Persona Gêmea

9 Métodos e terapias baratas


Notas iniciais
Esse capítulo... Eu ainda confesso que não sei direito aonde estou me metendo, mas tudo bem. Eu pesquisei, mas temo que não seja o suficiente. Se não for, me perdoem de verdade ç.ç

Nas três primeiras sessões, Dante não havia apresentado nenhum progresso; sequer havia cooperado para que o obtivesse. Trish entrou pela quarta vez naquela sala degradante e o encontrou no lugar de sempre:

Sentado na cama, entrelaçando os dedos e tilintando as correntes das algemas.

-Olá, Dante- sorriu, bem-humorada. –Decidiu cooperar hoje?

-Não- ele respondeu, sorrindo da forma mais cínica que conseguiu- Ainda não desistiu de mim, senhorita Williams?

-Deveria, senhor Sparda?- ela reiterou, entrando no joguinho dele enquanto colocava sua maleta em cima da mesa de sempre.

-É aconselhável- o homem falou, sério, cerrando os punhos. –Eu não sou agressivo. Gosto das mulheres e detestaria que houvesse uma exceção. Para ambas as afirmações.

-Que coisa triste para se dizer, Dante... –a loira suspirou, se sentando na cadeira de sempre. –Eu só quero e ajudar. De verdade.

-Não me venha com os seus joguetes: não me pesará na consciência nada que você disser- ele avisou- Sei que você me salvou da prisão, mas agora as pessoas devem achar que eu sou doido. Acho que teria preferido a prisão, então todos teriam medo de mim e tudo seria bem mais fácil, não acha?

-O que importa o que as pessoas pensam de você?- a loira franziu o cenho- Desde quando a opinião alheia influencia seus atos?

-Sou um engenheiro. Faço empreitas, preciso de contratos e das pessoas que me contratam para as obras- o homem ressaltou. -Lógico que me importo.

-Desde quando se importa?- ela o olhou, examinando-o.

-Ah, sei lá...! Desde criança, talvez?- franziu o cenho- Ah, já sei... Você está me examinando de novo... Pode parar, por favor? Parece até a minha mãe...

-Espere... –Trish pediu, recordando-se de algo. –Acho que já ouvi algo parecido. Disse que pareço sua mãe?

-Fisicamente, sim- ele deu de ombros. –Mas é só isso. Nada realmente importante. Nem me lembro dela muito bem... Morreu muito cedo. Eu nem me lembro de como ela morreu, é como se houvesse uma névoa na minha cabeça que me impeça de me recordar dela.

-Entendo- a psiquiatra sorriu- Viu, Dante...? Você está cooperando. Não é tão difícil, é?

-... –Dante desviou o olhar, irritado por colaborar inconscientemente. Talvez quisesse ser ajudado e não soubesse.

-Dante, entenda... Eu preciso que você queira fazer os procedimentos de cada terapia, caso contrário você não vai melhorar.

-O que diabos eu preciso fazer para que você entenda que eu não quero ser ajudado, Trish?! Que eu te machuque? Que eu aja como alguém ensandecido?! –ele retrucou, alterado.

-Dante, eu não...!

Antes que pudesse fazer algo para se defender, já estava no chão. Dante apertava sua garganta com força, mas ela não conseguia ver sua expressão porque sua visão nublava e ela concentrava-se somente em tentar respirar.

Lágrimas se formaram nos cantos de seus olhos e tentou livrar-se dele.

Sentia-se imobilizada pelo peso dele e qualquer tentativa de fazê-lo soltar seu pescoço pareceu vã, conseguindo apenas arranhá-lo nos braços e em suas mãos.

-Peguem-no!- pôde ouvir um dos seguranças.

Pareceram séculos desde que começara a ser enforcada até o momento em que dois homens, que pareciam dois guarda-roupas, retiraram-no de cima de si. Trish sentou-se, levou a mão à garganta e tossiu, engasgada com a quantidade abundante de ar que a invadiu quando ofegou.

