Percy Jackson: O Justiceiro dos Primordiais
4 Pense Bem No que Você Está Caçando
Nix, a deusa que até Zeus teme; um dos primeiros seres a proceder dos Primordiais primitivos; conselheira de Zeus e detentora do segredo da imortalidade dos deuses.
Para Percy, era uma das figuras mais próximas que tinha como mãe.
No seu nascimento, foi a primeira a envolvê-lo em seu manto negro. Junto de Érebo, lhe ensinou os segredos da escuridão, e que não precisava temê-la. Graças a Nix, Percy sabia como controlar as sombras, apreciar a noite e usar as trevas ao seu favor.
Mesmo que Nix não fosse afetuosa, Percy sabia que ela podia ser bem protetora — especialmente quando se tratava de seus filhos.
Embora os Primordiais confiassem em Percy para cumprir sua missão, vez ou outra Nix gostava de verificar pessoalmente o Filho do Equilíbrio. E, mesmo que Nix não admitisse, ela via Percy como um dos seus.
— Diga-me — Nix se sentou ao lado de Percy. — O que tem achado?
Percy a encarou.
— Sobre a minha missão?
Nix deu de ombros.
— Nós o enviamos ao mundo para corrigir o desequilíbrio, mas também para aprender. Quero saber o que tem achado.
As nuvens cobriam o céu noturno. Algumas estrelas piscavam com timidez. A lua cheia brilhava, parcialmente escondida pelas nuvens. Perseu observou a cidade abaixo de seus pés. As ruas eram contornadas por pontos brilhantes — os postes de iluminação —, como se fossem estrelas artificiais; a silhueta dos prédios se destacava, poucos pontos de luz indicavam as luzes acesas. Havia um tempo em que Percy observava os mortais.
A maioria esmagadora vivia um cotidiano simples; trabalhar, comer, dormir. Comparado a antigamente, não havia muitos os que acreditavam nos deuses.
Mas seu nome era falado entre os mortais. Ao menos os que conseguiam enxergar através da Névoa. Eles o viam como um agente dos deuses. Percy achava aquilo engraçado. Porque as ações irresponsáveis dos deuses resultaram em sua criação e missão.
Percy sabia como os humanos eram limitados. Mas, sobretudo, egoístas, arrogantes e manipuladores. O Justiceiro admitia: ele não conhecia toda a humanidade para generalizá-la. Porém, ele apenas encontrava pessoas inclinadas a praticar o mal — mesmo que significasse ferir o equilíbrio.
— O que mais encontro — disse Percy —, são pessoas que não têm limites para buscar ou manter o poder.
Percy respirou fundo. Suas narinas se refrescaram com o ar frio da noite.
— Os mortais recorrem a rituais, pactos e oferendas. Às vezes, até sacrifícios. Pude presenciar muito isso. Perdi a conta de rituais proibidos que impedi essa semana.
— O poder sempre foi atrativo, Perseu — respondeu Nix. — Tanto para os deuses, como para os mortais.
— Poder… — Percy murmurou. — É como se fosse a única palavra que os humanos conhecessem.
— O poder é uma ferramenta — afirmou Nix. — Ele mostra quem somos de verdade. Poder mágico, político, cultural… Tudo depende da intenção de quem o usa.
— Você está considerando as intenções.
A deusa da noite assentiu.
— Sempre há intenções, Perseu. Você foi criado com intenção.
— Algumas vezes — disse Percy —, os mortais querem poder para proteger os seus. Mas…
Nix inclinou a cabeça.
— Mas?
— Isso fere a ordem no universo — Percy suspirou. — Seja para proteger, atacar, salvar… O universo sente o impacto do desequilíbrio. Eu não me importo com boas intenções, eu sempre os impedirei. Sempre os castigarei.
Talvez fossem palavras frias e diretas, mas Nix compreendia.
Ela era uma entidade milenar, observava a humanidade desde a sua primeira geração. Parte dela sentia-se orgulhosa em ver Percy tão empenhado em seu trabalho. No entanto…
Nix era uma das mais próximas de Percy, por mais que seu único trabalho fosse trazer a justiça primordial, a deusa da noite não queria que Percy se perdesse num mar de destruição e caos — justamente o que ele veio impedir.
— Você acha que os mortais têm alguma chance de redenção? — perguntou Nix, querendo saber sua opinião.
Percy deu de ombros.
