– XIX –

Percy

Quando viu Atena pronta para assassinar o filho de Hades, Percy perdeu completamente seus sentidos. A deusa abismada tentou se defender, mas frente a Excalibur não havia o que pudesse ter feito!

– Percy! Elüho! Fechem os olhos! – ouviu Nico advertindo.

Um brilho cego fulgurou intenso e Atena desapareceu. Percy viu que o filho de Hades se mantinha de pé com muita dificuldade, estava sangrando em um dos ombros e não parecia nada bem.

– Você não devia ter vindo Percy... – tentou censurar o filho de Hades, mas Percy muito sério se aproximou e o segurou pelo braço, talvez até forte demais.

– Nunca mais faça isso outra vez! – vociferou, a simples possibilidade de perder Nico para a morte havia deixado o mais velho desnorteado.

– Pessoal... – disse Elüho fitando um casulo imenso que brilhava com tamanha força que parecia prestes a explodir numa plataforma no estrado, na parte central daquele salão. Éris estava de pé ao lado com os braços estendidos e murmurando palavras estranhas.

Nico lançou com força alguma coisa pontiaguda contra Éris, mas antes de chegar perto o suficiente o cristal do casulo rachou e um vendaval intenso forçou tudo e todos a recuar.

Percy sentiu-se paralisar. Era uma sensação horrível, como se algo estivesse tentando esmagá-lo e ele nada podia fazer contra.

Mas logo o vendaval cessou e seu corpo ficou mais leve e solto. Viu Nico no estrado muito trêmulo como se tivesse visto um fantasma, o que não faria muito sentido já que Nico é o Rei Fantasma. Percy se aproximou e viu uma garota loira, jovem, semiconsciente e sentada sobre os calcanhares. Não pode ser...

O chão começou a tremer e o teto do lugar a desabar. Percy fez um gesto para Elüho se aproximar e quase não acreditou quando viu Nico carregando Annabeth nos braços.

– Ela precisa de cuidados, depois eu explico – foi a única coisa que o filho de Hades disse.

Com a Excalibur em punho Percy desferiu um golpe no vazio rasgando o ar, ainda era um mistério como aprendera a fazer aquilo, foi quando Nico desapareceu nas sombras com aquele olhar de despedida que atingiu Percy em cheio como a pior das armas. Uma fenda se abriu sugando-os. Percy focalizou a Arcádia, para onde pediu que Jnël levasse Thalia para se recuperar. “Viajar” daquela forma era para Percy ainda pior do que viajar pelas sombras, sentia cada parte do seu corpo sendo desmaterializada e chacoalhada violentamente, e da segunda vez foi ainda pior.

O céu brilhava estranhamente lilás, contemplou o Palácio das Fadas branquíssimo e reluzente, assim como da última vez que estiveram ali. Da última vez era o primeiro dia do Beltane, e Nico e eu...

Por um momento até esquecera de tudo, até que um estranho movimento de fadas e elfos instaurou-se por ali. Viu Nico pedindo para que dois elfos levassem Annabeth para a enfermaria e tomassem conta dela, com todo o cuidado possível e para que se certificassem de colocá-la isolada de tudo e de todos.

Percy não podia negar, ainda sentia alguma coisa pela filha de Atena, afinal passaram por muita coisa juntos desde seus doze anos. Por que teve que escolher um caminho assim Sabidinha?

Nico fez um gesto para que Percy o seguisse, e o filho de Poseidon assim o fez. Nico estava mortalmente abatido que nem parecia sentir a ferida em seu ombro.

– Precisamos dar um jeito nisso – falou Percy rasgando um pedaço de sua camisa e apertando o tecido em volta do ferimento do menor, estancando assim o sangue.

– Há coisas mais importantes para nos preocuparmos agora – rebateu Nico melancólico. O semblante sombrio do filho de Hades estava deixando Percy preocupado.

– O que foi que aconteceu Nico? – enfim perguntou.

– Aconteceu que Éris não precisa mais do corpo da Annabeth, aconteceu que Zelenna foi libertada e juntas estão indo libertar Érebo e assim estarão um passo mais perto de Caos.

Os olhos do menor estavam marejados. Percy percebeu o quanto ele lutava para não deixar as lágrimas fugirem.

– O que mais aconteceu Nico? Só há uma coisa que te deixa nesse estado, e o fim do mundo não é essa coisa, sou eu.