Antes que pudesse apagar por causa do sedativo, Dante a fuzilou com o olhar, como se dissesse que tudo aquilo era culpa dela.

*****

Após arquivar o relatório da sessão, Trish tornou a massagear o pescoço, que mantivera um hematoma de quando fora atacada por Dante. Sentia-se um pouco inútil por não conseguir ajudá-lo, então pediu que os seguranças a contatassem se notassem um comportamento estranho nele, mesmo que estivesse no meio da noite.

Ligou para Mary e ela perguntou se não obtivera nenhum progresso, no que ela obrigou-se a responder negativamente.

-Dante é uma pessoa intransigente- comentou. –Não sei como não se desentenderam.

-Nos encontramos apenas duas vezes, Trish- a morena suspirou. –Sendo que, em uma, nós sequer conversamos.

-Bom, de qualquer forma, é melhor eu esperar até amanhã... –a loira deu de ombros- O pessoal da clínica dopou ele depois de uma demonstração excessiva de vigor, se é que me entende...

-Não, eu não entendo... Mas tudo bem. Te ligo outra hora. –e desligou, deixando a amiga sozinha com seus pensamentos.

No dia seguinte, Trish hesitou um pouco antes de entrar na sala de Dante, a quem decidira dar atenção diariamente para que o processo terapêutico melhorasse mais rapidamente.

Quando entrou, encontrou-o deitado, com as mãos sob a cabeça e fitando diretamente o teto acima de si.

-Parece entediado- ela comentou, colocando sua maleta no lugar habitual, mas sem se sentar.

-Estou- ele se sentou e abafou um bocejo com a mão.

-Então eu vou te dar algo para fazer- a mulher sorriu docemente, caminhando até ele e se ajoelhando.

-Sua pervertida- ele comentou, malicioso, vendo ela pegar suas mãos.

-Não pense bobagens- ela avisou, livrando-o das algemas quando usou uma chave que conseguira há pouco. –Pronto.

-Você não aprende, não é mesmo?- Dante meneou a cabeça negativamente- Eu te ataquei. Por que não me deixa em paz?

-Não vou desistir de você, ouviu?- e piscou, divertida, se erguendo para pegar algo em sua maleta. Para a surpresa dele, era apenas algumas folhas de papel A4 e uma caixa de lápis de cor.

-Que porra é essa?- ele quase quis rir.

-Lápis para colorir e papel- ela respondeu prontamente. –Nunca viu? Prazer, este é o papel e o lápis. Lápis e papel, este é o meu amigo Dante...

-Tá, chega desse sarcasmo horrível- o homem revirou os olhos.

-Trata-se de arte terapia- a mulher explicou gentilmente. –É a forma de interpretação das emoções e sentimentos por meio de desenhos.

-Isso é coisa de criança- ele retrucou.

-Ora, vamos... Aposto que não desenha há uma década- Trish incentivou, entregando uma folha de papel e abrindo a caixa de lápis enquanto se sentava no chão. –Eu também não desenho há anos.

-Na verdade, acho que já faz mais do que uma década- Dante fez uma careta ao notar que estava aceitando o papel e se sentando ao lado dela.

Sem que Trish precisasse pedir qualquer coisa, ele começou a desenhar.

Tentando disfarçar sua curiosidade, a psiquiatra pegou uma folha e começou a desenhar também. Gostava de desenhar e até sabia fazer algumas coisas, apesar de não ter dom para isso.

No fim, sua praia ficara linda.

Era uma réplica malfeita e desfalcada da praia Santa Mônica, mas ainda estava bonita e transparecia tranqüilidade.

-Terminou?- perguntou, animada.

-Claro... Veja só- ele mostrou o desenho e Trish fez uma careta.

Primeiramente, o desenho mostrava que Dante era um péssimo artista. Mostrava também uma mulher magra com peitões e uma bunda enorme, com uma juba loira sendo enforcada por um homem de cabelos brancos e um casaco vermelho.

