Persona Gêmea

10 Amargas reminiscências


Notas iniciais
Peço desculpas pela demora da fic, de verdade. Eu não tive tempo nesse último mês por razões (quase) desconhecidas. Mentira, eu tenho uma desculpa plausível... Logo eu explico.

Sem mais delongas, aqui está o capítulo. Espero que aproveitem n.n

Quando abriu os olhos, foi como se estivesse saindo da água, constatando que ofegava pesadamente e suava frio.

-Você está bem...? Vergil?- Trish perguntou e sua voz foi como uma melodia distante aos ouvidos dele.

-... –ele encarou a própria mão, trêmulo, e constatou que o que cortara sua mão fora um chaveiro de prata.

Não gostava muito daquele chaveiro.

Era um objeto que insistia em tirar seu bom humor quando entrava em seu carro, porque sempre o tirava da chave do carro, mas ele estava sempre lá no dia seguinte.

-Se quiser, podemos parar por hoje... –ela se ajoelhou a sua frente, preocupada- Posso solicitar que cuidem do corte em sua mão antes que inflame.

-Estou bem- ele retrucou. –Só estou um pouco irritado por ter que me lembrar daquele desgraçado...

-Sinto muito, eu não queria...

-Pare com isso- ele revirou os olhos. –Apenas continue com a sessão logo. Só quero poder sair daqui definitivamente...

-Certo, Vergil... Mas isso não é algo fácil. Precisa lembrar-se de coisas que não quer, sentir a dor de antigas feridas que não cicatrizaram direito- ela explicou. –Está pronto para isso?

-Claro- ele deu um muxoxo.

-Provavelmente a necessidade de uma segunda personalidade surgiu quando você era criança- a psiquiatra sugeriu. –Você pode ter criado uma identidade para se refugiar.

-Sim... Talvez. –Vergil concordou em um murmúrio. –A cada momento em que eu não estava com meu pai, sentia que ele se orgulhava, como se outro alguém estivesse sendo eu por mim perto dele.

-É comum que crianças tenham sofrido algum trauma e tenham criado uma barreira para que não precisem encarar quem temam. –ela explicou. -Você pode ter criado o Dante para evitar encarar Mundus, porque deve ter achado que alguém descontraído e que não se importa com nada conseguiria encará-lo sem qualquer remorso pelo que aconteceu.

-Se for mesmo isso, como saberei se eu estiver curado?- ele replicou- Como encarar alguém que já morreu?

-Já pensou em deixar flores no túmulo dele?- ela sorriu.

-Não vou deixar flores no túmulo daquele cretino- Vergil franziu o cenho. –Ele sequer merecia um túmulo. Deveria apodrecer como um animal que é.

-Eu falei que não seria fácil... –Trish se levantou, guardando suas coisas. –Eu voltarei amanhã, tudo bem? Provavelmente me encontrarei com o Dante, mas vou obrigá-lo a ir no cemitério em que Mundus está enterrado. Dê um jeito de aparecer, viu?- e piscou, saindo do quarto.

-Não é assim que funciona- ele retrucou, franzindo o cenho. Então suspirou e deitou-se na cama, ouvindo os enfermeiros entrarem para fazer um curativo na sua mão.

*****

Trish sentia-se exausta. Havia chegado em casa às quatro da manhã e demorou mais meia hora para conseguir dormir depois de tudo que Vergil lhe dissera. Só esperava que ele pudesse melhorar mesmo depois de visitar o túmulo de Mundus.

Acordou por volta das oito e fez uma maquiagem que cobrisse suas olheiras.

Sequer tinha apetite, então vestiu uma roupa adequada e foi para a clínica, visitar Dante. Naturalmente, ele estava acordado e parecia tão entediado como sempre quando entrou em seu quarto.

-Bom dia, Dante- ela sorriu gentilmente. –E aí? Pronto para um passeio?

