– XX –

Percy

– Não! Não, não! Vocês não vão levá-lo! – disparou Calipso antes que alguém pudesse ter dito alguma coisa.

– Ei! Calma aí garota! – rebateu Thalia aparentemente confusa também.

– Não viemos levar ninguém Calipso – tentou acalmar Percy.

– Destemido?! É você? Por que voltou? Como voltou? – interrogou Calipso. Percy só se enrolaria se tentasse explicar, nem ele sabia o porquê de estarem ali. Nada estava fazendo muito sentido naquele momento. – Bom... se não vieram levar meu amado, então são bem-vindos! Venham! Devem estar famintos!

O sol brilhava forte no centro do céu, o que fazia Percy pensar que já era meio-dia. Seguiram Calipso até a caverna da ilha onde ela morava, estava ainda mais diferente do que Percy se lembrava. Havia agora uma espécie de compartimento no teto que exalava vapor em intervalos regulares, havia também toda sorte de peças feitas de tipos incomuns de metais, entre eles o bronze celestial. Verdadeiras armas e bugigangas. Eu já vi coisas assim uma vez..., refletiu Percy.

Adentraram mais na caverna e um som de algo sendo martelado se fazia ouvir cada vez mais alto, estava insuportavelmente quente ali dentro. Seguiram por alguns corredores até chegarem em uma sala grande repleta de ferramentas, bigornas e fornalhas. Percy avistou um jovem moreno, magrelo com os músculos dos braços finos bem definidos. Usava luvas de soldador pretas e um grande macacão cinza todo sujo de graxa, não era muito alto e tinha os cabelos pretos e encaracolados. Impossível!

– Querido – chamou Calipso – Temos visitas.

O rapaz nas forjas largou o grande martelo que segurava e quando encarou o grupo Percy pôde perceber o fogo nas fornalhas duplicarem de tamanho! Os olhos castanhos escuros do rapaz estavam trêmulos e melancólicos, mas ele logo sorriu travesso. O mesmo sorriso de sempre...

– Pelas forjas de Hefesto! Percy? Nico? São vocês?

O rapaz saiu de traz das bigornas, Percy viu que ele ainda usava o velho cinto amarelo mágico de utilidades.

– Leo?! – perguntou Nico incrédulo – Como é possível?

– Longa história – respondeu o filho de Hefesto sorrindo – Vocês não mudaram nada! Fantasminha e Cabeça de Alga! Venham, temos muito o que conversar...

Leo beijou Calipso e saiu das forjas fazendo um gesto para que o acompanhassem. Thalia, Nico e Percy então o seguiram. Pararam num gramado ali perto. Leo tirou de um dos bolsos do macacão uma esfera dourada estranha que girava inquieta, logo algumas vigas foram acionadas e um pavilhão de seda branca montado imediatamente, cadeiras saíram do chão montando-se sozinhas.

– Sentem-se – convidou Leo, numa parte do chão uma fenda se abriu e uma mesa surgiu, com um verdadeiro banquete em cima, com direito à frutas frescas, sucos, carnes e bolos dos mais variados tipos.

– Então... Como vieram parar aqui? – perguntou Leo pegando um copo com limonada.

– Estamos em uma missão – adiantou Thalia.

– Uma missão? – Leo parecia confuso – Ora, achei que a guerra havia acabado há muito tempo. O que é dessa vez?

– Éris, ela está tentando libertar Érebo com a ajuda de Zelenna, que é uma fada... – tentou explicar Percy.

– Fada? – riu Leo – Tipo... Pequeninha com um vestidinho verde e cabelos dourados, que sorri e espalha a amizade? Como pode ser uma inimiga?

– Você acaba de descrever a Thinker Bell – reprovou Thalia.

– Ó, então contem-me mais sobre a fada.