-Você continua não se esforçando muito- a mulher suspirou.

-É o que eu estou sentindo, poxa- o homem riu- Podia me dar um crédito pelo bom humor. Sabe que eu até estou gostando de desenhar?

-... –ela entregou outra folha e Dante não demorou muito com o desenho.

Neste, havia somente um vão entre dois seios cobertos por um tailleur fúcsia com botões beges com delicados bordados. Em resumo, o decote de sua roupa.

-Ficou parecido, não ficou?- ele perguntou, comparando.

-Melhor eu deixar pra lá... –a loira se levantou e guardou suas coisas na maleta. –Vou deixar isso para quando você estiver disposto a colaborar.

-Tchauzinho, Trish- ele acenou quando ela saiu, dando lugar a dois seguranças que colocaram novamente as algemas nele.

Por um minuto, a psiquiatra perguntou-se se ele seria um caso perdido.

*****

Surpreendeu-se quando seu celular tocou por volta das duas da manhã, acordando-a com um susto, considerando que a música do seu toque era B.Y.O.B.

-Alô? –atendeu, sonolenta.

-Senhorita Williams, eu peço desculpas por ligar a essa hora- ouviu e não reconheceu a voz de imediato. –Mas a senhorita disse que poderíamos ligar a qualquer hora se notássemos um comportamento estranho no interno...

-Quê? Aconteceu algo com o Dante?- perguntou, acordando de fato.

-Não que tenha acontecido algo- a voz, que lembrou ser de um dos enfermeiros da clínica, replicou- Mas ele não está agindo como sempre... Além disso, fui entregar-lhe os remédios e ele falou que não sabia o que estava fazendo ali. Parecia até uma outra pessoa.

-Compreendo- Trish se levantou, despindo o pijama de seda e procurando por algo em seu armário. –Estou indo aí.

A madrugada de San Francisco era impiedosamente fria naquela época do ano, com ventos gelados e com uma escuridão atordoante.

Trish lembrou-se de trancar seu carro antes de caminhar apressadamente até a clínica.

Foi acompanhada por um dos enfermeiros até o quarto de Dante como sempre e recebeu a chave das algemas como pedira. Quando entrou no quarto, encontrou-o em pé, examinando os desenhos em cima da mesa.

-Vergil...?- Trish chamou, hesitante.

-Eu tentei bolar várias hipóteses para ter acabado em uma clínica psiquiátrica- ele comentou, sério. –Só posso crer que você me meteu nisso.

-Sim, eu vou lhe explicar tudo- a loira suspirou, ainda sem estar certa de que se tratava de Vergil. Explicou-lhe tudo calmamente e ele a ouviu, calado, o que era um índice de que não podia ser Dante no controle do corpo.

-Bom, acho que não tenho opção a não ser cooperar- ele concluiu, sério. –Sinto muito pelo problema que lhe causei.

-Imagine- ela sorriu, aliviada- É bom que finalmente possa ajudá-lo em algo.

-Que tipo de tratamento você sugere?- o homem indagou.

-Se preferir, posso começar com uma terapia hoje... Primeiramente para saber o real motivo para o surgimento da sua dupla personalidade- Trish explicou. –Há algum estresse pós-traumático em sua infância que possa tê-lo levado a isso?

-Não me lembro muito bem... –Vergil retrucou, passando a mão pelos cabelos de forma impaciente. –Minha vida se resume em momentos que não consigo lembrar e em momentos dos quais não quero me lembrar.

-Por exemplo...?

-Não me recordo do que faço quando minha outra personalidade assume- ele replicou- E uso drogas para não ficar pensando muito nas coisas. Preferencialmente alucinógenas.

-Entendo- a psiquiatra anuiu. –Há uma forma para que tente se lembrar de algo que possa ter acontecido no passado. Chama-se hipnoterapia.

