Pernico - Love is a Long Road
35 Nico
– XXII –
Nico
Convocou as sombras antes que Percy usasse Excalibur para transportá-los. Entrar no Mundo Inferior com pessoas vivas já era chamativo o bastante, não precisava anunciar sua chegada com um portal surgindo do nada!
Desde o encontro com Zelenna, o filho de Hades sabia que estava condenado. Um de vós à guerra não suportará; Teu desvelo o arrasará; pela própria força cairá!, a profecia da quarta face era perfeitamente entendível para ele. Precisava ser forte, não podia deixar Percy descobrir.
As sombras os deixaram no alto de um monte rochoso e sem vida, acima deles pairava somente escuridão. Nico seguia na frente, guiando Percy e Thalia pelo caminho sinuoso, sempre alertando: “cuidado; não façam barulho; escondam-se”, e coisas assim.
Nico trajava a cota de malha preta dada por Leo, que lhe assegurara de que era impenetrável. Percy usava o bracelete, porém não o transformara em escudo desde que chegaram, e Thalia empunhava seu antigo arco, deixando o que Leo lhe dera junto das flechas de prata na aljava.
O monte onde chegaram estava agora muito distante, caminhavam por uma planície seca, cujo solo rochoso, repleto de erosões, formava trilhas das mais traiçoeiras. Era um momento ruim, qualquer um os veria ali. Não havia para onde se esconder em campo aberto!
Nico tentava prestar à atenção em todos os detalhes possíveis, qualquer rastro de Éris seria um sinal de que estavam no caminho certo.
Por segurança, mesmo os filhos de Hades que sabiam instintivamente como se orientar no Mundo Inferior não podiam sentir o caminho que levava até a prisão de Érebo. Nico, então, seguia em direção ao único lugar que não conseguia sentir ali nos domínios de seu pai.
O caminho os levou até uma floresta petrificada de troncos espinhosos e negros. À medida que adentravam mais e mais naquela floresta sombria mais a escuridão se condensava.
– Não consigo ver nada – reclamou Thalia.
– Estamos perto, – rebateu Nico – muito perto.
O chão era duro demais para encontrarem uma pegada ou coisa do tipo. Éris não deixaria rastro algum, Zelenna no entanto exalava um cheiro sombrio de morte sem igual! Nico podia senti-lo, chamando-o cada vez mais.
Perto do fim daquela floresta Nico ouviu o som de água corrente, e pôde sentir que Percy ficara mais aliviado.
Quando finalmente saíram daquele lugar, foram surpreendidos por um rio correndo violento.
– Cuidado! – alertou Nico – É o Aqueronte!
– Como vamos passar? – inquiriu Thalia.
– Não vamos. – Respondeu Nico. – Percy, entregue-me o carvão que Leo lhe deu.
Percy tirou da mochila a bolsinha que guardava o carvão gerado pelo fogo da vida do Frank. Nico apanhou o objeto, murmurou uma prece, e deixou-o cair no rio. Num primeiro momento nada aconteceu, Thalia e Percy chegaram mais perto para ver melhor. Quando os três filhos dos Três Grandes estavam muito perto do rio um brilho laranja fulgurou e caudas de chamas debatiam-se em desarmonia, os três foram pegos por elas e arrastados para dentro do rio.
Sequer se molharam. O carvão gerado pela vida, ao cair no rio dos mortos, criou um portal para a prisão de Érebo. Os três estavam caídos, Nico foi o primeiro a se levantar e voltar à consciência.
Tudo à sua volta era rochoso e cinza, caminhos sinuosos por colinas fantasmas, dançando em volta de um abismo tão profundo que não não era possível ver o fim. Thalia e Percy continuavam desacordados. Foi quando Nico viu o pequeno recado deixado por Éris. Perto de onde apareceram havia um garoto loiro preso à uma estaca de madeira, suas mãos e pés estavam amarrados, seu peito nu, e seus olhos abertos. Nico se aproximou e percebeu que o garoto estava morto, os olhos cinzentos estavam sem brilho; a pele estava pálida, porém um pouco quente, o que significava que ele havia sido morto há pouco tempo; havia um corte profundo em sua garganta, de onde escorria muito sangue.
Por que usar um pedaço de carvão, – dizia uma voz masculina cansada – quando se pode matar um inocente?
– Quem está aí? – disparou Nico invocando sua espada de ferro estígio, porém as trevas naquele lugar começaram a sugar a energia da lâmina. O filho de Hades foi desarmado e sua espada, antes negra como ônix, caiu cinza no chão áspero. A voz riu com o pavor estampado nos olhos do moreno:
Seja mais cuidadoso! As trevas podem ser muito... ciumentas...
– Apareça covarde! – ululou Nico invocando dessa vez sua lira. Por alguma razão sentiu-se esgotado, cansado demais para sequer ficar de pé. Caiu de joelhos respirando pesadamente.
Um par de sapatos pretos com solas de madeira surgiram em sua frente acompanhados de uma bengala toda corroída por cupins. Nico tentava ver quem era, mas o simples fato de erguer um pouco a cabeça tornou-se um trabalho árduo. À medida que se punha de pé podia ver mais e mais aquele em sua frente. As calças cinzas e desbotadas foram provavelmente pretas um dia, pareciam terem sido entregues às traças séculos atrás. Vestia, também, um paletó branco encardido e empoeirado sob uma camisa social com manchas escuras de vinho. Nico então contemplou a face do homem: era velho, provavelmente fora alto um dia, mas agora estava tão corcunda que Nico podia encará-lo de frente; os cabelos grisalhos eram muito ralos e faltavam por toda a cabeça; era banguela e cheio de rugas; o nariz adunco trazia uma verruga na ponta; os olhos eram heterocrômicos e muito desiguais em contrastes com olheiras ainda piores que as de Nico; e suas orelhas eram inchadas e pequenas.
