Persona Gêmea
5 Cúmplice rebelde
Notas iniciais
O homem com quem Mary saíra parecia alguém agradável, divertido e atraente, o que era imprescindível se ele quisesse sair com sua amiga. O fato é que ele sequer lembrava o Vergil que ela havia conhecido. Em personalidade, claro.
Combinaram de pedir um risoto, que agradaria aos três.
Trish examinava atentamente à conversa dele com sua amiga, provavelmente procurando algo que pudesse lembrá-la do homem sociopata, narcisista e com traços de transtorno paranoide.
-Você está muito calada, Trish- a morena comentou vagamente, animada.
-Desculpe, estava me lembrando de uma pessoa... –a outra sorriu, sem jeito. –Perdoe-me, Dante, mas é que você se parece muito com um homem que conheci outro dia... Por acaso conhece alguém chamado Vergil Sparda...? É seu parente...?
-... –ele arqueou uma sobrancelha, ligeiramente surpreso. –Sabe, a senhorita não é a primeira a me perguntar sobre esse homem... Já ouvi muito sobre ele, mas não o conheço.
-Ah... É uma pena... –suspirou. –Obrigada, de qualquer forma.
-Imagine- ele deu de ombros.
Parecia alguém muito tranqüilo para ter um histórico criminal como o que ele tinha; não tinha o perfil de alguém que entraria em muitas brigas de rua ou usaria drogas. Mas ela podia errar, não podia?
Resolveu que deveria avisar a sua amiga depois para ter cuidado com isso, mas que, pelo resto, Dante era alguém adequado para algumas saídas e até mesmo para namorar.
*****
Depois de se despedirem de Dante, as duas resolveram passear pelo shopping mais próximo, conversando animadamente.
-Nossa... Finalmente vou ter como comprar o biquíni que eu tanto queria... –Trish comentou, divertida- Até que é bom sair com você, Mary...
-Também não esculacha, querida- a morena zombou, sarcástica.
-A propósito, você precisa me falar sobre o tal Arkham. –a loira lembrou, ficando séria- Eu estava pensando em procurá-lo hoje.
-Olha, Trish... Como eu disse, eu tenho um endereço bem recente, mas ele se muda muito, portanto eu não sei se vai encontrá-lo por lá... –a amiga ajeitou a franja e tirou um papel e uma caneta da bolsa. –Vou anotar aqui... E já vou avisando que é melhor não se encontrar com ele.
-Obrigada- disse, aceitando o papel com o endereço.
-Eu... Também posso te dizer o lugar que ele geralmente freqüenta, se quiser.
-Eu agradeceria muito, Lady!- a loira acrescentou e a amiga escreveu no rodapé do papel que havia lhe entregado.
-Por favor, Trish... Tome muito cuidado quando for visitá-lo- Mary pediu, quase lhe implorando, e aquilo a deixou preocupada. –Se eu bem o conheço, não vai querer coisa boa com uma mulher tão bonita como você... Não seja imprudente.
-Eu nunca sou, relaxa. –a mulher sorriu francamente, tentando desanuviar a preocupação da amiga. –Isso... É um prostíbulo?
-É uma boate fetichista- a morena reiterou, um pouco menos preocupada.
-Me diz uma coisa... –a psiquiatra sorriu, fitando o papel- Se eu for fantasiada, eu terei mais chances de falar com ele...?
-Não faça nenhuma bobagem, Trish- Mary pediu, franzindo o cenho.
-Não vou- a outra riu, guardando o papel na bolsa. -Deixe isso de lado e vamos logo comprar o meu biquíni, o que acha? Quero achar um bem lindo para poder viajar para a praia no fim do ano.
-Até alguns trapos amarrados em você ficariam bem, sua chata- a moça fez uma careta, mudando seu humor drasticamente. –Com esse corpão...
-Hahaha... Também não exagera- a outra riu, acompanhando-a.
*****
À noite, por volta das nove, Trish pegou um táxi até a boate que Mary lhe havia indicado. O lugar possuía um letreiro chamativo, Devil May Cry, onde ela parou e hesitou um pouco antes de entrar.
Era a primeira vez que ia a esse tipo de lugar e confessou estar nervosa.
Vestia um espartilho preto todo trabalhado em renda, com uma cinta liga presa a uma meia-arrastão e uma calcinha fio-dental, com as alças de sträss. Usava um quepe policial, segurava um chicote de couro, calçava uma bota de cano longo com salto-agulha envernizada e usava um sobretudo de shantung por cima da vestimenta.
