Perdas e Ganhos: Como Noites de Verão
8 Conhecendo Um Cara Gente Boa.
Notas iniciais
Depois de ter me chamado para dançar insistentemente e dito que suas mãos não passariam dos meus ombros; as novas ações de Eduardo soaram como quebra de promessa e armadilha, e por isso já estava perdendo a confiança que os momentos de dança divertida com ele trouxeram.
Embora o carinho que me fazia nas costas e sua respiração pesada sobre meus cabelos, foram o suficiente para que eu ficasse paralisada em choque. Sem saber bem o que estava acontecendo ou o que estava sentindo. Ele deve ter percebido meu espanto e endurecimento, por que afrouxou um pouco seu aperto sobre mim e comentou:
– Você parece uma princesa, Taís!
Ele levantou um pouco a cabeça e eu cometi o erro de olhar para cima e me sentir derreter com o puxar de lábios dele que evidenciava um leve sorriso sensual.
– Você é muito linda!
Ele acomodou suas palmas das mãos no baixo de minhas costas como que para ter um contato maior e me prender mais perto. Eu não sabia por que meus olhos não se distanciaram dos dele. Mas, simplesmente, não conseguia desviar.
Seu olhar me transmitia um carinho profundo, e algo mais que fazia seus olhos começarem a ficar mais escuros. Ele se inclinou um pouco mais para mim, lentamente, aproximando nossos rostos a distância de uma cabeça.
– Você é muito delicada. Tocando você eu sinto como se fosse te quebrar se usar mais força.
Eu ainda me sentia presa por seu olhar, contudo tentei tirar minhas mãos de seu pescoço e ombro, para retirar as dele das minhas costas, mas ele me apertou um pouco mais contra si. Ele sussurrava tão baixinho que soava como o zumbido de um mosquito, mas como estava tão concentrada em cada ação e palavra dele, consegui entender:
– Macia e cheirosa! – até aí eu podia controlar meu nervosismo, mas ele tinha que completar – E tem uma bunda linda!
Meu choque só aumentou, meus olhos arregalados ao seu máximo. Ainda mais por pensar: Como assim, bunda linda? Ele já viu meu bumbum? Será que este vestido está transparente? O que ele pensa que esta fazendo? O que ele pensa em fazer comigo? Várias cenas de mulheres estapeando cafajestes vieram a minha mente no mesmo instante.
No entanto, minhas mãos não se levantaram contra ele e seus olhos me mantiveram presa em minha paralisia. Aprofundando naqueles poços escuros eu pude ver que ele não queria ser lascivo e, com sua sinceridade atípica, queria mesmo me fazer um elogio. No entanto, senti meu rosto e pescoço em chamas de tão chocada e constrangida.
Nunca havia passado por isso. Já havia ouvido amigos meus falando assim de muitas garotas, mas se uma delas chegasse a suas rodinhas ‘clube do bolinha’, eles logo trocavam o assunto “atributos sexuais das mulheres” para as últimas partidas de futebol, games e outros temas que eles consideravam relevantes no universo masculino.
Se já me olharam com estas perspectivas eu nunca soube. Não destes meus antigos amigos, que me viam como uma vara de bambu sem nenhuma feminilidade. Por isso e por minha timidez, não sabia bem como proceder e estava muito desconfortável com suas declarações tão indiscretas. E apesar de nos outros sentidos ele não parecer uma ameaça, o quanto eu conhecia dele para ter certeza que não me faria mal? Quase nada! Pensei.
Finalmente, consegui quebrar o encanto de seu olhar. Abaixei e virei à cabeça sem jeito. Uma profunda compaixão e algo mais, que até o momento não sabia nomear, gerados durante nossa conversa ‘recíproca’, não me permitia ser rude com ele ou empurra-lo para longe. O sentimento de não magoa-lo era mais forte que minha razão. Que me dizia para chutar entre suas pernas e sair correndo dali.
Ainda assim, precisava sair dali, estava muito incomodada com toda a proximidade; insegura e muito nervosa. Corriam escorpiões em minha barriga, de tão angustiada que me sentia. Tomei um pouco de coragem, mas o sentimento só me fez diminuir a voz. Além do calor que ele emanava e seu peitoral definido me fazendo corar.
– Hmm! Eu não sei... Não sei se... – eu disse muito envergonhada, antes de ser interrompida.
– Você fica ainda mais bonita assim... – abaixou a cabeça até meus ouvidos – ...Vermelha como um morango!
