– XXIII –

Nico

Os filhos de Éris imediatamente os cercaram, haviam três para cada um dos semideuses. Felizmente, a pequena queda não causou-lhes algum ferimento grave. Percy ativou seu novo escudo e Thalia o Aegis, fazendo alguns inimigos recuarem. Nico invocou sua lira pelas sombras, com tantos inimigos ele com certeza precisaria usar a magia e, como sabia que essa seria a sua última missão, ele não pensaria nas consequências contra si.

– Chegaram tarde. – Lembrou indiferente uma voz feminina rouca, era Éris de costas para eles. – Filhos meus, livrem-se deles!

Ao comando de Éris alguns sacaram armas de guerra, enquanto outros pareciam se preparar para algum outro tipo de ataque, mas cada um deles transmitia uma sensação diferente e ruim, e todas elas eram familiares ao filho de Hades:

Dez deles eram divindades femininas: uma delas carregava um lenço azul e tinha o rosto inchado pelo excesso de choro; outra encarava o teto como se não estivesse ali; haviam duas idênticas com cabelos metade azul e metade rosa, que discutiam entre si indiferentes à batalha; uma tinha o cabelo rubro, os olhos carmesim, e suas mãos eram como garras de onde pingavam um líquido vermelho espesso que era provavelmente sangue, sua expressão carregada indicava dor e sofrimento; uma tinha a pele como rocha, em tons de cinza e areia, esta possuía quatro braços e era grande, muito grande, até seus movimentos mais singelos pareciam capazes de provocar um desastre; uma, ao contrário da irmã, era pequena, franzina e, embora parecesse jovem, faltavam-lhe muitos fios de cabelo e os que tinha eram grisalhos e ressecados, ela segurava com força um punhal simples; ao lado, mais escondida, havia uma que se parecia com uma executiva, usava óculos e um terno preto risca de giz, seus olhos negros estavam constantemente em movimento como se analisasse cada detalhe de tudo e todos; uma tinha as pernas curtas em comparação ao seu corpo, seu andar era desajeitado; a última parecia um homem, seus traços eram grosseiros e era a única das “garotas” de Éris ali que parecia saber bem como manejar uma lâmina afiada; haviam também dois homens, um estava vestido de armadura, seu rosto era escondido por um elmo fechado, diferente do seu irmão que vestia uma túnica e tinha asas cinzentas que pareciam feitas de metal, além de afiadas como navalha. Pelo o que Nico sabia, esse era Horcus, responsável pelo ataque ao acampamento, que quebrou o juramento de Afrodite por Percy ter sido ferido no processo...

Os três semideuses se prepararam para o confronto, mas quando os filhos de Éris avançaram uma explosão os interceptou. Uma fumaça branca e espessa apoderou-se do lugar. Nico conseguia ver alguns feixes de luz verde sempre seguidos por sons de explosão. Percy segurava sua mão de um lado e Thalia tossia do outro. Nico sabia o que tinha de fazer, então puxou o filho de Poseidon uma última vez para mais perto de si e o beijou. Percy não podia saber, é claro, mas Nico sabia, sabia que aquele era o último beijo, o selar final de sua despedida!

– Por favor Percy, não faça nada irresponsável – pediu Nico se afastando, Percy foi pêgo de surpresa pois ficou sem palavras.

Nico correu até Zelenna, guiando-se pelas vibrações no chão. Quem quer que tenha causado a explosão veio em reforço, eram amigos, e isso deixava Nico mais tranquilo. Desviou de uma lâmina e outra, uma explosão quase o pegou, mas chegou até o centro do salão. Éris encantava o casulo negro na tentativa de libertar Érebo!

Zelenna viu sua aproximação e tentou contra-atacar, mas Nico foi mais rápido! Interceptou o golpe da fada e, não mais temendo as consequências de usar a magia inconscientemente, ele subjugou as sombras ao redor levando-se junto com Zelenna para outro lugar, longe dali, longe de qualquer lugar.

Aterrissaram bruscamente em lugar nenhum, por onde quer que olhasse só via trevas, nem mesmo o chão era visível. A única exceção àquele breu era Zelenna, sua aura de morte a tornava completamente visível ao filho de Hades.

– Onde você nos trouxe, Merlin? – perguntou a fada.

Nico não podia responder à essa pergunta, ele mesmo não o sabia. Não estava pensando muito ou se importando, afinal, se tinha de morrer então que levasse consigo, também, a Fada da Morte!

– Estamos longe Zelenna, muito longe! – respondeu por fim.

– Por que nos trouxe para cá? Por que tentar atrasar o inevitável? – Zelenna esperou uma resposta do filho de Hades, mas sem ela, continuou: – Érebo será libertado, não há nada que você ou seus amigos, mesmo aquele que brande a Lâmina dos Deuses, possam fazer à respeito!

– Está enganada! – rebateu Nico cansado de tais delongas – Eu trouxe você até este lugar porque aqui será o nosso túmulo!

– Então sabe que morrerá! – um sorriso fatídico surgiu nos lábios da fada – Ora, pelo menos o Merlin ainda é sábio!

Nico perdera sua espada de ferro estígio para as trevas quando encontrou-se com Ponos, sua lira era a sua única arma, com seu arsenal de réquiens mortais que pouco poderiam ajudar, afinal, Zelenna era a própria morte!

– Muito bem! – bradou a fada – Se quer um duelo singular, então que seja! Vamos ver se você foi bem treinado, criança! Primeiro é preciso uma reverência...

Nico sentiu uma força monstruosa paralisando cada nervo de seu corpo, e em seguida essa mesma força o obrigou a se curvar levemente em cumprimento.

– Isso! Isso! – Zelenna movimentava-se inquieta – Sabe o que vem depois da reverência? – indagou insidiosamente.

