Perigo eminente...
44 Antes de partir
Notas iniciais
POV LEO
Ser um invalido praticamente a beira da morte me deixava muito chateado. Apos um tempo nessa cama com parte do corpo paralisado, era frustrante e humilhante! Percy se desdobrava para me deixar bem e confortável e tudo o que eu fazia era ficar gemendo de dor. Eu era como uma pedra em seu sapato, e talvez a pior coisa de se estar morrendo é esperar que finalmente a morte venha de buscar e acabe com o seu sofrimento.
Meu sono se tornou mais pesado e foi difícil acordar aquela manhã, mas eu tinha um propósito, tinha um motivo para tirar o meu corpo paralítico desse estagio letárgico e ter alguma reação. Já fazia uma semana desde a internação de Jason, eu necessitava vê-lo. Percy chegou e me cutucou com delicadeza, suas mãos quentes acariciaram o meu rosto e eu sorri com a caricia assim que percebi que era o meu lado direito que voltava a formigar com algum estimulo no local, mas não queria que as minhas esperanças fossem quebradas e destruídas por algum diagnostico negativo.
Não me pronunciei quando ele me disse bom dia, quando Percy chegou já passava das 5h da manhã, com os cabelos bagunçados e um tremendo sorriso no rosto que morreu assim que eu o vi. Era estranho ser tão dependente daquele cara, que de uns tempos pra cá me trata mais como uma obrigação do que como um amigo, ser um saco de batatas que ele precisa confirmar de cada cinco em cinco minutos se está respirando.
– Não fez nada? – questionou ele enquanto trocava as minhas fraldas. Quando ele disse que teria que usa-las, foi um choque tão grande e em parte uma humilhação indescritível já que nem mesmo eu poderia trocá-las, suspirei cansado e ignorei a sua pergunta. Percy ficou ainda mais estranho e fechou a cara, algo que me magoou mais ainda, uma facada inesperada em meu coração, porém eu não me desculpei.
Ele continuou a fazer a minha higiene, limpou o local onde ficava o tubo de alimentação com álcool, que ardeu o suficiente para me arrancar gemidos de dor, e me surpreendi com o seu semblante sério, fingindo que eu não estava ali. Virei o rosto e cortei qualquer murmúrio de dor que poderia sair de meus lábios, mordi os lábios discretamente para prender as lagrimas, serrei o punho esquerdo e permaneci calado feito uma estatua.
– Vamos ver Jason, não poderemos ficar muito tempo lá... Tudo bem? – falou seco e eu apenas afirmei com a cabeça, Percy pegou a cadeira de rodas e logo em seguida me ajeito em seu colo para que ele pudesse me sentar, com a cabeça apoiada no encosto acolchoado da cadeira enquanto prendia meu corpo para evitar possíveis quedas.
Assim que chegamos á garagem em absoluto silencio, senti uma pontada forte no tórax, o ar me faltou e a minha visão escureceu, sentia ânsia e o frio percorreu a minha espinha. Inspirei com força e aos poucos consegui que acalmar ao invés de gritar por socorro e ser recebido friamente pelo moreno de olhos verdes. Apertei a lateral do assento do carro e trinquei os dentes, a não ser que a dor fosse insuportável e pediria ajuda, ou morreria sem pedir ela.
O carro estava em movimento, Percy digitava e olhava freneticamente para o celular, como se a conversa virtual dele fosse ainda melhor que a minha presença.
Sabia que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde, sabia que em algum momento Percy iria cansar de mim e me abandonar, ninguém ficava por muito tempo, ninguém se importava comigo tempo o suficiente por que com Percy seria diferente? O que faz dele diferente dos outros? Já não me sentia mais confortável ao seu lado, era como se toda a minha frustração acumulada em anos passeasse em ondas dolorosas por todo o meu corpo, principalmente o lugar onde o câncer me consumia.
A clinica já estava perto, ela ficava um pouco afastada do centro por isso não demoramos muito até podemos ver o seu enorme prédio cinza.
Um coração falhou uma batida por imaginar Jason trancado feito um doente naquele lugar, queria vê-lo, queria saber como ele se sentia, só queria que ele estivesse saindo dessa como um verdadeiro Herói. Quando entramos no estacionamento aberto, perto da entrada do hospital reparei em um enorme carro preto de luxo e uma figura fantasmagórica parado ali encarando o chão. Neguei-me em acreditar que era Nico, mas não podia me enganar, era sim o filho de Hades que nos aguardava.
