― VIII ―

Nico

Um tumulto terrível tomou conta do salão, gritos de euforia e de horror! Por um momento Nico pensou ver Percy sacando Contracorrente. Não posso deixar ele interferir!

Jason não parecia se importar com o destino de Annabeth, Rachel tampouco. O chalé de Atena deixou a Arena e os olhos de Nico e Percy se encontraram. O filho de Hades conhecia aquele olhar, já o sustentara uma vez: desespero... angústia.... tenho de fazer alguma coisa! Percy...

Nico levantou-se da cadeira e caminhou à frente parando ao lado de Reyna.

― ­Annabeth Chase, filha de Atena! Eu, Nico Di Angelo, filho de Hades, Embaixador de Plutão, lhe declaro culpada pelos crimes de Alta Traição contra a Legião, Assassinato e Conspiração! Contudo, dez anos se passaram impunes e isso configura prescrição! Sentencio-lhe à dez anos de reclusão por cada morte provocada e mais dez anos pela traição!

O agito cessou, todos arregalaram os olhos espantados e confusos. Thalia encarou Nico perplexa, Reyna fuzilou-lhe com o olhar e o puxou pela gola da camisa.

― O que pensa que está fazendo? ― indagou ela num sussurro.

― Sinto muito Reyna, mas não posso deixar que a condene à morte.

― E eu posso saber o porquê? ― Reyna estava tentando se controlar, Nico percebeu. O filho de Hades procurou Percy com o olhar, ele estava olhando para Annabeth, sussurrando-lhe alguma coisa.

Antes que Reyna pudesse fazer alguma coisa Jason também se manifestou:

― Annabeth Chase, filha de Atena! Eu, Jason Grace, filho de Júpiter, Pretor da Décima Segunda Legião, lhe declaro culpada pelos crimes de Alta Traição contra a Legião, Assassinato e Conspiração! A sentença para tais crimes é a morte, ― o olhar de Nico se encontrou com o de Jason e o loiro acenou com a cabeça ― mas, pelo tempo decorrido sem punição, eu lhe sentencio à dez anos de prisão nas catacumbas de Nova Roma por cada morte mais dez pelo ato de traição!

― Vocês dois ficaram loucos! ― repreendeu Reyna soltando Nico. Rachel se levantou também.

― Três é um número sagrado, ― começou ela posicionando-se ao lado de Nico ― Três juízes foram proclamados para julgá-la, Annabeth Chase, filha de Atena! Eu, Rachel Elizabeth Dare, o Oráculo, fui designada para agir como a voz dos deuses e garantir um julgamento justo. Os três juízes já declaram, cada um, sua sentença. Cabe a mim agora proclamar o seu destino! Seus crimes são graves e o passar dos anos sem justiça não diminui sua gravidade, sua morte tampouco fará justiça! Está sentenciada à servir Roma perpetuamente e lá permanecer até o fim de seus dias. Em caso de recusa, ou tentativa de evasão, sua sentença é a morte! Caso encerrado!

Thalia pareceu concordar com a sentença já que não se manifestou. Reyna ficou furiosa, mas nada podia fazer a não ser praguejar.

― Vocês vão se arrepender de ter feito isso! Quem cria cobra deve estar preparado para o veneno! ― avisou ela para os três, depois virou-se para os guardas atrás de Annabeth: ― Levem-na de volta ao quarto, partiremos à primeira luz amanhã e a levaremos para cumprir sua pena!

Annabeth caiu de joelhos rindo histericamente quando os guardas se aproximaram dela.

― Bom! Muito bom! ― gargalhou a filha de Atena com um brilho de insanidade no olhar ― Mas... vão me condenar sem ouvir o restante dos meus crimes? Os deuses sabem que tenho muito o que confessar!

Nico viu Percy se levantando e se dirigindo até a esposa.

― Já chega Annabeth, acabou! ― A voz de Percy saiu embargada de tristeza e raiva.

― Está enganado meu amor, tudo está apenas começando! ― revidou Annabeth com mais um riso histérico ― Por onde eu começo? Lembro de cada detalhe! De cada morte! Vocês tinham de ver o olhar de espanto que Leo fez quando...

Nico estava tentando controlar a raiva. Não viu o que aconteceu, apenas ouviu o estalo. Annabeth estava caída esfregando a bochecha esquerda e Percy estava com uma mão esticada. Ele a esbofeteou!

― Basta Annabeth! ― censurou Percy ― Você já passou dos limites!

Quando a filha de Atena estava se levantando, em determinado momento, ficou de costas para Nico que percebeu, mesmo com os cabelos loiros bloqueando a visão, um símbolo estranho tatuado em sua nuca. O que ela está pretendendo?

― Ora Percy, posso dizer pelo menos minhas últimas palavras?! Pois prefiro a morte à ter que servir Roma!

― Ficarei honrada em lhe providenciar isso! ― Reyna já havia sacado sua espada. Annabeth sorriu.

