Perdas e Ganhos: Como Noites de Verão
7 Concede-me a honra desta dança?
Notas iniciais
Depois de tanto conversarmos, Marcos resolveu parar um pouco para pegar mais uma bebida, alegando já ter falado demais e secado a garganta. Fábio não voltou a falar comigo, “suas” loiras o impediam de tirar-lhes sua atenção. E todos ao redor pareciam cansados de comer e conversar, ainda assim não cansados de festejar. Então, a atividade do momento passou a ser a dança.
Já haviam transcorrido algumas horas, e as músicas foram gradativamente indo de pagodes agitados a rock’s românticos dos anos 80. Alguns pares se formaram entre as pessoas na mesa e eu sorria a cada investida dos rapazes com as moças.
(Sequências de Músicas próprias para Festa)
(Trilha tranquila para Leitura)
Estava sozinha em meus pensamentos, quando, alguns minutos depois, Marcos retornou ao meu lado. Mas mesmo que tivesse coragem para retomar nossa conversa, ele parecia mais interessado com a picanha que trouxera num novo prato gigantesco como uma montanha de carnes empilhadas.
Para não perturba-lo, voltei as minhas observações. Vi Miranda retrucando com Tales, mas mesmo contrariada e claramente ofendida por algo que ele disse, ela mesma o puxou para a pista de dança. Vi as gêmeas numa briga de olhares para ver quem iria dançar com Fábio, e assim que ele demonstrou que viraria para mim, uma delas o segurou e forçou-o a segui-la.
Assim que ele se levantou, a outra foi em direção ao rapaz negro careca tocando violão e o chamou. Este foi logo soltando o instrumento e, animado, deu o braço a ela caminhando em disparada para a pista. Via-se que a música era sua paixão: fosse toca-la, canta-la ou dança-la.
Como minha observação seguiu a gêmea loira de saia que foi ao lago buscar um parceiro, percebi que a ruiva olhava muito para minha direção. Já havia sentido olhares as minhas costas, mas jamais imaginaria que eram dela. E ao notar que Marcos parecia inquieto e chateado, me lembrando que nenhuma vez ele se virou para a direção do lago desde que Érica se sentou lá, constatei que o que ela queria mesmo era tira-lo para dançar. E ele, claramente, sabia e não parecia muito a fim.
Não sabia o que havia entre eles, e mesmo encantada com o moreno de olhos cor de âmbar ao meu lado, resolvi não ser um empecilho em sentido algum. Afinal, nem sabia se eram namorados ou apenas amigos que tinham algum envolvimento mais profundo. Em nossa conversa fiquei encabulada para perguntar se ele tinha namorada.
E embora o simples pensamento da possibilidade me deixasse desconfortável e triste, voltei minha atenção para meu prato com alguns pedaços do bolo de chocolate. Servido depois do parabéns ébrio dos convidados por algumas mulheres estranhas. Quase levei um susto. Elas o depositaram ali sem ao menos perguntar se queríamos, e ainda levaram o prato que Marcos havia feito para mim, e do qual eu não tinha conseguido nem beliscar. No entanto... Chocolate é chocolate! Que outro argumento meu estômago precisava para se desinibir em gula e abrir espaço para a iguaria.
Enquanto comia meu bolo, fui me afastando lentamente de Marcos, para que quando a ruiva viesse chama-lo eu estaria distante o suficiente para não ser uma desculpa; querendo mais tentar me desapegar. Estava a umas três palmas de distância dele, quando um dos “irmãos morenos bronzeados” veio me chamar para dançar. Marcos o encarou na hora, e eu estremeci.
– Ei, moça! Não quer dançar? – assim... bem direto.
– Não a incomode, Edu! – Marcos parecia um pouco bravo com o rapaz.
– E não vou! – ele fez uma careta ofendida.
– E não vai dizer que eu sou algum pervertido por querer dançar.
Olhou para mim com um sorriso sedutor, que só me fez recuar e Marcos dar um sorriso de canto de boca.
– Não acho que ela queira! – ele parecia muito contente com a constatação.
– Ah, quê isso, lindinha?!? Vai ser divertido, e minhas mãos vão ficar acima dos seus ombros.
(Essa pintura não tem muito com o momento, mas me inspira)
Ele ignorou totalmente o comentário de Marcos e notei que seu olhar era sincero e cheio de esperança.
Eu queria dizer não. Não queria dançar com ninguém. Mesmo que tivesse de dançar com Marcos, eu evitaria, pois não queria acabar nervosa e, como consequência, pisando em seu pé. Então arrumei uma desculpa honesta.
