Notas iniciais
Disclaimer: Eu não tenho direitos sobre Saint Seiya. Nenhum. Também não ganho nada com isso.
Aviso: De novo, essa fic tem yaoi, twincest, dark lemon... bom, vocês já sabem.

Espiral Descendente

Shion sempre soubera da relação dúbia entre os gêmeos. E era ela, ironicamente, que os fazia tão especiais.

Ambos de personalidade forte, mas que também se atraíam como ímãs.

Kanon era o lado terreno deles dois... impulsivo, insolente, ambicioso, rebelde e difícil de ser domado, mas era forte, aguerrido e, em sua essência, resiliente. Saga era o dito divino, justo, calmo e bom. Aparentemente invencível e inquebrantável... mas de psique mais frágil do que aparentava. Ele carregava em si uma dualidade assustadora. Ao contrário de seu irmão, Saga dividiu seu lado bom de seu lado ruim completamente, como duas personalidades. Sua faceta boa era a que todos conheciam. Sua faceta má era absolutamente má, muito mais difícil de se controlar. E a parte boa de Saga, embora o próprio desconhecesse, era excessivamente dependente do irmão.

Fora essencialmente por isso que escolhera Saga, e não Kanon, para envergar a armadura de Gêmeos.

Dos dois, Kanon era o que tinha mais chances de superar a perda do outro gêmeo. Tinha defeitos, e é verdade que esses defeitos lhe custariam a armadura, mas ele também tinha uma força interior desconhecida até mesmo para si. Já Saga, se perdesse Kanon, talvez desse vazão ao seu lado ruim e ficasse fora de controle. Por isso também contrariou o senso comum e escolhera Aiolos seu sucessor como grande Mestre.

Mas o que veio disso, como dizem, foi história.

Kanon saíra do controle, era ambicioso, não tolerava mais a vida nas sombras. E Saga resolveu puni-lo ao descobrir seus planos.

Admoestou Saga duramente quando descobriu que este prendera Kanon no Cabo Sunion. Se soubesse antes do que iria acontecer, o teria impedido. Sabia que a sanidade dele estava intimamente ligada ao irmão. E a perda dele foi o fator que faltava para a lado mau de Saga se libertar. E como ele temia, Saga não tinha forças o suficiente para dominar completamente seu lado mau, que o fez conspirar para tomar seu lugar como mestre do Santuário.

Para Shion, isso lhe custou sua vida. E agora não podia se dar ao luxo de morrer outra vez.

Sabia que Ares não queria matá-lo novamente, não ganharia nada com isso agora. Athena já não era mais vulnerável aos seus planos, e ele sabia disso. Ele podia ser louco, mas não era burro. Queria vingar-se de Saga, mesmo que ferisse Kanon no processo. Mas Ares ultrapassara todos os limites desta vez, isso tinha que admitir. Fazer a Kanon o que fez, e ainda deixar Saga com as memórias de tamanha torpeza fora demais. Mesmo conhecendo Kanon como conhecia, duvidava que o rapaz voltaria a si sem seqüelas ou cicatrizes. Ficaria marcado para sempre em sua alma. E Saga...

Mu interrompeu Shion em seus pensamentos.

“Mestre, precisa acalmá-lo. Ele está fora de controle...”

Saga continuava histérico. Shion decidiu então que se acabara o tempo de atitudes delicadas. Teria que ser bruto. Então aplicou em Saga o Satã Imperial, fazendo-o perder os sentidos em seus braços. Shion decidiu então que Ares não venceria. Isso não. Velaria pelos gêmeos que, em sua outra vida, assistira crescer.

***

Milo de Escorpião aguardava impacientemente no saguão do hospital onde fora, junto com Camus e Máscara da Morte, deixar Kanon.

Assim que chegaram, o rapaz fora encaminhado à emergência. Não deixaram que nenhum deles entrasse junto. E ele tinha suas dúvidas se Kanon ainda respirava.

Isso já fazia quase duas horas. E ninguém aparecera para dar alguma notícia sobre seu estado.

Tomou mais uma xícara de café. Camus estava sentado, quieto; não dissera uma palavra desde que chegaram. Carlo andava de um lado para o outro, batalhando contra sua impaciência também.

