Notas iniciais
Tem alguém lendo? UHAUSHUHAS

– XVIII –

Nico

– Todos vocês, saiam do templo agora! – bradou Nico assim que a terra começou a tremer, empunhando sua espada de ferro estígio virou-se na direção da escadaria mais próxima, Percy fez menção em segui-lo, mas o filho de Hades o interceptou: – Você também Percy, não é seguro!

– E você acha que eu o deixarei correr perigo enquanto fujo? Nem em um milhão de éons, di Angelo! – rebateu Percy.

– Também não fugirei! – protestou Elüho.

– Vocês não entendem! – censurou Nico desvincilhando-se do filho de Poseidon. Convocou as sombras e por elas foi engolido aparecendo nas antigas catacumbas da Ilha Sagrada, tão distantes no subterrâneo que só um filho de Hades poderia sobreviver com tão pouco oxigênio e com tanta escuridão. Deixou-se guiar por seus instintos, sentindo a energia pulsante vinda do coração daquele lugar.

Depois de correr incessantemente por túneis estreitos e sinuosos chegou até a beira de um abismo profundo cercado por cristais verdes que emitiam uma luz fantasmagórica e fluorecente. Magma puro circundava um verdadeiro palácio de ônix no centro, com gárgulas desfiguradas pelo tempo e pelo calor, como sentinelas do lugar. Nico sentia na alma o poder contido naquele lugar, sentia sua energia ser sugada e sentia a atmosfera de morte tal qual nunca havia presenciado antes. O teto de terra ficava tão alto que era impossível fitá-lo, uma única ponte rachada de pedra ligava o palácio a beira do grande abismo que o circundava. Nico correu e chegando até ela viu talhado na pedra os dizeres que começavam do lado esquerdo e terminavam do lado direito, nas antigas runas das fadas:

“Vós que vindes, abandonai a esperança!
Levai à imperatriz a nefasta lembrança!”

Nico sentiu um novo tremor e não hesitou. Mesmo sabendo que sua vida estaria condenada ao primeiro passo naquela ponte. Sabia que jamais voltaria e sabia que tudo acabaria ao final do dia. Se eu demorar Percy com certeza... Percy... Foi bom ter lhe conhecido cabeça de alga...

Assim o primeiro passo foi dado. Abandonando toda a esperança de retorno e sem sequer olhar para trás o filho de Hades correu atravessando a ponte para chegar ao palácio onde Zelenna estava presa. A ponte ameaçava ceder incessantemente, por duas vezes Nico quase caiu.

Finalmente chegou à entrada do palácio. Duas estátuas de figuras demoníacas empunhando uma lança cada uma guardavam as portas duplas douradas. Nico se aproximou com pressa e as lanças desceram impedindo o seu progresso. Como autômatos as estátuas ganharam vida e avançaram contra ele. Nico desviou da primeira lança, mas foi atingido de raspão pela segunda. Defendia-se sentindo sua energia se esvair a cada golpe, podia sentir o calor vindo do lago de lava lá embaixo. As estátuas pareciam forçá-lo a recuar cada vez mais para assim fazê-lo despencar para a morte. Não conseguiria invocar seu exército de esqueletos ali, e não podia arriscar algum feitiço!

As estátuas avançaram novamente com as lanças esticadas prontas para acertar o filho de Hades em cheio, Nico bateu sua bota esquerda três vezes e no momento certo desapareceu nas sombras, as estátuas passaram direto e caíram no lago flamejante, uma acertou Nico no ombro antes de cair, o filho de Hades estava sendo enfraquecido pelos antigos encantamentos projetados naquele lugar e por isso apareceu muito rápido e muito perto de onde sumira. Mas não deixou-se abater e adentrou no palácio.

Vasos imensos crepitavam o fogo das fadas, chamas azuis que não emitiam calor ou queimavam, serviam simplesmente para iluminar. O salão de entrada era imenso e uma brisa fria corria pelas paredes de jade. No centro havia um estrado onde duas mulheres estavam posicionadas em volta de uma espécie de casulo de cristal, lilás e colossal cujo brilho oscilava acompanhando um som que se parecia com batidas de um coração, saindo de seu interior. Ciente do pouco tempo que restava Nico avançou, ao chegar muito perto foi arrebatado por um poder invisível poderoso que o lançou contra um dos vários pilares que haviam ali. Tentando se recuperar levantou e avistou Atena vindo em sua direção, a deusa empunhava um escudo com a imagem de uma górgona terrível.

