― VII ―

Nico

Reyna estava usando armadura completa feita de ouro imperial, uma coroa de louros verdes enfeitava seus cabelos soltos, o vento daquela tarde nublada fazia seu manto roxo com a siga SPQR bordada em dourado agitar-se. Seu rosto estava mais régio pelo efeito do tempo e parecia uma cabeça mais alta do que na última vez que Nico a viu, dez anos atrás. Uma dúzia de soldados romanos em armaduras mais simples, com mais couro do que aço, e com meio elmos a escoltava, todos eles com um gládio embainhado nas ancas e segurando uma lança longa.

― Sinto muito que o momento seja tão inoportuno. ― Anunciou, aparentemente sem prestar à atenção em Nico, não que o filho de Hades esperasse coisa diferente. ― Mas é hora do julgamento! ― Afirmou ela de cabeça erguida e aparentemente ansiosa. Nico notou Percy inquieto, mas Jason se adiantou:

― Acabaram de chegar Reyna, pedirei para que providenciem-lhes estadia, alimento e roupas mais frescas, se quiserem sair dessas armaduras, é claro. Temos muito tempo para realizar o julgamento. Peço-lhe que deixe passar pelo menos hoje...

― O Acampamento Júpiter está sob os cuidados de Octavian já que o nosso pretor passa mais tempo com os gregos do que com o próprio povo e eu tive que me deslocar até aqui para realizar tal julgamento que deveria ser realizado lá. Isso significa que não tenho tempo para perder!

― Por favor Reyna, deixe-me falar com ela antes ― pediu Percy e Reyna o analisou friamente.

― Vocês se casaram não é mesmo?! Se está pensando em ajudá-la a fugir...

― Eu me responsabilizo por ele! ― Nico deu dois passos para frente para se fazer visível ― Não permitirei que planejem nenhum tipo de evasão.

Reyna se aproximou do filho de Hades com um semblante desconfiado encarando Nico por segundos embaraçosos.

― Então o Embaixador de Plutão finalmente se levanta dos mortos! E pelo que vejo não foi só a morte que enganou, mas também o tempo! ― Reyna parecia séria e por um momento Nico temeu por sua vida, os olhos da Pretora haviam se tornado ainda mais aterrorizantes que o usual, então depois de encarar o filho de Hades por mais alguns segundos ela finalmente o abraçou ― Cheguei a me entristecer pela sua morte, se sumir por tanto tempo novamente sem avisar é melhor que não volte! Caso contrário o virarei do avesso para que assim, olhando sempre para trás, você se lembre que há pessoas que se importam com você Rei Fantasma! ― sussurrou ela delicadamente aos ouvidos de Nico.

― Tem razão Rey, não o farei de novo. Prometo. ― sussurrou Nico de volta. Ele e Reyna criaram uma amizade formidável no caminho de volta em que ela escoltou Nico trazendo a estátua de Atena para o acampamento. Ambos compartilhavam um sentimento muito parecido, dois corações partidos por causa do mesmo par de olhos verdes.

― Muito bem! ― Reyna aumentou a voz e voltou a encarar Percy ― Você pode vê-la enquanto nos acomodamos, por hora. Devemos partir em, no mais tardar, dois dias. Até lá ficaremos aqui, apresse-se!

Percy se dirigiu a passos largos em direção a Nova Grécia e Nico teve de correr para acompanhá-lo. Não disseram uma palavra enquanto seguiam até o quarto de Annabeth, onde ela estava impedida de sair. A Atena Partenos fora instalada em uma plataforma majestosa no centro do pátio coberto de Nova Grécia, ao passarem por ela Percy parou e fechou os olhos numa prece. Nico sentia uma apunhalada no peito toda vez que o filho de Poseidon se perturbava em relação à Annabeth, isso mostrava o quanto ele a ama e faz com que Nico se lembre de que não pode competir com isso. Percy não demorou-se em sua prece à Atena e começou a andar novamente em direção ao quarto.

Dois semideuses corpulentos vigiavam a porta, estavam jogando dados em uma mesa improvisada.

― Viemos ver a suspeita. ― anunciou Nico. O maior deles que era careca balançou os ombros mostrando que não se importava.

Percy disparou na frente, mas quando Nico tentou segui-lo ele parou e virou-se pousando uma mão no peito do filho de Hades, um gesto pedindo para que parasse.

― Se importa de esperar aqui? ― A voz de Percy saiu diferente do usual, parecia triste. Ele estava emocionalmente abalado e nervoso.

Sim! Eu me importo!, pensou Nico.

― Não, tudo bem ― foi o que conseguiu dizer.

