– XXI –

Jason

Fazia alguns meses que Percy, Nico e Thalia haviam partido na missão para deter Éris, e ainda não haviam retornado. Jason não saiu do acampamento grego nesse tempo, afinal não havia ninguém em quem pudesse confiar a segurança e a integridade do lugar. Reyna, é claro, não aprovava o distanciamento do filho de Júpiter.

Seu lugar é aqui, entre os romanos! Sabe disso!, disse ela na última vez em que se encontraram. Jason e ela estavam se tornando muito mais que amigos e ele não podia deixar de admitir o quão solitário era ficar ali no Acampamento Meio-Sangue. Principalmente depois que os seus amigos mais queridos se foram. Leo... Piper...

O céu estava terrivelmente azul, nenhuma nuvem pairava alta no firmamento. O sol da tarde reluzia como nunca. “O dia está lindo demais para ser verdade”, resmungou o loiro para si mesmo. Pensamentos melancólicos por vezes o surpreendia das mais variadas formas, nos mais variados momentos.

Passou pela arena reconstruída, alguns semideuses treinavam esgrima e ele parou para assistir às investidas. “Lento demais”, dizia para si sobre a maioria dos movimentos feitos pelos mais jovens. “Ingênuo demais, fraco demais, desequilibrado demais”, tudo era demais, infelizmente de um modo ruim.

Deixou a arena, estava quase na hora do almoço. Passou pelo memorial erguido em ônix polido, em honra aos mortos na guerra contra Gaia. E lá estavam os nomes de seus amigos: Leo Valdez, Hazel Levesque, Frank Zhang...

Jason seguiu para o refeitório, era sempre muito doloroso ficar por ali, parado, com os pensamentos se abrindo e remexendo em velhas feridas.

***

O dia seguiu calmo. Apolo já guiava sua carruagem longe no horizonte transformando o céu em uma aquarela lúgubre em tons de índigo, violeta e laranja. Muitos semideuses, principalmente os mais jovens, brincavam no lago como se nenhuma guerra estivesse prestes a estourar, como se o mundo não estivesse prestes a entrar em trevas eternas com o despertar de inimigos absolutos.

Jason retesou-se de frente ao memorial uma vez mais, ali no centro do pátio principal. Se pelo menos eles estivessem aqui... Algumas lágrimas percorreram-lhe o rosto fulgindo tenebrosas.

“Ei Superman! Ânimo!”, Jason ouviu a voz de Leo dizendo. Devo estar ficando louco, censurou-se. Contudo a voz insistiu até que alguém lhe puxou a camisa.

– Cara, eu sei que não tenho a voz de uma sereia, mas não é educado fingir que não está ouvindo.

Jason levantou-se e empalideceu-se ao ver o jovem magricela de cabelos escuros encaracolados vestido com um macacão todo sujo de graxa, acompanhado de uma bela moça de cabelo trançado cor de caramelo e vestida numa túnica grega branca.

Jason sentiu suas pernas enfraquecerem-se. Tudo começou a girar e ele desmaiou.

Acordou na enfermaria com uma terrível dor de cabeça. Uma garota vestida de branco e de cabelos curtos castanhos media-lhe a pressão arterial.

– O que... aconteceu...? – perguntou um pouco empastado pelo susto.

– Você está muito pálido – disse a enfermeira – Viu um fantasma?

– Sim, ele viu doçura – respondeu uma voz conhecida atrás de Jason. O loiro virou-se e seus olhos se arregalaram ao ver seu amigo ali, sentado em uma cadeira de madeira fitando-o misterioso. – Finalmente a bela adormecida acordou – brincou Leo – Cara, eu sei que minha beleza é estonteante, mas se você desmaiar outra vez vou me sentir ofendido!

Jason saltou de seu leito e abraçou Leo com força, não pôde conter as lágrimas que corriam soltas, lágrimas de alívio e satisfação.

– Ahn... Jason... – resmungou Leo com dificuldade – Você está me apertando demais, a Calipso vai ficar com ciúmes!

– Desculpe, – Jason afrouxou o abraço e afastou-se dois passos – Como?

– Longa história meu amigo, adorei o que fizeram com esse lugar. Rachel arrumou um quarto para Calipso e eu na “Nova Grécia”. Lugar maneiro, mas aquela estátua de Atena no centro do pátio me dá calafrios!

– Quando vocês chegaram? – perguntou Jason enquanto saíam da enfermaria.

– Agorinha, Percy abriu um portal para nós atravessarmos.

– Vocês se encontraram com Percy? – Jason estava atônito com a quantidade de informação – Como vai a missão?

– Parece que uma fada acordou – Leo riu – Desculpe, não consigo evitar.

– Isso é ruim... – Jason fez uma pausa reflexiva e continuou: – Eles disseram para onde iriam?

– Não – lamentou Leo.

Não demorou e eles chegaram no prédio da Nova Grécia, no pátio principal em volta da Atena Partenos Rachel conversava com a garota que viera com Leo. Calipso o nome dela.

– Jason, – cumprimentou o Oráculo – Percy e os outros estão com problemas, parece que Éris está indo libertar Érebo, e está muito perto.

– Como sabe? – indagou o loiro.

– Fui informada. – respondeu Rachel um pouco ríspida, parecia preocupada. – Precisamos enviar reforços, ao Mundo Inferior...

– Não há como entrar no Mundo Inferior – repreendeu Jason em seu tom autoritário de pretor.

– Na verdade há um jeito – contrariou uma voz feminina atrás do Oráculo, Jason não havia percebido a jovem loira que estava de costas para ele. Ela contemplava a estátua de Atena –, mas só três podem ir...

A jovem virou-se, e Jason conhecia bem aqueles olhos cinzentos. Era Annabeth ali, dez anos mais jovem! O filho de Júpiter inflou-se em ira, desembainhou um punhal que trazia preso à cintura e avançou contra ela apertando a lâmina fina contra sua garganta.

– Dê-me um bom motivo para eu não matá-la agora, traidora! – bradou, lutando para não apertar mais ainda o punhal e acabar de vez com aquela que traiu Roma e seus amigos.

– Ou você confia em mim, – disparou a filha de Atena firmemente – ou todos nós iremos morrer... É motivo suficiente para você?

Jason hesitou.