Perchance

1 Significado


Notas iniciais
Nota 1: Pode conter erros ortográficos, existenciais e geográficos. Nota 2: Escrevo por diversão, não garanto satisfação e nem devolvo tempo perdido. Nota 3: Leia as notas anteriores e pense bem. Já? Agora está por sua conta e risco.

Ainda estava ofegante quando Marina rolou para o outro lado da cama, deslizando os dedos fora do seu sexo sem tanta destreza dessa vez, o que a fez soltar um pequeno grunhido. Mas o que era um momentâneo desconforto comparado ao prazer que essa mulher conseguia coagir do seu corpo toda vez, mesmo com o mais sutil dos toques? “Insignificante”, Clara pensou consigo mesma e sorriu, ainda desfrutando dos efeitos tardios do seu último orgasmo.

Marina encarava o teto, mas seus olhos estavam fechados. Os lençóis brancos se enroscavam em volta de sua cintura e das pernas nuas, sua pele toda brilhava com uma fina camada de suor e seu cabelo era um capítulo à parte nessa bagunça deliciosa.

Clara e sua mania irresistível de atentar contra todos os limites, dos físicos aos químicos, da sua fotógrafa favorita.

“Cansou rápido, hein, amor?” seu riso rouco e irônico ecoou no quarto silencioso.

Marina virou a cabeça para encará-la, erguendo um pouco o braço que havia jogado por cima do rosto. Abriu um olho solitário, “Você me paga, sua bandida”, mas antes que pudesse fechá-lo Clara pulou em cima da fotógrafa de supetão, atacando seu rosto com beijinhos estalados, enquanto seus dedos se trançavam nos cabelos desgrenhados da outra mulher.

“E eu considerava você uma boa pessoa...”, arfou, “Você tá me matando, sabia disso? Vai me destruir”, brincou Marina, fazendo uma careta diferente para cada beijo meloso que recebia da companheira, mas Clara já conhecia muito bem as manhas secretas de Marina Meirelles. Afinal, testemunhara de perto esse lado 'mulherzinha' da fotógrafa por quase quatro anos agora, dois dos quais compartilhando o mesmo teto como oficialmente casadas.

“Ah, é? E por que será que eu tenho a impressão de que você adora quando te deixo assim, toda destruída?”

A expressão de Marina foi mudando, seus olhos encapuzados encontraram um brilho brincalhão nos de Clara que a fitava toda esperançosa, seus polegares agora fazendo pequenos e lentos círculos nas têmporas da fotógrafa.

Sorriu vitoriosa quando as mãos de Marina deslizaram de seus ombros, descendo devagar por suas costas nuas e bronzeadas, acariciando cada centímetro da pele quente, até que finalmente encontraram seus destinos. Ela vacilou em suas carícias no rosto de Marina por um momento, fechando os olhos para a sensação crua das unhas curtas e um tanto afiadas da fotógrafa cravando em suas nádegas.

Um sorriso lascivo espalhou-se vagaroso em seu rosto com a promessa implícita daquele gesto.

“Você sabe que sim”, sussurrou num tom malicioso, “Mas parece que eu não sou a única por aqui.”

E para provar seu ponto Marina pressionou sua coxa direita contra o sexo encharcado da companheira, que gemeu sua aprovação.

Começaram o ritmo conhecido novamente, quadris ondulando lentamente enquanto suas bocas se aproximaram, mas sem se tocar. Os lábios de Clara permaneceram entreabertos, suas pálpebras começaram a pesar quando sentiu uma das mãos de Marina primeiro acariciar seu seio esquerdo, depois apertá-lo com certa voracidade.

“Marina...” rosnou, pressionando-se com urgência contra a coxa da fotógrafa.

“Abre os olhos.”

E Clara obedeceu, mesmo que por um segundo ou dois, “Não temos muito tempo, preciso pegar o Iv- aaah!”

Marina riu baixo, imensamente satisfeita consigo mesma.

“Você que está me segurando aqui.”

“É...? Só não- hmm, isso!

O ritmo dos quadris foi acelerando e já não havia mais silêncio no quarto.

“Clara?”

“Hmhm?”

“Eu te amo.”

Seus olhos se abriram, demorando um pouco para retomar o foco, mas ali estava Clara de novo, completamente perplexa com a capacidade dessa mulher de roubar-lhe o fôlego com o mais insuspeito dos gestos, o mais honesto dos olhares, as mais simples das palavras.

E como eram mundanas essas palavras pensadas, escritas e faladas, diariamente, por incontáveis pessoas nos mais longínquos lugares, pelas mais diversas razões que nem sempre refletiam o seu real significado.

Mas Marina, sua Marina, tinha esse poder inexplicável de transformar três palavras na coisa mais sensual e ao mesmo tempo mais doce já dita a uma mulher.

“Que sorte a sua então, porque se você não me amasse eu ia fazer o inferno, viraria esse mundo de ponta cabeça, mas eu ia ter você.”

“Como?”

“Desse jeito, toda molhada e se contorcendo de prazer embaixo de mim.”