— Ao que me parece, a humanidade tende a retroceder. É assim desde que os deuses assumiram o controle.
O Justiceiro se lembrava bem do que aprendeu com os Primordiais; a humanidade com os deuses começou na Era de Ferro, as pessoas tornaram-se rudes e agressivas, foram destruídas pelo próprio Zeus. Os deuses recomeçaram, as eras avançaram; mas, na opinião do Justiceiro dos Primordiais, não é como se as coisas tivessem melhorado.
— Eu admiro que a humanidade se levante — Percy confessou —, por mais que repitam os mesmos erros do passado. Talvez, com alguém limpando a terra dos que ferem o equilíbrio, os humanos se alinhem.
— O caos e a destruição sempre vão existir — comentou Nix. — Lembre-se, Perseu, que a desordem chegou antes da criação. Seu objetivo não é apagar a desarmonia, apenas equilibrá-la.
— Sim — Percy assentiu. — Para que a criação possa existir, primeiro vem a destruição. É o ciclo natural do universo. E deve ser mantido.
Nix sorriu; sentia-se orgulhosa em ver o quanto seu pupilo havia aprendido. Era inegável a consideração, e talvez afeto, que sentia por Pery.
No entanto, havia uma questão que, a contragosto, apertava seu peito.
— E quanto aos deuses?
Percy levantou uma sobrancelha.
— O que tem eles?
— Em algum momento eles notarão sua atividade. Todos eles. Possivelmente vão desafiá-lo; você sabe que os Olimpianos detestam quando algo foge de seu controle.
Nix não sentia medo por Percy; ela sabia que, caso preciso, ele era perfeitamente capaz de enfrentar os deuses. Perseu era uma criação direta dos Primordiais; ele estava acima dos Olimpians. No entanto, Percy era como um semiprimordial, não um Primordial completo.
Ele tinha seus limites: até o momento, conhecidos apenas pelos Primordiais. Nix se preocupava com o que aconteceria se Percy precisasse enfrentar os doze Olimpianos de uma vez.
Caso Percy se enfurecesse, talvez houvesse alguma chance. Mas ele era centrado, razão dos temores da deusa da noite.
— Você já está sendo caçado — observou Nix. — Pela filha de Zeus e suas companheiras.
Perseu deu de ombros.
— Que venham, se acham que podem me caçar.
Nix esfregou seu ombro.
— Você sabe que, se sentir-se pressionado, pode me chamar.
— Não acho que será necessário — Percy sorriu de canto. — É quase como lidar com mortais.
A Primordial da Noite arqueou as sobrancelhas.
— O que quer dizer?
— Lembro-me da história do nascimento de Atena — respondeu Percy. — Zeus era casado com Métis, sua primeira esposa. Mas recebeu uma profecia de que um filho deles o destronaria, assim como Zeus fez com seu pai, Cronos.
— Seria um ciclo interminável — ponderou Nix. — Mas foi quebrado graças ao conselho de Gaia.
— Zeus devorou Métis. Foi a solução que ele pensou ser a correta. Atena nasceu. Métis ainda vive dentro de Zeus, como uma conselheira interna. Posteriormente, Zeus teve outras esposas, até chegar a vez de Hera.
— O que está querendo dizer, Perseu?
Percy encarou Nix.
— Zeus poderia ter sido feliz com Métis. Mas preferiu o poder.
Os dois observaram a cidade abaixo. Após longos minutos silenciosos, Percy disse:
— Deuses e mortais não são tão diferentes.
***
— Tende certeza, minha Senhora?
— Sim, Zoe. Será a nossa última tentativa.
Em sua conversa com Zoe, Ártemis se referia ao último esforço de capturarem Percy.
As Caçadoras passaram semanas tentando rastreá-lo. Sem sucesso. Porém, a deusa da caça conseguiu pensar em um plano.
No meio da floresta, havia um pentagrama malfeito; as pontas estavam apagadas, o círculo feito pela metade, apenas uma vela acesa. Ártemis recorreu a Hécate, deusa da magia, para saber como desequilibrar energias mágicas. Na verdade, Ártemis corria sérios riscos; ela era uma deusa, sabia do perigo de se envolver com forças desconhecidas.
Porém, aquilo tinha boas chances de afetar o equilíbrio — a obsessão de Percy Jackson, a isca perfeita para atrair o Justiceiro dos Primordiais.
