Pernico - Love is a Long Road
23 Nico
— X —
Nico
Não havia tempo para pensar, era preciso agir! Disnomia avançava contra Percy à toda velocidade. Droga! Não posso voltar para o meu corpo agora, seria inútil! Talvez... se...
Havia uma técnica que o filho de Hades não conseguira aperfeiçoar, Morgana tampouco viveu o suficiente para treiná-lo. Nico não hesitou, nunca temeu a morte e não passaria a temê-la agora quando Percy estava em perigo! Se concentrou, precisava harmonizar a sua energia interior e mesclá-la as sombras, desse modo poderia controlar seu corpo sem a necessidade de retornar a ele e correr o risco de ficar inconsciente por conta do veneno.
Não conseguiu tão rápido como gostaria, Jason fora gravemente ferido e Percy estava sendo erguido pelos cabelos, Disnomia estava pronta para matá-lo! Nico não precisou harmonizar a energia, sua ira acumulou-se de tal forma que não saberia dizer o que era ele ou o que era sombra, eram apenas um agora. Foi quando as coisas ficaram confusas, manteve-se consciente tempo o suficiente para destruir Disnomia, convocar os exércitos de seu pai e conjurar um último feitiço contra as hordas de monstros que resistiam.
Tudo escureceu... Não sentia mais o chão ou os sussurros do vento. De repente o simples ato de respirar ficou difícil, sentia os batimentos de seu coração desacelerarem num compasso fúnebre. É então chegada a hora?, perguntou-se, finalmente acabou? Percy... Consegui salvá-lo?
Estava frio, um frio como nunca sentira, logo seguido de um calor igualmente desconhecido, mas acolhedor. Ouviu alguém gritar seu nome, sentiu braços acomodando seu corpo em algo macio e quente. A escuridão finalmente se impôs e não ouviu mais nada por algum tempo.
Como num despertar contemplou uma névoa espessa que gritava murmúrios de morte, um uivo tenebroso e em seguida o som de passos. Então finalmente morri, passarei a eternidade aqui? Parece-me realmente apropriado, um fim amargo para uma vida amarga...
— Pensamentos deveras dolorosos. O Merlin deveria ser mais positivo. — Nico não precisou virar-se para saber quem era, conhecia aquela voz feminina ecoada e sugestiva.
— Depois de tantos anos parece que nossos caminhos se encontraram novamente, Hel. — Sempre que se encontrava com a deusa do Mundo dos Mortos mais provações estavam à caminho, mas pelo que Nico sabia ele estava morto e, querendo ou não, os conselhos de Hel lhe guiaram por muitos caminhos, o guiaram inclusive pelo interior de si mesmo.
— Eu vi o que fizestes lá, me deixastes orgulhosa, pequeno. E deixastes teu pai orgulhoso também.
— Meu pai? E o que Hades sabe sobre mim? Estou morto agora e ele provavelmente não saberá por muito tempo! E, se descobrir, certamente pouco se importará! — Desabafou Nico, nunca falara de seus sentimentos em relação à seu pai antes, mas agora estava morto e não importava. — Por que vim parar aqui Hel? Estou morto, não há mais nenhuma missão que posso receber. Acabou.
A deusa o encarou por um momento, seus cabelos meio branco e meio preto oscilavam com o vento sombrio do lugar. Estava escuro, mas Nico jurou ver uma lágrima escorrer pelo lado jovem da deusa.
— Teu pai sabe Nico, ele sabe o que sentes pelo teu primo, filho de teu tio Poseidon. Ele sempre soube, desde que o ajudastes à fugir do Mundo Inferior e à mergulhar no Estige. Contudo ele esperava que tu confiastes, ou pelo menos importastes, em abrir-te com ele. Hades jamais arrancaria uma confissão tua, ou o condenaria pelo que sentes Nico. Ele pode não demonstrar, mas ele te ama.
— Como pode saber? Desde quando conhece meu pai? — Ralhou Nico, a deusa limitou-se a fitá-lo com os olhos marejados.
— Quando viestes até este lugar pela primeira vez perguntei-te quem eras, e tu me respondestes que era filho de Hades. Por que?