Ele disse a segunda parte como um sussurro e eu estremeci. Na hora, todos os ensinamentos de defesa pessoal e todas as minhas barreiras ruíram. A lembrança daquele sussurro e sua respiração arrebatavam meus sentidos. Embora a razão tentou um último suspiro.
– Edu...Eduardo... acho melhor a gente...
Tentava dizer para terminarmos a dança e voltarmos para a mesa, antes que minha sensatez desaparecesse de vez, mas ele interveio antes.
– Eu sei! Mas eu quero ficar só mais um pouquinho aqui... assim.
Ele voltou a sua postura ereta e me apertou num abraço possessivo e urgente, como se eu fosse o único pedaço de madeira no mar que o impediria de se afogar. Nesse momento comecei a pensar onde estariam os meus pais. Se eles já não haviam percebido o quanto era tarde, que eu já estive muito distante deles o que não era meu comum e que já deveríamos estar voltando para casa.
Sendo obrigada a ficar com a cabeça virada em apenas uma direção e boa parte bloqueada pelo alto homem a minha frente, eu tentei ao máximo ver se encontrava alguém que pudesse me tirar daquela situação. Mesmo meu irmãozinho que passou umas três vezes quando eu estava na mesa dos jovens, com certeza a pedido de minha mãe para saber se eu estava bem e me enturmando, não aparecia. Não. Meu irmão havia sumido. Pelo menos do lado em que eu podia ver. Se meus pais estavam sentados na mesma mesa, que estiveram desde o começo da festa, ou dançando no meio daquela multidão de casais, não estavam em meu campo de visão também.
– Te abraçar é muito bom, Taís!
Fui desperta de meus pensamentos pelo moreno que me abraçava como um urso. Sentia suas mãos começando a circular por minhas costas e tentei me afastar dele colocando as minhas contra seu peito. Outro erro terrível.
Ele me apertou mais e eu fiquei numa posição ainda mais íntima com ele. E ainda podia sentir seus músculos sob minhas palmas. O calor que ele emanava estava até me deixando tonta, eu não sabia mais o que deveria fazer. Uma agonia terrível começou a tomar conta de mim. Eu me sentia violada, mesmo ele sendo, de certa forma, carinhoso. O fato de me impedir de dizer não, nem de me deixar me afastar estava me colocando preocupada.
Comecei a pensar onde mais ele poderia chegar. O que ele estava pensando em fazer comigo. Eu comecei a me agitar um pouco, tentando virar a cabeça para qualquer outra direção e quem sabe encontrar minha família e pedir ajuda. Não sabia se eles poderiam me ouvir, porque ainda haviam pessoas conversando muito alto, a música, mesmo melódica e de ritmo calmo, estava muito alta também, e havia movimento em todo ambiente.
(Não sei, mas acho que estávamos quase assim.)
Então comecei a sentir ele afagar meus cabelos e, de vez em quando, analisar algumas das trancinhas que minha mãe fez. Estava um penteado bem simples, com duas mechas de cada lado em uma única trança, deixando o resto do cabelo solto e algumas trancinhas bem finas nas laterais para enfeitar e diminuir um pouco o volume. E ele estava enrolando algumas em seus dedos e depois, parecendo medi-las, ele me disse:
– Nossa, Taís! – senti-o inspirar sobre uma das tranças que ele tinha nas mãos – Você é a imagem de uma princesa, de verdade.
Ele voltou a alisar minhas madeixas soltas.
– Você tem cabelo pra caralho!
Disse com muita suavidade, que nem pude detectar o palavrão, enquanto ele puxava algumas mechas analisando o comprimento que ia até os quadris. Ele deve ter sentido que foi ofensivo, pois se preocupou em dizer:
– Digo... Ele é longo!
Colocou uma mecha comprida, esticando-a, e senti o roçar de seus dedos fantasmas sobre a região do quadril.
– Muito longo!
– E-Edw... – eu tentei traze-lo a realidade, mas minha voz não passava de um murmúrio.
– Você tem um cheiro gostoso... – expirou sobre o topo da minha cabeça novamente – Como pera.
E me abraçou mais forte com seu queixo sobre o topo da minha cabeça.
– Você é muito macia, delicada e cheirosa, como uma princesa.
Parecia um menino falando de seu bichinho de estimação, e meu alarde diminui um pouco, mas apenas um pouco.
– Eduardo eu não...
Voltei aos meus insignificantes ruídos, que ele facilmente bloqueava, estava me sentindo patética e fraca perto dele.
