Pernico - Love is a Long Road
22 Percy
― IX ―
Percy
As coisas estavam acontecendo muito rápido. Drew gritava que o acampamento estava sendo invadido e de repente toda sorte de monstros irromperam pelas entradas da Arena (alguns até mesmo fizeram suas próprias entradas). Percy se distraiu com a quantidade absurda de grifos que marcavam o céu de preto. O que aconteceu em seguida foi, num primeiro momento, confuso... Annabeth o apunhalaria! Nico o empurrou e acabou recebendo o ataque. A primeira reação do filho de Poseidon foi desarmar Annabeth, feito isso ela fugiu! Não importava... Nico pareceu perder suas forças. Jason amparou sua queda.
― Nico! Ei, Nico! ― tentou chamar Percy, mas o filho de Hades não correspondia, seus olhos estavam desfocados. Aquela lâmina era para mim, pensou Percy com desgosto, por que Nico? Por que fez isso?
Uma amargura preencheu o interior do filho de Poseidon, uma mistura de sentimentos negativos aleatórios. Viu Nico desacordado nos braços de Jason e sua ira inflamou-se, sentia raiva, rancor, ciúmes. Começaram a discutir sem se saber o por quê. Todos estavam discutindo entre si.
Um som agudo e terrivelmente estridente invadiu os ouvidos de Percy, ressoando em cada canto de seu cérebro. Era Thalia soprando algum tipo de apito. Toda a amargura desapareceu, sendo imediatamente preenchida pela preocupação: Nico não estava nada bem.
Dracaenaes e empousas surgiam de todas as partes, estavam todos lutando. Tenho de tirar Nico daqui!, era a única coisa que percorria a mente do filho de Poseidon, salvar Nico era sua prioridade! Percorreu com o olhar todas as direções, encontrou uma brecha no ataque inimigo para sair com o filho de Hades, mas lobos colossais saíram abruptamente do chão de pedra, todos humanoides com garras tão afiadas que a luz do sol refletia-se em seu fio, tal qual na maior e pior das navalhas.
― Jason! Precisamos tirar Nico daqui! ― Percy e Jason estavam de costas, protegendo o filho de Hades e um ao outro ao mesmo tempo.
― São muitos Percy! Isso é um verdadeiro exército, não nos darão passagem! ― rebateu Jason decapitando uma dracaenae, o corpo ofídico desabou, mas não virou pó como o de costume. Os monstros agora podem morrer, não voltarão mais.
Tantos golpes haviam sido desferidos por Percy que uma ardência repentina tomou conta de seu braço da espada. Contracorrente pesava mais a cada monstro abatido, e quanto mais morriam, mais apareciam. Não conseguirei proteger Nico desse jeito. Percy pegou o corpo inconsciente do filho de Hades e o repousou em seus ombros.
― Jason, me dê cobertura! Tenho de tirá-lo daqui, agora!
O filho de Júpiter acenou concordando, mas quando impulsionou-se à frente, para abrir caminho, uma lâmina irregular deslizou através de seu abdome. Jason caiu, um braço apoiando na espada que agora estava fincada no chão e o outro em volta do corte. Percy estava estupefato. Uma figura monstruosa de pele azulada estava atrás de Jason, sorrindo e empunhando aquela espada estranha, a lâmina cinzenta possuía um brilho gélido que fundia-se agora com o sangue de Jason. Os três olhos heterocrômicos do monstro o fitavam malevolamente.
― Disnomia errou o alvo, mas Disnomia agora vai acertar! Sim, Dinomia vai! ― grunhiu o monstro num coaxo desconexo, asas, cujas penas coloridas faltavam de ambos os lados, abriram-se em sua envergadura máxima e o mostro saltou em direção à Percy que permaneceu firme empunhando Contracorrente numa posição defensiva. Faíscas fulgiram quando o aço atingiu o bronze celestial. Percy cambaleou, mas não deixou-se vencer. O monstro era muito disforme, um braço maior que o outro e era justamente o mais forte, talvez quatro vezes o tamanho do de Percy, que empunhava a espada. Os pés do monstro eram virados para trás, mas mesmo assim ele era muito ágil e seu equilíbrio formidável, com um giro na hora certa Disnomia desarmou Percy arremessando-o contra os destroços de uma das arquibancadas, Nico rolou para o lado contrário ainda inconsciente.