As Caçadoras estavam posicionadas em pontos estratégicos — escondidas nos arbustos, atrás das árvores e em galhos altos. Ártemis se postou com sua tenente, escondida pelas folhas das árvores. Ela prendeu seus cabelos num rabo de cavalo, pronta para lutar.
— Zoe — disse Ártemis. — Você tem permissão para matar.
O rosto de Zoe perdeu a cor.
— Minha Senhora…
— Ele é fora de controle — replicou Ártemis. — Percy não segue as regras dos deuses.
— Não é isso… — Zoe franziu os lábios. — Ele pode ser morto?
A deusa franziu a testa.
— Zoe?
— Ele não parece ser um semideus. Ou um mortal. — Zoe encaixou uma flecha em seu arco, mas seus ombros estavam tensos. — Ele tem um ponto fraco?
Ártemis observou dentre as folhas; os contornos do pentagrama pareciam mais nítidos.
— Se existir algum ponto fraco, vamos descobrir.
Ela apostava muito em sua armadilha. Assim que Percy viesse investigar o pentagrama, seus tornozelos seriam enlaçados por uma corda reforçada com bronze celestial (cortesia de Hefesto), e finalmente as Caçadoras o pegariam.
— Vai funcionar — Ártemis lambeu os lábios. — Precisa funcionar.
Zoe encarou sua deusa.
— Algum problema, minha Senhora?
— Estou bem — mentiu Ártemis.
Zoe estava acostumada a vê-la focada. Ela sabia que sua deusa era centrada e focada — razões para admirá-la. Mas sabia o quanto ela se sentia frustrada por não terem pego Percy Jackson.
— Se minha Senhora pensou nesse plano — falou Zoe. — Vai dar certo.
Ártemis olhou para baixo. Ela abriu a boca para responder, quando ouviram um grito.
Todas saíram de suas posições, com flechas apontadas. Ártemis e Zoe pularam da árvore. A deusa sacou suas facas de caça, medonhas e compridas. Mas tudo o que encontraram foi uma mulher pendurada de ponta-cabeça, balançando num vai-e-vem.
A filha de Zeus franziu as sobrancelhas.
— O quê?
— Me tirem daqui! — a mulher gritou.
As Caçadoras abaixaram os arcos. Ártemis arriou seus facões. O mundo parou para a deusa. Seus ouvidos zuniam. Seu plano, que ela pensava ser perfeito… falhou. Eles não atraíram o Justiceiro, apenas uma mortal comum.
— Droga… — Murmurou Phoebe.
— O que você está fazendo aqui? — Zoe perguntou, desamarrando a mortal.
— Sou seguidora de Hécate — ela respondeu. — Eu só precisava de um pentagrama…
Ela caiu de costas no chão. Algumas Caçadoras a ajudaram a se levantar.
— Por quê? — Ártemis perguntou.
A mulher franziu os lábios.
— É… pessoal?
As Caçadoras se entreolharam. Algumas suspiraram. Não era quem elas pensavam que fosse.
Ártemis se virou para Zoe.
— Vamos acampar aqui essa noite. Peça as Caçadoras…
— Vejam só.
Era uma voz que parecia vir de todas as direções. O vento uivou. O ar esfriou e solidificou-se. As Caçadoras levantaram novamente suas armas.
No meio do círculo das Caçadoras, Perseu se materializou.
— Eu estive procurando por você — Percy disse à mulher mortal. — Você tem praticado a magia proibida para manter sua influência. Seu status. Seu poder. É por isso que você queria um pentagrama invertido; ele reforça suas más intenções.
— N-não é isso! — a mulher arfou. — Eu só não queria que roubassem meu lugar. Lutei tanto para conseguir…
— Guarde suas desculpas para os juízes do Hades.
Percy fez um gesto e as sombras a perfuraram. A mulher não expressou dor. Seus olhos apenas se arregalaram e ela caiu no chão, inerte. Logo, as sombras consumiram seu corpo.
O Justiceiro se virou para sair, mas foi interceptado por uma flecha que passou rente à sua orelha e cravou em uma árvore.
— Hora de resolver isso de uma vez por todas. — Afirmou Ártemis.
Ela estava com uma flecha apontada na direção do coração de Percy Jackson. Perseu sabia que estava em grande desvantagem numérica, mas sabia que estava acima de Ártemis e suas Caçadoras. Talvez, elas pudessem cansá-lo, mas ele não estava disposto a recuar.
— Acho que não tenho nada a resolver com você, filha de Zeus — respondeu Percy.