– Sabe, meu jovem... Você... você devia evitar a fadiga...! – aconselhou o velho entre engasgos diante da situação em que se encontrava o filho de Hades. Nico mal podia se aguentar de pé, parecia carregar o peso do firmamento em suas costas.
– Quem... Quem é você...?
– Ponos – respondeu o velho secamente.
– Deixe-me adivinhar, – desdenhou Nico à despeito de sua situação – outro filho de Éris.
O velho sentou-se no chão e fez um aceno de concórdia. Nico não podia negar que estava aterrorizado, estava fraco e exausto, e nem Percy, nem Thalia, haviam acordado. Não havia como o filho de Hades enfrentar uma divindade, naquele estado.
– Minha mãe ordenou-me que ficasse de olho e os impedisse se chegasse a hora. – Explicou Ponos. – Veja bem, não preciso sequer lutar. Minha presença, como pode perceber, é... nocauteante! – Terminou com um sorriso desdentado.
– Então é isso?! – Indagou Nico. – Vai simplesmente ficar sentado e fazer com que fiquemos cansados demais para lutar? Enquanto sua mãe liberta Érebo?
– Na verdade eu tenho outros planos, – refutou o velho – eu só aceitei participar disso porque eu... eu sou seu fã Nico di Angelo...
De todas as coisas que passaram pela cabeça de Nico, aquela era provavelmente a última em que ele poderia pensar. Um dos filhos de Éris, seu fã!
– Uau... ahn... – Nico perdera todas as palavras – Eu estou um pouco confuso aqui...
– Eu sou o Deus do Trabalho Pesado, da Fadiga, da Exaustão. E você Nico... você seria provavelmente o meu melhor substituto, mas o Deus do Esforço Árduo não pode se dar ao luxo da aposentadoria, não é mesmo?
– Obrigado... eu acho... – tentou agradecer Nico, respirar estava difícil, seus joelhos estavam matando-o de dor – Eu ainda não entendo...
– Eu vim dar-lhe um aviso. Se você continuar, vai morrer! Eu acompanhei de longe à sua luta, ao seu esforço para manter à salvo aquele ali – Ponos apontava para Percy desmaiado ao lado de Thalia – Não deixe que tudo tenha sido em vão...
– Não posso deixar Éris destruir o mundo! – contrariou Nico arfando.
– Dane-se o mundo! Aproveite o tempo que ainda lhe resta, que ainda lhes restam! Você trabalhou arduamente, di Angelo! Merece um final feliz...
Final feliz..., as palavras ecoavam em sua mente. A possibilidade era, sem dúvidas, tentadora...
– Obrigado Ponos, mas... finais felizes existem somente em contos de fadas... – voltou Nico à realidade.
O velho sorriu cansado, levantou-se com pesar e de forma desajeitada.
– Bom, talvez você devesse ser o seu próprio conto de fadas... – aconselhou Ponos limpando o rosto com um lenço que tirou do bolso do paletó – Tenha uma morte indolor e heroica meu jovem! – Desejou-lhe o deus desvaindo-se em poeira.
Todo o cansaço e fadiga abandonaram Nico quando Ponos desapareceu. Até Percy e Thalia acordaram.
– Deuses! – assustou-se Thalia ao ver o corpo do garoto loiro preso na estaca.
– Eu o conheço... – Percy encarava a face do morto, perplexo. – É um filho de Atena, chegou no acampamento há pouco tempo...
– Éris o usou como sacrifício para chegar até aqui. – Explicou Nico.
– Isso é terrível! – Comentou Thalia virando o rosto para não encarar o corpo.
– Temos que ir – disse Nico.
– Não podemos simplesmente deixá-lo aqui assim! – protestou Percy.
– Não temos tempo para fazer um funeral, Éris deve estar libertando Érebo agora mesmo! – censurou Nico, mas Percy já desamarrava as cordas que prendiam os membros do garoto. Deixaram o corpo dele deitado e escondido entre as pedras, só então partiram.
Em determinado momento Thalia ia um pouco atrás para proteger a retaguarda, Percy então se aproximou mais de Nico.
– O que está acontecendo com você? – perguntou ele num sussurro.
– Como assim? – rebateu Nico.
– Desde que Zelenna foi libertada você tem ficado mais distante, frio, desumano... O que é que está acontecendo?
– O fim do mundo é o que está acontecendo, Percy!
– Vê? É disso que eu estou falando!
– Algum problema aí rapazes? – indagou Thalia, aparentemente os sussurros haviam se tornado um pouco altos demais.
Um silêncio incômodo se instaurou desde então, só quebrado pelos estrondos que ecoavam perto da entrada de uma grande caverna. Eles entraram e tudo ficou ainda mais escuro, nem mesmo Nico conseguia ver alguma coisa.
– Deem-me suas mãos! – disse ele. O filho de Hades concentrou-se o melhor que pôde para invocar a Visão, só assim ele poderia guiá-los por aquele lugar terrível. Túneis se formavam por toda a parte num verdadeiro labirinto! Abismos escondidos levariam muito bem ao Tártaro quem neles caíssem! A atmosfera era carregada de sentimentos ruins como ódio, frustração, rancor, tristeza, mágoa, decepção...
– Tem mesmo certeza de onde está indo Nico? – indagou Thalia cansada.
– Infelizmente eu tenho! – rebateu Nico, podia sentir Zelenna cada vez mais próxima. – Agora, por favor. Façam silênci...
O chão abriu-se e os três despencaram em um salão de pedra negra iluminado por archotes, e ali estavam Éris e Zelenna diante de um grande casulo negro, acompanhadas de mais doze divindades das mais variadas aparências. Todos filhos da Discórdia.
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