Pernico - Love is a Long Road
25 Percy
– XII –
Percy
Viagem pelas sombras era sempre um problema para Percy. Apareceram em meio a ruínas de alguma antiga igreja e Nico saiu andando em direção à um pequeno bosque, parecia irado. O defeito fatal dele é o rancor...
– Está rolando alguma coisa entre vocês? – perguntou Thalia quando começaram a seguir o filho de Hades. Percy sentiu-se corar.
Será que está...?
– Eu... eu não sei Thalia... – foi o que conseguiu responder.
Nico seguiu na frente a passos largos, mas finalmente parou quando estavam no meio do bosque. Havia uma espécie de canoa abandonada em meio a folhagem que se desprendia das árvores altas. Percy viu Nico sentando sobre os calcanhares diante de seis lápides simples de pedra e foi até ele enquanto Thalia ficava admirando o lugar.
– Tudo bem? – perguntou enquanto sentava-se ao lado do filho de Hades. Ele assentiu, mas parecia aborrecido e triste. Percy detestava vê-lo daquele jeito tão abatido. – Você os conhece? – perguntou mirando as lápides.
– Todos conhecem. – Nico lutava contra as lágrimas.
– Quem são Nico? – perguntou Thalia se aproximando.
– Parentes distantes... – respondeu sombrio – Viviane, Gwen, Rei Gwydion, Galahad, meu sobrinho Gwydion filho do Rei Gwydion e... minha irmã Morgana... mas, é claro, vocês provavelmente já ouviram falar deles... Talvez os conheçam como A Dama do Lago, Guinevere, Artur, Lancelote, Mordred e Morgana das Fadas...
– Artur? – Thalia parecia espantada. – O Rei Artur das lendas? Da távola redonda e do Merlin?
– Sim, – assentiu Nico – a távola redonda se encontra no grande salão de Avalon e quanto ao Merlin... acho que essa posição me pertence agora... – Thalia lançou à Percy um olhar confuso, Nico colheu algumas flores alaranjadas que cresciam ali perto e as colocou em frente a uma das lápides – Descanse em paz irmã...
– Você não devia chorar – consolou Percy ajudando Nico a se levantar e o abraçou, sentiu o menor o apertar com força enquanto algumas lágrimas irrompiam de seus olhos escuros. Nico logo desvincilhou-se do abraço secando o rosto molhado.
– Subam na barca – ordenou apontando para a canoa abandonada. Thalia iria questionar, mas Percy a puxou.
Nico foi o último a entrar na canoa, mas quando o fez toda a vegetação pareceu se inundar num profundo lago azul e brumas se apoderaram do lugar.
– Iremos dar à volta, não podemos chegar pela frente e vistam as capas – aconselhou apontando para um amontoado de tecido marrom atrás deles na barca que agora parecia muito maior. Nico ia de pé na proa e o lago parecia obedecer aos seus comandos, pois estavam velejando sem remos ou vento, só a água empurrando o barco.
Atracaram numa floresta densa de carvalhos. Percy não sabia dizer se era dia ou noite, não havia nem sol e nem lua e o céu era um indecifrável tom de índigo.
– Só falem se falarem com vocês, – orientou Nico vestindo também uma daquelas capas enquanto Percy e Thalia saíam da barca – estamos entrando nos domínios das fadas e elas podem ser... difíceis... Para todos os efeitos Thalia é uma aprendiz de sacerdotisa que prometeu sua virgindade à Deusa e Percy... você é meu aprendiz.
Thalia e Percy assentiram. Nico movimentou as mãos e sombras apareceram e quando se dispersaram revelaram uma lira lilás e preta com caveiras esculpidas nos eixos, havia um fio largo preso em extremidades opostas, Nico o usou para carregar a lira nas costas como se fosse uma mochila.
– Que os Deuses nos protejam, vamos!
Adentraram na floresta seguindo uma trilha estreita, Nico sempre à frente. Não demorou e foram surpreendidos por quatro homenzinhos escuros e carecas vestidos com pele de gamo, cada um empunhava uma lança grosseira com uma pedra afiada na ponta, e todos possuíam símbolos estranhos tatuados pelo corpo. Um falou alguma coisa em um idioma estranho e Nico respondeu no mesmo idioma com um tom de censura. Os quatro homenzinhos sorriram e se curvaram respeitosamente, fizeram um gesto para que os seguissem e assim fizeram.
– São o povo antigo, o sangue das fadas corre em suas veias. – explicou Nico – Estão nos levando para ver a Anciã e... não vai ser agradável...
