― IX ―
Nico
Intermináveis dois meses haviam se passado e a única coisa que Nico descobrira é que estava em algum lugar da Grã-Bretanha. Acostumara-se a se misturar nas sombras para ouvir a conversa das pessoas na tentativa de conseguir alguma informação útil para sua missão, mas nada relativamente útil aparecera para ele. As pessoas ali eram supersticiosas, contudo, nenhum boato sobre fadas surgira.
Nico não tinha o costume de pedir a ajuda dos deuses, mas naquela noite, deitado nos galhos de um enorme carvalho, ele desejou, sem proferir uma palavra sequer, que algo pudesse aparecer para guiá-lo de alguma forma. Fechou os olhos. Não queria dormir, mas havia a possibilidade de sonhar com alguma coisa útil. Ultimamente seus sonhos eram perturbadores, mas não como o usual. Sonhava sempre com Percy sem saber por quê, não sentia absolutamente nada pelo filho de Poseidon, nem raiva e nem afeto, nem ódio e nem amor. Por que deuses? Por que não me enviam algo útil ao invés desses sonhos sem sentido?
― Argh! Humanos estúpidos! Humanos maus! Humanos idiotas! ― murmurava alguém passando abaixo da árvore.
Nico tentou procurar quem estava murmurando aquilo, não era uma voz muito humana. Fez o possível para não fazer nenhum barulho até que avistou uma figura muito pequena, teria no máximo meio metro de altura, usava uma espécie de cartola verde-musgo combinando com o casaco e calças de mesma cor. Se fundindo as sombras o filho de Hades começou a seguir seja lá o que aquilo fosse.
Nas sombras Nico pôde ver de forma mais nítida a criaturinha, era um homenzinho ruivo cuja barba encobria toda a parte de baixo de sua cabeça (inclusive parte do pescoço), a calça ia até acima dos tornozelos deixando à mostra um par de meias brancas e um sapato de fivela muito bem engraxado. Deuses, não me digam que estou seguindo um duende!
O homenzinho pareceu perceber a presença de alguma coisa, ele carregava com muito cuidado uma bolsinha de couro cor de palha.
― O que está aí? Apareça! ― bradou segurando a bolsinha com as duas mãos ― Não tenho dinheiro, vá embora!
― Não se preocupe, não sou nenhuma ladrão! ― explicou Nico saindo das sombras ― Só quero conversar...
― Humano! ― gritou o homenzinho aparentemente assustado.
― Duende! ― revidou Nico.
― Não sou um duende! ― defendeu-se o pequenino.
― Então talvez eu não seja um humano! ― revidou novamente Nico.
― Se não é um humano então o que você é? ― inquiriu o homenzinho coçando a barba, havia pequenas rugas ao redor de seus olhos.
― O que você é? ― ralhou o filho de Hades já muito confuso com tudo aquilo e perturbado por estar discutindo com um possível anão de jardim que criou vida.
― Ora, sou um leprechaun! Não é óbvio?! Meu nome é Gwid, agora você me deve uma resposta! O que é você senão um humano estúpido?
― Ora, ― começou Nico com um olhar maldoso e um tom de astúcia na voz ― sou um fantasma, não é óbvio?! ― completou imitando o modo como respondeu o leprechaun.
― Bah! Mentiroso! Eu já vi muitos fantasmas e você não é assim tão pálido! Muito menos translúcido! Você mente! ― afirmou o homenzinho bastante convicto da fraude.
― Você não está entendendo meu bom leprechaun, ― disse Nico com uma voz sombria, porém suave ― isso é por que eu sou o Rei Fantasma! ― terminou convocando algumas sombras para se acumularem ao seu redor dando-lhe uma postura fantasmagórica e majestosa.
― Santa bota irlandesa! ― gritou o homenzinho ― Eu... eu... não fazia ideia vossa graça, em que posso ser útil? ― perguntou fazendo uma reverência desajeitada.
― Procuro a Rainha das Fadas!
― A... a.... a Rainha?! Tem certeza majestade? Ela pode... pode ser um pouco... difícil de lidar...
― Não importa! ― bradou Nico ― Diga-me como chegar até ela!
― É chegado o tempo, não é majestade? ― perguntou Gwid melancólico ― Os leprechauns servem e convivem com as fadas desde que o mundo é mundo, e sempre ouvia-se que, um dia, os deuses abandonariam nosso mundo; e aquele que imperava entre os mortos bateria em nossa porta como o arauto da Guerra Santa; e que quando esse momento chegasse o povo antigo deveria ajudá-lo pois ele é a chave para salvar-nos da perdição...
Nico não compreendia o que o homenzinho estava dizendo. Como posso tirar alguém da perdição se sou eu o mais perdido?
― Imploro que aceite este presente vossa graça ― disse Gwid procurando alguma coisa em sua bolsinha, Nico assombrou-se ao ver ele tirar um par de botas pretas de fivela muitas vezes maiores que a bolsinha. O filho de Hades aceitou o presente.
― Obrigado Gwid, mas você ainda não me disse como chegar até a Rainha...
O leprechaun gargalhou, mas logo ficou sério, provavelmente lembrou-se que estava na presença de um rei.
― Sinto muito majestade, mas eu já lhe dei a resposta. Essas botas vão levá-lo seja lá onde seu coração mandar, mas lembre-se! O coração ás vezes pode ser um péssimo guia!
E com uma mesura e uma gargalhada o leprechaun desapareceu da vista do filho de Hades em um piscar de olhos.
― Onde meu coração mandar? ― refletiu Nico analisando as belas botas ― Realmente estou farto dessa conversa idiota, os deuses são testemunhas de que não sou capaz de amar! De qualquer forma não custa nada tentar... ― então as botas dissolveram-se em sombras e fundiram-se em seus pés (Nico aprendera esse truque poucos dias depois da conversa com Hel e Hécate) ― Muito bem! Levem-me até a Rainha das Fadas!
Uma vontade incontrolável de correr veio até o filho de Hades e este disparou para leste rápido como um felino, a adrenalina preenchendo o vazio incômodo em seu peito. Nico ria alto, nunca sentira-se tão... feliz?!
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