Percy Jackson: O Justiceiro dos Primordiais
3 Nada Escapa de Seus Olhos
No acampamento das Caçadoras, murmúrios ecoavam. As meninas afiavam suas flechas. Sentavam-se em grupos e sussurravam táticas de armadilha. Caminhavam com passos pesados entre as tendas. Vez ou outra, uma Caçadora lançava olhares entre as árvores.
Havia apenas um assunto em pauta: Percy Jackson.
O infame justiceiro e criação dos Primordiais.
Havia dias, não… Semanas em que Ártemis e suas meninas procuravam pelo garoto (na verdade, de garoto ele não tinha nada). Elas percorreram diversos cantos do país — cidades, florestas e até cantos abandonados — e tudo o que achavam eram rastros usuaisque, a contragosto, Ártemis se acostumava a encontrar. Como árvores cobertas de cinzas de monstros.
Ártemis só conseguia chegar depois que seu trabalho estava feito, restando apenas suas marcas. Era como se elas estivessem correndo atrás do pôr do sol; seguindo pegadas que terminavam num rio.
A deusa da caça estava sentada em sua tenda. Um cervo de chifres prateados repousava alegremente a cabeça em seu colo. A deusa acariciava-o distraidamente. A luz das tochas refletia-se em suas íris prateadas. Sua mente estava a mil turbilhões. Ela tinha milhares de anos, mesmo assim, nunca viu algo ou alguém como Percy Jackson, o enigma criado pelos próprios deuses primordiais.
Ártemis rangeu os dentes. Uma pontada de raiva alfinetava seu peito. Nenhuma presa escapava de seu radar. Pelo menos, não por muito tempo.
Todas as suas tentativas de rastrear o Justiceiro foram vãs. As Caçadoras estavam frustradas. Ela estava frustrada. Cogitou pedir ajuda a seu irmão gêmeo, Apolo, mas sentia que era uma caçada que precisava manter por conta própria.
Além disso, Apolo não era tão centrado como ela. O deus do sol não conhecia Percy Jackson, cometeria o erro de subestimar a situação. Era mais provável que ele compusesse um haicai sobre o fracasso de Ártemis. Um haicai que repetiria por centenas de anos.
A deusa cogitou levar a causa ao Conselho Olímpico. Esse pensamento lhe fez torcer o nariz. Seus colegas de conselho não se importam com os monstros que vagam na terra. E também, os deuses ririam se descobrissem que a deusa da caça não conseguia pegar seu alvo.
— Minha Senhora?
Ártemis sobressaltou-se. Zoe Nighsthade a arrancou de seus pensamentos. A tenente da caçada se sentou à frente de sua deusa.
— Qual é o problema? — Zoe perguntou.
Ela era tão antiga quanto Ártemis. Era sua companheira mais próxima, sabia quando algo estava errado com a sua senhora. E Ártemis sabia que não adiantava esconder, não de sua amiga mais íntima.
— É Percy Jackson — confessou Ártemis. — Sinto que já devíamos tê-lo capturado. Já faz semanas…— Ártemis esfregou sua testa. — É como se eu estivesse deixando alguma coisa escapar.
— Eu entendo — a tenente abaixou o olhar. — É como se ele não quisesse ser encontrado. Como se estivesse brincando conosco! — Zoe cerrou os punhos.
A deusa sabia que as demais Caçadoras compartilhavam da frustração e raiva de Zoe. Ela coçou atrás da orelha do cervo. Todas as suas táticas de caça fracassaram. Nem mesmo o Ofiotauro lhe deu tanto trabalho no passado.
Ártemis suspirou longamente.
— Eu não sei o que fazer. — Ela não tinha problemas em confessar a sua amiga mais confiável suas frustrações.
— Ártemis…
Zoe sabia que era uma dura confissão a se fazer para uma deusa.
