Notas iniciais
Esqueci de avisar que tbm estou postando essa história no Spirit, Wattpad e Dreame Vou postar a história semanalmente, todas as terças, mas vez ou outra vou tentar postar mais de um cap por semana. Como sou graduando e concurseiro... É o que dá

Seu andar estava pesado. A cada passo, suas pernas tremiam. Seu corpo protestava, mas ele precisava continuar. Ele foi descoberto. Foi encontrado. Os boatos eram verdadeiros. Ele estava atrás dele.

A passos lentos, Derick Smith conseguiu chegar a uma floresta. Ele andou no meio das árvores, ofegante. Seu rosto estava banhado em suor, era como se tivesse corrido uma maratona. Seus pés latejavam. Seu abdômen subia e descia descompassadamente. Suas pálpebras pesavam. Derick sentia seu crânio prestes a explodir.


Derick apoiou a mão numa árvore e curvou seu corpo. Ele gemia entre as respirações. Seus pulmões imploravam por ar. Ele desejou voltar no tempo. Sabia que aquilo era a consequência de suas ações. Jamais acreditou no carma, mas logo repensou quando o próprio carma o perseguia.


Derick levantou a cabeça. O carma não era uma ideia religiosa. Era a figura de um garoto de olhos verdes a sua frente.


Perseu encarou-o nos olhos. O luar destacava o metal de sua lâmina. Sua sombra cobria Derick — como se fosse um lembrete de sua imponência. A luz da lua refletia nos olhos de Percy — um brilho sinistro. Derick ofegou.


— Não… — O homem arfou. — Por favor, misericórdia!


— Misericórdia? — Percy perguntou.


A floresta era escura, iluminada apenas pela lua e as estrelas que piscavam timidamente no céu. A brisa refrescava a pele de Percy, as folhas balançavam em sua direção, como se a natureza reverenciasse a ação do Justiceiro dos Primordiais.


A testa de Derick pingava de suor. Ele recuou e caiu de bunda no chão. Ele se arrastou até bater as costas numa árvore. Percy avançou. O passo de suas botas ecoou pela floresta. O sujeito gaguejava, tentando controlar a tremedeira dos dentes.


Percy parou a um centímetro de distância. Seus olhos verde-mar o analisaram.


— Você não teve misericórdia quando ofereceu seus filhos. — Disse Percy, abaixando-se até ficar no nível do sujeito. — Você os entregou para um ritual proibido de magia. Para o próprio benefício.


Lágrimas escorriam pelas bochechas do homem. Mas Percy sabia que não eram de arrependimento, muito menos de tristeza, eram apenas de medo.


— Eu não queria fazer aquilo! — O homem choramingou quando Percy ergueu sua lâmina. — Só me dê mais uma chance, eu vou recompensar!


Mas os olhos de Percy permaneceram frios e hostis.


— Você mexeu com forças além do seu entendimento. Quis trazer desordem e crueldade num mundo já corrompido. Tem ideia de como isso afeta o equilíbrio?


— Equilíbrio?


— Toda ação tem consequências. E vou mostrar quais são as suas.


As sombras envolveram a lâmina de Percy. O homem abriu a boca para gritar. Mas a lâmina rasgou seu pescoço. Seu corpo tombou para o lado, sem vida. Nenhum sangue escorreu.


Quando punia mortais, a lâmina de Percy tinha uma função especial — atingir apenas a alma, a parte vital do ser humano.


Percy acenou. As sombras envolveram o homem, desintegrando seu corpo. Desaparecendo com o mortal que desafiou a harmonia cósmica.


— Todos que ameaçavam o equilíbrio devem ser punidos. — Percy disse para si mesmo.


Esse é o lema que me foi ensinado, Percy pensou enquanto caminhava.


Para isso ele foi criado. Não para dominar, mas para corrigir. Não para servir, mas para julgar. Percy sabia que era diferente. Ele não era humano, tampouco um semideus.


Não… Ele não era limitado pelo sangue divino ou mortal.


Perseu foi criado à imagem e semelhança dos Primordiais. Eles não eram exatamente pais afetuosos, mas Percy não podia ter pedido por guardiões melhores.


Gaia e Urano sussurram segredos antigos em seus sonhos, abençoando-o com uma visão além da mortalidade. Tártaro lhe ensinou sobre o caos e o abismo. Nix mostrou como a escuridão pode ser sua arma e seu refúgio.


