Pernico - Love is a Long Road
10 Nico
― X ―
Nico
Não demorou muito e as botas levaram Nico até as ruínas de alguma igreja, não havia pessoas por perto àquela hora da manhã, o sol ainda não nascera e o céu tinha uma tonalidade marcante de violeta. A terra por ali era plana, com exceção das ruínas que estavam bem alto numa espécie de monte. Nico nunca vira algo parecido, achou um lugar para descansar sob uma árvore e descansou por um tempo.
As botas me trouxeram até aqui, mas não vejo nada digno de uma rainha. Se aquele anãozinho verde me enganou eu juro que me vingarei!
― Está perdido rapazinho? ― perguntou uma voz feminina carregada pela idade. Nico abriu os olhos e viu uma senhora escura e pequena com flores coloridas nos cabelos grisalhos, vestia uma longa túnica escura de lã não tingida que parecia feita à mão, carregava uma cesta de palha trançada ― Está com fome? Está quase na hora do sol nascer e faz tanto tempo que eu não tenho companhia...
Nico estava atônito, não vira nem sentira a velha se aproximar. Ele se levantou e ficou surpreso em perceber que tinham a mesma altura e os olhos da mulher eram tão negros como os dele.
― Ahn... Eu... não...
― Ora vamos, moro naquela floresta vê? ― disse a velha apontando para um amontoado de árvores que Nico não vira antes ― Não é longe daqui e você parece estar viajando há muito tempo, uma parada não vai matá-lo, não é mesmo? ― sorriu a velha que parecia ainda ter todos os dentes.
― Tudo... tudo bem... eu acho ― respondeu Nico meio sem jeito. Deveria desconfiar daquela senhora tão simpática? Com certeza...
― Belas botas ― comentou ela enquanto se dirigiam à floresta.
― Ahn... Obrigado, você... você mora aqui há muito tempo.
― Se eu contar o tempo posso morrer... ― respondeu a velha meio melancólica, Nico não entendeu e não achou que seria educado perguntar ― Ora, não fique assim tão assustado, pode me perguntar o que quiser, sempre! ― completou ela respondendo aos pensamentos do filho de Hades ― A propósito, qual o seu nome pequenino?
Você é tão pequena quanto eu!
― Me chamo Nico, Nico Di Angelo ― respondeu depois de um tempo, a essa altura já haviam adentrado a floresta que parecia se espessar à medida que entravam mais nela, a luz do dia já passava pela copa das árvores.
― Prazer em conhecê-lo Di Angelo ― disse a velha olhando de soslaio para o filho de Hades. Nico quis perguntar-lhe o nome, mas ela parou de repente mirando algo no meio da floresta. Seguindo o foco da velha Nico viu uma espécie de canoa atracada na vegetação ― Chegamos! ― anunciou a velha sorrindo e indo até a canoa. Nico a acompanhou um pouco receoso.
― Ahn... Você mora aqui? ― perguntou com cuidado para não magoar a velha que só podia estar caduca.
― Você vê o que quer ver pequenino, dê mais uma boa olhada, sim?! ― devolveu a velha.
Nico fechou os olhos e tentou ver além do que seus olhos viam e se xingou mentalmente por fazer o que a velha caduca dizia para fazer, mas de repente ele pôde ver uma nascente que não estava ali antes e não tardou viu aquela mesma canoa balançando trêmula sobre as ondas calmas de um lago. E isso era tudo, o que estava à frente estava imerso em brumas.
― Vamos agora? ― perguntou a mulher estendendo-lhe uma mão para guia-lo, Nico deu a mão e seguiu a velha.
Quando subiram na canoa Nico ainda estava tonto de fascínio, nunca ouvira nada sobre as coisas que viu nas últimas semanas e agora estava numa canoa com uma velha estranha no meio de lugar nenhum. A canoa parecia ainda maior depois de se subir nela e a velha ia em pé na proa, a canoa se movia sozinha em meio as brumas e Nico não conseguia ver nada além delas. A mulher levantou os braços em direção ao céu, murmurou algumas coisas que não Nico não ouviu bem o suficiente para entender e então, ao abaixar os braços, as brumas começaram a recuar. O filho de Hades pôde contemplar uma ilha ao longe, atracaram e Nico ficou fascinado com a beleza das macieiras que rodeavam as margens, aves-aquáticas nadavam ali perto, uma figura encapuzada vestida com um profundo manto negro se aproximou.
― Daqui em diante não é permitido levar armas criança, por favor entregue sua espada para Mila, ela a guardará para você.
Nico ficou ainda mais pálido do que já era, aprendera a esconder sua espada de ferro estígio nas sombras para não despertar a curiosidade das pessoas que investigava sorrateiro em busca de alguma informação que poderia ajudá-lo na missão. Ela sabia que eu a carregava esse tempo todo, como é possível? Nico estendeu a mão para a figura encapuzada e sombras se formaram revelando a espada.
― Não é qualquer um que pode segurá-la, é perigoso! ― advertiu Nico, mas a mulher deu um sorriso de canto e disse:
― Não se preocupe, não é como se Mila estivesse viva.
Foi então que Nico percebeu que o manto escondia um esqueleto.
― Está em casa irmão ― completou a velha ― agora venha!
Subiram por uma escadaria de pedra até o interior do enorme templo que era a ilha, havia estátuas de pedra colossais por todo o lugar, todas de mulheres. Não mulheres, mas sim deusas, refletiu Nico.