Seu coração se apertava ao ver o semblante preocupado de sua Senhora. Algo dentro de Zoe se revirava quando o assunto era Percy Jackson. Em geral, Zoe mantinha distância quando o assunto era homens. E um homem ocupar grande parte de seu tempo e energia — lhe dava náuseas.
Como se não bastasse, Percy era um enigmaque ninguém conseguia desvendar. Ele não respeitava as regras do Olimpo, tampouco se submetia aos deuses. Isso o tornava perigoso. Zoe e Ártemis sabiam muito bem disso.
— Lembra-vos das últimas palavras de Percy Jackson? — perguntou Zoe. — Ele disse que veio para restaurar o equilíbrio e que a natureza sempre vence. E se não conseguimos pegá-lo porque a própria natureza está ao seu lado?
Ártemis franziu a testa.
— Não faz sentido. Durante milênios, nós protegemos a natureza.
— Sim, minha Senhora — Zoe assentiu.
As duas se encaram longamente. Ártemis arregalou os olhos, entendendo o que sua tenente quis dizer.
— Nunca vamos conseguir capturá-lo — concluiu a deusa.
Zoe sacou sua faquinha de caça e a analisou. Ela conduzia a caçada há dois mil anos; viu a tecnologia evoluir, pessoas poderosas caírem, guerras eclodirem. Ela sabia quando as Caçadoras estavam em seu limite.
— Será hora de apresentar a causa aos deuses? — recomendou Zoe.
Ártemis franziu os lábios.
— Eles não vão me escutar.
Um nó na garganta se formou na garganta de Zoe. Não queria chatear sua deusa, mas sentia que não havia outra opção. Ela forçou-se a engoli-lo para sugerir:
— E quanto ao Senhor Apolo?
— Não!
Num pulo, Ártemis se levantou. O cervo se assustou e fugiu da tenda.
— Apolo jamais deve se intrometer nas minhas caçadas!Não é da conta do meu irmão.
— Ártemis…
A deusa pegou seu arco pendurado na parede e o prendeu nos ombros. Ártemis se certificou de que suas flechas fossem as de pontas prateadas — letais para monstros, animais e mortais.
— Meu pai confia em mim e no meu irmão para abatermos os monstros na terra. — Os olhos de Ártemis brilhavam. — Percy Jackson é nossa responsabilidade. Nós vamos encontrá-lo.
Ártemis saiu da tenda. Ela não deixou espaços para discussões.
Zoe suspirou. Sabia que sua deusa estava apenas preocupada. Ela mesma sentia-se incompetente por não ter capturado Percy.
O sol se assentava no horizonte, lançando cores rosadas ao céu. Zoe saiu da tenda e marchou pelo acampamento, distribuindo ordens entre as Caçadoras. As servas de Ártemis sabiam por que sairiam. Suas expressões eram ferozes e determinadas.
Desta vez, elas o encontrariam. E não o deixariam escapar.
A deusa e as Caçadoras já tinham desfeito o acampamento. As meninas estavam armadas com arcos e facões, prontas para atacar ao menor sinal de movimento.
***
Os gritos ecoavam nas ruas. Crianças choravam. As pessoas trombavam contra as outras na correria. Elas berravam. Corriam para se esconder na floresta, trancar-se em suas casas, qualquer abrigo.
Um garoto, que aparentava ter nove anos, caiu entre as pessoas. Ele cobriu a cabeça para não ser pisoteado. Sua mãe gritou. Ela correu contra o fluxo da multidão. Constantemente era empurrada. Ela levantou seu filho e agarrou seu pulso, berrando para fugirem.
Aquela pobre mulher desviou uma esquina. Subiu uma rua. Atravessou um beco. Ela manteve o braço de seu filho agarrado a sua cintura — não se separariam novamente.
A inocente mãe tropeçou numa pedra. Ela caiu de lado, saindo apenas com arranhões nos braços. Seu filho a ajudou se levantar.
Logo, perceberam que não estavam sozinhos.
Como se tivessem se materializado, dois homens apareceram na frente deles.