Ananke mostrou-lhe a força do destino. E Caos… cravou em seus pensamentos sua missão: restaurar o que os deuses juraram proteger.


Percy não se permitia esquecer aquelas palavras.


Onde houvesse injustiça, ele corrigiria. Fosse mortais corruptos, monstros descontrolados ou deuses negligentes. Ele não deixaria ninguém sair impune.


Percy saiu da floresta porque seu próximo alvo estava em Nova York. Onde Derick Smith costumava morar.

***


— Ele está aqui — disse Ártemis.


Seus passos ecoavam pela floresta banhada pelo luar. O arco dela estava em posição. A aljava possuía flechas o suficiente para abater um exército de monstros. As Caçadoras a seguiam, preparadas como sua deusa.


Há dias, Ártemis sentia algo vibrar na terra. Uma força destrutiva e poderosa.


Os primeiros rastros foram os monstros. Feras que Ártemis deveria caçar desapareciam misteriosamente. Depois, os mortais. Notícias de homens e mulheres mortos corriam tanto pela terra como pelo Olimpo. Os deuses menores pareciam inquietos, como se até eles pressentissem o tamanho da energia em movimento.


No entanto, ninguém sabia explicar quem ou o que se esgueirava na terra.


— Tende certeza, minha Senhora? — perguntou Zoe Nightshade.


— Sim — confirmou a deusa. — Não abaixem a guarda. Essa coisa… Ele… é diferente de tudo o que caçamos.


Ártemis não sabia quem era esse indivíduo. Podia ser de aparência humana, apenas uma força ativa… Ela não sabia, mas jamais permitiria que alguém que não segue as regras olímpicas aplicasse justiça como bem entendesse. Ela avisou aos deuses. Um perigo silencioso espreitava a terra. Eles não ligaram, mas não era um problema. Afinal, caçar era a área de Ártemis.


— Qual é o nome dele? — perguntou Phoebe, uma das Caçadoras mais antigas. — Perry?


— Percy — corrigiu Ártemis.


— O que ele é? — indagou Naomi. — Um semideus? Um deus?


— Ele não é um semideus — respondeu Ártemis. — Não um comum. Ele não poderia ser mortal.


— Um homem com tamanha magnitude de poder… — Murmurou Zoe, com aversão. — Não podemos permitir.


As Caçadoras concordaram em uníssono. Mas, para Ártemis, o problema não era o fato de Percy ser um homem.


A deusa não sabia o que Percy era. Sempre que aparecia nos lugares que serviam como palco de sua “justiça”, ela apenas encontrava seus rastros: cinzas de monstros, árvores caídas e crateras no chão. Às vezes corpos humanos inertes.


Até os animais selvagens mostravam-se hostis com os lugares pisados por Percy.


Um terrível pensamento cruzou a mente de Ártemis: e se Percy estiver acima de nós, deuses?


Ela balançou a cabeça, descartando a possibilidade. Os únicos seres que se elevavam acima dos deuses eram os Primordiais — seres que personificavam conceitos do universo. E, mesmo os deuses primordiais, mantinham distância da terra. Eram ausentes. Distantes. Não havia por que se intrometerem nos assuntos terrenos.


— Senhora Ártemis — Zoe chamou. — O que faremos com ele quando vos encontrarmos?


— Somos Caçadoras, Zoe — respondeu Ártemis. — Nós eliminamos nossas presas.


Um sentimento de apreensão percorreu as seguidoras de Ártemis. No entanto, elas seguraram firme seus facões e arcos. Elas seguiriam sua deusa, não importava o que acontecesse.


Porém, nem Ártemis ou suas Caçadoras perceberam o sombrio par de olhos verdes que as observavam. Empoleirado no mais alto galho, ele via o primeiro grupo que chamara atenção. Observou seus passos, sem intervir.


Bastava um gesto, e aquelas garotas cairiam de joelhos. Percy Jackson saltou do tronco. Controlando os ventos, ele desceu flutuando e pousou silenciosamente atrás do grupo. Ártemis sentiu um aperto no peito. Ela se virou. As Caçadoras arregalaram os olhos e imitaram-na.


— Minha Senhora? — perguntou Phoebe, notando que o ponto atrás delas estava vazio.


— Não é nada — Ártemis forçou a voz firme. Seu coração batia contra o peito, como uma marcha de carnaval. — Achei que era um cervo.


Zoe notou que sua senhora estava apreensiva. Ela era uma das Caçadoras mais próximas de Ártemis, sabia quando sua deusa estava preocupada. Mas sabia que não era lugar ou hora para discutirem. A caçada prosseguiu com a sua marcha.