— Por que sou um semideus! E todos os semideuses se apresentam anunciando seu vínculo divino, foi só uma cortesia.
— Entendo, — suspirou Hel — mas não me respondestes o que eu queria naquela ocasião, eu sabia que eras filho de Hades criança, mas nunca soube quem tu eras. Sempre fora assim, mesmo quando eras uma criancinha que corria por entre as saias de Maria que eu não conseguia te decifrar.
— Conheceu minha mãe? — Nico estava atônito. — Há quanto tempo me vigia?
— Eu não vigio-te, eu simplesmente convivi contigo, te vi crescer e te vi sofrer calado. Os deuses não devem interferir no destino Nico, e mesmo que eu tivesse tentado tu não teria deixado com que eu me aproximasse.
— Eu não entendo Hel, eu me lembraria de você.
— Ainda não estás morto. – Disse Hel à despeito da confusão de Nico – Meus domínios se estendem entre os mortos, mas não na morte. Sinto não poder salvar-te, mas... Antes de morrer Nico... gostaria de contar tudo à teu pai e assim seguir em paz? — Propôs, o filho de Hades foi pego de surpresa, queria encarar seu pai? Depois de todos esses anos ele se importaria?
— Por que eu faria isso Hel? Pelo o que soube fiquei dez anos em Avalon e ele nunca me mandou sequer uma mensagem de Íris para saber se eu estava bem.
— Estivestes lá por dez anos, recebestes um treinamento especial vindo de tua irmã, Morgana. Teu pai sabia de tudo, mas e quanto a tu? Preocupastes-te em enviar uma mensagem de Íris para ele? Preocupastes-te em dar-lhe algum tipo de satisfação?
– Não... – Confessou. – Tem razão Hel, talvez... talvez eu deva dar alguma satisfação ao velho, pelo menos na morte ele não irá se importar de me receber. Como chegaremos lá?
– Já estamos lá, filho...
Como é possível?, estarreceu-se Nico ao contemplar a escuridão e a névoa que antes os cercavam se desfazerem revelando a Sala do Trono no palácio de seu pai. Tudo estava como sempre fora, o grande trono de espaldar alto feito de ossos ao lado um menor feito de ébano e enfeitado com flores mortas. O salão todo iluminado por archotes de puro ônix e o chão de mármore polido que, com o reflexo das chamas, parecia vermelho como sangue.
– Sabe Nico, — começou a explicar Hel — os deuses estiveram lutando entre suas personalidades gregas e romanas, contudo não são nossas únicas personalidades... Eu sinto muito meu filho, sinto muito que as coisas tiveram de ser assim... — o manto escuro e simples de Hel começou a se mexer como se estivesse sendo arrebatado por uma poderosa ventania, rostos de sofrimento e angústia começaram a surgir e a se movimentarem em meio ao tecido e de repente, de alguma forma, lá estava Hades austero com os cabelos tão negros quanto os de Nico, reluzentes ao brilho dos archotes.
– Eu... não entendo...
– Hel é a minha forma nórdica, – explicou-se Hades – o povo do norte sempre nos viu de forma diferente, de forma mais... condizente aos nossos domínios por assim dizer... Sinto muito filho, não posso salvá-lo. Não posso ordenar à Thanatos que simplesmente esqueça de lhe buscar.
— Isso não importa agora pai — disse Nico já recuperado de seu espanto, realmente não esperava por aquilo — Acho que tenho algumas coisas para lhe dizer...
— Só se estiver à vontade para falar meu filho, saiba que eu sei de tudo. Sinto muito pelo o que fez Perséfone, permiti que ela encantasse o espelho porque achei que você gostaria de... vê-lo mesmo estando longe, achei que o incentivaria a me contar...
— Isso também não importa agora pai, sinto muito por não ter confiado em você. — Nico endireitou-se onde estava e, depois de engolir em seco pelo nervosismo, confessou ao pai: — Eu amo Percy Jackson, amo-o desde o dia em que o vi, sinto muito se isso lhe desagradou de alguma forma, sei que nunca fui motivo de orgulho para você.
Nico cabisbaixo esperou algum tipo de represália, mesmo que Hades soubesse de tudo não significava que aprovasse ou que não estivesse zangado, mas o Deus do Mundo Inferior simplesmente abraçou seu filho.
