Perdidos.
7 Um novo sentimento
Notas iniciais
Os dois ''perdidos'' viam o tempo passar, era de noite, mas como Julie dormiu à tarde, estava sem sono. E Daniel? Raramente dorme, preferia passar as noites em claro já que não sentia sono. Os dois estavam deitados, encaravam as estrelas na beira da caverna, eram tão brilhantes que Julie nem ao menos piscava. Estava encantada. — Eu nunca vi tantas estrelas assim... — Disse, deitando sua cabeça mais perto de Daniel, queria abraça-lo, mas deixou para lá.
- É que com as luzes da cidade não dá para ver muitas... Já aqui sim. — Ele explicou.
Julie fechou os olhos, sentindo um delicioso vento bater em seu rosto, balançando seus cabelos. Os abriu quando sentiu Daniel se sentar. — O que foi? — Perguntou ao ver que ele olhava para ela.
- Está com sono?
- Na verdade, estou. — Sorriu.
- Então... — Ficou de joelhos na terra molhada. — Vamos entrar. — A pegou nos braços enquanto a humana passava suas mãos para seu pescoço. A levou para dentro, Julie se deitou em cima das folhas de bananeira que Daniel colocou para ela não se sujar muito. Os dois se encaravam.
'' Me perder com você foi a melhor coisa que me aconteceu. '' — De repente, pensamentos desse tipo invadiam a cabeça da garota. Ela olhava para o fantasma a sua frente, levantou a mão e começou a carinhar seus cachos. — Deita aqui. — Pediu, e Daniel se deitou ao seu lado, ela abraçou sua nuca e continuou brincando com os seus cabelos enquanto o rapaz fitava seus olhos amendoados, pensou em dizer tudo que sentia por ela. Mas lembrou que amanhã mesmo ela vai rever o Nicolas e se apaixonar por ele, assim como todos os outros dias ''normais''.
Até agora ele ainda não sabia se estar ao lado dela esse tempo todo era bom, ou ruim. Na verdade, eram as duas coisas, era bom por um lado, pois os dois podem começar a se entender. E pelo outro lado, era ruim, pois seria mais difícil de Daniel esquece-lá de uma vez.
Ela se ajeitou, se apertando mais contra ele, Juliana ainda usava o paletó de Daniel, ainda mais que a noite estava fria.
Ficaram abraçados como um casal apaixonado.
Julie acabou adormecendo nos braços de Daniel, o mesmo carinhava a garota adormecida, beijava seu rosto e alisava seus cabelos pretos. Ele fechou os olhos também. Mas não conseguia sonhar, só pensava... Precisava conquista-lá, e para isso o Nicolas não poderia estar por perto.
'' Martim e Félix já sabem onde nós dois estamos... '' — Pensava. — '' Preciso leva-lá para um lugar ainda mais longe. Amanhã de manhã, bem cedo. '' — Ele faria de tudo para conseguir mais tempo ao lado dela.
Continuou de olhos fechados, até que adormeceu.
[...]
A noite se passou, Juliana acordou quando sentiu a luz do Sol bater bem no seu rosto, esfregou seus olhos e viu que ainda estava dentro daquela caverna úmida. Porém, olhou para fora e viu um lindo amanhecer, o Sol nascia, deixando o lugar que antes era escuro e assustador em um verdadeiro paraíso, era cheio de árvores, os pássaros cantarolavam com alegria. Ela chegou a sorrir com isso. Olhou para os lados, não viu mais ninguém ali.
Daniel tinha acordado mais cedo, saiu para procurar um lugar melhor para ficarem. Mas já estava voltando. — Daniel? — Julie o chamou. — Daniel?! — Queria uma resposta rápida, queria ele por perto. — Daniel! — Gritou.
- Oi. — Ele surgiu sorrindo. — Bom dia.
- Bom dia. — Sorriu, completamente alegre e satisfeita de vê-lo ali. Normalmente quando chamava por seu nome era porque iria discutir ou gritar com ele, mas dessa vez não. Na verdade os dois estavam agindo como se necessitassem um do outro. — Dormiu bem?
- Muito bem. — Respondeu.
- Onde estava?
- Ah, eu acordei mais cedo e saí um pouco.