Nico livrou-se do encanto, mas a fada já estava bem preparada! Suas asas espectrais fulgiam num nefasto tom de violeta. A atmosfera do lugar ficou pesada e Nico sentia-se chamado para morrer. Plumas afiadas foram disparadas das asas da fada, não havia tempo para tentar desviar, não era sequer possível cogitar fazê-lo, Nico sabia bem disso! Manteve-se firme e conjurou um escudo mágico que brilhou dourado a cada impacto. Nico não pôde mantê-lo até o fim e a última pluma lançada por Zelenna quebrou o escudo mágico e atingiu Nico acima do coração. A dor era excruciante, mas Nico resistiu. Não se renderia até matar sua inimiga.

O simples ato de se manter de pé tornou-se um tormento. A pluma mágica, agora em seu peito, queimava como brasa. Zelenna aproximou-se à passos lentos invocando Däeth, sua arma sagrada, conhecida pelos antigos como a Foice da Morte. Era uma arma funesta, a lâmina da foice era mais escura do que a antiga espada estígia de Nico jamais foi. Uma energia sombria emanava da arma. O cabo de ossos era denso e carregado de puro poder malévolo.

A fada segurou com força o queixo do filho de Hades, encarou-o fixamente por tormentosos segundos de agonia, e, por fim, Nico já estava talvez delirando, pois ouviu a fada dizendo:

– Não é do meu feitio assassinar o sangue do meu sangue.

O filho de Hades contorcia-se de dor. A pluma que perfurou-lhe ardia cada vez mais, sua mácula parecia espalhar-se pelo seu corpo e, como havia se alojado bem próxima do coração, era certo que Nico não viveria por muito tempo. Zelenna, no entanto, não pretendia encurtar seu martírio. Levantou a foice e ao invés de desferir o golpe de misericórdia ela a usou para arranhar e furar o garoto. Cada arranhão causado pela Däeth infligia uma dor pior do as provocadas nos Campos da Punição, juntas!

– Vamos! – instigou a fada – Não iria me matar?! O que está esperando?!

Ela não parava! Arranhava-o, perfurava-o, zombava dele, divertia-se mais e mais a cada grito angustiante que Nico não suportava conter. Demorou, demorou e muito, até que ele finalmente começou a perder a consciência e ter suas últimas visões antes de cair nos braços do sono eterno.

Estava em um campo florido, o céu estava nublado, e uma chuva leve caía ao ritmo da brisa suave a tocar sua melodia final. Uma mulher vinha ao longe em sua direção, a túnica grega branca agitando-se ao compasso fúnebre da sinfonia da morte. Os cabelos muito negros, mais escuros do que os de Nico, ou de Éris, ou, talvez, até mais escuros do que os de Zelenna. A mulher estava agora muito perto e Nico podia vê-la ainda melhor, era linda, sem dúvidas. A pele alva como a de um cadáver, porém jovem e aparentemente saudável e lisa. Os olhos cor de âmbar reluzentes em contraste com o mar de jasmins, narcisos e margaridas que cobriam toda a terra daquele lugar. Seus lábios eram vermelhos, vermelhos como se todo o sangue de seu corpo estivesse condensado de alguma forma em perfeito alinhamento ao redor de sua boca. Ela trazia consigo um cordão de prata com algumas pérolas.

– Rezei aos deuses para que nunca chegasse o dia em que eu teria que ceifar a vida do meu irmão – lamentou a mulher com muito pesar em sua voz doce e serena, como o sussurro do vazio eterno.

– Quem... quem é você? – perguntou Nico estonteado com sua visão – Onde estamos?

– Sou a verdadeira herdeira do Mundo Inferior, sou Macária, filha legítima da união entre Hades e Perséfone, sou a Deusa da Boa Morte, e nós, meu irmão, estamos no limbo da sua mente.

– Não entendo...

– Vim trazer-lhe o abraço do sono eterno. Aceite e viverá aqui para sempre, sem mais sofrimentos, sem mais ilusões, sem mais maldições e... sem mais paixões...

Nico estava realmente tentado a desistir, mas não podia deixar Érebo ser libertado, tudo teria sido em vão se isso acontecesse! A voz de Macária porém parecia encantada, era suave e dizia tudo o que poderia convencer o filho de Hades a aceitar a morte.

– Ainda não é chegada a hora, meu irmão! – gritou uma voz feminina vinda de trás. Nico virou-se e contemplou Morgana sorrindo para ele. – Ainda não é a hora...

– Ela tem razão Nico – disse outra voz.

– Bianca... – sussurrou Nico num soluço ao ver sua irmã vestida com o uniforme das caçadoras.

– Senhor, a hora de lutar é agora. – Aconselhou Bob, o titã que havia se tornado um verdadeiro amigo para ele.

Todos os seus fantasmas estavam aparecendo em todas as direções, dizendo a mesma coisa: Não desista.

Por último ele viu a face da Deusa. A face da Mãe. Era Maria di Angelo, olhando-o com um sorriso de orgulho. Ela lhe sussurrou:

– Meu soldatino, deve lutar!

Nico fechou os olhos tentando em vão conter suas lágrimas. Uma luz branca e acolhedora resplandecia acima dele, e a voz da Deusa ecoou:

Abra tuas asas, tu que és alado!

O filho de Hades sentiu algo rasgar suas costas com violência, mas a dor foi para ele um deleite à medida que trazia à tona toda a sua força. Asas espectrais, brancas como mármore polido, irromperam de suas costas.

Abriu os olhos e viu Zelenna naquele lugar escuro agora iluminado pela luminescência de suas asas. Nico sorriu para ela, sussurrando:

– Parece que é chegada a hora... de matar a Morte...