Milo não conseguia parar de imaginar se essa demora toda era um bom sinal. Achava que se Kanon não tivesse resistido alguém já teria os avisado. Mas... E se ele resistisse? Ficaria com alguma seqüela? E, mesmo sem seqüelas físicas, provavelmente ficaria com cicatrizes emocionais por toda a vida. Na melhor das hipóteses, se afastaria irremediavelmente de Saga.

Andou pelo corredor, pegou seu telefone e ligou para o Santuário. Pediu para falar com algum dos cavaleiros de ouro. Alguém que lhe desse alguma notícia boa...

Aiolia atendeu.

“Milo? Alguma novidade?”

“Nada ainda. Saga?”

“Aos cuidados do Mestre Shion. Totalmente fora de si, mas agora está sedado na enfermaria.”

“Meu Deus...”

“Aiolos está indo aí, vê com o Camus de voltar um pouco...”

“Não precisa. Mas obrigado.”

“O Ikki tá indo aí também.”

“Ah não, cara. Ele é muito moleque pra isso aqui. E nem pensar para o resto dos cavaleiros de bronze. Isso não é coisa pra criança...”

“Nem pra nós... Mas agora é tarde, ele já saiu tem um tempo. Deve estar chegando aí.”

“Merda... Bom, vou indo, parece que saiu alguém da sala de emergência...”

“Ok...”

Milo desligou o telefone, a tempo de interpelar o médico que saía da sala de emergência. Camus, que era o mais controlado dos três, já conversava com o doutor. Fez discretamente um sinal com a mão para que ele e Carlo ficassem quietos.

“Como ele está agora, Doutor?”

“Vai ser transferido para a Unidade de Terapia Intensiva. Passará algum tempo em coma induzido e precisará respirar com a ajuda de aparelhos. Ele está vivo, mas no momento o estado dele é gravíssimo. Afora o politraumatismo pelo espancamento, o que nos preocupa é que lhe foi dado uma dose cavalar de um coquetel de drogas altamente tóxico, principalmente para os rins e cérebro. Ele precisará filtrar o sangue por uma máquina de hemodiálise para retirar a droga que resta, mas por enquanto não há como saber se ele resistirá ou não...”

“Ele tem chances de ele escapar sem seqüelas?”

“Ele é jovem, e saudável. Caso ele sobreviva, acredito que tenha boas chances de escapar sem seqüelas nos rins ou cérebro. Mas não há como dizer com certeza.”

“Podemos ver onde ele está?” Ikki, que chegara pouco antes, acompanhara a conversa, e interpelava o médico com um fio de voz. Não tinha idéia de que o estado do amigo era tão grave.

“Não agora, ele ainda está sendo transferido. No horário de visitas, poderemos deixar que o vejam. Depois, um de vocês apenas poderá ficar como acompanhante, o resto apenas ficará com ele no horário de visitas...”

Com um sinal, o médico os cumprimentou e entrou novamente na sala de emergência.

O francês baixou a cabeça. Já tinha sido muito complicado trazer um homem naquele estado para um hospital evitando a maior parte das perguntas óbvias e o envolvimento da polícia e autoridades. Agora teriam que evitar problemas e se comportar, algo não muito corriqueiro para os cavaleiros de Athena.

Enquanto o grupo discutia quem iria ficar e como fariam para revezar o horário de visitas, são interpelados por uma voz conhecida.

“Podem ir, meus cavaleiros. Eu assumo daqui.”

“Mestre Shion?”

“Eu mesmo.”

O mestre do santuário, sem seus paramentos, era agora personificado por um homem jovem, de traços exóticos como os de seu discípulo Mu. Mas seus olhos traíam a sua alma muito velha. Ainda assim, estava terrivelmente triste. Há muito não presenciava uma desgraça assim.

Camus meneou a cabeça, confuso.

“Mas, Senhor, se está aqui, quem...”

“Dohko assumiu meu lugar interinamente, com a permissão da Deusa, para que eu tratasse desse assunto pessoalmente.”

“E Saga?” Milo sabia que Saga estivera sob seus cuidados.

“Saga está sob controle agora. Deixei Mu e Shaka responsáveis por ele. Agora devo ajudar a Kanon.”

“Viremos no horário de visitas...”