Todo o resto do meu humor morreu assim que focalizaram naquele cara. Meu “antigo melhor amigo” em seu melhor estado, o primeiro a me abandonar em minha nova fase, agora estava ali, esperando que Percy estacionasse o carro ao seu lado.
Quando a porta se abriu, eles se encararam por um longo tempo, em uma conversa silenciosa que eles travavam com o olhar até que com um pequeno aceno de cabeça em minha direção Nico fez e balbuciou algo que Percy concordou logo em seguida. Só queria sair correndo dali para um local bem longe.
– Olá Leo – disse Nico ajudando a me colocar na cadeira.
– O que você está fazendo aqui? – questionei rude.
– Leo, sem show – murmurou Percy empurrando a cadeira de rodas para a entrada de cadeirantes. Não acreditei nas palavras que acabara de ouvir, ele me desmoralizou na frente de Nico como se eu fosse o culpado da minha revolta, e sem ter o que dizer em minha defesa, me calei.
Fomos até a recepção, Nico disse algumas palavras e então seguimos por um corredor completamente branco e paramos diante de uma porta alta com apenas um pequeno vidro. A enfermeira abriu a porta e só me deparei com um quarto completamente acolchoado, também branco e com Jason em uma camisa de forças deitado em posição fetal em um canto. Era triste vê-lo daquela maneira, como um louco, era como se pudesse apalpar a sua dor.
– Senhor Grace atacou alguns enfermeiros, ele está entrando em uma crise de abstinência muito forte – explicou a enfermeira de frente para nós antes de se posicionar ao lado do quarto para que possamos entrar. Percy empurrou a minha cadeira até o meio e recuou alguns passos.
– Vou dar um tempo pra vocês – disse antes de sair e fechar a porta atrás de si.
Jason permaneceu quieto, sem mover um músculo, creio a acreditar que ele houvesse notado a minha presença.
– Jason – Murmurei – Sou eu... – ele virou o rosto e depois saiu da posição que estava algo se partiu assim que vi olheiras tão escuras e muitas marcas de cortes em seu rosto, seus olhos perturbados e com a pele cinza sem o brilho e o bronzeado de anos atrás. Ele tentou ficar de pé, mas caiu logo em seguida, e sem forças ele rastejou até os meus pés, conseguindo colocar a cabeça em meu colo.
– É uma alucinação? – ele perguntou
– Não Jason sou eu mesmo – solucei acariciando seus cabelos.
– Não, não é, é mais uma alucinação, você vai embora, você sempre vai – disse roçando a cabeça em meu colo, como um gato ao exigir a atenção de seu dono, como se só pudesse acreditar em minha presença se me tocasse o maior tempo possível.
– Não eu vim, eu quero que você fique bem – murmurei
– Como você está? – ele disse levantando a cabeça pra encontrar meus olhos – Oh deuses! – indagou surpreso e senti meu rosto esquentar, só de imaginar parte da minha face torta – Você está ainda mais lindo – completou com o seu sorriso cafajeste e sedutor. Não deixei de sorrir com a sua volta ao velho Jason, queria que ele estivesse melhor, queria que ele estivesse ao meu lado outra vez, só queria que ele não me deixasse ir embora.
– Jason, se cure por mim – murmurei deixando as lagrimas banharem meu rosto – Volte a ser o meu Jason – implorei contornando seus lábios com o indicador, ele beijou a minha mão em sinal de resposta.
A porta se abriu e a enfermeira disse que eu não poderia ficar por mais tempo, era difícil ver a dor em seus olhos assim que a porta se fechou nos separando mais uma vez, soltei o ar que havia preso em meus pulmões, fora tão breve o nosso encontro, não trocamos mais do que algumas palavras, mas sabia que isso era o suficiente para que ele se sentisse vivo novamente.