― Então ouçam bem minhas últimas palavras! ― Annabeth estava de pé com o semblante carregado de pura loucura ― No princípio só havia o Caos, o deus solitário que governava os domínios do nada. Dos desdobramentos de Caos dois deuses nasceram: Nyx a escuridão acima de Gaia! E Érebo a escuridão profunda...

O que pretende Annabeth?, indagou Nico para si, não eram últimas palavras, a filha de Atena estava recitando a Criação. Então lembrou-se, com um leve tremor, de um sonho que teve em que Ella proferiu uma grande profecia: Ascendendo das trevas o caos do reino antigo; brilharão no céu as estrelas do castigo; Estrelas só aparecem à noite ― analisou ― Nyx... Éris é filha de Nyx, Éris é filha da noite... são as estrelas filhas da noite? Érebo é o Senhor das Trevas, preso em algum lugar do mundo inferior por traição à Zeus... Ascendendo das trevas o caos do reino antigo... Não, não, não, será isso? Annabeth está ajudando Éris a libertar Érebo? Tentarão tirar Caos de seu letargo? Por que fariam isso?

Annabeth prosseguia com o discurso. Ela está tentando ganhar tempo... o que pretende? O quê?

Nico viu Drew, filha de Afrodite, entrando na Arena aos berros:

― Monstros! Monstros! Monstros invadindo o acampamento!

Mas o quê...

Um estrondo terrível soou estridente. Parte de uma das arquibancadas cedeu quando uma fera monstruosa emergiu da terra engolindo pedra e metal, havia alguns semideuses ali e Nico esperava que não tivessem sido engolidos juntos. Annabeth lhe lançou um sorriso insidioso, ela estava muito próxima de Percy. Nico a viu tirando uma pequena adaga que deveria ter trazido discretamente atrás do cinto da calça. Ela ergueu os punhos agrilhoados, ela iria... ela iria apunhalar Percy que estava distraído com os grifos que sobrevoavam o alto da Arena. Nico correu, não sabia como conseguiu tamanha velocidade, empurrou Percy e no processo foi perfurado no braço esquerdo pela lâmina da adaga, sua visão ficou embaçada. Viu Percy desarmando Annabeth que correu para longe aos risos, sentiu alguém lhe segurando.

Os campistas começaram a lutar uns contra os outros, demorou para perceber que estava apoiado em Jason, ele e Percy começaram a discutir por algum motivo qualquer, Nico não conseguia entender, só ouvia ruídos. Ao perceber que a lâmina de Annabeth devia estar envenenada o filho de Hades projetou sua consciência nas sombras fazendo seu corpo cair inerte. Nico se tornava quase onipresente quando projetava sua consciência nas sombras, viu Jason e Percy brigando para decidirem quem carregaria seu corpo, todos estavam discutindo e brigando até Thalia soar um estranho apito. O filho de Hades nada ouvira, mas todos pararam imediatamente de brigar entre si. Éris está aqui...

A Arena estava arrasada, os mesmo lobos gigantes humanoides que atacaram o acampamento quando Horcos apareceu estavam agora em número muito maior! Contudo, dessa vez, Nico não tinha como tocar sua lira. Grifos surgiam no céu, empousas e dracaenaes começaram a invadir a arena com mais monstros. Ao longe estava Annabeth admirando o ataque com uma mulher a seu lado. Nico projetou sua consciência para mais perto.

― Você demorou. ― dizia Annabeth para a mulher enquanto quebrava seus grilhões num simples puxão.

― Disnomia não consegue chegar na hora, a senhora é mãe de Disnomia, devia saber. ― A voz da mulher parecia mais um coaxo, sua pele era azulada e tinha um braço maior que o outro. Os cabelos, de um tom fosco de laranja, eram longos do lado esquerdo e curtos e repicados do lado direito. Tinha três olhos, um verde, um vermelho e o outro cinza, seus pés eram virados e seus ombros tortos, um par de asas coloridas de tamanhos diferentes com muitas penas faltando projetavam-se de posições irregulares em suas costas. O que ela quer dizer com a Annabeth ser sua mãe?

― Pare de falar de você mesma como se fosse outra pessoa, filha minha. ― repreendeu Annabeth que estava com os cabelos quase pretos.

― Disnomia não consegue senhora, é o jeito de Disnomia.

― Apáte fez um belo trabalho se passando por Afrodite para entregar o zanedile para Piper, mas fracassou! A menina o tomou ao invés de dá-lo a Perseus. Espero que não falhe aqui, extermine todos eles! Principalmente Perseus! Eu tenho uma aliada para libertar agora.

― Disnomia não vai falhar mãe.

Annabeth desapareceu numa nuvem negra. O chão de pedras da Arena estava se tornando vermelho com a quantidade de sangue semidivino derramado. Disnomia enfiou o braço maior inteiro na boca e, quando puxou de volta, trouxe junto uma espada cuja lâmina ondulava-se de maneira desordenada num brilho cinza gélido. Nico estremeceu ao vê-la correndo à toda velocidade na direção de Percy que àquela altura já estava cercado por duas bestas ainda tendo que proteger seu corpo inconsciente. Não havia tempo para pensar, tinha de agir!