— Você continua aplicando sua justiça — afirmou Ártemis. — Não vou permitir que continue agindo impune. Você continua violando as regras dos deuses, do Olimpo. Você não está corrigindo o equilíbrio, está causando destruição.
— Impune?— indagou Percy. — Os Primordiais são anteriores até mesmo à sua natureza, Ártemis. Eu sigo as ordens deles, não do Olimpo. Você é uma deusa, diga-me: quantas vezes você destruiu vidas e cidades por puro capricho?
O olhar severo de Percy perfurou Ártemis. A deusa sentiu sua nuca se arrepiar. Seu corpo estremeceu.
— Não dite o que devo fazer — disse Percy. — Você não me quer como seu inimigo, filha de Zeus.
As Caçadoras avançaram lentamente. Algumas postaram-se atrás de Ártemis. Outras formaram um semicírculo ao redor de Percy, cercando-o.
— Você ousa ameaçar nossa deusa? — indagou Zoe, mirando a flecha em seu rosto.
— Você está morto — afirmou Phoebe.
— Ele vai pagar — rosnou Celyn.
As meninas dispararam as flechas. A escuridão as enrolou como correntes, desintegrando-as.
— Vocês vão ter que fazer melhor do que isso — disse Percy.
Momentos atrás, Zoe pediu permissão a Ártemis para lutar sem se conter. Por isso, eram as palavras que queria ouvir.
Zoe Nightshade avançou. Ela disparou. Percy agarrou sua flecha e estendeu a mão. Uma lufada de ar jogou Zoe contra o chão. Percy atirou a flecha de Zoe contra sua perna. Zoe gritou. Ela sentiu como se ferro em brasa colasse em sua perna. Um filete de sangue escorreu pela sua coxa.
Uma Caçadora se aproximou e, cuidadosamente, retirou o projétil. Zoe trincou os dentes. Ela lançou um olhar de ódio absoluto para o Justiceiro.
Ártemis rosnou como um animal selvagem. Suas roupas tremeluziram. Ela jamais perdoaria Percy por aquilo.
— Ataquem! — ordenou a deusa.
As Caçadoras atiraram de todas as direções. As flechas rasgaram o ar. A flecha de Ártemis faiscava em cor de prata. Percy não saiu do lugar. Ele usou a escuridão para formar algo como um escudo. Os projéteis ricochetearam. As Caçadoras muniam seus arcos, disparando incansavelmente. No entanto, as flechas caíam no chão, como se não fossem nada.
O som de silvos agudos preenchia a floresta. As Caçadoras trocavam de posição. As flechas cravejavam nas árvores, no chão. A escuridão de Percy era como uma extensão de seu ser — repelia as setas sem muito esforço.
Ártemis sacava suas flechas de ponta prateada. Percy convocou sua espada e as repeliu na direção das Caçadoras. Elas gritaram. Pularam, correram para não serem atingidas — aquelas flechas eram mortais até mesmo para as Caçadoras.
A deusa rangeu os dentes. Percy estava usando suas próprias armas contra elas. Ela sacou seus facões, tão compridos quanto seus braços e atacou.
Percy repeliu o primeiro ataque. Ártemis pulou para o lado e investiu. As lâminas dos dois colidiam enquanto as sombras de Percy o protegia dos ataques das Caçadoras. As árvores balançavam com o impacto do duelo. O chão vibrava.
— Você pode ser forte — disse Ártemis, pulando para trás. — Mas não subestime a força de uma deusa.
Ela investiu. O choque das lâminas soltava fagulhas no ar. Ártemis atacou contra o pescoço de Percy, pronto para decepá-lo.
— Boa tentativa… — Percy murmurou.
O corpo de Percy brilhou. O ar esquentou. Uma corrente de energia se apossou da floresta — como se mil volts de eletricidade se impregnassem no ar. Um clarão iluminou a floresta. Uma explosão de luz arremessou Ártemis e suas Caçadoras contra o chão.
— Não percebem o quanto isso é inútil? — perguntou Percy.
As Caçadoras gemiam. Ártemis estava ajoelhada. Pontos brancos dançavam em sua visão. Grãos de terra sujavam seus lábios. Um gosto fresco e amargo se apossava de seu paladar. Seus facões deslizaram para longe. Seu corpo doía. Seu cabelo se soltara, grudando em seus olhos.