Ela riu. Tentou se levantar para pegar alguma fruta na sua mochila, acabou encontrando uma linda flor no bolso da frente. Olhou sorrindo para Daniel, pegou a flor enquanto suas bochechas coravam. — Que linda, obrigada.
- Gostou mesmo? — Perguntou, Daniel chegou a pensar que o conselho das flores do Martim não daria certo...
- Claro! — Colocou atrás da orelha. — São minhas preferidas. — Não tirava os olhos da linda paisagem lá de fora. Mas sabia que não poderia andar pois estava com o tornozelo machucado.
- Quer sair? — Daniel ''leu'' seus pensamentos, Juliana sorriu com a pergunta.
Mas o que ela não sabia é que Daniel a levaria para um lugar ainda mais distante, só para se perderem ainda mais. — Uhum. — Assentiu, mordendo uma maça.
- Eu te carrego. — Disse a levantando, ele andou bastante com ela. Sabia que o quanto mais longe, melhor.
Julie observava as flores, as árvores e os pássaros. Olhou para Daniel. Deitando sua cabeça no ombro do fantasma. '' Mesmo me perdendo aqui, passando a noite com frio... Foi perfeito. '' — Pensou. Acabou lembrando do beijo, lembrava dessa cena a cada cinco minutos e sempre que lembrava sentia borboletas no estômago. Sabia que aquele beijo foi sobrenatural. Era tão diferente...
Quando deixou seus pensamentos de lado viu um lindo riacho a sua frente. Seus olhos brilharam, a água dali era cristalina. Daniel a colocou no chão. — Eu quero entrar ai. — Ela disse.
- Tem certeza? É um pouco fundo e tem que ter cuidado onde pisa, por que tem muitas pedras no fundo.
- Não precisa ficar preocupado comigo. — Julie sorriu. — Olha como estou! Toda suja de terra! Preciso entrar aí! — Daniel cedeu. Ela levantou sua blusa, viu que o rapaz olhava. — Éeer... Daniel? Eu vou tirar minha blusa.
- Vai ficar com os peitos de fora?! — Tentou esconder o sorriso.
- Não! — Corou como um pimentão. — Não... Eu... Estou de biquini por baixo.
- Ah, c-claro. P-pode ficar a vontade, e-eu não vou olhar. — Se virou para o outro lado enquanto Julie tirava suas roupas.
- Você não vai entrar? — Ela perguntou, Daniel se virou para ela e a viu de biquini, não conseguia deixar de notar no corpo da garota, suas curvas, seus seios, suas coxas e pernas. Para ele, ela era totalmente perfeita. — Daniel!
- Oi.
- Não vai entrar comigo?
- Lógico que não. — Respondeu.
- Hã? Mas porque?
- Porque eu acho que você não merece ver o meu corpo gostoso.
Julie revirou os olhos com a frase nada modesta do fantasma. Mas queria sua campania. — Pode deixar que nem vou notar no seu corpo...
- Não vai? É claro que vai. Eu não vou entrar ai.
- Ai Daniel, será que não cansa de discutir não! Que cabeça dura! Isso me irrita! — Gritou. — Se não quer entrar... Ótimo, eu não ligo. — Disse colocando os pés no riacho. Olhou para o seu reflexo na água, se virou para trás, onde Daniel estava. Ficou assustada. — O-onde... Onde está o seu reflexo? — Ela perguntou.
Daniel foi se aproximando da beira do riacho, olhava para a água mas não encontrava o próprio reflexo, Juliana viu sua expressão triste no rosto. E suspirou. Ele se sentou ao seu lado, ainda angustiado. — Não consegue mais se ver?
- Huh, consigo, no espelho. — Respondeu. Ainda olhando para a água. — Mas aqui não.
- Legal. — A menina respondeu, ainda pensativa.
Daniel virou seu rosto para ela. — Legal? Acha isso legal? — Balançou a cabeça, estava indignado.
- Porque não gosta do que é? Não vejo o Martim e o Félix reclamando porque são... Fantasmas.