― A mãe de Disnomia vai ficar muito feliz com o que Disnomia conseguiu fazer, nenhum dos filhos de Éris chegou tão perto de matar o herói que derrotou o senhor Cronos, mas Disnomia vai conseguir, Disnomia vai deixar Éris orgulhosa! ― O monstro apreciava aquelas palavras como se fossem o maior tesouro que já existiu. Sim, e minha morte é a chave, percebeu Percy tateando o solo em busca de Contracorrente, não a encontrou...
O monstro veio com tudo para cima de Percy, seus olhos irradiavam hostilidade e júbilo, todos os três! Percy rolou para o lado e se esquivou da estocada do monstro. O aço da espada atracou-se com os ferros soltos da arquibancada destruída e o monstro grunhiu descontente:
― Fique parado! Disnomia não vai conseguir acertar se continuar se mexendo desse jeito!
Os reflexos de Percy estavam afiados, viu Reyna sendo encurralada por cinco empousas, se bem que o certo seria que Percy viu cinco empousas sendo encurraladas por Reyna. Viu Thalia disparando flechas de prata em vários daqueles lobos humanoides. Os filhos de Ares estavam espalhados, avistou Clarisse eletrocutando uma dracaenae com sua lança enquanto uma empousa se agarrava nas suas costas. Nico não estava em lugar nenhum. Percy fitou Jason caído no chão semiconsciente, estava perdendo muito sangue então correu para ajudá-lo. Não demorou e Disnomia novamente o interceptou derrubando-o e arrastando-o para trás. Percy tateou os bolsos e suspirou aliviado ao sentir a caneta em seu bolso, destampou e Contracorrente surgiu, desferiu com ela um golpe que decepou o braço azulado no qual estava sendo arrastado por Disnomia, ela agarrou o que sobrou com desespero. Lágrimas verde-escuras saíam do seu olho do meio. Icor dourado jorrou do ferimento.
― Você machucou Disnomia! Sim, machucou. Disnomia sentindo dor, Disnomia não está contente! Disnomia vai matar você Perseus, Disnomia vai!
O braço de Disnomia que foi cortado começou a sorver o sangue divino que escoava sem parar. Não demorou e uma lâmina afiada tomou forma ocupando o lugar do membro decepado, copiando o tom dourado e metálico do Icor. Disnomia avançou sem hesitar. Percy tentou bloquear o ataque com Contracorrente como fez na primeira vez, mas dessa vez a colisão não resultou apenas em algumas faíscas, a lâmina dourada de Disnomia partiu Contracorrente no lugar em que se chocaram. Percy tombou para o lado não sendo atingido por muito pouco. Contracorrente, não é... não é possível!
O filho de Poseidon estava atônito demais e não percebeu o grifo que descia num rasante mortal ao seu encontro, Thalia o executou.
― Não é hora para descansar Jackson! ― bradou, a filha de Zeus provavelmente ainda não vira o que havia acontecido ao seu irmão. Jason... Nico...
Percy sentiu um puxão forte em seus cabelos, Disnomia o ergueu pelos fios negros tirando-lhe os pés do chão. O filho de Poseidon lutou para desvencilhar-se, mas não havia nada o que fazer, não tinha mais Contracorrente. Disnomia ria, todos os seus dentes eram caninos afiados. Toda a esperança estava perdida, a deusa apertava a ponta da lâmina na garganta do filho de Poseidon quando, sorrindo, indagou:
― O que tem para dizer à morte, Perseus Jackson?
Hoje não! ― respondeu uma voz sombria e ecoada.
Percy sentiu-se cair, seus joelhos chocaram-se contra as pedras do chão da Arena. Ergueu a cabeça e contemplou Disnomia ajoelhada perante a dor. O braço bom, que usou para erguer Percy pelos cabelos, estava sendo torcido ferozmente por... não é possível, como pode ser? Era Nico quem estava subjugando a deusa. Sua pele estava assustadoramente cinzenta e seus olhos incomumente negros, os cabelos flutuavam como que submersos no oceano, símbolos diversos pretos como ébano marcavam seu rosto e seus braços. Uma aura terrível emanava dele que se mantinha cabisbaixo como se seu corpo estivesse respondendo à comandos externos.
