal distúrbio, como saber se ele estava sob controle de outra identidade durante o crime?
-Porque eu estava presente e posso afirmar que sei do que estou falando- a loira replicou, tentando não parecer impaciente. –Há algum tempo, encontrei-me com Vergil Sparda, senhor meritíssimo. Quis reencontrá-lo, mas não possuía qualquer contato... Então recorri ao homem que o ouvi citar: Arkham Chandler. Por coincidência, uma amiga minha tinha conhecimento de um lugar que esse homem freqüentava...
“Quando o procurei, Arkham e seus homens tentaram abusar de mim, mas eu havia levado uma faca comigo por precaução, pois eu conhecia aquele tipo de lugar, e consegui escapar. Felizmente, encontrei Dante. Quando os homens do Arkham foram nos atacar, ele pegou a minha faca e acertou-o como forma de se defender.”
-Forma de se defender, huh...? –o advogado de Arkham retrucou- Não se degola um homem em defesa própria, senhorita Williams.
-Como eu ia dizendo... –ela continuou, irritada pela interrupção. –Arkham reconheceu-o como Vergil Sparda e mandou que os outros o matassem. O que leva a crer que o senhor Chandler já sabia da condição de Vergil, mesmo antes da troca de personalidades.
-Eu protesto!- Arkham vociferou, se erguendo.
-Protesto negado- o juiz retrucou-lhe. –Continue, senhorita Williams.
-De fato, Vergil matou todos ali presentes, mas eu não vi, porque temia a cena e fechei os olhos. –ela confessou- O único momento em que o vi, foi quando notou que o primeiro homem que atingiu estava vivo e agonizando, então lhe cortou o pescoço para que tivesse uma morte instantânea.
-Está sugerindo que ele teve compaixão do homem que tentou matá-lo?- Madison indagou, cruzando os braços.
-Provavelmente, sim- ela concordou- Conheci Vergil, não é um homem de natureza perversa. Se fosse, deixaria que ele agonizasse até a morte.
-Bem, se a senhorita finalizou, suponho que...
-Meritíssimo- Morrison chamou- Permita-me chamar somente mais uma testemunha.
-Fique à vontade- o juiz fez um gesto de indiferença.
-Chamo ao banco de testemunhas, Lady Chandler- Morrison anunciou, no que Arkham se ergueu, surpreso, ao ver a morena caminhar até o local indicado.
-Mary...?!- chamou, incrédulo.
-Não me chame por esse nome, seu cachorro decrépito!- Mary esbravejou, disposta a avançar em cima do homem, mas Morrison a segurou. –Você não merece sequer me dirigir a palavra depois do que me fez, seu desgraçado!
-Ordem no tribunal!- o juiz exclamou, no que Arkham foi coagido a se sentar por seu advogado e Mary seguiu até o banco de testemunhas, levada por Morrison. Naturalmente, fez o juramento e ouviu –Por favor, senhorita Chandler... Será que pode dar algum depoimento depois dessa demonstração agressiva?
-Vou esclarecer tudo, meritíssimo... –a morena encarou Arkham. –Esse homem que acusa o Dante... Ele não é digno de qualquer crédito em suas palavras.
-Por que diz isso?- o juiz a olhou, sério, mas a garota continuava a fuzilar o homem com os olhos, crispando os lábios para demonstrar o desgosto.
-Ele é o meu pai- retrucou- Há anos eu temia encontrá-lo, com medo de suas ameaças, mas descobri que não me importo mais com o que ele fará comigo. Só quero que ele seja punido pelo que fez...
-Eu protesto!- Arkham se ergueu, alterado- Não dê ouvidos a essa mulher, meritíssimo! É uma prostituta que provavelmente vendeu seu depoimento para eles!
-Está com medo do que eu possa dizer sobre você, pai?- Mary replicou, os olhos brilhando de lágrimas que se recusavam a cair e o sorriso mais amargo que já dera em anos. –Por acaso a carapuça serve?
-Protesto negado, senhor Chandler- o juiz interrompeu. –Continue, por favor.
-Esse homem matou minha mãe e ameaçou me matar se eu o denunciasse- a morena confessou- Vivi quatro anos com medo do que ele poderia fazer comigo. Sempre que aparecia era para me assombrar, me agredir e pegar dinheiro... Foi preso algumas vezes pelos negócios sujos e era a mim que recorria.
-E a senhorita o ajudava?- o juiz franziu o cenho.
-Não. Eu dizia que não pagaria a fiança e, sempre depois que conseguia a condicional, vinha para me agredir, tentava me violentar, mas... Eu conseguia fugir para a casa da Trish e ele desaparecia por um tempo quando não me achava- ela confessou, sentindo o peso das palavras e enxugando uma lágrima que escorreu.
-Isso é mais que suficiente, senhorita Chandler- o juiz concluiu- Guardas, prendam Arkham Chandler.
-O quê?!- Arkham exclamou, sendo levado pelos dois seguranças, seguido para fora do tribunal por seu advogado.