— Voltem para as suas missões — disse Percy. — E me deixem seguir com o meu trabalho…
De repente, Zoe o atacou pelo lado. Percy se abaixou estendeu a mão lhe deu uma rasteira.
Algumas Caçadoras se levantaram e investiam. Phoebe tentou esfaqueá-lo. Ele se moveu para o lado e agarrou seu braço. Percy a lançou contra as Caçadoras que avançavam, derrubando-as como pinos de boliche. Elas rolaram pelo chão, protestando.
A tenente de Ártemis atacou novamente. As sombras de Percy se estenderam e a perseguiram como tentáculos. Zoe pulava para evitá-los.
— Tende cuidado! — gritou Zoe. — Ele está tentando nos afastar.
Uma Caçadora rolou para trás de Percy. Ela mirou em seu coração e atirou. Sua flecha ricocheteou contra suas sombras e cravou em seu braço. Ela berrou.
Ártemis aproveitou a distração e recuperou seus facões.
— Você vai morrer! — a deusa exclamou.
Ela gritou e pulou contra Percy, mas seus pés nunca chegaram ao chão. Seu rosto se aproximou do de Percy, os dois ficaram a milímetros de distância. A deusa sentiu seus membros duros. Ártemis tentou mexer os braços. Nada. Experimentou movimentar os dedos. Nada. Era como se estivesse presa dentro de um cubo de gelo.
As Caçadoras ofegavam. O suor banhava seus rostos. Suas flechas esgotaram-se. Zoe ajoelhou-se, exausta de tentar lutar contra as sombras, que ainda rodeavam-na como serpentes silenciosas.
A deusa encarou Percy, de olhos arregalados.
— O que você…
Percy agarrou-a pelo rosto, tampando sua boca.
— Eu cansei de entreter vocês!
O Justiceiro jogou Ártemis contra a árvore. Os galhos balançaram e folhas caíram. Uma onda de dor se espalhou em suas costas. Sua cabeça rodopiou. Sua visão embaçou. Sua pele queimou quando caiu arrastando as costas no tronco. Ela cerrou os dentes, jamais demonstraria dor. Sua vista desfocava.
Sombras emergiram de Percy. Elas se transformaram em tentáculos e agarram as Caçadoras, prendendo-as no ar. Os braços delas estavam presos. As meninas gritaram. Ártemis se levantou, raízes emergiram e brotaram e prenderam seus pulsos, suspendendo-a.
— Me solta! — Ártemis se debateu.
As raízes envolveram seu torso. Espinhos perfuraram sua pele. Ela deixou escapar um gritinho. Ártemis encarou Percy com ódio.
— O que você vai fazer?
— Se bem me lembro… — Percy disse, calmamente. — Você e seu irmão gêmeo, Apolo, destronaram a família da rainha Níobe porque ela insultou sua mãe. Você matou seis meninas, enquanto Apolo, seis meninos.
O ar ficou pesado. A lâmina se materializou. Seu ferro cintilava. Os tentáculos sombrios trouxeram as Caçadoras para mais perto do Justiceiro. Elas se contorciam, gritando insultos contra Percy.
— E se eu destronasse seis das suas Caçadoras? — sugeriu o Justiceiro. — Aqui e agora.
Ártemis arregalou os olhos.
— Não!
— Mesmo depois de milênios, as lágrimas de Níobe gritam por vingança. — Percy levantou uma sobrancelha. — É um acerto de contas, você não vê? Eu tomarei de você como você tomou de Níobe.
A deusa arfou. Seu peito se comprimiu. O mundo girou. Pela primeira vez em milênios, ela se sentiu… vulnerável. As Caçadoras eram mais do que suas servas, companheiras de caças. Eram como suas filhas. Ártemis jamais se perdoaria se uma delas morresse diante de seus olhos.
— Por favor… — Ártemis murmurou. — Poupe-as.
— Isso é novidade — afirmou Percy. — A deusa da caça, protetora das donzelas, a caçadora implacável de Zeus… pedindo clemência?
A filha de Zeus apertou os olhos. As lágrimas ameaçavam escapar.
— Por favor.
As sombras se desintegraram. As Caçadoras caíram. Elas mal conseguiam se levantar. As raízes abandonaram a deusa. Ártemis caiu de joelhos. Estava suja e ferida. Seus batimentos cardíacos faziam suas costelas doerem.
Ela levantou a cabeça e encontrou o olhar frio de Percy.
— Pense bem no que você está caçando.
Fale com o autor