– Zelenna foi a primeira Envibe, – começou a explicar Nico – uma fada responsável pelos assuntos da morte. Segundo o que dizem as lendas, Zelenna sempre empenhada descobriu como levar à morte até mesmo o mais poderoso dos deuses, fazendo dela o mais perigoso ser que já viveu. Temendo seu poder, as outras Fadas Primevas, como são chamadas as fadas mais poderosas que nasceram nos primórdios do universo, resolveram se unir e juntas selaram Zelenna em um casulo que jamais deveria ser aberto. Aquilo provocou uma verdadeira guerra, as Envibes se exilaram e começaram a cumprir suas funções longe das demais fadas. Tornaram-se conhecidas como Anjos da Morte, Ceifeiros, dentre outros nomes. E agora que sua mestra primordial está novamente livre, temo o que pode acontecer...

Percy podia perceber o nervosismo de Nico. O filho de Hades estava agindo de modo estranho desde quando sumiu nas sombras e tentou impedir a libertação de Zelenna sozinho. Percy segurou nas mãos do menor, sussurrando-lhe:

– Vai ficar tudo bem, não se preocupe!

– Acho que agora é você quem nos deve uma explicação – tornou Thalia encarando Leo com seriedade.

– Tudo bem chefia, não vamos perder a cabeça! – rebateu Leo com seu sorriso travesso, ele tirou as luvas que usava e Percy não pôde deixar de notar as cicatrizes de queimadura em suas mãos. – Aconteceu muita coisa, rápido demais naquele dia... Tentamos salvar Annabeth, mas fomos encurralados, Frank e eu... Levaram-nos para as ruínas de um templo antigo, pegaram o graveto do Frank e... atearam fogo nele em sacrifício.

Os olhos de Leo estavam evidentemente marejados, ele encarava o chão com o olhar desfocado. Mas ele não parou por aí.

– Eles me amarraram e tentaram me matar, mas quando as chamas daquele maldito graveto ficaram mais altas enquanto Frank se debatia... só havia uma coisa que eu poderia ter feito... Eu tentei controlar aquelas chamas, mas não eram chamas que podiam ser controladas, como podem ver – declarou ele mostrando as mãos machucadas – Não fui rápido o bastante, e Frank morreu... mas Gaia se foi com ele, maldita seja!

Leo esfregou os olhos e respirou fundo.

– Em tempestade ou fogo o mundo terá acabado! De fato, em fogo Gaia acabou... Mas o exército que ela criou ainda era forte demais, se não fosse pelo terremoto que você causou Percy, poderia ter sido ainda pior! Hazel e eu lutamos lado a lado, Annabeth havia sido obrigada a servir Gaia aos mandos de Atena. Hazel... ela não aguentou ver o Frank morto...

– Como você veio parar aqui? – cortou Thalia friamente.

– Tia Callida... quero dizer... Hera... eu estava ferido, mas consegui fazer churrasquinho de muitos monstros. Ela sussurrou-me que eu já havia feito muito e que deveria cumprir meus juramentos... Só me lembro de ter acordado aqui, aos cuidados de Calipso...

– Não temos muito tempo! – lembrou-lhes Thalia mudando de assunto – Fomos enviados para cá em busca de uma chama há muito esquecida, acho que deve ser você Leo. Então vamos, temos que partir!

– EU SABIA! – bradou Calipso surgindo de lugar nenhum e correndo até eles, derrubando tudo pelo caminho. – Ninguém vai levar o meu Leo!

– Calminha raio de sol, eles não vieram me levar embora...

– Mas... – protestou Calipso.

– Não sou a chama que eles procuram – explicou Leo se levantando – Já volto.

O filho de Hefesto saiu dali e Percy notou que ele estava mancando da perna esquerda. Calipso os fuzilava com o olhar enquanto batia os pés, impaciente. Nico recostou sua cabeça no ombro de Percy e Thalia parecia querer matar alguém.

Felizmente Leo não demorou, arrastava um baú dourado do tamanho de uma criança de dez anos. Percy correu para ajudá-lo.