A maquiagem estava mais carregada do que nunca, mas ninguém pareceu se importar quando ela entrou.
-Olá, senhorita- ouviu um homem que deveria ser o dono do estabelecimento- Eu nunca a vi por aqui. E, acredite, eu me lembraria se já a tivesse visto...
-Sou nova aqui- sorriu, cúmplice- Venho por um homem em particular.
-Oh... É uma pena- ele fez um meneio. Tinha cabelos oxigenados e os braços totalmente tatuados, além das roupas de borracha que usava. –Faria muito sucesso se trabalhasse para mim. Bom... Mas me diga quem é o homem que procura, doçura.
-Procuro por um homem chamado Arkham- disse, um pouco alto para que pudesse ser ouvida. –O senhor conhece?
-... –ele pareceu pensar. Tocava a música Gimme, gimme more e, se antes achou que o chocar de corpos em uma boate era conflitante e lascivo, naquela a luxúria exalava de todos os poros, junto de uma névoa doce que deveria ser ópio e a rescendência de sexo.
-Imagino que não conheça muitos homens com esse nome, não é...?- sugeriu, ficando um pouco frustrada por não conseguir a informação que queria.
-Não, eu creio que o conheço. –o loiro reiterou. –Ele sempre pede uma sala aparte para ter mais privacidade... Posso levá-la até ele, se disse que ele está esperando pela senhorita.
-Eu ficaria grata.
O homem, que atendia por Brad, a guiou até o andar de cima, onde viu dois homens transando no corredor, para seu horror. Não que fosse preconceituosa, mas era uma cena deveras grotesca, mesmo sob má iluminação.
-Aqui... Entre- ele indicou, empurrando-a para dentro de uma sala. –Senhor Arkham, esta senhorita disse que veio pelo senhor.
-Ora... –ouviu e procurou alguém na sala escura. Via somente vultos, mas duvidou se não seriam peças de sua cabeça. A névoa de ópio havia mexido um pouco com ela, então não tinha certeza. –Uma mulher tão bela vindo por mim...? A que devo isso? Cortesia da casa, Brad?
-Sinto muito, senhor- Brad sorriu, maroto- Ela é um trabalho independente.
-Entendo... Pode nos deixar a sós?- pediu a voz gélida e rouca, no que o dono do estabelecimento se retirou, deixando-os no mais completo negrume.
De súbito, a luz negra se acendeu e Trish notou que havia um homem no sofá e duas mulheres sobre ele.
Uma estava ajoelhada à frente do sofá, abocanhando o membro entre as pernas dele vorazmente, enquanto a outra estava ao seu lado e ele masturbava-a com dois dedos, sugando seus mamilos com tamanha violência que deixava marcas e hematomas.
-... –Trish não conteve o arquear das sobrancelhas.
De fato era o homem que vira na foto da ficha criminal, mas não esperava encontrá-lo em uma situação como aquela.
-Parece surpresa, minha querida... Veio me divertir?- ele perguntou, afastando-se da mulher que estava ao seu lado antes de satisfazê-la, no que ela soltou um muxoxo irritado, e fez um meneio para que a outra se levantasse dali.
-Como desejar- Trish disse com o resto de coragem que lhe sobrou, abrindo o sobretudo e revelando a roupa por debaixo. –Mas eu trabalho em particular.
Arkham dispensou as duas mulheres, que Trish não sabia se eram prostitutas ou não, e sentou-se no sofá, esperando por ela.
-Não vai começar o serviço? –ele perguntou, mostrando-lhe um sorriso de dentes amarelados, mas ela hesitou. –Ótimo... Então eu começo.
-...!- ela assustou-se quando ele investiu contra ela, derrubando-a no tapete persa e rasgando a meia-arrastão que usava. –Pare...! Eu preciso falar com você!
-Falar comigo...?- Arkham franziu o cenho e parou.
Trish se afastou e se levantou, recompondo-se. Então pigarreou e fitou o velho sentado no chão com cara de poucos amigos.
-Eu gostaria de saber se conhece um homem chamado Vergil Sparda- perguntou, séria.
-... –o homem estreitou os olhos e deu um muxoxo, impaciente. –Então veio procurar informação desse homem. Nem quando some ele não me deixa em paz... De qualquer jeito, me siga.