Ele suspirou. — O Martim acha divertido ser fantasma, e o Félix acha que é mais seguro ser um fantasma porque... Não precisa morrer, de novo. — Pausou, agora encarando os olhos castanhos de Juliana. — Eu não sou assim, morri com 18 anos. Poderia ter vivido mais. — Foi ai que Julie percebeu como Daniel se sentia. Mesmo sempre se achando o máximo, no fundo ele sentia um grande remoço por ser um fantasma.
Esse também era um dos motivos por ele não assumir sua paixão pela garota. Afinal, ele não sabia se ela o aceitaria como é...
- Eu vou... Entrar na água. — Ela disse, Daniel assentiu, ainda pensativo. Ela foi entrando lentamente na água cristalina, sentiu que tinha um pouco de correnteza ali, mas não hesitou em sair do riacho. Continuou ali, resolveu ficar na beirinha, ainda fitava Daniel, sabia que ele estava chateado. E sabia que era por sua culpa, porque tocou naquele assunto?
Lembrou das vezes que sentia prazer em ver Daniel chateado, às vezes sentia uma raiva incomum dele, quando brigavam, e preferia que ele ficasse assim, pensativo... No outro mundo. Mas agora não, agora as coisas mudaram. Julie sentiu um grande aperto no coração ao vê-lo assim.
Ela se recostou na beira do riacho, ainda fitando o rapaz. Lembrou do que ele tinha feito por ela, e depois de tantas horas juntos, acabou se esquecendo de agradecer. — Obrigada. — Disse sorrindo, ele acordou dos seus pensamentos a encarando com dúvida. — Obrigada por salvar minha vida. — Completou.
- E é assim que me agradece? Um... Obrigado? Só? — Parecia um pouco... Chateado, mas na verdade ele só queria irrita-lá. Afinal, Daniel ainda estava em dúvida se mostrava totalmente seu sentimento por ela, ou voltava a ser o mesmo irritante de sempre. Ele acabou escolhendo os dois. — Deveria ser um pouco mais agradecida. — Revirou os olhos.
Juliana não acreditava no seu tom de voz, os dois se encararam, um sorriso torto se formou nos lábios pálidos do fantasma. Ela acabou entendendo e também entrou no jogo. — Pode deixar, que da próxima vez que me salvar eu... Te agradeço de outra maneira. — Respondeu sorrindo e afundando seu rosto na água cristalina.
'' É tão fundo... '' — Pensou e voltou para a superfície, jogando seus cabelos encharcados para trás. Se aproximou de Daniel. — Porque me salvou? — Perguntou sem esperar a resposta. — Sempre disse que me odiava... Poderia ter me deixado cair...
- Ah, s-sabe como são as coisas. — Ele estava um pouco nervoso, não sabia muito bem como dizer. Deveria escolher muito bem as palavras. — Eu não te odeio de verdade. — Pausou, olhando para baixo. — Eu só... Falo isso na hora da raiva.
- E o que te faz ficar com tanta raiva de mim?
- Esses dias... É que você não está mais ensaiando com a nossa banda, e depois que chega do colégio sobe para o quarto e fica a tarde toda no telefone com o Nicolas. — Suspirou. — Quando não é no telefone, é... Pela internet, ou até mesmo pessoalmente. Vocês não se desgrudam. — Disse de uma vez, sem conseguir encara-lá.
'' Não sei como o suporta... '' — Pensou, lembrando das horas e horas que Juliana passava com o seu namorado.
- Desculpe. — Disse batendo na água, estava com as bochechas coradas. Os dois nunca foram tão ''amigos'' e ''íntimos'' quanto agora. — Eu prometo que vou tentar ser mais leal a banda, e passar menos tempo com ele. — Estava séria.
'' Não sei se faço mais questão de estar ao lado dele o tempo todo. '' — Pensou mas ficou calada. Não queria lembrar do Nicolas. — V-vou... Mergulhar um pouco. — Daniel assentiu enquanto via a garota se afastar.
Ela não mergulhava, na verdade, dava alguns saltos na água. Não conseguiria mergulhar pois seu tornozelo estava torcido e inchado, além disso, quando pisava no solo a dor era insuportável.