Nico esperou Percy entrar e fechar a porta. Ele me pediu para esperar aqui, mas não disse nada à respeito de não vigiá-lo. Sentou na posição de lótus, assim como Morgana o havia ensinado. Escorou as costas eretas na parede e fechou os olhos se concentrando na tentativa de invocar a Visão. Não demorou e sentiu sua consciência se fundir nas sombras e entrar no quarto.

Era um cômodo grande, um espelho refinado do tamanho de uma pessoa adulta adornava um guarda-roupa de madeira branca. Fotos do casal pendiam nas paredes azuis. Annabeth estava pálida amontoada nos edredons brancos sentada apática na cama enorme. Nico viu Percy se aproximando dela e a abraçando.

Já devia ter me acostumado há muito tempo!, repreendeu-se. Nico por vezes usara a Visão, desde que a aprendera, para checar se estava tudo bem com Percy, muitas dessas vezes ele o viu abraçado com Annabeth, sorrindo para ela, fazendo juras de amor, elogiando seu cabelo e dizendo o quanto tinha sorte de tê-la junto dele. Nico cogitou interromper a Visão, ver aquilo o arrasava por dentro, mas conteve-se quando os pombinhos começaram a discutir:

― Você não entende Percy! ― Annabeth estava transtornada.

― Ouvi muita coisa Annabeth! Ouvi um pouco de cada um e agora quero ouvir a verdade, de você! O que foi que você fez? ― Percy tentava controlar a voz e não assustar Annabeth, mas Nico percebeu que não estava funcionando.

― Não fiz nada Percy!

Errar escondido é a sabedoria dos covardes, mas quando seus erros fazem alguém sangrar, bem, há duas opções: a loucura ou a forca! ― dissera Morgana uma vez para Nico ― Negar pode afastar a forca, mas os fantasmas não esquecem Nico, eles voltam para cobrar...

― Você não confia em mim Annabeth? Por favor, eu imploro! O que foi que você fez? ― os olhos de Percy àquela altura já estavam marejados e suas mãos trêmulas.

― Foi aquele moleque não foi? Ele lhe transformou num adolescente de novo! Ele está lhe envenenando contra mim, não está? ― o olhar de Annabeth vibrava de ódio. Então ela ficou com a loucura, por enquanto...

― Nico me salvou Annabeth! Se não fosse por ele eu não estaria vivo! Você não estaria viva!

― Então é isso não é? Agora vai me dizer o quê? Por um acaso estão namorando?

Nico viu Percy cerrando os punhos e temeu que ele batesse em Annabeth, mas ao invés disso ele respirou fundo.

― Não há como falar com você agora, Reyna está com muita pressa de lhe interrogar, espero que não faça nenhuma besteira ― Percy deu as costas à Annabeth e seguiu até a porta, enquanto Nico tentava interromper a Visão sua consciência ouviu a filha de Atena aos gritos:

― Vá mesmo! O seu namorado pode se zangar se você demorar demais com a sua esposa!

Nico respirou fundo voltando à consciência antes da porta do quarto se abrir.

― Por que está vermelho Nico? ― questionou Percy depois de trancar a porta e se aproximar do filho de Hades.

― Vermelho? Quem está vermelho? Eu não estou vermelho, você é que está imaginando muito vermelho! Sim, é isso! Eu...

― Percy? Viemos buscar Annabeth ― era Rachel, cinco dos doze soldados romanos que vieram com Reyna estavam com ela. Nico agradeceu mentalmente a Rachel por livrá-lo daquele embaraço.

― Tudo bem.

― O julgamento será realizado na Arena. ― comunicou Rachel enquanto os soldados traziam Annabeth. ― Nico, como é o Embaixador de Plutão você foi escolhido como um dos juízes, assim como Reyna, Jason e eu.

― Eu sabia que vocês estavam mancomunados nessa conspiração! ― vociferou Annabeth mirando Rachel e Nico enquanto era trazida pelos soldados.

Nico aguardou em silêncio ao lado de Percy enquanto levavam Annabeth, o filho de Poseidon o encarou com olhos que imploravam clemência.

― Não se preocupe, não deixarei com que a façam mal ― confortou Nico. ― É melhor irmos também.

Percy limitou-se a um aceno de cabeça e juntos seguiram até a arena.

O lugar estava aglomerado de gente. No centro fora montada uma mesa grande com quatro cadeiras de espaldar alto. Jason e Rachel estavam sentados nas extremidades e Reyna ao lado de Jason, a que sobrava era provavelmente a de Nico. Annabeth foi deixada de frente para eles, em pé com os pulsos agrilhoados.