Chegaram até um salão, deviam estar na parte mais alta do templo pelo tanto que andaram e o filho de Hades novamente ficou maravilhado com o lugar. Esqueletos em mantos escuros iam e vinham por toda a parte, havia um círculo de pedras no centro do salão contornando uma enorme mesa redonda de madeira e um trono moldado num grande carvalho cujas folhas eram de um verde incrivelmente vivo.
― Bem-vindo à Avalon irmão! Por favor sente-se ― falou a velha apontando para uma das cadeiras da grande mesa, havia tanta comida em cima dela que era um verdadeiro banquete!
A mulher também se sentou e mais esqueletos traziam água e sucos, havia vários tipos diferentes de frutas e estavam tão frescas e bonitas que mesmo Nico não gostando muito de uma dieta natural devorou várias delas. Depois de muitos pãezinhos, bolos de aveia e um frango inteiro banhado em mel Nico estava realmente satisfeito, a mulher contudo mal tocou na comida.
― Está satisfeito irmão? ― perguntou ela.
― Sim, muito! Obrigado senhora...
― Então vamos, há um lugar que quero te mostrar.
Eles passaram por uma passagem atrás do trono e desceram uma escadaria em caracol que levava até uma espécie de templo dentro do templo, todo em volto em pedra branca. Havia uma espécie de poço no centro, e uma água incrivelmente cristalina contornava-o, havia quatro estátuas de deusas ali, maiores e de traços mais refinados.
― As quatro faces da Deusa, ― explicou a velha ― tire os sapatos pequeno, está andando em solo sagrado!
Nico lembrou de algo que Hel lhe dissera quando se encontraram pela primeira vez. Sou a face escura da Deusa...
― É lindo... mas não entendo senhora, por que me trouxe aqui?
― Eu precisava ter certeza! Certeza de que você é o certo! ― respondeu ela com um brilho assustador no olhar.
― Não faço ideia do que você está falando, e a senhora ainda não me disse quem é! ― tornou Nico agora um pouco mais firme.
― Você não perguntou, perguntou?
A velha foi até o centro do lugar, se apoiando e olhando dentro do poço.
― Já me chamaram de muitas coisas irmão, meu nome é Morgana, Morgana das Fadas, Senhora do Lago, Filha de Hades, A Imagem da Deusa para o Povo Antigo, sou a Rainha que procurava.
Nico encarou Morgana por um tempo, não esperava que a Rainha das Fadas fosse uma senhora de idade com uma aparência tão... humana?
― Você sabia que eu vinha, você disse que é filha de Hades, por isso me chama de irmão?
― Sim pequenino, e agora que você veio até mim farei de você o novo Merlin, o Escolhido dos Deuses, Mestre dos Bardos, Guardião do Povo Místico! ― disse Morgana com aquele brilho de novo no olhar.
― Você não perguntou se eu quero ser tudo isso! ― tornou Nico ― Vim em busca de respostas!
Então lembrou do que o oráculo lhe dissera: Uma escolha farás ante a fada de poderosa magia; em teu sangue também corre grande sabedoria...
― Tem razão irmão, não posso obrigá-lo a nada, mas o poder que há em você o matará quando despertar e eu sou a única que sabe como guiá-lo e prepará-lo!
A voz de Hel voltou a assombrar a mente do filho de Hades: Dia chegará em que serás feliz, se conseguires entender e controlar o poder que há em ti!
― Não há muito tempo meu irmão, uma terrível guerra está se aproximando e... ― Morgana foi interrompida por uma luz azul que surgia do poço ― interessante... Parece que você se esqueceu de algo importante irmão! Não há nada que eu preze mais que um casamento realizado à vista dos deuses e você foi convidado para ser o padrinho de um, uma testemunha honorária! Então que seja, você tem até a meia-noite de amanhã para fazer sua escolha! ― advertiu Morgana ― Essas botas são boas, mas posso melhorá-las! ― disse apontando para as botas encantadas que Nico descalçara para ficar ali diante das quatro estátuas.
Uma sombra saiu do poço e avançou até as botas, uma crescente azul-marinho foi gravada acima da última fivela de cada uma, tão escura que era quase imperceptível.
― Pise forte três vezes com a esquerda para ir aonde quiser pelas sombras, use para ir até o acampamento e três vezes com a direita para voltar aqui. Assim saberei que ouviu a razão e o treinarei para ser o novo Merlin, mas caso contrário... Amanhã a meia-noite a magia irá se desfazer e se você não voltar até lá saberei que nos abandonou irmão...
― Não preciso das botas para viajar pelas sombras! Posso voltar sem elas! ― contestou Nico, mas Morgana riu e respondeu:
― As botas o levarão sem gastar energia e nunca chegará em Avalon por conta própria irmão, só eu posso trazê-lo de volta e foi a última vez que pude sair desta ilha, uma vez mais e morrerei, as botas são a única forma de você voltar, e a magia acaba a meia-noite não se esqueça!
Nico não se lembrava de ser convidado para ser padrinho de um casamento, não sabia nem quem estava casando, talvez fosse Jason, tinham algum tipo de amizade, não? O filho de Hades calçou as botas e pisou forte três vezes com a esquerda no chão. Sombras surgiram e em um piscar de olhos estava no chalé treze, um lembrete de Morgana pareceu segui-lo e ressoou em sua mente com a voz da irmã:
Não nos abandone irmão...
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