– Desculpe... Mas eu não danço bem. Não quero pisar em você! – eu disse torcendo os dedos sob a mesa, de nervosismo.
Marcos me pareceu satisfeito com minha recusa, mas Eduardo não dava sinal de querer desistir. Pelo contrário; transbordava determinação.
– Não se preocupe, eu sei conduzir muito bem e estou usando essa botina.
Ele levantou um pouco o pé para que eu pudesse visualizar seu calçado pesado, com ar de muito resistente.
– Se você pisar no meu pé eu nem vou sentir. – ele continuou com um grande sorriso e um olhar muito encorajador – Vamos! Vai ser legal!
Eu achei improprio. Casais estavam se formando a minha volta e parecia que Eduardo não entendia que não era apenas um momento de diversão, mas uma declaração de união. E não queria passar uma ideia errada para ele, muito menos para Marcos.
Estava me preparando para recusar uma segunda vez e com mais firmeza, quando a ruiva chegou até o canto de Marcos e sussurrou em seu ouvido algo que o deixou totalmente sem jeito. Não sei o que me deu na hora, mas me subiu um mal estar, uma aflição.
Eu queria sair o mais rápido possível dali. E vendo Eduardo a minha frente com sua mão estendida, prometendo apenas um momento de descontração em seus olhos. Achei que seria minha melhor fuga e sem pensar duas vezes, olhei pra ele um pouco inquieta, levantei bruscamente, tirando Marcos de seu constrangimento por um instante, e respondi:
– Bem... en-en-tão... então tudo bem! Eu acho?!
A agitação que me corria o corpo me fez gaguejar. Contudo as palavras saíram, mas com a última frase findando em um sussurro. Eduardo abriu um sorriso gigantesco e seus olhos brilharam intensamente. Estava muito contente, e assim que coloquei minha mão em sua palma, me puxou um pouco mais para perto e beijou o dorso dela com muito carinho. Senti algo grande se mexer ao meu lado, mas Eduardo não me deu nenhum tempo para verificar. Arrastou-me – com leveza, mas rápido o suficiente para que eu não mudasse de ideia – até o meio dos casais, ao ponto de não poder ver mais a mesa da distância em que estávamos.
Assim que chegamos a um local que ele determinou adequado, me trouxe mais junto ao seu corpo, respeitando certa distância para não me assustar, pelo que pude ler em seus olhos. Segurou minha mão direita com a sua e com a esquerda apanhou a lateral do meu ombro.
Como meu vestido era de mangas curtas as grandes mãos dele tiveram bom acesso à pele de meus braços. E com seu toque, um arrepio instantâneo me correu a espinha. Senti o calor de suas mãos e isso me deu certa calma, no entanto não foi arrebatador ou firme como na hora em que Marcos me segurou ou tentou chamar minha atenção. Era agradável, mas não fazia as borboletas na minha barriga levantarem seu voo frenético, apenas uma leve irritação na boca do estômago. Ainda assim eu suava.
Ele sorria para mim a cada passo. E as músicas alternavam entre levemente agitadas para românticas suaves – muitas para se dançar agarradinho. Dançava cada uma comigo respeitando certa distancia que me deixava confortável. Seguiu me mostrando alguns pequenos passos para cada ritmo, me fazia rir com suas explicações confusas e seus maneirismos.

Ria com minhas tentativas, depois voltando a sua ‘postura de professor dedicado’. E embora ele não poderia ser considerado um exímio dançarino, tenho de confessar que seu entusiasmo e alegria me contagiaram ao ponto de estar muito relaxada até para ousar em alguns passinhos, sempre recebidos com muitas gargalhadas e elogios divertidos da parte dele.
Comecei a me soltar aos poucos e estava sendo mesmo um tempo agradável com Eduardo. Ele realmente era “gente boa”, como apontou Miranda. Era uma pessoa simples que, muitas vezes, não pensava antes de falar. Ficou claro para mim que não fazia por maldade. Era seu natural.
Muitas vezes ele parecia um menino quando me explicava e ao me mostrar em que posição deixar o braço, as mãos ou como dar tal passo durante a música. Seus toques ficavam cada vez mais familiares para mim e já não me perturbavam.
Conversamos por um bom tempo, e eu nem podia acreditar que ele já havia feito vinte dois anos e, como Marcos, fazia agronomia estando a ponto de concluir o curso em dois semestres. E me disse só estar atrasado com algumas disciplinas.