Nenhuma delas olhou novamente para trás; o ponto onde Perseu estava novamente. O justiceiro sorriu. Elas não interveriam em seu dever. Ele não permitiria. No entanto, parte dele achava a ideia de ser caçado… divertida.


***


Ainda era a noite. Perseu estava sentado numa rocha elevada que tinha vista para uma cidade de tamanho médio. As luzes dos postes e das casas eram como vaga-lumes artificiais. As ruas eram desertas. Os caminhos eram de asfalto. As lâmpadas lançavam uma luz amarelada sobre as ruas. Os únicos sons eram as brigas dentro dos lares e os latidos de cachorros.


Seus olhos verdes observavam a cidade. Ele pensava em como os deuses eram negligentes. Donos da terra, mas deixaram-na no caos. Percy queria entender. Mas esse era seu trabalho — trazer ordem.


Por falar em ordem… ele notou um homem responsável por perturbá-la. Era hora da ação.


Ele materializou-se atrás do sujeito. Seu nome era William James. Estava curvado no chão, diante de um pentagrama desenhado na calçada. Velas apagadas rodeavam-no. O homem estava coberto de restos de cera e poeira. Ele tentava apagar os resquícios de seu ritual.


— Eu te pergunto… — Murmurou Percy, sobressaltando o homem. — Você acha isso correto?


O tom de Percy era calmo, longe de ser ameaçador. Mesmo assim, era o bastante para o homem recuar. Ele tropeçou, caindo de costas. O indivíduo rastejou, desejando ficar o mais longe possível de Percy.


Bastava olhar para os seus olhos — ele não era alguém normal.


— E-eu não fiz n-nada — o homem gaguejou.


Percy levantou uma sobrancelha.


— Se você é inocente, por que você foge de mim?


O homem não teve resposta. Sua voz morreu em sua garganta. Num ato de desespero, se levantou aos tropeços. Ele correu na direção de uma das casas. Alguém de boa índole o ampararia. Ele poderia se esconder.


Mas nada escapa dos olhos do Justiceiro.


Perseu se materializou diante do homem. Ele derrapou. Caiu de costas. Perseu o encarou de cima.


— Você realiza rituais — disse o Justiceiro —, se envolve com forças que não conhece. Interfere no mundo espiritual. Apenas… para obter poder.


— N-não — o homem se ajoelhou para Percy —, eu não s-sou tão ruim…


— Não me importo se você é bom ou ruim. Nós dois sabemos que não é a primeira vez que você apela à magia para fortalecer seu poder.


— Não é bem assim…


— Fama — cortou Percy. — Status. Poder. É apenas com isso que você se importa.


O homem se ajoelhou e enterrou o rosto no chão, na esperança de despertar alguma piedade no Justiceiro.


— Eu imploro! — ele choramingou. — Poupe-me.


Perseu sacou sua espada. Ele não era alguém que demonstrava misericórdia aos culpados. O homem a sua frente interferiu no equilíbrio. Era apenas uma vida. Uma vida a favor do universo.


Ele o mandaria para o Hades.


— Talvez os juízes tenham compaixão de você — disse Percy.


Perseu ergueu sua lâmina. Um silvo agudo rasgou o ar. O Justiceiro inclinou sua cabeça para trás. Uma flecha raspou em seus poros. Ela cravou numa árvore. Perseu reparou que ela tinha a ponta prateada.


— Parece que tenho um público… — Percy murmurou.


Como se esperassem sua deixa, Ártemis e as Caçadoras saíram dentre as árvores, num semicírculo. Suas expressões eram mortais. Todas focadas em Percy. Cada Caçadora tinha uma flecha pronta para lançar. Ártemis estava a frente do semicírculo. Seu arco em mãos não estava armado, mas sua expressão era letal.


Ela passou semanas procurando por Percy Jackson. No entanto, a busca tornou-se pessoal. Dezenas de pontos na natureza eram encontrados destruídos. Os animais selvagens estavam acuados. Mesmo os animais da caça — lobos e falcões — tinham receio de sair com as Caçadoras.


Percy ousou tocar nos seus animais sagrados. Qualquer um que tocasse no domínio de Ártemis era seu alvo pessoal.


— Finalmente o encontramos — disse a deusa caça. — O que pensa que está fazendo?


— Restaurando o equilíbrio — respondeu Percy. — É o meu trabalho.