Houve um momento de silêncio em que todos apenas observaram o estardalhaço que Arkham fizera ao ser levado. Dante, já achando que fora esquecido, ouviu quando foi chamado pelo juiz.
-Entendo perfeitamente que, se matou, foi para se defender- ele explicou- Mas, pelo que parece, sua outra personalidade é distorcida e recorre a drogas, tendo registros de brigas de rua e foi encontrado algumas vezes portando produtos ilícitos. Não posso permitir simplesmente que seja liberado.
-Não vou ser preso, vou...?- Dante fez uma careta.
-Não- ele replicou- Mas precisa ser aplicado algum método que o impeça de continuar agindo de tal forma.
-Na verdade... Há, sim, um método de fazê-lo parar. –Trish anunciou, pesarosa, esperando que Dante não a odiasse por isso. –O transtorno dissociativo de identidade geralmente começa com estresse pós-traumático. Com terapia intensiva, creio que seja possível fazer uma das personalidades regrida até restar somente a original.
-A senhorita Williams alega que há uma cura definitiva?- o juiz arqueou uma sobrancelha.
-Nem sempre é eficaz, mas pode ser chamada de cura- ela falou- Sugiro que me escolha para ser a psiquiatra que acompanhará o caso. Já conheço os sintomas que o acusado demonstra e acredito que sei qual método utilizar.
-Certo. Então senhorita Trish Williams será a psiquiatra responsável pelo acusado Dante Sparda. Declaro-o inocente, mas permanecerá internado em uma clínica psiquiátrica até que seja julgado como alguém que possa conviver socialmente. Caso encerrado.
Dante cerrou os punhos, irritado.
Trish sabia o que a esperava quando viu o homem acusado ser guiado por Morrison para fora, lançando-lhe um olhar fulminante antes de sair.
Logo sua amiga se aproximou e a loira sorriu francamente para ela.
-Eu sinto muito por tudo, Lady... E agradeço por ter me ajudado a salvá-lo.
-E pensar que você dormiu com o mesmo homem que eu no mesmo fim de semana- Mary riu fracamente.
-Eu sinto muito... Eu não sabia que...!
-Sem problemas, Trish- a morena deu de ombros- Para mim, havia sido somente uma transa, lembra...? Foi você quem ficou verdadeiramente fascinada com o Vergil. Eu ainda tenho o meu advogado, lembra...? Apesar de que o Dante parecia alguém muito melhor para ser um rolo...
-Acho que vou ficar te devendo- Trish sorriu, um pouco mais tranqüila.
-Já pode me pagar: estou louca para tomar um sorvete com vodka- a moça sorriu também, animada- Espero que saiba onde conseguir uma.
-Você tem gostos muito estranhos, Lady...
-Ah... Que pena... –Mary lamentou-se. –Dante era um ótimo amante, sabia...?
-Vai me entregar o cara e ficar me lembrando disso toda hora?- a loira fez uma careta- Não precisa me deixar mal toda vez, né...
-Só estou zoando com a sua cara, Trish... –a outra riu, acompanhando a amiga e saindo juntas do tribunal.
*****
A mulher caminhou pelo corredor, seguindo um dos guardas de farda escura, e parou em frente ao local onde iniciaria a sessão. A sala que lhe reservaram era um lugar muito mais agradável do que previra, considerando que se tratava de uma prisão de segurança máxima.
As paredes eram brancas, o chão era de cerâmica em tom pastel e havia pouquíssimos cômodos para uma sala tão ampla.
Uma das paredes era coberta totalmente por um espelho. Havia uma mesa, uma cadeira giratória e uma cama de pés e cabeceira de metal, onde um homem encontrava-se sentado.
-Se precisar de ajuda, saberemos- o guarda falou e indicou o espelho com o queixo, no que a mulher concordou.
Virou-se para o homem sentado à cama e sorriu gentilmente, esperando que ele correspondesse ou indicasse reconhecimento.
Era um homem bonito, provavelmente entre seus 26 ou 27 anos. Seus cabelos estavam despenteados e havia algo de hostil em seu olhar; ele contava algo em seus dedos ou meramente os entrelaçava de forma que a corrente das algemas tilintasse em um ruído desconfortável.
-Fico feliz que tenha concordado com essa consulta, Dante- disse sinceramente, sentando-se na cadeira giratória e colocando sua pasta em cima da mesa.
-... –ele, Dante, ergueu as mãos de maneira que ela visualizasse as algemas. –Não é como se eu tivesse opção.
-Por favor, irei precisar da sua cooperação... –pediu, tentando transmitir o quanto aquilo era importante para ele. –Talvez se...
-Olha- ele a interrompeu, dando um suspiro impaciente e zombando logo em seguida, irônico. -Senhorita Williams... Já faz um tempo, não é?... Mulherzinha irritante. Não pretendo cooperar. A culpa por eu estar aqui, nessa situação, é totalmente sua.
Notas finais
Mas eu faço o que posso, juro. Espero que tenham gostado n.n
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