– Chegou bem a tempo para presenciar o nascimento de uma nova era! – anunciou ela se aproximando à passos lentos.

Nico tentou levantar sua espada, mas estava muito enfraquecido e foi desarmado facilmente pela deusa que o esbofetou com sua força divina arremessando-o contra as portas de entrada.

– Como ousa levantar uma arma contra mim?

Ao tentar erguer-se Katropis, a adaga de Piper, caiu de seu manto. Nico a pegou se lembrando do encontro com o fantasma da filha de Afrodite. Ela a deu a mim para que eu me lembrasse de que Atena pode ser derrotada, mas... não compreendo...

Uma imagem de uma cidade inteira em chamas refletiu na lâmina polida, Nico viu um cavalo imenso de madeira de cuja barriga vários soldados saíam. E isso bastou para fazer com que o filho de Hades se lembrasse:

Katropis pertenceu a Helena! Atena, assim como Hera, foi derrotada por Afrodite quando as três Deusas tentaram convencer Páris a conceder o pomo de ouro para a mais bela... Uma civilização inteira foi destruída, mas Atena foi derrotada...

A visão projetada na lâmina desapareceu, Nico via agora o reflexo de Atena se aproximando novamente. Ela lhe tomou a Katropis e o ergueu pelos cabelos apertando a lâmina contra o seu peito.

– Às vezes Nico di Angelo, o poder deve se curvar à sabedoria! – declarou ela pronta para o golpe final. O filho de Hades sabia que morreria, mas não esperava ser antes de poder ter impedido que Zelenna fosse libertada. Eu falhei... mais uma vez eu falhei...

Um estranho som de algo sendo sugado pôde ser ouvido e o ar atrás da deusa pareceu se distorcer e duas pessoas surgiram ali. Ele é mesmo teimoso, pensou Nico ao avistar Percy ao lado de Elüho.

– Sabe Atena, – rebateu o filho de Hades – às vezes a sabedoria deve se curvar ao amor...

A deusa espantada soltou Nico que caiu exausto e também a adaga.

– Impossível! – exasperou Atena incrédula – Eu o matei! Como pode?

A ira no olhar de Percy era surreal, Nico nunca o havia visto daquela forma. Com a Excalibur em mãos ele avançou e desferiu um golpe limpo e direto contra a deusa que tentou defender-se com o escudo que carregava, mas a Excalibur atravessou o escudo, atravessou a armadura e atravessou a própria deusa! Icor dourado resplandeceu sobre a lâmina escura. Veios cinzentos refulgiam na pele de Atena como rachaduras brilhantes, um novo tremor abalou o palácio e o cristal no estrado brilhou fortemente.

– Vocês chegaram tarde demais – zombou a deusa com um riso fadigado de loucura – Podem ter me derrotado, mas não sou a única a concordar e a apoiar os planos de Éris!

– Percy! Elüho! Fechem os olhos! – advertiu Nico.

Um brilho cego fulgurou intenso e Atena desapareceu. Nico com muita dificuldade se mantinha de pé.

– Você não devia ter vindo Percy... – tentou censurar o filho de Hades, mas Percy muito sério se aproximou e o segurou pelo braço com excessiva força.

– Nunca mais faça isso outra vez! – vociferou Percy com uma voz estranhamente violenta e ao mesmo tempo aliviada.

– Pessoal... – disse Elüho fitando o casulo que brilhava com tamanha força que parecia prestes a explodir.

Nico pegou a Katropis e a lançou com toda a sua força contra Éris no corpo de Annabeth, antes da lâmina chegar perto o suficiente o cristal do casulo rachou e um vendaval intenso forçou tudo e todos a recuar. Uma mulher esguia, alta, de orelhas pontudas, olhos intensamente lilases e de cabelos muito pretos apareceu onde antes estava o casulo de cristal, os cabelos extremamente longos esvoaçavam por conta do vendaval repentino, um par de asas saía de suas costas como as de um anjo, porém translúcidas e espectrais num terrível tom violeta emanando uma monstruosa energia de morte e melancolia. Usava uma túnica de seda roxa toda trabalhada com bordados em fios de prata.