Eram irmãos gêmeos. Compartilhavam o mesmo cabelo preto liso e desgrenhado com pontas rebeldes. Os olhos eram apenas um espaço em branco. O rosto era jovem, mas com linhas severas. Vestiam uma armadura de couro e uma saia de gladiador — como se fossem do exército da Grécia Antiga. Cada um tinha uma espada embainhada.
A mulher berrou e correu com seu filho no colo. Não importava para onde, apenas para o mais longe possível daqueles dois.
— O que está achando do show, irmão?
— Supriu minhas expectativas. Eles ficam com medo demais. É divertido!
— Concordo, os mortais são mesmo divertidos.
Aqueles gêmeos eram Deimos e Fobos, filhos de Ares e Afrodite. Enquanto Deimos personificava o terror e pânico, seu irmão representava o medo imediato.
Havia dias em que aqueles deuses provocavam desespero entre os mortais; sua mais nova fonte de entretenimento. Eles só esperavam que não fossem pegos por Zeus.
— Tenho que admitir… — Disse Deimos, enquanto caminhavam pela rua já deserta. — Que os humanos de Nova York são os mais fáceis de se assustarem.
— Talvez porque seja a “sede” do Monte Olimpo — replicou Fobos. — A Névoa ganha mais força por aqui. Quero dizer, não tanto quanto na Califórnia, mas…
— Eu entendi. Então, para onde vamos agora?
— Acho que a pergunta correta seria: qual bairro vai nos entreter?
Os dois compartilharam risadinhas, que logo cessaram.
O ar se esfriou. Seus ouvidos zuniram. Um sentimento de apreensão apertou-lhes o peito. Pela primeira vez, a especialidade dos gêmeos se virou contra eles.
— Então vocês chamam isso de diversão? — era uma voz calma, mas firme.
Os gêmeos se viraram. Eles encolheram os ombros ao ver o Justiceiro. Algo dentro deles se revirou. Ambos sabiam quem Percy era e por que estava ali. Eles cerraram os punhos para disfarçar a tremedeira nas mãos.
— Vocês não se envergonham? — Percy caminhou calmamente na direção dosdois deuses— Provocam o caos nas cidades. Espalham pesadelos. Aterrorizam mortais por diversão. — Percy cruzou os braços. — O seu papel é acompanhar Ares nas guerras. Injetar medo apenas para os inimigos de seu pai.
— O que você tem a ver com isso!? — bradou Deimos, embora seu coração martelasse contra o peito.
— Além disso, é divertido — acrescentou Fobos, tímido. — Os mortais são divertidos. Precisamos de alguma diversão depois de tantos séculos de trabalho. Você deveria experimentar.
Contrariando os instintos de sobrevivência, Deimos deu um passo à frente, ficando cara a cara com Percy. Deimos precisou de toda sua força para sustentar o olhar do Justiceiro.
— Apenas fique fora do nosso caminho. Vamos fingir que nunca o encontramos.
— Infelizmente, essa opção não está disponível — respondeu Percy. — Vocês personificam sentimentos humanos. Quando eles fogem do controle, o universo sente. Vocês são deuses, deveriam entender a importância do equilíbrio.
— Já existe um mediador da ordem cósmica — disse Fobos. — Zeus. Não é nosso trabalho.
— E Zeus tem feito um bom progresso — Percy rebateu, sarcástico. — Vocês têm milhares de anos. Por que se comportam como crianças birrentas?
Os gêmeos rangeram os dentes contra Percy,
— É melhor tomar cuidado — Deimos apontou o dedo para Percy. — Não quer saber do que somos capazes.
Os dois começaram a caminhar, mas a terra os impediu — literalmente. Raízes emergiram do chão e se enroscaram em seus tornozelos.
— O que é isso!? — berrou Deimos.
As raízes cresceram e se enrolaram ao redor dos gêmeos, como serpentes.
— Acho que vocês não vão a lugar nenhum — Percy os rodeou com as mãos atrás das costas. — Meu trabalho é restaurar o equilíbrio. O equilíbrio que vocês, deuses, deviam proteger.