Trish fechou o sobretudo e seguiu o velho, caminhando para fora da boate pela porta dos fundos, onde encontrou mais cinco homens, nenhum deles com uma aparência muito amigável.
Então notou o erro que havia cometido.
Dois deles deram um sorrisinho malicioso e seguraram-na em seu braço, um de cada lado de forma que ela não pudesse escapar. Então a levaram até um beco, o que não foi muito difícil por mais que ela se debatesse.
-Então você está aqui por Vergil- Arkham concluiu, acendendo um maço e soprando uma fumaça doce, que reconheceu como maconha. –O que ele quer? Desde quando aquele desgraçado manda mulheres indefesas para pegar encomendas, hã?
-Não vim para pegar nenhuma encomenda- a loira retrucou, impaciente.
-Claro que não- o velho anuiu, sério- Vergil não havia feito nenhuma. Talvez ele tenha mandado você somente para a nossa diversão, que tal? Depois de todo problema que me causou, talvez ele tenha pensado em uma boa recompensa como você.
-Não sou uma recompensa e tampouco vim a mando dele! –Trish revelou, irritada; os dois homens que a seguravam pelos braços apertaram um pouco mais. –Estou procurando por ele e o vi citar seu nome. Achei que pudesse me ajudar a localizá-lo.
-Ajudar você...?- Arkham arqueou uma sobrancelha.
-Claro que poderia pagá-lo bem pela informação. –Trish reiterou, séria.
-Minha querida, o dinheiro é o de menos- ele permitiu-se um sorriso malicioso e tocou seu seio por cima do sobretudo- Você parece material de qualidade, aposto que conseguiria com você muito mais do que iria me oferecer em dinheiro.
-... Não pode fazer isso...! –ela arregalou os olhos, se debatendo para se livrar das mãos fortes que a seguravam.
-Ah, eu posso... Rapazes, façam o favor- o velho disse e os dois que a prendiam jogaram-na no chão, que levantou-se pouco depois de sentir o baque.
De sua bota, Trish tirou uma adaga e cortou o primeiro que se aproximou, para a surpresa deste. Um filete de sangue escorreu do corte raso nas costas da mão deste, que franziu o cenho e já ia castigá-la pelo comportamento, mas notou que a mulher havia saído correndo.
Nunca havia desejado tanto estar sem salto alto como naquele momento.
Correu o máximo que conseguia, mas temeu que logo seria alcançada, então procurou voltar para o centro da cidade, mesmo que estivesse correndo.
Acabou esbarrando em alguém.
-Ai!- ouviu e surpreendeu-se com a voz conhecida.
-Dante...!- se levantou e abraçou-o, um pouco confusa pelo acabara de fazer. –Que bom ver você...!
-Hã... Você é a Trish, não é...? Que diabos faz por aqui?- ele perguntou, segurando-a pelos ombros e franzindo o cenho.
-É uma história bem longa... No momento eu preciso de sua ajuda- ela pediu. Ele examinou a expressão de desespero dela, então notou alguém se aproximar correndo, provavelmente atrás da loira.
-Venha- ele se ergueu e puxou-a pelo pulso para fora da visão dos homens que se aproximavam.
Ficaram em silêncio, esperando que eles passassem sem que os vissem.
Ouviu passos apressados, ofegou e sentiu a mão de Dante tapar-lhe a boca para que não fizesse um ruído. Quando passaram, Trish soltou o ar que havia prendido e levou a mão ao peito, que ainda estava acelerado pela adrenalina.
-Obrigada- disse, por fim.
-Agora pode me explicar o que foi isso...?- ele arqueou uma sobrancelha.
-Bom, eu estava procurando por Vergil Sparda- confessou- Descobri que ele estava relacionado de alguma forma com um homem chamado Arkham e resolvi perguntar.
-Quanta imprudência- o homem revirou os olhos.
-Eu sei, eu sei... As coisas fugiram um pouco do controle e eles estavam me perseguindo, por isso eu preciso te agradecer por me salvar... –ela suspirou, ainda aliviada. –E você? O que fazia em um bairro como esse?
-Para falar a verdade... Eu não sei... –ele comentou vagamente- Sempre fico pensando bobagens e acabo parando em lugares assim. É como se meus pés me levassem automaticamente, entende?
-... –Trish tentou assimilar um pouco o que havia sido dito, então notou que outras pessoas se aproximaram.
-Achei você.
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