— E quem lhe nomeou o senhor da justiça? — perguntou Phoebe. — Que direito você tem de ceifar vidas?


— Meu direito é dado por forças que você não compreende — replicou Percy. — Não tentem me entender. Não tentem interferir.


James encarou Ártemis. Ele era um mortal, não sabia que ela era uma deusa, ou que suas meninas eram imortais. Entretanto, ele viu sua chance de salvação.


— Ajudem-me! — ele implorou.


Ártemis lhe lançou um olhar.


— Você sente prazer em tirar a vida dos mortais? — indagou Ártemis.


— Eu não faço distinção — replicou Percy. — Deuses, mortais… Qualquer um que interfira no equilíbrio deve desaparecer.


— Você não tem esse direito — afirmou Ártemis, com dureza. — Isso não é justiça, é destruição! Você deveria responder aos deuses.


Percy sabia que havia uma linha tênue entre justiça e destruição. Mas ele não era um agente do caos. Pelo contrário: sua função era combater os responsáveis. Os Primordiais alertaram-no de que seria incompreendido, caçado, talvez desafiado, mas Percy não estava disposto a abandonar seu dever.


A não ser que fosse um Primordial, Percy jamais abaixaria sua cabeça.


— Essa é a nossa diferença, filha de Zeus. Eu não respondo ao Olimpo. Meu compromisso é restaurar a ordem que vocês, deuses, juraram proteger.


— Você não restaura o equilíbrio assassinando mortais — Zoe lançou um olhar para o homem ajoelhado. Ela não defendia homem algum, mas ela sabia que o que Percy pretendia era o que Ártemis queria parar — Deixe-o ir.


— Zoe Nightshade…


Zoe arregalou os olhos quando Percy pronunciou seu nome. Como? Eles nunca tiveram encontro algum.


— … Você se importa tanto assim com um cadáver?


As garotas notaram que o corpo do homem estava deitado de lado, sem vida. As Caçadoras se entreolharam confusas. Percy não se moveu um milímetro. Como o matou com tanta facilidade?


— Você não é um semideus — acusou Ártemis, armando seu arco e mirando em Percy.

— O que você é?


Percy sabia que estava em desvantagem numérica. Porém, ele manteve suas mãos atrás das costas.


— Eu sou aquele que lembra aos deuses os seus deveres. Os Primordiais me deram uma missão: restaurar a ordem. Você, Ártemis, se preocupa demais em explorar o mundo. E quanto às florestas? Você não é a deusa da Caça? Sabia que dezenas de animais estão sendo extintos nesse exato momento?


As Caçadoras rosnaram para Percy. Qualquer um que ofendesse sua deusa… deveria ser punido sem hesitação.


— Vocês podem tentar — Percy adivinhou seus pensamentos —, se acham que conseguirão me atingir.


As Caçadoras hesitaram, mas bastou uma Caçadora teimosa. Ela sorriu e disparou contra Percy.


O Justiceiro agarrou a flecha a centímetros de seu rosto. As Caçadoras ficaram boquiabertas. Até mesmo Ártemis ficou admirada.


Percy rodeou a flecha entre seus dedos, como se a analisasse. Numa velocidade impressionante, ele disparou a flecha de volta. A flecha cravejou no ombro da Caçadora, arrancando-lhe um grito.


Imediatamente, as Caçadoras armaram seus arcos e dispararam. As flechas rasgaram o vento. Todas congelaram, como se mãos invisíveis impedissem seu percurso. Ártemis e as Caçadoras estavam paralisadas — não por medo.


Percy controlou o tempo ao redor, congelando aquela pequena área — como se a isolasse da realidade.


— Vocês me entenderam mal — disse Percy. — Eu não disse que não revidaria. Vocês têm liberdade para me atacar, e eu liberdade para retribuir.


Ele fez um gesto. As flechas caíram como se fossem de brinquedo. As Caçadoras levaram a mão às suas aljavas, mas Ártemis estendeu a mão, impedindo-as.


— O que você é? — A deusa perguntou, novamente.


— Aquele que restaura o equilíbrio — respondeu Percy. — Criação dos Primordiais. Não vou impedi-la de me caçar. Mas saiba, filha de Zeus: eu não vou hesitar em mostrar que a natureza sempre vence.


Percy encaminhou-se para a escuridão da floresta. Ele sumiu, como se nunca tivesse estado ali. Ártemis se virou para as suas meninas.


— A caçada começou.