Perdidos.
8 Voltando a normalidade.
Notas iniciais
Julie estava molhada, queria voltar para a caverna e decidiu pedir para que Daniel a levasse, ele assentiu, mas no fundo não queria voltar para lá, sabia que a qualquer hora Martim e Félix junto com os outros viriam busca-lá. Ela pegou suas roupas e começou a vestir, pediu para que Daniel emprestasse seu paletó preto pois estava com muito frio.
Depois de se vestir ficou sentada ali, olhando para o rapaz que calçava seu tênis, ele estava sentado no tronco caído de uma árvore. Julie nem percebeu que o observava fixamente. Sem ao menos disfarçar, sua vontade era de se levantar, mesmo mancando, ir até ele, puxar seu rosto e beija-lo.
'' Não...'' — Balançou a cabeça, afastando esses pensamentos.
Ela não entendia o porque de pensar assim. Desde que namorava Nicolas, nunca pensou em beijar outro. Na verdade, nunca passou pela sua cabeça trair o namorado que tanto gosta, ou gostava.
Ele terminou de se vestir e veio até a garota, ela sorriu, já esticando seus braços, sabia que Daniel iria carrega-lá.
Ele passou sua mão pela cintura dela, a segurando firme, a levantou e seus narizes se encostaram. Os dois ficaram assim, com os rostos próximos por quase dois minutos, só encarando os olhos um do outro enquanto a bochecha de Juliana ganhava uma cor avermelhada. Queriam se beijar novamente, mas ambos estavam tímidos.
Daniel resolveu então virar seu rosto e começar a andar, dava passos lentos para demorar de chegar no abrigo. Porém, uma chuva fina o fez apertar seus passos, não queria que Julie se resfriasse então começou a correr com ela enquanto a mesma ria.
Os dois chegaram no abrigo escuro e úmido, ele a deixou sentada no chão enquanto se ajeitava para se sentar também. Juliana não escondia o sorriso, não sabia porque, mas... Se sentia completamente feliz ao lado dele.
Sem pensar duas vezes, ela se sentou em suas coxas. Se sentando de frente para ele e brincando com seus cachos dourados. — Sabe, eu pensei que esse seria o pior fim de semana da minha morte... Mas... Até que não. — Admitiu. Lembrando de que no inicio não aprovou a ideia de sair para acampar.
- Ah é? — Sorriu. Ainda enrolando os cachos com seus dedos. — E porque?
- Deve ser porque eu me perdi com você e percebi que... Você não é tão irritante assim.
Ela riu com a resposta, acompanhada por ele, mas logo os dois foram ficando sérios, se encararam, lembrando da mesma coisa: Dos beijos. Julie parou de mexer nos seus cabelos e pegou a mão fria e pálida de Daniel, os dois entrelaçaram seus dedos, ainda se encarando. — Você... Acha que foi errado? — Ela perguntou. Um pouco sem graça, não sabia como explicar. — O beijo... Acha... Que... A gente... Não devia t---
- Não, não acho que foi errado. — Interrompeu.
- É que... Sei lá... E-eu... Tenho namorado. — Disse triste. Daniel ficou com raiva, pensou que ela tinha esquecido, pelo menos um pouco, o Nicolas. Mas Julie não estava triste por ter traído o Nicolas, pelo contrário, estava triste por lembrar que tinha um namorado... Às vezes pensava que era melhor quando estava solteira. Era mais livre e mais feliz, agora que ela está com o Nicolas não tem muito tempo para as coisas que gosta, como a música, a banda, Beatriz e claro, seus fantasmas.
- Sabe o que eu acho? Acho que ele mereceu isso. Ele nem veio te procurar.
- Verdade. — Olhou para Daniel. — Você tem razão. — Admitiu com sinceridade. — Sobre... Tudo. — Pausou. — Às vezes penso como você, penso que o Nicolas é um... Cretino. — Viu que Daniel a encarava fixamente. — Que foi? E-eu... Estou pesada? — Tentou se levantar das coxas dele.
- Não é isso. — Tocou no rosto de Juliana, jogando uma mecha de cabelo para trás.
- Posso te perguntar uma coisa? — Falaram em coro. — Eu pergunto primeiro. — Disse Daniel. Julie acabou aceitando. — Quero que me responda com sinceridade.
- Tá! — Estava ansiosa para a pergunta. — Fala logo!