– Obrigado cérebro de peixe, agora me ajude a colocá-lo em cima daquela mesa, sim?!

Percy assentiu, contaram até três e suspenderam o baú. Leo colocou a mesma esfera estranha que manipulava na fechadura do baú e Percy pôde ouvir o som de várias engrenagens se movimentando. Depois de alguns segundos o baú finalmente se abriu.

– Espólios de guerra – disse Leo pegando uma bolsinha de pano que estava junta de várias armas estranhas naquele baú. – A chama que procuram, pegue! – Leo jogou a bolsinha para Percy, que deixou cair seu conteúdo na palma de sua mão.

– Carvão? – indagou Percy movendo o material escuro em suas mãos.

– Carvão criado a partir do fogo da vida. O fogo do Frank...

Percy não entendia o significado daquilo, aparentemente ao contrário de Nico.

– Obrigado Leo, nos será realmente muito útil – agradeceu o menor com um pequeno brilho no olhar, o que agradou, e muito, o filho de Poseidon. – Podemos partir agora...

– Não sem essas belezuras – afirmou Leo revirando o conteúdo do baú. – Para a chefia... vamos ver... perfeito! – Leo jogou um arco composto, de hastes prateadas e roldanas douradas em forma de engrenagens, para a filha de Zeus.

– Obrigada, – agradeceu Thalia – mas eu já tenho um arco.

– Ah chefia, mas com esse você nunca vai ter problemas com a falta de flechas – rebateu Leo com uma piscadela. – Use com moderação, ele tem um tempo de recarga.

A filha de Zeus esticou a corda do arco e um projétil de fogo surgiu, com o susto Thalia disparou sem querer, por sorte para cima.

– Cuidado – repreendeu Calipso.

– Para o cabeça de peixe... vamos ver... este! Coloque no braço contrário ao da espada – aconselhou Leo jogando um bracelete de ouro para Percy que rapidamente o colocou no braço esquerdo, um escudo de ouro imperial surgiu, inacreditavelmente leve para o seu tamanho.

– Valeu Cabeça de vela – agradeceu Percy.

– E por último, mas não menos importante... para você Sr. Caveira. – Leo jogou uma camisa preta para Nico. – Vamos, experimente!

O filho de Hades vestiu a camisa um tanto quanto desapontado. Pareceu servir perfeitamente. Leo se aproximou e deu um tapa de leve no peito de Nico, ligas de metal surgiram da camisa e logo Nico estava usando uma cota de malha, como a de um cavaleiro medieval, só que preta...

– Leve, porém impenetrável. Eu acho... – sorriu Leo e Nico agradeceu.

– Não podem partir sem isso – censurou Calipso trazendo alguns cantis de néctar e mochilas repletas de ambrosia.

Percy agradeceu.

– Sabe, vocês deviam ir ao acampamento. Sei que Jason ficaria muito feliz em revê-lo Leo... – sugeriu Percy.

– Estou presa aqui destemido – reprovou Calipso – sabe bem disso...

Percy olhou para Excalibur em sua bainha vermelha e teve uma ideia ousada.

– Posso levá-los até lá, e que se danem os deuses! – sorriu o filho de Poseidon. Nico também sorriu, mas Thalia não pareceu achar graça:

– Percy! – censurou ela. – Cuidado com como fala!

Calipso e Leo se entreolharam.

– O que você quiser raio de sol! – declarou Leo.

– Conhecer o mundo exterior... eu quero! Desde que você venha junto meu amado!

Leo assentiu, Percy desembainhou a Excalibur e focalizando o acampamento ele cortou o vazio abrindo uma fenda no ar.

– Obrigado destemido – agradeceu Calipso entrando no portal de mãos dadas com Leo.

Percy virou para Nico e Thalia.

– Agora é a nossa vez, próxima parada é... – instigou.

– O Mundo Inferior – respondeu Nico, um calafrio subiu pela espinha de Percy.