– Tu que me libertastes! – entoou a mulher com uma voz poderosa e ressoante – Recompensar-lhe-ei! Digai o que desejas!

– Ó Zelenna, mãe das fadas da morte! – começou Éris – Quem vos fala é a Deusa da Discórdia! Assim como você eu fui aprisionada e há muito estou fadada a me contentar com este corpo mortal, antes de lhe fazer meu verdadeiro pedido gostaria de que me libertasse de meu peso!

– Não! – bradou Nico, mas por alguma razão não conseguia se mexer, Percy e Elüho estavam aparentemente piores, estavam como estátuas que sequer pareciam respirar.

– Interessante... – refletiu Zelenna encarando Nico com um olhar indagador, mas logo voltou sua atenção a Éris – Que assim seja, tu que me libertastes!

Os olhos de Zelenna brilharam com uma luz roxa e fantasmagórica, uma fumaça espectral preta saía em fuga de dentro do corpo de Annabeth pela boca e aos poucos foi tomando a forma de uma mulher de cabelos ondulados e pretos, olhos de ônix e com asas de plumas negras como betume irrompendo de suas costas. Usava um manto preto e um colar de prata, e segurava um cajado dourado com um orbe na ponta.

– Agora fazei teu verdadeiro pedido! – avisou Zelenna.

– Há mais alguém que preciso libertar, e só Vossa Magnificência pode ser capaz de fazê-lo!

Nico assistia à tudo impotente, seu corpo parecia pesado e até sua voz parecia ter lhe abandonado.

– Mostrai-me o caminho! – disse Zelenna estendendo uma mão para Éris, e juntas desapareceram.

“Nos encontraremos uma vez mais Merlin, uma vez mais...”, sussurrou a voz de Zelenna aos ouvidos de Nico. O poder paralisante parecia estar perdendo o efeito sobre o filho de Hades e este quando fitou Annabeth sentada sobre os calcanhares fitando o chão, encheu-se de ira e até ela correu convocando novamente sua espada de ferro estígio pelas sombras.

Por Gwid, por Hazel, por Piper, por Frank, por Leo, por Quíron, e por todos aqueles que morreram, que se feriram e que se perderam por sua causa, é chegada a hora do acerto de contas!, murmurava Nico para si mesmo. Ergueu a espada negra e mirando o coração da filha de Atena impulsionou o golpe com toda a força de sua ira! Contudo, a milímetros de distância, sentiu um pulsar diferente e hesitou. Ó Deuses, não pode ser!

Nico abaixou a espada e apoiou a mão livre sobre a barriga de Annabeth, sentiu o fluxo que se movimentava ali, sentia a vida começando a pulsar, uma vida que emanava uma energia familiar, uma energia conhecida. Fechou os olhos e através da Visão viu sua irmã Bianca de pé sobre as águas de um oceano vasto, trajando uma armadura leve e segurando uma lança e um escudo. Havia também um garoto loiro de costas para ela, uma sombra pairava sob sua aura, mas era também conhecido. Não, não, não pode ser!

Afastou-se, a espada escorregou de sua mão caindo no chão com um baque surdo, não podia acreditar no que sentira. O palácio começou a desmoronar e um brilho branco e rosa se apoderou do corpo da filha de Atena, quando cessou Nico viu que ela rejuvenescera ficando como era há dez anos atrás. Um cheiro detestável de rosas infestou-se por todo o lugar.

"Eu lhe avisei que a minha promessa quebrada nada mudaria!", sussurrou uma voz melodiosa e detestável que Nico conhecia muito bem, era a voz de Afrodite. "Estou curiosa para saber como Percy reagirá quando souber que em breve será papai..."

Notas finais
Não percam semana que vêm o próximo capítulo de Love is a Long Road: "Oh ser que proviestes da sagrada fornalha, Levantai, levantai! E abandonai a mortalha!"