― Você está machucando Disnomia, pare! Disnomia está sentindo dor, pare, Éris é mãe de Disnomia, Éris não vai gostar!
Tenho algo pior reservado para ela... Oh, não se preocupe! Você não viverá para presenciar tal momento! ― a voz terrífica vinha de Nico, mas seus lábios não se mexiam. Uma ventriloquia emergida do pior dos pesadelos! A visão de Percy estava se embaçando, mas permaneceu consciente tempo o suficiente para presenciar uma das coisas mais incríveis e aterrorizadoras que provavelmente veria em sua vida:
Nico torceu o braço bom de Disnomia com tamanha força que o quebrou, Percy tremeu ao ouvir o ruído inquietante. O filho de Hades mantinha Disnomia prostrada segurando forte seus cabelos, de um fosco tom de laranja, longo de um lado e curtamente repicado do outro. Com a mão livre Nico arrancou as asas disformes da deusa e em seguida ergueu a cabeça dela agarrando-a pelo pescoço. Um simples dedo na testa foi o que bastou, proferiu palavras que Percy não entendeu e uma aura negra irrompeu do crânio de Disnomia. A deusa gritou, o som gutural do desespero assolaria as memórias de Percy para todo o sempre. Uma fumaça branca exalava das partes por onde a marca negra se apoderava lentamente, queimando a deusa.
―- Ahhhh! Paaree! Paree! ÉRIS!!! MÃÃEE!!
Disnomia debateu-se violentamente até que a marca invocada por Nico corroeu todo o seu corpo e a deusa finalmente desapareceu. Percy não sabia o que sentia, seria admiração? Ou pavor? Os monstros não pareceram perceber a ausência da deusa ou talvez não se importassem. Nico levitava erguido pela aura maligna, estendeu os braços com as mãos igualmente estendidas apontando para cima, entoando com a terrível voz:
Ergais servos do Mundo Inferior! Ouçais o chamado de vosso Príncipe!
A terra tremeu e dezenas de esqueletos emergiram das profundezas armados com toda sorte de armas. Quase todos os campistas ficaram aterrorizados achando que mais inimigos se levantavam contra eles, mas Thalia logo acalmou-os com sua aura de liderança, explicando que eram amigos.
Não demorou muito e somente os lobos humanoides ainda resistiam. Nico pousou próximo à Percy e ao tocar os pés no chão, com os braços ainda erguidos, entoou algo em palavras que o filho de Poseidon não conseguiu entender, pareciam um idioma totalmente diferente do comum, do grego, ou até mesmo do latim. Todo o sangue que manchava o chão de pedras da Arena começou a exalar um vapor carmesim e, em uma rajada de vento brutal, o vapor transitou num filete fantasmagoricamente rubro por toda a Arena fazendo ressoar um som agudo e terrível. Sangue irrompia dos ouvidos dos monstros que caíam mortos transfigurando-se em poças vermelhas.
Uma brisa suave soprou como um réquiem por entre os que sobreviveram, uma pena verde-mar desprendeu-se de uma das asas de Disnomia que Nico arrancara com as próprias mãos e, quando esta pousou nas mãos de Percy, uma harmonia estranha se apoderou de seu corpo. Como se houvesse ingerido néctar seus ferimentos logo cicatrizaram e já não sentia mais nenhuma dor ou tontura. A aura maligna que rondava Nico estava se esvaindo rapidamente e quando finalmente o abandonou ele pareceu que desabaria, mas Percy o segurou em seus braços. Nico estava terrivelmente pálido agora, os símbolos estranhos se apagaram como se nunca tivessem estado ali. Sua respiração era pesada e Percy podia sentir seus batimentos fracos.
― Não, não. Não ouse morrer Nico, você não pode morrer! ― Percy tentava inutilmente conter as lágrimas que irrompiam sem permissão. Fez Nico segurar a pena de Disnomia que o curara, mas não parecia adiantar. Arrancou com as próprias mãos outras das asas caídas, em vão. Olhou em volta em busca de ajuda, mas todos estavam feridos, Thalia finalmente encontrara Jason, ele parecia desmaiado e ela estava cuidando de seus ferimentos, suas mãos pareciam trêmulas, Percy temia que o pior pudesse ter acontecido a Jason. O pior está para acontecer com Nico! Não, não! Nico, não ouse morrer!