***
Atravessaram um portal esculpido em pedras brancas, Percy ficou maravilhado com o lugar. Tecidos de várias cores enfeitavam as copas das árvores criando verdadeiros pavilhões suspensos, cordas de cânhamo ligavam uns aos outros e formavam escadas naturais. Os homenzinhos os levaram até a maior árvore que Percy já viu na vida! O chão estufava-se ao redor da base de seu tronco por conta das raízes no subterrâneo, a árvore era branca como leite e suas folhas pareciam feitas de ouro e prata, seus frutos eram safiras, esmeraldas e rubis. Percy ouviu o som de risos femininos e ficou hipnotizado com as menininhas aladas que voavam alto entre os seus galhos, cada uma irradiava um brilho diferente. Um dos homenzinhos o cutucou nas costas impaciente, rumaram para o interior da árvore entrando por um fenda no tronco, os homenzinhos não os seguiram.
Havia um verdadeiro mundo dentro da árvore, com céu e tudo o mais, era como se tivessem entrado em outra dimensão!
– Bem vindos à Arcádia, o Reino das Fadas! O coração de Avalon! – anunciou Nico que não parecia muito entusiasmado ao contrário de Thalia que estava de boca aberta assim como Percy. O lugar era maravilhoso, a grama verdíssima e havia árvores cujas folhas eram das mais variadas cores, um som doce de água corrente se fazia ouvir vindo de vários córregos que corriam por ali.
Um palácio prateado erguia-se ao redor de um lago azul onde os córregos desaguavam lá no horizonte, seguiram em direção à ele. Percy jurou ter visto uma serpente com pernas correndo atrás de um coelho com chifres e viu também um pássaro verde com dentes sorrindo para ele.
Nico estava sério e seus passos eram pesados como se estivesse com raiva de alguma coisa. Percy apertou o passo, a espada que pendia embanhada em sua cintura era muito incômoda, mas tinha de usá-la já que não sabia o que acontecera à Contracorrente, a espada de bronze celestial encantada simplesmente desapareceu e não voltou mais desde que Disnomia a quebrou. Não demorou e alcançou o filho de Hades, segurou uma de suas mãos e sentiu Nico ficar mais leve, então sorriu e ele lhe retribuiu com outro sorriso. Percy adorava ver Nico sorrindo, era tão raro... era mais precioso que todas aquelas safiras, esmeraldas e rubis que fulgiam por todo aquele lugar! Seguiram de mãos dadas por todo o caminho, Thalia ia atrás tão aborrecida quanto maravilhada.
O palácio era sem dúvida maior de perto, cinco torres triangulares pareciam arranhar o céu púrpura e eram tão reluzentes quanto vidro, uma ponte levava até a entrada, não havia muralhas. Duas sentinelas estranhas montavam guarda no portal de entrada, ambas tinham os olhos lilases e a pele azul pálida, trajavam túnicas claras do mesmo tom dos olhos e suas orelhas eram pontudas. Não pareciam armadas e conversavam naquela língua estranha que Percy não conhecia. Aproximaram-se e quando elas perceberam a presença de Nico fizeram uma reverência e disseram algo que soou à Percy como “Mawen”.
Nico fez uma mesura e logo os três adentraram no palácio. Havia espelhos de água em fontes esculpidas com imagens de mulheres de mãos juntas em prece, sempre seguindo o padrão: menina, mulher e anciã. Seguiram um longo corredor com colunas ao estilo grego até uma porta dupla dourada que Percy julgou ter mais de quatro metros de altura. Um homem vestido em uma túnica verde-musgo parecia esperar por eles, tinha o cabelo caindo em cachos cor de mel sob seus ombros e os olhos eram profundamente azuis. Era uma cabeça mais alto que Percy e tinha as mesmas orelhas pontudas que as sentinelas que guardavam a entrada.
– A Anciã o espera Majestade – comunicou com uma reverência perfeita.
– Obrigado Elüho. – agradeceu Nico com um sorriso e eles seguiram em frente acompanhados do protótipo de elfo. Percy não gostou do arauto, parecia muito íntimo de Nico e parecia perfeito demais para ser confiável!
Do outro lado daquelas portas colossais havia uma mulher de costas analisando um espelho d'água vasto que contornava a parede principal num meio círculo perfeito delimitado com mármore polido.
– Deixe-nos a sós Elüho – ordenou a mulher e o arauto saiu com uma mesura e fechou as portas atrás deles.
A luz que entrava pelos vãos muito acima nas paredes refletia num brilho cego ao atingir o cabelo prateado que caía em cascata até acima da cintura da mulher que vestia uma túnica branca e amarela rica em detalhes com folhas bordadas em fio de prata, usava também uma coroa de flores vermelhas de outono e, sem dúvida, era alta! Talvez um metro e noventa de pura graça e elegância. Quando virou-se Percy ficou espantado com o quanto ela era jovem, nada que lembrasse uma anciã! Os olhos eram como chamas e a pele alva era muito bem corada, havia símbolos vermelhos marcando seu rosto, indo dos olhos às orelhas também pontudas.
– Então o Merlin finalmente regressa! O que aconteceu? Lembrou-se de suas responsabilidades ou simplesmente veio nos dar algum tipo de satisfação? – A voz da Anciã era forte e cheia de vigor, mas Nico não deixou-se intimidar.