Percy viu o menor cerrando os punhos e por um momento achou que ele o bateria, mas o filho de Hades caiu de joelhos socando o chão com muita raiva, já não segurava as lágrimas. Percy ajoelhou-se perto de Nico e o abraçou, o filho de Hades lhe desferiu alguns socos involuntários em seu peito, mas Percy não o soltou.

– Está tudo bem, vamos, o que foi que eu fiz? – o filho de Poseidon sabia que era sempre o responsável por deixar Nico di Angelo daquela forma.

– Annabeth carrega... carrega consigo a única coisa que... que... que eu nunca poderei lhe dar... e... e eu sei que é algo que você sempre quis... – desabafou Nico.

– Não entendo Nico...

– Annabeth está grávida! E você é o pai, cabeça de alga! – disparou Nico frustrado.

Percy foi pego de surpresa, não poderia negar. Mas vendo Nico naquele estado ele manteve o foco:

– Nico... isso não vai mudar o que eu sinto por você, não vai mudar nada! Eu sempre quis uma família, não direi que não é verdade... mas... talvez possamos criar nossa família. Não abandonarei meu filho, mas podemos viver juntos Nico. Sabe... até onde sabemos Quíron não teve filhos, no entanto considerou a todos os semideuses que chegavam no acampamento muito mais que filhos. Podemos ser assim Nico, você e eu... treinando os novos semideuses, ou os filhos dos semideuses, seremos como Quíron era, e assim teremos dezenas de filhos. O importante é que estaremos juntos.

– Ah Percy... você não entenderia... – censurou Nico que parecia ainda mais abatido, seus olhos começaram a ficar trêmulos e ele desmaiou, Percy o amparou e carregou-o nos braços as pressas até a enfermaria.

Leitos cobertos de tecido branco preenchiam o cômodo espaçoso.

– Ele vai ficar bem, só precisa descansar – tranquilizou-lhe uma fada de cabelos rosas e olhos amarelos toda vestida de branco.

Percy avistou Thalia em um dos leitos, estava dormindo serenamente. Havia um corredor nos fundos que chamou à atenção do filho de Poseidon.

– Aonde aquele corredor leva? – perguntou.

– Para os leitos privativos usados em casos mais sérios onde é preciso silêncio total. – respondeu a fada – Para se falar a verdade quase nunca foram usados, somos um povo pacífico. Não gostamos da guerra.

– Todos dizem isso – devaneou Percy intrigado. Caminhou até aquele corredor.

– Senhor, não pode entrar aí – avisou a fada, mas Percy a ignorou.

O corredor se estendia tortuoso entre paredes de pedra, o filho de Poseidon parou quando viu dois elfos montando guarda na frente de uma porta prateada com uma lua cheia cercada por uma crescente e uma minguante incrustadas em pérolas. Percy aproximou-se mais.

– Sinto muito senhor, esse aposento está proibido de receber visitas não autorizadas, ordens do Merlin – repreendeu um dos elfos.

– Pois aqui está minha autorização! – bradou Percy sacando Excalibur.

Os elfos vendo a lâmina lendária fizeram uma profunda reverência.

– Perdoe-nos vossa graça, não fazíamos ideia. – desculpou-se o que tentou impedir o filho de Poseidon, enquanto o outro abria a porta.

Percy entrou, o aposento era amplo e estranhamente arejado, levando em conta que não havia janelas. Um céu índigo com nuvens brancas e levemente lilases foram pintados nas paredes, e estas nuvens pareciam se movimentar suavemente como se fossem feitas de pedaços do céu. Annabeth estava deitada numa cama grande, cheia de almofadas e lençóis, tudo muito branco. Estava acordada e mirava o teto enquanto uma fada de cabelos azuis e um pouco acima do peso media seus pulsos.

– Percy? É você? – perguntou ela quando o filho de Poseidon se aproximou um pouco mais. A fada continuou examinando a filha de Atena, sem prestar atenção em Percy.

– Sim, sou eu... – respondeu indiferente – Annabeth, você... você está... esperando um filho meu?

A filha de Atena corou, no entanto parecia confusa.

– Não diga bobagens Percy, eu não estou grávida! – reprovou ela.

– Está sim, – corrigiu a fada – de quase dois meses! Agora fique quieta, eu não terminei ainda.