A fotógrafa soltou uma longa gargalhada, completamente sarcástica, e apertou-lhe o quadril para incentivá-la a aumentar a força dos seus movimentos, “Que convencida, você, senhora Fernandes Meirelles.”

“Porque posso. Olha pra mulher que tenho todos os dias e noites na minha cama e diga se não.”

Marina lhe deu aquele olhar safo que era só dela e sorriu de canto, o que Clara apreciou por um momento até que suas pálpebras pesaram e venceram a batalha contra sua vontade mais uma vez.

Estava prestes a se entregar por completo ao ritmo frenético dos seus corpos quando a fotógrafa posicionou dois de seus dedos entre seus lábios. Clara prontamente abriu os olhos e sugou ambos dentro de sua boca. Ela sabia o que isso provocava na companheira e não queria perder sua reação. Clara adorava assistir, mais ainda, ela amava saber que era a única mulher a colocar essa expressão no rosto de Marina, envaidecia-se por saber que era capaz de deixá-la assim tão louca de tesão com um gesto tão banal. Marina era, em certos modos e gostos, bastante previsível. E a prova disso veio logo, no gemido longo e gutural que soltou quando Clara passou sua língua devagar por entre seus dedos, só para sugá-los com mais força no instante seguinte e repetir a ação, alternando entre um dedo e outro.

Marina só tolerou um momento mais aquela requintada tortura e puxou seus dedos umedecidos de saliva da boca de Clara, que a penetrou logo em seguida fazendo a fotógrafa estremecer e se torcer toda em baixo dela. Não demorou muito para que Clara sentisse seu sexo ser preenchido por aqueles mesmos dedos e gemer alto, qualquer sentido de pudor esquecido ali.

Já estava tão imersa em seu próprio prazer que levou alguns momentos para perceber que a fotógrafa havia falado.

“O que você disse, amor?”

“Vem aqui, no meu colo” repetiu Marina enquanto levantava-se, guiando o corpo amolecido da esposa que tentou ajudar no processo, mas parecia já não ter mais tanto controle sobre os seus membros entorpecidos.

Quando se arranjaram na nova posição, Clara era a única a ser estocada e seus gemidos se tornavam cada vez mais erráticos, inconstantes entre seu choramingar contínuo e baixinho, e enquanto uma de suas mãos perdeu-se nos cabelos, os dedos da outra fincaram-se no ombro da fotógrafa. Ambas estavam cobertas de suor e ofegantes, corpos tão próximos que pareciam se fundir num só. Marina alternava entre carícias suaves e outras nem tanto, beijava e mordiscava os seios, ombros, e pescoço de Clara, que a essa altura já estava perdida num mundo de sensações delirantes e só dela. As únicas coisas que ainda prendiam-na a realidade eram os dedos pulsando fundo em seu sexo e o calor do corpo colado ao seu. Ciente disso, Marina aumentou o ritmo de suas estocadas e pressionou o calcanhar da mão no ponto onde Clara mais precisava.

“Isso... mais...”

Marina acatou, deslizando um terceiro dedo dentro dela, e logo sentiu o corpo de Clara começar a se contrair contra o seu.

“Goza pra mim, gostosa”, o sussurro em seu ouvido foi o gatilho. Clara explodiu num orgasmo avassalador que fez seus ouvidos zumbirem enquanto pontos de luz dançavam na frente dos seus olhos agora bem abertos, mas que permaneceram desfocados por longos e longos momentos de êxtase que duraram até que os dedos dentro dela pararam de se mover, e mesmo depois.

Ainda se recuperava do orgasmo mais intenso que teve desde a última vez em que Marina a levou para Angra há um mês, quando ela se deu conta de que a fotógrafa tremia em seus braços.

“Amor?”

Quando a fotógrafa se recusou a encará-la, Clara segurou sua cabeça entre as mãos e, um pouco apreensiva, ergueu o rosto da companheira de modo que conseguisse capturar seus olhos.

Sua preocupação aumentou de forma alarmente quando finalmente reconheceu o estado da outra mulher.

“Meu Deus, Marina, você tá pálida!” a fotógrafa não esboçara reação ao visível choque da companheira, apenas continuava olhando para Clara daquela maneira estranha, nauseante.

Foi então que, do nada, Clara sentiu seu corpo todo arrepiar como se uma brisa fria soprasse dentro do quarto. O arrepio trouxe a sensação de que estava para ter uma experiência fora do corpo, mas não da mesma forma arrebatadora como a que experimentara minutos atrás.

Não, essa coisa que estava montando no seu peito a queria bem consciente da gravidade que a puxava para o chão, esse mesmo chão que parecia que a qualquer momento iria se abrir e engoli-la viva.

Déjà vu?

Isso não pode estar acontecendo, não de novo.

Naquele momento seu mundo se resumia àquele rosto terrível, àquela penumbra que a cercava. E sentia, com uma certeza tão profunda quanto a que tinha do seu amor por Marina, que os olhos negros marejados que a mantinham cativa seriam os portadores de uma notícia capaz de destruir os seus sonhos mais bonitos.

Notas finais
Se houver comentários, que sejam gentis, para que eu possa ser gentil com o futuro delas também. Mas só um pouco.