“Decerto, Ikki. Todos vocês poderão vir no horário de visitas. Mas, pelo menos até que o quadro se abrande, fico aqui. Vocês podem ir agora.”

Dito isto, os cavaleiros presentes retiraram-se. Shion discretamente puxou Camus para si.

“Me conte o que o médico lhe disse.”

Camus repetiu como podia as palavras do doutor. Shion baixou a cabeça, não esperava que fosse tão grave assim. Dispensou Camus e aguardou até que o autorizassem a entrar.

***

A Unidade de Terapia Intensiva tinha cada leito separado por paredes laterais, e se comunicando com uma espécie de mezanino ao centro, de onde eram isolados por uma cortina. Assim, apesar de todos eles comunicarem-se entre si, havia privacidade o suficiente para que não se tivesse contato com os leitos vizinhos, como se fossem quartos separados. A aparelhagem era moderna; o Santuário jamais economizava com despesas médicas.

Shion fora guiado ao leito de Kanon, após receber um avental com o qual deveria cobrir suas roupas. Ao ver o cavaleiro, seu coração apertou-se. Estava preparado, sabia que o estado era grave, mas não tinha idéia de que seria tanto...

Kanon estava no leito, ligado a inúmeras máquinas. Um tubo grosso e rígido saía de sua boca, conectado a uma máquina barulhenta que, descobriria depois, ajudava-o a respirar. Outro tubo, mais delgado, saía de seu nariz. Havia também um curativo em seu pescoço, onde se conectavam vários soros e bombas infusoras. Fios do monitor estavam em seu peito, parcialmente coberto pelo cobertor. Inúmeros machucados e arranhões cobriam seu rosto e tórax. Estava imóvel, e mesmo para Shion, que o conhecia desde criança, nunca parecera tão indefeso. Lembrava muito pouco o homem belo e altivo que era.

Shion engoliu o aperto na garganta com dificuldade. Ajeitou-se na cadeira reclinável ao lado do leito, e tomou a mão do rapaz para si.

“Olá, Kanon. Estou aqui...”

Nada. Bem, a enfermeira o avisara que ele estaria em coma induzido. Mas ainda assim, ele estava tão imóvel...

Engraçado. Não sentia seu cosmo. Deveria senti-lo, mesmo com o rapaz inconsciente. Inspecionou-o com a ajuda do cosmo, e suas suspeitas se confirmaram: ele tinha sido atingido por um Satã Imperial. Elevou seu cosmo, e tão discretamente quanto possível conseguiu realinhar o cosmo de Kanon e desfazer os efeitos do golpe.

Ainda assim, o cosmo do cavaleiro estava praticamente imperceptível.

“Kanon, eu estou aqui com você. Preciso que você reaja... Sei que você está ferido no corpo e na alma, mas você é forte, mais forte do que muitos pensam.”

Nada. Nem por cosmo Kanon parecia se manifestar. Shion recostou-se na cadeira, e pegou um livro de contos antigos, que costumava ler aos aprendizes na época em que os gêmeos eram crianças e aspirantes a cavaleiro.

“Trouxe um livro que tinha histórias que vocês gostavam. Vou ler umas para você se distrair um pouco...”

Shion leu e leu, até que foi vencido pelo cansaço.

***

Shaka já estava ficando exasperado.

Tomara para si, junto com outros cavaleiros de ouro, a tarefa de cuidar temporariamente de Saga. Achava que, pela natureza de seu cosmo e de seus poderes, poderia ajudá-lo. Percebeu seu engano quando ele acordou após o Satã Imperial que o privou do uso de seu cosmo.

Ao acordar, a primeira coisa que Saga fez foi tentar fugir de onde estava. Foi impedido por Mu, Shura e ele. Então tentou seu golpe mais perigoso, a explosão galáctica, e percebeu que não conseguia concentrar seu cosmo. Ficou histérico, e sua crise ficou tão violenta que ele teve que ser nocauteado novamente. E Saga, mesmo sem seu cosmo, era um homem muito forte.

Acabou restringido por uma camisa-de-força. E a situação, que já era delicada, acabou ficando crítica.

Saga alternava momentos de histeria com uma apatia profunda. Implorava para que o matassem, o abatessem a tiros como se faz com um cão raivoso. Chorava até que o cansaço o acalentasse. E se entregava à apatia, passando horas e horas imóvel. Isso era muito mais aterrador do que seus momentos de desespero.