Annabeth ficou estática, ela estava jovem, como quando se casaram. Percy deixou a fada continuar examinando-a e saiu daquele lugar. Precisava de ar fresco. Era informação demais para ele processar em tão pouco tempo.

***

Cinco dias se passaram até que Nico e Thalia se recuperaram completamente graças as fadas, e muita ambrosia e néctar. Estavam saindo da enfermaria quando Aggna os interceptou.

– Agora que estão recuperados precisam consultar a Tríplice. Zelenna foi libertada e algo deve ser feito! – declarou a Anciã.

– Tríplice...? – Percy estava confuso.

– É o Oráculo das Fadas – explicou Nico.

– Ah, ótimo! Mais profecias! – reclamou Thalia.

Seguiram Aggna até uma caverna, a algumas milhas longe do palácio. Era bem rústica olhando de fora, mas quando entraram Percy ficou boquiaberto. Era magnífico, era tudo bem iluminado, mesmo sem fonte alguma de luz. Havia uma cachoeira dentro da caverna e havia água cristalina por toda a parte, uma brisa suave soprava serena. Adentraram um pouco mais até encararem três estátuas de pedra colossais, esculpidas com formas de mulheres bem distintas, a da esquerda era linda, jovem e de traços finos e delicados, trazia esculpido nas mãos uma boneca rústica e um leque, e tinha um sorriso travesso solto nos lábios. A do centro era a maior das três, parecia grávida e carregava um fio de tear, seus traços eram mais grosseiros e o seu semblante era cansado. A última era um pouco menor, de costas mais arqueadas e traços característicos de uma pessoa idosa, trazia nas mãos uma vela e em seus ombros haviam corvos esculpidos.

Aggna deu passagem e disse-lhes para irem até as estátuas. Percy estava receoso, por algum motivo não queria encarar aquelas mulheres de pedra com mais de dez metros de altura cada, mas não podia recuar, então cedeu. Nico segurou sua mão, e Percy relaxou, juntos foram até as estátuas, Thalia ia atrás. Quando os filhos dos Três Grandes pararam diante daquelas mulheres, elas pareceram “acordar”. A primeira foi a da esquerda, a mais jovem das três. A boca de pedra se mexeu e um som melodioso ecoou nas paredes da caverna no timbre infantil de uma menina:

“Se queres o conselho da Donzela, eu vos digo, eu vos digo!
Não fazeis ideia do grande perigo! Perigo!

Encontrai a chama há muito esquecida!
Na antiga ilha onde será vossa partida! ”

A estátua do meio então abriu a boca, uma voz irritada e feminina ecoou irada:

“Por que vir até a Mãe se nunca ouvem os seus dizeres?
Vão, vão, vão! Confiais nos antigos poderes!
Mas não digais que conselho algum vos foi dado...
Abra tuas asas tu que és alado!
Abandone o fado tu que és jurado!
Desveles do coração tu que és amado!
Cuidado! Cuidado!”

O ar ficou pesado ao redor, uma fenda no ar surgiu como um portal e a boca da terceira estátua se abriu, uma voz feminina e velha soou solene:

“Viestes à Velha vós com pesada cruz...
Este caminho à direção certa conduz...
Lembrai nas trevas de acender a luz...”

Percy e Nico estavam de mãos dadas, se entreolharam e juntos acenaram positivamente, olharam para Thalia e a filha de Zeus também assentiu. Seguiram em direção ao portal quando Percy ouviu uma voz estranha. Encarou as estátuas e percebeu uma quarta atrás delas, porém feita de sombras!

“Trevas de sofrer tormentoso, vermelha mortalha!
Lorde primevo temeroso, reerguido em vil batalha!

Um de vós à guerra não suportará!
Seu desvelo o arrasará!”
Pela própria força cairá!”

– A Deusa tem quatro faces, não se preocupe, vai dar tudo certo – sorriu Nico calmo e juntos entraram no portal.

Pareceu passar-se num piscar de olhos. Percy conhecia aquele lugar, aquela ilha, com os jardins muito bem cuidados como da última vez. Não é possível! Ouviu o som de bater de metais e logo uma jovem apareceu. Vestia uma túnica branca grega, continuava jovem e bela como da última vez que Percy a vira. Os cabelos claros ondulando à vontade do vento. Calypso...

– Não! Não, não! Vocês não vão levá-lo! – disparou ela antes que alguém pudesse ter dito alguma coisa.