— Perdoe as crises que seu velho teve quando Bianca morreu, foi difícil. – Sussurrou Hades. — Saiba que eu me orgulho de você, me orgulho do homem que você se tornou!
Era tudo o que Nico sempre quis ouvir de seu pai, seu único lamento era estar tão perto da morte que já não podia aproveitar aquele momento. Seu único desejo agora era poder ver Percy, uma última vez..
— Há um lugar nos Elísios para você meu filho, se quiser se entregar à morte... — tentou confortar Hades.
Se...
— E posso lutar contra a morte?
— Por que faria isso? Os Elísios são uma bênção aos que morrerão heroicamente, por que abandonaria a glória depois de uma morte honrada? Por que arriscar não tê-la quando a hora chegar novamente?
— Não há honra na morte pai... Se morri é porque fui fraco demais para continuar vivo, e uma vida sem... uma vida sem ele, mesmo uma vida imortal... seria apenas em vão, seria vazia...
— Meu menino cresceu... Você sempre soube o que fazer, sua mãe teria ficado orgulhosa! Há mais pessoas que querem falar com você Nico, vá em paz...
As sombras voltaram, dessa vez Nico sentiu a brisa que vinha do mar e sentiu seus pés molhados. Olhou para o chão, mas não havia nenhum! Apenas o oceano, onde quer que olhasse. Como posso estar de pé sobre a água?
— É finalmente um prazer poder falar com você Nico Di Angelo!
Nico virou-se na direção da voz forte. Avistou um pescador se aproximando, parecia concentrado em colocar uma isca em um anzol preso a uma linha que percorria toda uma vara de pescar simples de bambu. Os cabelos negros do homem estavam molhados sob um grande chapéu de palha, vestia uma camisa havaiana azul e uma bermuda branca, tinha a pele bronzeada, queimada pelo vento e pelo sol. Os olhos eram especialmente verdes. Verdes como os de Percy...
— Lorde Poseidon. — Cumprimentou Nico meio embaraçado, não esperava conversar com o pai... com o pai de Percy...
— Gosta de pescar? — Poseidon com um movimento experiente lançou o anzol longe e contemplava o horizonte enquanto falava: — Não fique acanhado desse jeito! Sabe... o mar é sempre imprevisível, às vezes está calmo e nos sentimos seguros em nosso barco, mas uma tempestade sempre pode aparecer de repente e nos arrasar, talvez as ondas nos derrubem de nosso barco ou o levem contra alguma rocha, talvez seja o vento a fazer isso ou talvez, até mesmo, podemos ser atingidos por um raio.
— Eu não entendo o que quer dizer Senhor. — Nico agora estava menos nervoso.
— O que quero dizer é que não importa o quão bem conhecemos o mar, ele pode um dia nos trair ou parar de dar peixe e então devemos nos arriscar em águas mais profundas... águas que nunca foram navegadas antes ou que só são conhecidas nas lendas...
Nico não estava entendo o que Poseidon queria dizer, mas achou melhor fingir que sim. Sua feição no entanto deve lhe ter entregado pois o Deus dos Mares sorriu desdenhoso.
— Você não é um filho de Atena não é mesmo? — perguntou em meio a uma gargalhada.
— Não Senhor...
— Prefiro assim. Não gosto muito da minha sobrinha ou de suas crias, sempre se acham mais inteligentes que os outros, mas acho que sempre são, não é mesmo? — Poseidon cessou o riso e ficou pensativo encarando Nico com o olhar. — O mar deve ser sentido, temido, respeitado e amado, não entendido ou explicado, e jamais controlado! Eu admiro aqueles que amam o mar, mesmo quando este às vezes não lhes retribuem ou talvez os machuque...
Dessa vez Nico entendeu e deve ter ficado corado. Poseidon passou um braço sobre o pescoço do filho de Hades e lhe desferiu um soco brincalhão no peito com um sorriso satisfeito.
– Obrigado garoto, obrigado por se importar com Percy, obrigado por amá-lo. Meu filho tem muita sorte de tê-lo sempre por perto como um demônio protetor. Saiba que se vocês... um dia... tiverem alguma coisa juntos... vocês têm a minha bênção!