Percy instintivamente puxou Nico para si, embalando-o num movimento singelo. Estava com os olhos fechados fazendo uma prece inútil aos deuses, Nico não podia morrer! Percy sentia o corpo do menor mais frio que o normal contra o seu, um frio de morte. Um vento bravio passou por eles e, ao abrir os olhos, todos haviam desaparecido. Só havia Nico e Percy, e não estavam na Arena, estavam numa colina rodeada de carvalhos e pinheiros.
“Por que está sofrendo Perseus?", perguntou uma voz melodiosa e assustadora vinda do nada. Percy logo soube que estava novamente na presença do Cupido.
― Nico... ele está... ele está... ele está morrendo!
“Mas é claro que está! Ele usou um poder proibido, algo que estava além de seus limites. Era o único jeito de salvar a todos e... a você.... Por que se importa, Jackson?”
― Nico é meu amigo! E está morrendo! ― vociferou Percy aturdido por suas emoções.
“O filho de Júpiter também é seu amigo, não? Por que seu coração não derrama lágrimas de sangue por ele também? O que faz Nico ser tão especial para você?”
Era uma pergunta perigosa, mas pertinente. O que Percy sentia de verdade? Foi traído por Annabeth vilmente e quase morreu em seus ardis. A fllha de Atena tentou matar Percy ela mesma, mas Nico o salvou, Nico levou a lâmina que não era para ele e que, certamente, estava envenenada.
“Não sabe a resposta? Ou teme a verdade que há nela? O filho de Hades não tem muito tempo Percy, o que faz dele tão especial para você?”
O sono da morte tornava os traços de Nico mais belos. Percy conseguia sentir, de alguma forma, a vida lhe abandonando mais e mais...
― Eu... ele é um herói... não merece morrer assim... ele...
“COVARDE!”, ululou a voz pungente, “da pior espécie! Qual teme lutar contra si mesmo! Thanatos em breve buscará a vida dele, espero que tenha se despedido.”
Um vendaval atroz arrebatou-lhes e tudo pareceu um breve devaneio. Percy ainda estava com Nico quase morto em seus braços. Olhou em volta e haviam vários feridos, a Arena estava completamente destruída. Ninguém viria ajudar, ninguém provavelmente se importava ou prestava alguma atenção. Percy puxou Nico ainda mais para si, sentiu o rosto frio do filho de Hades contra o seu, sentiu o seu cheiro doce e suave que, junto com sua respiração quase interrompida e seus batimentos quase nulos, lhe conferiam a trágica melodia da morte. Não posso permitir que morra Nico, não posso...
Por um momento Percy pensou ter ouvido o som do bater lento de asas e se perguntou se havia chegado a hora, se Thanatos enfim viera reclamar a alma do menor.
― Nico, se ainda estiver aí... ― dizia Percy com a voz embargada e com soluços e lágrimas a lhe interromper ― Eu... nunca fui bom com as palavras, mas... Eu... Nico, eu... ae... aesihao nëh Nico! ― Percy não resistiu à proximidade, nem à confusão ou o lúgubre de suas emoções. Selou seus lábios num último ardor, desejando que aquilo fosse apenas mais um pesadelo macabro e que ao acordar veria Nico novamente, o veria sorrindo como da última vez, um sorriso puro e precioso que Nico demorara tanto para conseguir aprender. Quero retribuir-lhe Nico, quero retribuir-lhe todo esse amor que você sente por mim... Por favor, volte para mim, volte!
Percy interrompeu o beijo, recostou sua cabeça na de Nico, já perdendo a esperança. Olhou uma última vez para o filho de Hades e contemplou um sorriso inocente, por um momento pensou que Nico estivesse acordando, mas seu pulso continuava enfraquecendo cada vez mais, então lembrou-se de algo que Nico dissera quando Piper morrera: As vítimas do zanedile sempre morrem sorrindo.
Fale com o autor