– Desculpa, Taís! – ele me apertou mais – Eu sei que deve ser estranho pra você. É que eu... eu...
O aperto se transformou numa suave massagem nas minhas costas que provocava alguns arrepios de mim.
– Eu não consigo te soltar!
Beijou o topo da minha cabeça devagar e ficou um bom tempo até levantar um pouco sua cabeça e continuar seus comentários.
– Eu nem sei por quê. Mas eu não consigo e não quero!
Voltou a abaixar sua cabeça sobre a minha colocando seu ouvido contra o topo da mesma.
– E quando te abraço... Eu me sinto bem, de verdade. – ele voltou a me apertar – Mas não se preocupe! Eu não vou fazer mais nada que você não queira. Eu prometo!
Eu senti os músculos dele enrijecerem e imaginei que era sua maneira de se controlar para não “fazer mais nada” diante de tudo que já esteve fazendo, tendo a muito ultrapassado sua palavra de “minhas mãos vão ficar acima dos seus ombros”. E lembrar seus termos me deixou apreensiva. E me afundei em meus pensamentos, me perguntando se ele de fato cumpriria sua nova promessa ou a quebraria se ‘meu aroma ou minha maciez’ começassem a ser algum atrativo ainda maior para ele.
Eu não entendia todo seu encanto por mim. Eu não tenho cheiro de peras! Eu nem sei que cheiro tenho, a não ser o de “limpeza” que minha mãe costuma cobrar do Miguel, depois de seus banhos instantâneos.
Eu me imaginava sendo tão magra, que não via que maciez eu poderia ter, às vezes até pensando em meus ossinhos se batendo como galhos secos. Certamente que meu cabelo era comprido além do comum, todo ondulado, e minha mãe havia feito um penteado de “donzela medieval” naquela noite, que poderia contribuir para uma imagem de ‘princesa’.

(só pra dar uma idéia)
Sem contar que o vestido que ela costurou para mim era todo delicado, com um padrão de figuras de pássaros, um laço de cetim fino no decote da gola e outro na cintura, me dando todo um ar bem romântico. Mas daí para uma princesa. Considerava exagero.

Comecei a imaginar os motivos que o levavam a estar assim tão apegado a mim em tão pouco tempo. E de todos os argumentos que meu raciocínio podia escrutar, eu imaginei que ele deveria estar sobre o efeito de muito álcool. No entanto, tive de refutar este pensamento instantaneamente. Ele não tinha nenhum hálito forte característico, nem qualquer aroma com a finalidade de esconder o cheiro de bebida alcoólica. Também não tinha qualquer traço de ter usado alguma droga. Me restaram três alternativas, sendo que no momento eu já não estava raciocinando com todas minhas faculdades mentais:
¹ Ele estava carente e como suas amigas não pareciam confiar muito nele por seu jeito, e eu sendo uma das poucas que o permitiu tal aproximação... Ele estava “aproveitando”.
² Ele realmente está interessado em mim e talvez (TALVEZ) tenha sido amor a primeira vista e ele não queira me deixar escapar ( Cheguei a esta opção pensando em filmes românticos, uma tolice, mas ainda possível).
³ Eu possa, provavelmente – apenas como possibilidade – ser o tipo dele e, por isso, ele está sendo tão possessivo comigo (essa ideia me surgiu de uma conversa com meu amigo Thomas, que namorava garotas com as mesmas características: Loiras, mais baixas que ele e de olhos castanhos).
Enquanto eu pensava em tudo isso, o sentia relaxando seu abraço e comecei a me preocupar. Será que ele decidiu que não vai mais se controlar e quebrar sua palavra? Para minha surpresa ele levantou a cabeça de sobre a minha e parou nossa dança. Seus músculos ficaram mais tensos do que quando ele “decidiu se controlar”, ergui minha cabeça para fita-lo e percebi que ele encarava algo, ou melhor, alguém.
Foi ficando muito sério, começando a contrair o rosto numa carranca de raiva contida. Então deve ser uma quarta opção: Ele está querendo provocar ciúmes em alguém e se está vendo a garota aqui, com certeza ela está com outro alguém e por isso sua ira. E está me bajulando para que eu, sem saber, coopere com sua farsa, pensei na época. Foi a pior alternativa e uma magoa inexplicável se aprofundou em mim.
– Eduardo... – eu ia perguntar, tristemente, o que estava havendo, quando ele me interrompeu bruscamente.
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