-Passeio? Onde?- ele a encarou- Resolveu mudar seus métodos, é? Esquece, vai... E, depois, provavelmente vai levar dois seguranças para ficarem me vigiando.

-Não vou, não. –a loira fez uma careta divertida. –Só eu e você, desde que me prometa que não vai fugir.

Dante parecia realmente um pouco melhor enquanto sentia a brisa fresca adentrar pelo carro enquanto a psiquiatra dirigia. Devia ser como revigorar-se depois de tanto tempo confinado em uma sala tão pequena.

-Aonde vamos?- ele perguntou, olhando-a de súbito.

-Para um cemitério- informou.

-Você não sabe mesmo como agradar, não é?- o homem comentou, irônico, e ela riu, animada.

-Preciso que me diga onde Mundus foi enterrado- ela informou- Você se lembra dele, não lembra? Vamos visitar o túmulo dele.

-Por quê? Aquele cara nunca ligou para mim e eu também não me lixava muito para ele- o engenheiro deu de ombros, indiferente.

-Ele foi importante para uma pessoa- ela disse simplesmente.

O resto do percurso foi em silêncio. Dante meramente dava as direções e ela as seguia fielmente, chegando a um cemitério antigo e de famílias tradicionais.

-Lugarzinho mais sem-graça... –Dante comentou, seguindo até o túmulo do homem que a loira procurava. –Aqui está.

-Parece sujo e velho, não é? Como se ninguém tivesse cuidado dele- a mulher perguntou, mas não obteve resposta.

Quando olhou o homem ao seu lado, ele parecia fitar a lápide com certa impassibilidade. Desejou saber se Mundus havia significado algo para Dante, mas não soube dizer porque logo descobriu que se tratava de Vergil.

-Achei que fosse sentir algo quando chegasse aqui- ele falou. –Mas é como olhar para um granito frio e sem significado.

-Mas aqui é apenas granito- ela lembrou, cautelosa. –É algo simbólico. Se você não sente nada, é porque já superou. Se preferir ir embora, nós podemos...

-Espere um pouco- ele pediu e se afastou, caminhando automaticamente sem precisar parar para se localizar.

Parou somente quando chegou a um mausoléu.

-Aqui é onde sua família foi enterrada?- perguntou, parando ao lado dele.

-Sim.

Havia somente duas lápides dentro do mausoléu, ambas muito bonitas, de mármore branco romano com entalhes delicados. Na mais antiga, havia flores um pouco murchas, com o nome Eva Sparda. Foi poeta e amou em sua vida.

-Sua mãe era poetisa?- indagou, curiosa.

-Não. Ela fazia poesia, mas não creio que tenha sido uma poetisa- ele respondeu. –Queria que você tivesse conhecido ela... Ela era idêntica a você.

-Você não tem nenhuma foto?- olhou-o, na expectativa.

-Não me lembro- ele deu de ombros- Acho que não queria nada que me lembrasse ela... Mas agora sinto como se tivessem tirado um peso das minhas costas.

-Talvez estivesse se culpando o tempo todo pela morte de sua mãe.

-Acho que sim.

-Sabe, Vergil... –ela sorriu- Dante parecia alguém gentil quando o conheci pela primeira vez e senti muito por ter que separá-lo da minha amiga. Eu só o havia conhecido porque ela tinha um encontro com ele.

-Isso é novidade- Vergil confessou.

-Entendo agora porque ele me culpou- Trish falou, enlaçando uma mecha de cabelo no indicador. –Ele não queria ir embora. Devia ter previsto que você conseguiria encarar o seu passado se colaborasse com a terapia... E não quis continuar com isso.

-Você acha que eu estou curado?- ele a olhou, sério.

-Acho. –falou, sincera. –Sei que deve ser algo difícil... Viveu por anos dividindo seu tempo com alguém que sequer conheceu. E agora ele vai embora sem se despedir.