– Vim porque meu povo precisa de mim Aggna. Avalon foi atacada e tomada por Éris, ela pretende libertar Zelenna no auge do Beltane. Você sabe o que significa!
– E quem é essa Zelenna? – intrometeu-se Thalia esquecendo-se do que Nico dissera sobre só falar se falarem com você. – O que ela tem de tão importante? E, para começo de conversa, por que ela foi presa? Se vão libertá-la ela precisa estar presa, não?
Aggna lançou a Nico um olhar de repreensão.
– Yaus Mewen! Você some por tanto tempo e quando retorna trás junto de si tais malcriações? Quem você pensa que é garota para dirigir-me à palavra sem permissão?
– Sou Thalia Grace, Comandante das Caçadoras de Ártemis e filha de Zeus, Deus dos Deuses. – apresentou-se Thalia orgulhosa, mas Aggna não pareceu se impressionar.
– Deus dos Deuses? Ora, ele pode ser o seu Deus dos Deuses, mas para mim não é nada! – desdenhou a Anciã e Percy precisou segurar o braço da filha de Zeus para que não acontecesse ali uma tragédia.
– Thalia e Percy estão comigo Aggna, seja mais gentil – advertiu Nico.
– Percy, é mesmo? – Aggna analisou o filho de Poseidon da cabeça aos pés. – Então foi por causa disso que nos abandonou? – indagou com desprezo.
– Não abandonei ninguém, vocês vivem muito bem sem mim – rebateu Nico.
– E por que veio até mim Merlin? O que quer?
– Preciso entrar em Avalon sem ser percebido e enfrentar Éris antes que ela consiga libertar Zelenna, e para isso...
– Precisa da minha ajuda... – completou a Anciã com um suspiro fadigado. – Hoje começarão os ritos do Beltane, as fogueiras serão acesas por toda a Ilha Sagrada e inclusive aqui na Arcádia. Não posso abrir o portal para você hoje, demanda uma energia que não posso gastar. Lamento Merlin, terá de encontrar outro meio de chegar até o templo, o Povo Antigo tampouco o ajudará nessa época.
– Você não se importa com o que pode acontecer se Zelenna for libertada? – ralhou Nico enfurecido. – Estaremos perdidos!
– Vocês estarão perdidos! – corrigiu Aggna – Em nada nos afetará, Zelenna não pode entrar na Arcádia, nossa magia a repelirá. Não arriscarei uma só fada para que você reconquiste o trono que perdeu Nico Di Angelo! Você perdeu Avalon por conta própria! Recupere-a sozinho! Elüho preparará quartos para vocês estadiarem, não podem sair daqui até o portal reabrir ao crepúsculo de amanhã, acabamos por aqui!
– Chegará o dia em que se arrependerá Aggna! Éris pretende despertar Caos de seu letargo, quando isso acontecer nenhum mundo estará a salvo! – e com os punhos cerrados Nico deu as costas e saiu dali irado. Thalia o seguiu, mas quando Percy tentou ir também Aggna o segurou pelo braço.
– Veja o que provoca filho do Mar! – a mulher apertou com força o pulso de Percy, suas unhas eram vermelhas e longas, Percy sentiu seu toque queimá-lo! – Estarei sempre observando, não aprovo sua amizade com o Merlin.
– A sua aprovação pouco importa! – rebateu Percy desvincilhando-se da Anciã. Fitou sem querer o espelho d'água que a mulher tanto observava, não podia acreditar no que seus olhos viram. Não, não pode ser!
– Viu alguma coisa? – espantou-se Aggna – Como poderia, só se... Não, eu saberia...
Percy a deixou sozinha, correu atrás de Nico e Thalia. Tenho de avisá-los! É pior do que parece...
Avistou Elüho com uma mão no ombro de Nico falando alguma coisa em seu ouvido. Percy sentiu algo se remoendo em seu peito, foi até eles e puxou Nico para si.
– O que... – tentou protestar Nico, mas Percy o calou com um beijo ardente e apaixonado que o filho de Hades logo retribuiu.
Percy não havia percebido que Thalia também estava ali até que a ouviu simular uma tosse para interrompê-los.
– Pode nos dizer o significado disso Perseus? – indagou ela com um olhar insidioso.
– Temos um problema – explicou Percy interrompendo o beijo aos poucos, Nico estava vermelho e não havia cena mais doce para o filho de Poseidon. Elüho o fulminava com os olhos, o que deixou Percy um tanto quanto satisfeito, afinal, mostrara ao filhote de elfo que Nico estava comprometido.
– Que problema? – perguntou Elüho sério.
– Éris ganhou mais uma aliada, estão as duas num salão com uma grande mesa redonda de madeira no centro.
– Quem você viu com Éris, Percy? – inquiriu Thalia e Percy respondeu um pouco perturbado:
– Atena...
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