-Com hipnose? Já tinha ouvido falar, mas achei que sua efetividade fosse lenda urbana- ele zombou, irônico.

-Não é hipnose como se vê por aí. –ela fez um meneio indiferente. –Trata-se de relaxamento intenso, para que se concentre em obter um estado alterado de consciência.

-Se você diz que funciona... –ele deu de ombros.

-Ótimo. –Trish constatou- Se preferir se deitar para ficar mais confortável, sugiro que...

-Estou bem assim- ele a cortou.

-Certo... Feche os olhos. Relaxe- o homem a obedeceu- Eu vou contar de dez a um e você precisará se concentrar ao máximo no que se lembra. Pronto? –ela perguntou, mas continuou, sabendo que ele não responderia. –Dez. Nove. Oito... Dois. Um.

-...

-Vergil...? Está me ouvindo?- a mulher perguntou, adquirindo uma pose estranhamente formal.

-Estou- ele respondeu, ainda de olhos fechados.

-Certo. Vamos voltar alguns anos de sua vida- ela pediu suavemente. –Lembra-se do dia de quando sua mãe morreu?

-Claro- o homem respondeu tranquilamente- Foi em abril. Dia 5, eu acho...

-Pode me descrever como estava o tempo? –Trish perguntou, disposta a começar o procedimento pelos métodos padronizados.

-Havia uma brisa morna e insuportável- ele comentou- Lembro-me das bougainvilles que haviam florescido há pouco, mas que suas brácteas já forravam o chão, derrubadas pelo vento. Estava um dia bonito.

-Entendo... –a loira anotou em seu caderno. –Como foi que sua mãe morreu? Você estava presente?

- Ela não estava doente e era muito cuidadosa para que sua morte houvesse sido apenas uma coincidência... Tenho certeza de que ela havia sido assassinada- Vergil confessou, dando um muxoxo impaciente. –Eu era muito novo, devia ter uns oito anos... Mas me lembro que o veredicto fora de que ela havia se suicidado. A faca no chão tinha digitais somente dela.

-E por que você acha isso?- perguntou, séria.

-Minha mãe não tinha o perfil de quem tiraria a própria vida. –ele sibilou. -Eu achei que, se alguém pudesse ter assassinado minha mãe, teria que ter sido ele. Mundus.

-Mundus?- Trish repetiu, indagando.

-Me lembro de tê-lo visto conversar com ela pela manhã- ele cerrou os punhos. –Por volta das quatro da tarde, meu pai a encontrou morta em seu quarto. Eu acusei aquele desgraçado, mas ninguém me ouviu, obviamente acharam que era uma brincadeira de mau gosto minha.

-E o que houve com esse homem?

-Ele morreu. Câncer- retrucou, amargurado. –Ou desgosto, talvez. Era um cretino e nada dava muito certo em seus negócios. Não tinha uma família.

-Vergil... Você se lembra qual foi a reação dele quando você o acusou?- Trish interrogou, ficando preocupada.

-Meu pai brigou comigo, mas Mundus apenas sorriu quando meu pai pediu desculpas... Disse que criança era assim mesmo- o homem sentiu que a circulação de sua mão estava presa tal qual a força com a qual cerrava os punhos. –Quando me encontrou sozinho, alguns minutos depois, ele me ameaçou. Lembro que fiquei com medo. Pela primeira vez eu temi o que alguém pudesse fazer comigo... E só me restou obedecê-lo... Queria que ele parasse de gritar. Que parasse de machucar meu pulso... Ele apertava meu pulso com muita força.

-Tudo bem... Se acalme- a loira pediu, preocupada- Sua mão... Vergil, sua mão está sangrando...! Três, dois, um. Acorde...!

Notas finais
Certo, eu odeio cenas dramáticas como essas, mas tudo bem. Acontece até nas melhores famílias u.u Mais Vergil para todas que queriam... Espero que tenham gostado. n.n