-Na verdade, seria mais estranho se ele aparecesse para se despedir de mim- Vergil passou a mão pelos cabelos, desgrenhando-os. –Ou de você.

-É, não é?- ela riu.

Depois de uma semana na clínica, Trish chegou ao veredicto de que Vergil estava curado de fato. Não houve nenhum lapso de memória ou algo que pudesse indicar que mantinha o transtorno. Dante nunca mais reapareceu.

Era estranho ter convivido com alguém por 17 anos e perder contato com ela no tempo de uma semana e meia. Se é que houve um contato um dia.

-Oi, Vergil- Trish sorriu animadamente. –Sua audiência será amanhã. Basta que eu dê a minha palavra para que mostrar que você está curado e você está livre desta clínica.

-Hn- ele fez, fitando o chaveiro de prata em sua mão. –Sabe... Vai ser realmente muito solitário não ter ninguém que recoloque esse chaveiro idiota na chave do meu carro quando eu não estiver vendo...

-Eu sei... Toda despedida traz solidão- anuiu, preocupada.

-Obrigado pela ajuda, Trish... –ele agradeceu, sério.

-Imagine... –ela sorriu- Me desculpe por ter dito que você era um sociopata narcisista de transtorno paranoide.

-Não sou nada do que você pensava?- o homem arqueou uma sobrancelha, cínico como sempre, permitindo-se um sorrisinho de canto.

-Você ainda é narcisista- a loira atestou, divertida- E engana os outros com pose de psicopata moldado pela sociedade.

-Não precisa humilhar- ele revirou os olhos.

O dia passou como uma tortura. Estava entediado e, pela primeira vez, resolve dormir cedo para ver se o tempo passava. Quando acordou, notou que não estava sozinho.

-Parece que toda a minha tentativa de atrapalhar a terapia falhou, não é mesmo, maninho?- ouviu e franziu o cenho, sentando-se na cama.

Olhar para Dante era como olhar para um espelho.

-Você me assustou.

-Desculpe, maninho... Sutileza nunca foi muito meu estilo- ele fez um meneio de indiferença.

-Eu sei... Acabei percebendo quando acordei em uma clínica psiquiátrica. –Vergil replicou, no que o outro riu, divertido. –Afinal, você nunca foi muito responsável, não é mesmo?

-Sou mais do que você, pelo menos... Não sou eu que me acabo em drogas- Dante retrucou, ofendido.

-Não enche... Estou limpo há quase duas semanas- ele replicou.

-Deu uns pegas naquela psiquiatra gostosa, não foi...? É bem a sua cara- o mais novo replicou. –Acordar ao lado dela nua teria sido melhor se eu pudesse lembrar de como foi fazer sexo com ela.

-Nunca vai descobrir, seu cretino- o mais velho escarneceu. –Nem mesmo nos meus sonhos.

-Ah, azar... – Dante suspirou, conformado.

De alguma forma, aquilo devia ser uma despedida. Nunca havia visto seu suposto irmão, mas achou adequado poder conhecê-lo depois de tanto tempo.

Era como se o conhecesse há séculos.

Como um irmão mais novo que morava longe, do qual só tinha notícias quando alguém lhe contava.

Isso lhe fez recordar de uma lenda que ouvia quando era pequeno, de que uma pessoa de dupla personalidade nascia quando gêmeos não se separavam durante o nascimento. Seu irmão havia sido tirado quando nasceram, devolvido aos oito, mas só o conheceu de fato quando lhe disse adeus.

Havia mesmo dito que seria estranho se Dante aparecesse para dizer adeus.

Notas finais
Capítulo mais sem-noção... Juro que não pensei em nada útil quando escrevi isso. Apenas saiu. Eu estava sem inspiração, precisava postar a fic e me forcei a passar para o computador o que quer que viesse.

Peço perdão pela minha negligência ç.ç Normalmente eu não viajo tanto em uma fic.