- Entre mim e o Nicolas... Quem você escolheria? — Ela ficou calada, certamente não entendeu muito bem. Daniel revirou os olhos. — Se eu e ele decidirmos... Ir embora... Quem você escolheria para ir?
- O Nicolas.
Ele ergueu a sobrancelha, estava surpreso com a resposta rápida da garota. — Sério? — Não acreditava.
- Lógico. — Respondeu com seriedade.
- Mas... Você gosta dele.
- E daí? Um... Dia eu posso acordar... E... Não gostar mais. — Ele sorriu com a resposta. — Agora é a minha vez. — Ele balançou a cabeça. — Eu queria te fazer essa pergunta a muito tempo, a muito tempo mesmo. — Respirou fundo, seu coração acelerou, ela realmente não sabia como ele reagiria. Na verdade, Julie estava com essa dúvida cruel desde que seu namorado disse que achava que o fantasma estava apaixonado por ela. — N-nós nos beijamos... E para mim isso não foi pouca coisa. — '' Significou algo... '' — Daniel. — Tocou no seu rosto. — O que sente por mim? — O rapaz ficou tenso com aquilo. Sabia que essa era a hora certa de contar.
Mas seu maior medo era dizer a verdade e Juliana não aceitar... Não aceitar o fato de um fantasma estar apaixonado por ela. — E-eu... Juli-e... Eu...
- Só quero saber se você me beijou por beijar, ou... Se é porque gosta de mim.
Suspirou. Encarando seus olhos castanhos que o hipnotizavam com facilidade. — Eu não sei... Sou um fantasma. — Sussurrou a última frase.
- Mas é claro que sabe. — Ela alisou seu rosto. — Vai Daniel, só responde se sente algo por mim ou não.
- É muito mais complicado do que dizer '' sim '' ou '' não ''. — Fechou os olhos.
'' É agora '' — Pensou. — V-vou resumir. Tá? — Ela sorriu. Ele não escondia o nervosismo e a ansiedade. — Julie, eu t-- Travou.
- Eu te o que? — Continuou sorrindo, até pensar na resposta. Foi desfazendo o grande sorriso do seu rosto. — Você me odeia Daniel, é isso? — Ele não conseguiu responder, não pensou que ela fosse tão cega. — É isso, hein? — Seus olhos estavam marejados. '' É tão obvio, ele me odeia... '' — Acho que não deveria perguntar isso. — Disse. — Já brigamos tantas vezes... Já disse várias vezes que me odeia... — Daniel só ouvia. — Essa é a resposta. Não é?
- Quem te critica no fundo te admira...
- Daniel, diga logo.
- É o que estou tentando fazer, mas você não cala a boca!
- Viu! Viu como me trata! Uma hora me trata bem, e na outra não!
- É que você consegue me tirar a paciência! — Gritou perto do seu rosto, viu uma lágrima cair dos olhos da morena. Se acalmou. Passando o polegar pela lágrima quente e a secando. — Desde a primeira vez que eu te vi... Que brigamos e... Cantamos juntos... — Começou, mas foi interrompido com gritos ao longe, os dois se calaram. Tentando encontrar de onde vinha o barulho.
- Julie! — Gritavam várias vozes diferentes, vozes que os dois reconheciam. Eram vozes misturadas, a voz da Bia, do Valtinho, até do Martim e Félix. Daniel sabia muito bem o que estava acontecendo e começou à ficar nervoso, porque vieram justo agora? Justo na hora que ele abriria finalmente o seu coração. Já que ele não tinha tanta facilidade de expor seus sentimentos, nunca se apaixonou, então nunca precisou se declarar para ninguém.
- Está ouvindo? — Juliana perguntou, confusa. Os gritos ainda eram baixo.
- N-não ouvi nada. — Tocou no seu rosto, os dois encostaram seus narizes, isso fez Julie se distrair dos gritos e sorrir com a aproximação, ela queria terminar com o espaço e beijar seus lábios congelantes. — Juliana, me escute. — Continuou de narizes encostados. — Sinto algo muito forte. Por você.
- O que? O que sente?
- Julie! — Daniel fechou os olhos, escutaram os gritos e perceberam que estavam mais altos. Ele continuou de olhos fechados, sentindo Juliana tocar no seu rosto e esperar sua resposta. Sentiu uma irritação nos olhos e percebeu que estava quase chorando, tentou se controlar, não queria se mostrar sensível perto da amada, já que sempre foi forte e revoltado.