Chamaram Shion de volta. E nem mesmo o Mestre era capaz de ajudar Saga dessa vez. Ele os bloqueava, não deixava ninguém chegar perto de sua mente.

Shaka tinha poderes psíquicos, e por isso mesmo se assustava com o que via. Pensava que encontraria Saga batalhando contra Ares dentro de si, mas não. O que via era muito pior. Ares apenas observava, deixando Saga à mercê de si mesmo. E Saga estava se despedaçando, voltando-se contra si com violência e ânsia de autodestruição. E desmembrava sua própria psique, pedaço por pedaço; punia-se pelo que acontecera ao irmão.

Não sobraria Saga, ou Ares, nada. A apatia o dominaria, transformando Saga num boneco vazio de si.

E Shaka tentava ajudar. Argumentava, conversava, brigava com seu amigo cavaleiro para convencê-lo de que ele não tivera culpa. Era inútil.

Não havia o que pudesse fazer, mas se recusava a deixar Saga acabar consigo próprio.

Invocou a Deusa.

***

A que um dia foi Saori Kido conseguia sentir o desespero dos outros, e o sofrimento infinito de seu leal Saga.

Sentia lágrimas, tão humanas, rolarem por sua bela face. Mesmo com sua divindade ainda não se distanciara completamente de seus sentimentos humanos. E isso às vezes a fazia sofrer.

Sim, até os deuses sofrem.

Sabia o que Shaka viera lhe pedir quando a invocara. E sabia que talvez essa fosse uma batalha acima de si. Por mais poderosa que fosse, simplesmente não podia adentrar a mente de Saga e curar sua dor. Isso estava além de suas capacidades.

E sabia também o que Saga fazia a si mesmo. A culpa o torturava, não fora forte o suficiente para proteger seu irmão de seu lado ruim. Em pouco tempo, ele estaria perdido, aniquilaria a si próprio.

Entrou no quarto onde estavam mantendo o cavaleiro. Sentiu seu coração apertar-se ao ver seu antes leal e imponente defensor, preso em uma camisa-de-força, com os cabelos em desalinho, olhos fundos e alheios a tudo.

“Saga...”

Não ouviu resposta. Era como se ela nem estivesse ali. Sua dor era palpável.

“Saga...”

Aproximou-se dele, sentando-se na cama onde ele estava. Acariciava seus cabelos desarrumados e seu rosto marcado por lágrimas. Ele finalmente apercebeu-se de sua presença. Mas nada disse.

“Saga, meu leal cavaleiro... Não foi culpa sua...”

Ele fechou os olhos. Ah, Athena... tão inocente que era, uma menina, não poderia saber... Ares era a manifestação do lado escuro de sua mente. Mas ele, Saga, era o que desejava seu irmão. Como lhe fora dito, sua face maligna jamais teria conseguido sem ele. Como não podia ter culpa?

“Não se culpe pelo que sente, Saga... Você o ama, eu sei, e jamais seria capaz de lhe fazer mal.”

Saga sentia as lágrimas quentes escorrerem pelo seu rosto. De novo. Oh, Deusa, ela conseguia ver, mas não entendia...

“Eu não devia amá-lo assim... A culpa é minha.”

Sua voz era um sussurro, rouca pelo choro e pelo desuso. Há dias não falava nada.

“Saga, eu sei, e entendo. Mas o amor verdadeiro não tem corpo, forma, lei ou credo, certo ou errado... Ele apenas é o que é. Não se esqueça disso. Não se culpe pelos atos de Ares... Não se culpe pelos seus sentimentos... Se dê essa chance, esse presente a si e a ele...”

Athena o envolvia com seu cosmo, mas ainda assim sentia a tristeza imensa dentro daquele jovem tão sofrido. Queria poder abrir-lhe a mente para que ele compreendesse, se perdoasse, e desse uma chance a si e a seu irmão, ambos precisariam tanto disso... Mas já fizera tudo que podia agora.

Velaria por eles, como eles velaram por si...

***

Notas finais
Demorei horrores para postar aqui, tive um problema com a conta. Mas, enfim, postarei o resto dos capítulos em breve!