Nico não sabia o que dizer, limitou-se a sorrir. Sorrir... sempre me pareceu tão difícil...
De repente as águas que pareciam sustentar seu peso puxaram-no e Nico submergiu até as profundezas daquele oceano, quando estava tão fundo que a luz já não podia mais ser vista ele parou de descer. Estava seco e podia respirar normalmente. Olhou em volta e percebeu que estava numa espécie de cabana, era grande e as paredes eram todas feitas de madeira. Ouviu risos abafados, seguiu na direção do som, havia meias de lã tricotadas por todo o lugar. Não demorou e avistou três senhoras estranhas conversando e tricotando meias próximas a uma lareira acesa. Uma roca aparentemente velha e dourada girava sem parar fazendo ressoar um tilintar ritmado. Nico aproximou-se, viu três clavas de bronze próximas daqueles senhoras. Elas pareceram percebê-lo e calaram-se e o encararam. Tinham uma aparência funesta, seus olhos eram tão fundos que pareciam órbitas vazias, todas as três tinham longas unhas e nenhum dente, vestiam mantos escuros, seus cabelos eram brancos como a neve.
— Demorou criança — comentou uma delas, a que estava fiando.
— Mas é claro que sabíamos que ia demorar — riu a que estava sentada à roca que girava sem parar, tricotava uma meia preta com detalhes prateados.
— Quem são vocês? — perguntou Nico à despeito dos bons modos.
— Somos o Destino — respondeu a que parecia ser a mais velha das três, estava em pé e a feição era séria e fria.
— Você vai assustar o menino — censurou a que tricotava — somos as Parcas. Sou Láquesis, esta aqui — disse olhando para a que estava fiando — é Cloto, e essa velha rabugenta em pé é a Átropos. Você está aqui por que... bem... por que ele está aqui mesmo?
— Para nos explicar — Átropos tirou de dentro de seu manto uma tesoura enferrujada e grosseira cujas pontas pareciam à Nico estarem terrivelmente gastas. A velha caminhou até Láquesis e pegou dela a meia que tricotava, tentou cortar o fio, mas não conseguia. O fio da tesoura se agarrava a ele, mas não o cortava. – qual o significado disso Nico Di Angelo?
– Talvez sua tesoura esteja cega – respondeu Nico, a probabilidade da morte o tornara audacioso ou simplesmente estúpido. Cloto e Láquesis gargalharam, mas Átropos o fulminou com o olhar.
– Acha o Destino engraçado? Acha que pode desafiar o Destino dessa maneira?
– Oh, por favor! Vocês sabiam disso, tem mesmo que dar um sermão no garoto, Átropos? – disse uma mulher que Nico não vira ali antes, estava vestida com um conjunto de couro vermelho, tinha uma feição séria e irada, os cabelos negros caíam-lhe enrolados até o pescoço.
— Nêmesis, que surpresa agradável — comentou Cloto.
— Surpresa — riu Láquesis junto da outra.
— Não preste muito à atenção nelas, quando se sabe de tudo o que está para acontecer acaba-se rindo de tudo que soe desdenhoso — disse Nêmesis para Nico — Algo o está impedindo de partir, elas lhe trouxeram aqui por que há algo que deve saber.
— Há alguns versos faltando da grande profecia que deixamos que fosse revelada — explicou Átropos.
— Mas antes precisamos saber de você Nico, lutará contra a morte? Pode ser doloroso... — indagou Nêmesis encarando-o com um olhar indecifrável.
— Ora, por favor, sabemos o que ele escolherá — censurou Láquesis.
— A sabedoria ao desistir da balança — começou Clotos.
— Erguer-se-á em busca de vingança — disse Nêmesis, que parecia ciente de tudo.
— A casca divergente é nascida do ensejo — continuou Láquesis.
— Vencido o fim com o poder de um desejo. — terminou Átropos — O que escolhe? Os Elísios ou a vida?
Nico hesitou por um momento, até ouvir a voz do filho de Poseidon gritar seu nome: Por favor, volte para mim, volte!
— E então? — instigou Nêmesis.
Dessa vez Nico não hesitou!
— Escolho Percy!
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