- Estão me chamando...
- Não. — Ele abriu os olhos. — Não estão Julie, fica aqui. Fica comigo. Não vai lá. Por favor. — Implorava. Juliana nunca tinha o visto tão... Desesperado.
Percebeu que o que Daniel tinha para dizer era algo extremamente importante. Porém, sua vontade de ver quem a chamava, ou então encontrar ajuda era maior. — Eu volto. Eu prometo. — Disse ela. Já tentando se levantar do colo dele.
- N-não Julie... — Segurou sua cintura.
- Eu vou lá.
- E-eu não estou escutando gritos. — Respondeu entre dentes. — Não seja tão teimosa.
- Eu volto meu amor, eu volto. — Não aguentou e beijou timidamente os lábios de Daniel. O mesmo começou a retribuir quando sentiu seus lábios junto aos dela. Ela queria um beijo de cinema, mas os gritos e a ansiedade a fez se separar de Daniel. Os dois sorriram ao mesmo tempo. Ela segurou seu rosto e lhe deu mais um rápido beijo antes de se levantar.
Daniel apenas suspirou quando viu que Julie já estava em pé, se apoiando na parede e andando lentamente, com uma perna só. Ele continuou sentado ali até que viu que a garota não estava mais por perto.
Juliana pisou na terra molhada do lado de fora, sujando seu coturno de lama. Os gritos tinham parado, até pensou em voltar para dentro, mas assim que se virou para voltar escutou seu nome novamente. Além do grito, escutou passos, estavam próximos.
- Julie! — Ela reconheceu a voz: Beatriz gritava.
Juliana sorriu. E não perdeu tempo em responder. — Bia! Estou aqui! — Gritou para todos os lados, não sabia onde sua amiga estava. Ficou parada ali por alguns segundos até que viu o grupo de garotos e garotas da sua classe correrem em sua direção, até Martim e Félix estavam entre eles, certamente visível apenas para ela e a amiga.
Seu sorriso foi se desfazendo quando viu Nicolas se aproximar. A essa altura Daniel já tinha ido para fora, encontrando Martim, Félix, Bia, e... Nicolas.
Ele passou pela Julie cabisbaixo, a mesma olhava para Daniel com um ar triste. Ele foi para perto de seus dois amigos, entre o grupo de estudantes. — Julie, você está bem? Se feriu? — Nicolas perguntou, todo preocupado. Na verdade mostrava preocupação apenas para Bia não suspeitar dele.
- E-eu... Eu não estou bem, feri meu tornozelo e mau consigo andar.
- Oh meu amor. — A abraçou com força, Julie não retribuiu o abraço, ainda olhava para o fantasmas de cachos dourados que estava parado na sua frente, de costas para seu namorado. — Você vai ficar bem. — Disse Nicolas, a soltando. Viu sua roupa. — M-mas... Olha como está vestida! Onde encontrou essa roupa suja?
- E-eu...
- Deixa que eu me livro disso! — Pegou o paletó preto e jogou no chão. — Estava com saudades de você. — A abraçou pela cintura.
- Tá Nicolas, me solta... — Sem conseguir se soltar, ele a beijou, a beijou com vontade, um beijo de cinema que fez Daniel abaixar a cabeça enquanto todos os outros aplaudiam o ''lindo reencontro'', menos Bia e os três fantasmas.
Enquanto sentia os lábios do seu namorado beijarem os seus, Julie olhava fixamente para Daniel, lembrando dos momentos juntos enquanto estavam perdidos ali. Sentiu o beijo que recebia, um beijo tão... Comum, não tinha nada de especial... Nada de sobrenatural, seus lábios nem atravessavam os dela, como os beijos de Daniel. '' Como pude achar que eu e o Nicolas já tivemos a química um dia...? '' — Pensava, enquanto não tentava retribuir aquele beijo sem graça. Nicolas finalmente a soltou. — Eu te carrego. — Falou sorrindo, já levando a garota em seus braços.
- N-Nicolas... Não precisa. — Ela tentava se soltar, mas acabou deixando. Todos se viraram e foram andando pelo caminho onde chegaram, Daniel se abaixou, ainda olhando para o casal de vivos, pegou seu paletó do chão e o vestiu.
Notas finais
Comentem !
Fale com o autor