As raízes se apertaram ao redor dos gêmeos, fazendo-os grunhir de dor. Fobos agarrou o cabo de sua espada. Espinhos perfuraram seu pulso. Ele franziu os lábios para reprimir um grito.
— Vocês não sabem quem eu sou — afirmou Percy. — Tudo bem. Isso não é relevante.
— Eu não vou cair sem lutar! — bradou Deimos.
Ele conseguiu libertar um braço. Deimos sacou sua espada.
— Não é você quem dita as regras! — ele exclamou. — Ninguém atrapalha nossa diversão.
Percy levantou as sobrancelhas.
— É mesmo? E como você pretende se mover sem as pernas?
Deimos se debateu. Cortou as raízes. Mas, sempre que se livrava de uma, outras surgiam para enroscá-lo. Fobos se contorcia, grunhindo maldições contra o Justiceiro. Perseu inclinou a cabeça, como alguém que analisa um quadro artístico.
— Acho que não preciso matar vocês — disse Percy. — Um tempo de isolamento deve ser o suficiente. Pense no que fizeram. Relembrem o equilíbrio que vocês juraram guardar. Lembrem-se dos seus deveres.
As raízes os engoliram. A terra se abriu. Os gritos de Deimos e Fobos foram sufocados. Eles foram engolidos pela natureza. Agora, um emaranhado de raízes cobria um buraco no meio da rua. Não era problema; os mortais tendiam a evitar essas áreas.
Por via das dúvidas, Percy fez espinhos brotarem das raízes — uma precaução para manter os curiosos longe.
— Eu não me importo com os humanos — Percy estalou a língua em reprovação —, mas não é sua função aterrorizá-los por seu bel-prazer.
O Justiceiro deu as costas. Ele não se importava com quanto tempo os dois deuses voltariam a ver a luz do dia. Talvez conseguissem sair sozinhos. E, assim, Percy esperava, cientes de seus deveres. Afinal, é seu objetivo relembrar aos deuses o porquê de as Parcas permitirem sua vitória na guerra contra os titãs.
Perseu caminhava nas ruas desertas. Ao vê-lo, as pessoas se encolhiam, desviavam o rosto ou se trancavam em suas casas. Talvez fosse pelo seu porte, mas a verdade é que ainda restavam traços do efeito provocado por Fobos e Deimos. Todos naquela cidade estavam numa constante sensação de medo.
Percy conseguia ouvir o choro dos bebês — frutos de pesadelos recentes. Pais de família vigiavam as ruas pelas janelas. Cães latiam para as pessoas que passavam. Uma criança chocou-se contra Percy; ele implorou por perdão e correu para os braços de sua mãe, que o esperava na porta de sua casa.
Enquanto o menino era repreendido, Percy não pôde evitar a pontada de raiva que sentiu. Aquela nuvem de terror era o resultado da falta de cuidado dos deuses. Mas ele pôs um fim nisso. Ninguém saberia que ele era o responsável, mas isso não lhe incomodava.
Era apenas sua missão.
***
Percy se encontrava no topo do Empire State. O lugar terreno mais próximo da morada dos deuses. Ele estava sentado na beira. O vento bagunçava seus cabelos. Seus olhos verdes brilhavam com o poder que lhe fora dado. Os Olimpianos jamais perceberiam sua presença — não por descaso, mas porque um de seus pais o ocultava.
— Eu sei que você está me observando — afirmou Percy. — Pode aparecer.
— Você tem se saído bem, Percy Jackson — murmurou uma voz feminina.
Das sombras, emergiu a figura de uma mulher. Seus cabelos eram lisos e pretos e batiam até o meio das costas, sua pele era pálida como porcelana, os olhos eram pretos com ônix. Ela trajava um vestido negro como o breu, que descia até o meio de suas coxas e abraçava seu corpo.
Percy fez uma mesura.
— Olá, Nix.
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