Quando chegamos ao estacionamento encontrei Sally dentro do carro, com os olhos vagos em minha direção, sem a ternura maternal de antes, tremi só em saber que eu havia sido abandonado por ela também. Tudo aconteceu muito rápido, em poucos minutos já estava sentado no banco da frente do carro aguardando que Percy e Sally se despedissem de Nico, porem isso não aconteceu. Percy se aproximou do vidro e fez um sinal para que eu abrisse o vidro, enquanto a mãe dele continuava seu papo animado com o Filho de Hades.
– Leo, eu vou ir ali com Nico, não voltarei tarde – ele disse completamente seco.
– Você não me deve explicações – respondi sem encarar seus olhos.
– Qual é o seu problema? – disse ele indignado.
– Meu problema é estar morrendo – gritei com todo o ódio acumulado em meu corpo, sabia que não gostava de ser tratado como uma obrigação, sabia que não gostava de Nico e sabia que eu não queria ter essa conversa.
– Para de usar a sua doença pra justificar seus atos estúpidos!
– Mas o que? – disse perplexo – Não preciso de você – murmurei por fim
– Não precisa? Tem certeza? – concluiu ele antes de entrar no carro de Nico sem mesmo olhar pra trás. Era tudo o que eu não esperava, as lagrimas caiam compulsivamente e eu não tinha palavras pra explicara dor que sentia naquele momento. Sally entrou no carro e colocou a mão em minha perna, mas desistiu de falar o que realmente queria.
Já em casa deitado naquela cama hospitalar, com uma dor horrível por todo o corpo. Pedi para a mãe de Percy que me deixasse sozinho, não queria chorar na sua frente e nem me humilhar ainda mais para a família Jackson. Ouvi o despertador ao meu lado tocar, e ótimo era hora dos remédios que eu não tomaria porque estou paralisado nessa cama e não posso fazer nada sem a ajuda de ninguém. Passei a mão rapidamente pelo criado mudo e joguei o despertador no chão, silenciando-o.
Nada mais fazia sentido pra mim, tudo estava desmoronando, me sentia um imundo por ser tão dependente de alguém que já não me suporta mais. O sol invadia as frestas da persiana e esquentava a lateral do meu corpo, alem da tristeza que me consumia por ser tão detestável.
Depois de tanto chorar e me odiar, percebi que alguma coisa estava acontecendo comigo, minha fralda estava molhada e um odor forte se instalava no ambiente. Ótimo era tudo que eu precisava, ser um doente mal cheiroso. Estava suando há horas, feito um porco, minhas roupas estava embarcadas, meu corpo tremia involuntariamente e o frio me consumia.
Resistia a vontade incontrolável de chamar Sally, ela deveria estar preparando alguma guloseima para Paul, logo que hoje era seu aniversario. A ânsia me tomou e vomitei rapidamente, só deu tempo para que eu levantasse a cabeça e não me engasgar com meu próprio vomito, e essa situação se repetiu por diversas vezes.
“Para de usar a sua doença pra justificar seus atos estúpidos”
Virei-me um pouco, com meu corpo condenando a minha ação, que me proporcionou uma dor dilacerante na espinha dorsal e em todo o meu tórax, e assim eu perdi todo o ar que me restava. E literalmente eu havia perdido o ar, era impossível me estabilizar e tive o pior ataque de asma da minha vida, com um impulso de me levantar acabei caindo da cama e batendo a cabeça na quina do criado mudo, e por muito pouco não perdi a consciência.
Estava estirado no chão com a cabeça virada e o corpo imóvel, não conseguia respirar, não consegui pedir ajuda, só fiquei ali morrendo a espera que em algum momento alguém viesse me ver e por um instante acabei desmaiando ou caindo no sono.
(...)
Não sei quanto tempo se passara, mas o quarto já estava completamente escuro, sentia o gosto de sangue, o piso úmido e tremia com o frio que a cada minuto me consumia ainda mais, não sabia que horas eram, mas a dor já se tornaram tão insuportável que em uma medida desesperada gritei por ajuda, porem a voz não saiu, a intensidade das pontadas era tanta que até meus dentes doíam naquele momento. Uma vez eu li sobre a morte, no inicio ela não me assustava muito, eu sempre soube que ela chegaria, mais cedo ou mais tarde, só não imaginei a dor que ela me traria, a dor que teria que passar para que eu chegasse até lá, do outro lado nos campos elissios.
Só queria que a morte não tardasse a chegar
(...)
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