― Por favor, não faça nenhuma besteira ― Nico estava muito preocupado com como Percy poderia reagir a sentença de Annabeth ― Tenho de ir para lá, se acalme e não faça nada de cabeça quente.

Percy assentiu e Nico foi até o seu lugar entre Rachel e Reyna. Jason estava ainda muito aturdido pela morte de Piper então a oratória ficou para o Oráculo:

― Estamos reunidos aqui hoje para o julgamento de Annabeth Chase, filha de Atena! ― Anunciava Rachel ― As acusações são: Alta traição contra Roma! Traição contra os deuses! Participação nas mortes de Frank Zhang, Leo Valdez e Hazel Levesque!

Um tumulto se generalizou entre o júri improvisado formado pelos semideuses que lotavam as arquibancadas, o chalé de Hefesto estava em fúria, mas a atenção de Nico estava voltada toda para Percy que assistia à tudo aparentemente impassível. Isso tem de acabar o quanto antes, ele não merece presenciar isso ainda mais. O tumulto, porém, não cederia.

― SILÊNCIO! ― Nico encantou a voz, que ribombou alta nas paredes como um trovão ensurdecedor, todos se calaram imediatamente.

― Reconhece as acusações Annabeth Chase? ― interrogou Reyna. Rachel se sentou e observou, estava aparentemente nervosa e isso nunca era bom. Definitivamente não precisavam de mais uma profecia.

― Palavras são vento, não tenho que dar explicações à ninguém! ― defendeu-se a filha de Atena.

― Convoquemos então a acusadora, Thalia Grace, Comandante das Caçadores de Ártemis e filha de Zeus! ― Nico podia sentir certo rancor na voz de Reyna. Roma é tudo o que lhe sobrou, ela não permitirá que atentem contra ela.

Nico não viu de onde Thalia saíra, quando percebeu ela já estava ali perto da mesa, em pé ereta como uma lança. Começou seu discurso:

― Os planos de Annabeth Chase foram revelados diante dos deuses no Olimpo por Nêmesis. Ela planejava ajudar os gigantes para que Roma caísse e Atena volta-se a imperar como deusa da guerra e da estratégia em batalha! Contudo, no processo ela acabou condenando também Leo Valdez, um dos nossos! Isso configura traição também contra nós, gregos! ― o chalé de Hefesto começou a se agitar novamente, mas bastou Nico se ajeitar em sua cadeira para que eles se calassem, então Thalia continuou: ― Annabeth participou, com completa consciência de seus atos, na morte de Frank Zhang ao roubar-lhe o graveto que era sua vida e o entregar para os lacaios de Gaia. O resultado foi a morte de bravos heróis! Os gigantes também a enganaram e Annabeth quase pereceu, ninguém sabia de sua traição até o momento.

― O que tem a dizer em sua defesa? ― inquiriu Jason, manifestando-se pela primeira vez.

― Nada a declarar! ― rebateu a filha de Atena e Reyna aproveitou a oportunidade. A Pretora de Roma se levantou e Aurum e Argentum saíram de debaixo da mesa avançando até Annabeth, rondando a espera de uma mentira.

― Se eu fosse você, não arriscaria nenhum ardil ou algum estúpido jogo mental. Sua sabedoria não vai ajudar agora. Responda diretamente às perguntas ou meus rapazes farão com que se arrependa de não tê-lo feito!

― Você conspirou com os gigantes contra os deuses? ― interrogou Jason. Annabeth pareceu hesitar por um momento diante daqueles cães, Reyna contudo parecia apreciar a vista.

― Não! ― bradou Annabeth.

Aurum latiu, mas nem ele nem Argentum avançaram contra a filha de Atena, isso significava que ela não mentiu. Então Jason continuou:

― Você conspirou com os gigantes contra a Legião?

― Sim!

― Atuou na morte de Frank Zhang, filho de Marte?

― Sim!

― Teve participação na morte de Hazel Levesque, filha de Plutão?

― Sim! ― dessa vez Annabeth lançou a Nico um sorriso sombrio, como se quisesse demonstrar o prazer que sentiu com a morte de Hazel.

― Participou, também, na morte de Leo Valdez, filho de Hefesto?

― Sim!

― Então você reconhece e confessa seus crimes?

― Sim!

Reyna aproximou-se mais e anunciou seu veredito sem consultar os outros juízes:

― Annabeth Chase, filha de Atena! Eu, Reyna Avila Ramírez-Arellano, filha de Bellona, Pretora da Décima Segunda Legião, lhe declaro culpada pelos crimes de Alta Traição contra a Legião, Assassinato e Conspiração! E por esses crimes sentencio-lhe à morte!