(Música que me faz lembrar nós dois)
_______*Song*_______
Look around (Olhe ao redor)
There’s no one but you and me (Não há nada entre você e eu)
Right here and now (Bem aqui e agora)
The way it was meant to be (Do jeito que deveria ser)
There’s a smile on my face (Há um sorriso em meu rosto)
Knowing that together everything that’s in our way (Por saber que juntos, tudo que esteve em nosso caminho)
Were better than alright (Foi melhor do que bom)
refrão (não vou colocar pois não é o mais importante)...
Take me now (Me leve, agora)
The world’s such a crazy place (O mundo é um lugar tão louco)
When the walls come down (Quando os muros vierem abaixo)
You’ll know I’m here to stay (Você saberá que estou aqui para ficar)
There’s nothing I would change (Não há nada que eu mudaria)
Knowing that together everything that’s in our way (Por saber que juntos, tudo que esteve em nosso caminho)
Were better than alright (Foi melhor do que bom)
(...)
Walking between the raindrops with you (Caminhando entre as gotas de chuva com você)
__________ *Final Song*__________
Eduardo tinha um ar de garoto tolo, mas a cada explicação que dava sobre seu curso e as matérias de que gostava, mais eu percebia sua inteligência. Ele realmente me mostrou o quanto sabia de Agricultura, Clima, Vários tipos de “cultivares” – como ele mesmo destacou – e uma porção de coisas.
Também me contou sobre assuntos mais pessoais, como o relacionamento com sua mãe e sua ‘pequena’ família – com os pais divorciados, duas ex-madrastas e duas meio-irmãs, uma de cada madrasta – e situações cômicas de quando era apenas um menino que adorava sorvete e jogar futebol. E eu retribuía compartilhando minhas histórias da infância a adolescência, minha universidade à distância, o porquê de escolhê-la, meus outros cursos e também meus sonhos.
Era tão fácil conversar com ele. Os assuntos vinham naturalmente e se aprofundavam sem nenhum constrangimento. E sua honestidade em responder tudo sem rodeios ou tentativas de mascarar um fato ou outro, tornou nossa conversa mais íntima em pouco tempo. Chegamos a contar sobre as músicas que gostamos de cantar no banheiro. Ele me dizendo que gosta de gritar seus ‘heavy metals’, enquanto eu dizia brincar de cantora de ópera, forçando a voz ao máximo até minha mãe gritar: Vai com calma Taís ou vamos ter de trocar os vidros das janelas!
Contar essas coisas seria impensável para eu desenvolver com outras pessoas. Foi então que me lembrei de Marcos, e que em nenhuma vez ele me deu abertura para compartilhar minhas experiências, nem mesmo me perguntou sobre meus estudos e ocupações. Antes que enveredasse por esse caminho que estava se provando um pouco angustiante, Eduardo me retirou de meus devaneios com mais um de seus comentários diretos.
– Nossa! – ele ficou espantado, depois de pensar sobre minha última declaração em nossa conversa – Três anos de curso de inglês! Muito tempo pra uma matéria só.
Eu ria das críticas dele com carinho. Continuamos conversando mais, e até cheguei a contar de minha – já falecida – cachorrinha Lola. Uma Cocker Spaniel preta e branca, que não chegava aos meus joelhos. Disse os truques que meu pai a havia ensinado e o quanto era esperta. Até cheguei a contar de quando ela saia correndo sabendo que meu pai estava chegando do trabalho, e eu e meu irmão gritando: Corra Lola, corra! Claro que tive de explicar para meu irmãozinho o porquê, pois como só tinha sete anos quando começamos esse ‘jogo’, meus pais acharam que ele não deveria assistir o filme até ter seus dezesseis anos. E por um bom tempo, ele embarcava na brincadeira, por achar muito engraçado Lola nos respondendo com seus latidos e pulos.
– Você é mesmo incrível, Taís – Eduardo disse me fitando com profundidade entre uma risada e outra.
Eu fiquei muito envergonhada com sua declaração e seu olhar, estava a ponto de baixar a cabeça, quando ele me trouxe contra seu peito e apertou minhas costas com firmeza. E se eu estava nervosa antes; naquele momento não conseguia nem saber que música estava tocando ou até me concentrar no que estivesse ao nosso redor. Inconscientemente só me concentrei nos dedos de Eduardo traçando leves círculos em minhas costas e na forma delicada como ele trouxe minha mão direita para seu pescoço. Mesmo que ele tivesse que se encurvar bem, o senti colocando seu queixo sobre minha cabeça.
Notei sua respiração sobre mim, seus dedos no baixo de minhas costas e ele mexendo sua cabeça levemente sobre a minha algumas vezes, como se a estivesse escovando. Toda aquela situação estava me deixando muito tensa e eu endureci, mas o choque foi maior quando percebi que ele estava sorvendo o perfume dos meus cabelos.
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