Foi se afastando sem perceber, de repente se deu conta que uma leve correnteza a levava. Era leve, porém, forte o suficiente para Juliana não conseguir nadar contra. No inicio ela deixou, pensou que não seria nada de mais. Mas foi vendo que quanto mais se afastava, mais fundo e gelado ficava. Viu ao longe que a correnteza a levaria direto para várias pedras pontudas que estavam do outro lado do riacho. '' Droga... '' — Tentou se segurar na beira, mas não conseguiu. A água já batia um pouco a baixo do seu nariz, ela precisava ficar com a cabeça inclinada para conseguir respirar.
- Daniel! — Gritou, mas estava longe. Viu que o fantasma olhava para o céu, com certeza distraído com várias coisas. — Daniel! — Gritou mais uma vez enquanto a correnteza a puxava. Se segurou em uma árvore, as pedras já estavam próximas. — Daniel! — Berrou com força e vontade, finalmente ele se virou e a viu.
Arregalou seus olhos sombrios, a adrenalina foi à mil ali, sua amada estava em perigo novamente, e dessa vez teria que agir rápido. Correu em sua direção enquanto se livrava de seu tênis, meias, calça e a blusa. Julie se esforçava para lutar contra a força que queria carrega-lá direto para a morte. Daniel já estava a sua frente, pensou em entrar na água. — Ficou louco! Vai se machucar! — Juliana gritou, por incrível que pareça, ficou mais tensa quando viu o rapaz se preparando para mergulhar. — Só me ajuda! Rápido! — Disse angustiada, sabia que não poderia soltar nenhum de seus braços para Daniel puxa-lá pois seria arrastada para as pedras.
Ele acabou se arriscando e entrou na água, também se segurando na mesma árvore que Julie segurava. Ele não sangra, mas isso não significa que não poderia se cortar ou se machucar mais gravemente.
Agarrou a cintura da morena por trás. Mordeu seus próprios dentes e fez força para erguer-lá com uma mão só. — Daniel, você não vai conseguir, eu vou morrer! — Disse chorando.
- São palavras muito animadoras. — Ironizou, mas não deixou de se esforçar para conseguir levanta-lá.
Depois de alguns minutos, Daniel conseguiu coloca-lá no solo, o mesmo pulou e conseguiu se salvar também.
O coração de Juliana estava à mil, era a segunda vez que via a morte de perto.
'' E a segunda vez que ele me salvou '' — Pensou, admirando a beleza do fantasma que estava em cima de seu corpo. Olhou para seus peitos e barrigas definidas, as pernas e coxas. Quase suspirou. Ambos estavam em choque, preocupados um com o outro.
Julie tremia com o frio e o medo. — Já passou. — Ele disse, ofegante. Julie levantou seu rosto que ainda estava deitado sobre a grama e encarou fixamente seus olhos. Alisou o rosto dele com carinho, enquanto Daniel tentava não sorrir.
Ela se ajeitou, se aproximando mais... Encostaram seus narizes, ainda trêmulos, seus olhos continuaram focados um no outro.
Se beijaram.
Foi um selinho de um pouco mais de três segundos, mas ainda estavam perto um do outro, sorriram ao mesmo tempo e se beijaram novamente, dessa vez o beijo foi mais profundo, seus lábios se movimentaram com leveza. Juliana apertava seus cachos semi molhados enquanto Daniel chupava seus lábios. Os dois se beijaram com vontade, sentiam as pontas das línguas se encontrarem, Julie desceu suas mãos... Parando no peito molhado e pálido do fantasma. Ele então começou a retribuir sem pensar duas vezes. Tocou em seu corpo, apertando sua cintura e o alisando com delicadeza. Os dois não se atreveram a se beijar de língua. Daniel achava que não era o momento e Julie... Bom, ela era muito tímida.
Terminaram o beijo com uma mordida nos lábios, Daniel mordia os lábios carnudos da garota enquanto ela puxava e chupava os seus. Sorriram ao mesmo tempo quando se afastaram, deram um último selinho e Daniel se levantou dali. Daniel estava feliz com o beijo, porém, seu orgulho era forte e não admitiria que gostou.
Já Julie colocou na sua mente que aquele beijo foi apenas uma forma de agradecimento. '' Foi só isso... '' — Pensava. Mas sabia que no fundo... Só queria esconder algo que nascia dentro de si.
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