Perchance

2 Miragem


Notas iniciais
Nota 1: Agradeço a todxs que leram e comentaram. Nota 2: Se estava tenso antes, pode ficar ainda mais agora. Só continuem se apreciarem algum drama psicológico, porque daqui pra frente as coisas poderão ficar um tanto estranhas, intensas. Mas não se preocupem, só estou brincando um pouco antes da verdadeira ação começar.

Clara acordou com um sobressalto, imagens atormentadoras se misturavam a outras extasiantes em sua mente, seus pensamentos eram como um balé macabro onde dançavam o prazer e a agonia. Recortes da última noite também se infiltravam entre as imagens confusas, fazendo sua cabeça doer, causando um aperto em seu peito.

Grunhiu em frustração ao levar uma mão até a testa, estava coberta de suor, e a única peça de roupa que usava estava completamente encharcada. Evidência do que havia experimentado durante a noite, real e não real. Esfregou sua outra palma ali enquanto sentou-se na cama com certa dificuldade. Olhou para o lado.

Marina não estava mais lá, e isso estava acontecendo cada vez mais frequentemente desde... aquela noite.

Dezenove meses atrás. Foi quando tudo começou.

Depois daquela noite chuvosa em que não voltou para casa porque Ivan estava doente, Marina já não acordava mais ao seu lado todas as manhãs.

Daí começaram os pesadelos estranhos, os pensamentos confusos, mais problemas domésticos... Clara soltou um riso curto, um deboche consigo mesma e pela situação. Não deixava de ser irônico o fato de que sua mente ainda funcionava assim, como a de uma eterna e sacrificada dona de casa. E talvez fosse por esse motivo que ela insistia em colocar na nova sócia da fotógrafa o rótulo de “mais um problema doméstico para resolver” na sua lista de “coisas para fazer hoje”. Mas esse “hoje” já se arrastava por quase um ano e meio e seu alegado problema doméstico continuava a desfilar por aí agarrada ao braço de Marina, sempre linda e perfumada, milionária e com aquele sotaque francês petulante.

Só em pensar naquela mulher todos os dias cercando a Marina a irritava tão profundamente, mas de uma forma tão irracional que... Melhor desviar o foco. Pensar na dor de cabeça física era menos frustrante agora, bem menos.

Fechou os olhos devagar contra a dor que se fixava mais rápido do que ela gostaria e, sem que esperasse, a forma de um rosto refletiu no espelho de sua mente.

Cadu. No sonho, era dele aquele cansaço, aquela palidez nauseante, os olhos negros que a fulminavam depois do orgasmo mais intenso... Era dele o rosto terrível que sempre se fundia ao de Marina no final. A última parte do sonho era sempre a pior, a que não conseguia decifrar.

“Pesadelo maldito”, murmurou para o vazio. Por que ainda pensava no Cadu assim? Por que sempre fragilizado, doente, mesmo depois de todo esse tempo? Ele estava bem agora e, mais importante, tinha a Verônica que o amava e cuidava dele como quem cuida de um bibelô, de um troféu. Mas por que a sombra do Cadu lhe perseguia quando sua mente estava dormente, indefesa? Pior ainda, numa situação tão íntima onde os seus pensamentos supostamente deveriam pertencer à pessoa que preenchia todos os espaços do seu coração, do seu corpo, do seu desejo. Temia estar ficando louca, porque não havia explicação racional para isso.

Ou talvez houvesse.

Talvez aquela noite tenha despertado algo dentro dela...

Não, estava casada com Marina agora, amava essa mulher com cada fibra do seu ser, amava tanto que chegava a doer. Uma dor boa, alegre, mas doída assim mesmo. Sabia disso tanto quanto sabia distinguir a cor do céu de dia e de noite, e mais importante, sentia isso no mais profundo da sua alma.

Elas tinham uma boa vida apesar dos pesares e por causa deles. Não tinham?

Lembrou-se da noite passada. Marina parecia distante, mas fizeram amor a madrugada inteira. Clara havia tentado disfarçar, manter o clima leve, mas na sua mente flutuavam imagens do sonho que se repetira desde “aquela noite”.

Será que Marina percebia depois de tanto tempo? Noite passada ela parecia mesmo estar em outro lugar. Mas será que queria estar em outra cama, com outra pessoa? “Talvez sua nova sócia”, sua mente traiçoeira acrescentou e Clara suspirou amargamente, sentindo a familiar pontada de ciúmes lhe revirar o estômago.

A fotógrafa não fazia o tipo amante distraída, não mesmo. Marina possuía uma sensibilidade fora do comum e isso também se aplicava às suas habilidades sexuais. Sempre intensa, atenta a cada expressão e som que Clara fazia. Mais que isso, a fotógrafa tinha esse dom de se comunicar silenciosamente com ela, captar cada vontade impronunciável e realizá-la, entender cada minúsculo sinal de desconforto e dissipá-lo com um beijo, uma carícia.

Ela percebia. É claro que Marina percebia.

Sentindo como se o peso em seus ombros triplicasse, Clara obrigou-se a levantar da cama e caminhou ainda meio grogue na direção do banheiro. O quarto estava iluminado, indicando um dia claro, provavelmente já próximo ao meio dia. Passando pela janela, viu uma silhueta que conhecia muito bem, pelo tato.

Marina estava tomando sol na área externa, o corpo voltado na direção da casa. Parecia relaxada, contente, saudável. Era quase um alívio vê-la assim, quase, porque se tem uma coisa que aprendeu nesses últimos tempos é que nem tudo é o que parece.

Permitiu-se admirar a vista mais um pouco antes de tomar a chuveirada que tanto precisava. Suspirou, afastando-se do vidro. Mas parou no meio passo. Os olhos se estreitaram numa segunda figura.

Aquela mulher.

Deus, como queria fulminar, apagar do mapa a mera existência dessa mulher. Queria mesmo era amaldiçoar o dia em que essazinha entrou nas suas vidas, embora sua aparição naquele momento tenha sido providencial. Clara tinha que reconhecer, a mulher era um furacão de inteligência e beleza. Uma combinação perigosa de sex appeal, poder financeiro e adoração por Marina, coisa que não fazia a menor questão de esconder de ninguém. Sua devoção à fotógrafa, ela dissera uma vez, era igual ou até maior do que a que tinha pela pintura. E sendo Marina uma artista, uma peculiarmente talentosa e vaidosa, mas que dependia de respaldo monetário como qualquer outro profissional, rendera-se a uma das muitas propostas tentadoras de Diana Grimaud. Há um ano eram societárias em uma Galeria de Artes no Rio de Janeiro e, com os cumprimentos de "Grimaud Meirelles", o empreendimento artístico se provou um verdadeiro sucesso desde então.

Clara lembrou-se das palavras da companheira na época, quando Marina lhe dissera que abrir uma Galeria nunca tinha sido um sonho em particular, mas, como Branca sempre insistia em não partilhar de seus planos e ideais artísticos, sem falar que tinha um prazer sádico em aparecer nas horas mais impróprias, perturbar seu ócio criativo e lhe tirar a paz de espírito sempre que podia, a proposta da francesa viera como uma mão na roda. Era uma oportunidade para que seu trabalho tivesse o respeito que merecia e real incentivo. Uma garantia de futuro para ambas.

Perdida nas lembranças como estava, seu quase devaneio foi interrompido bruscamente quando Clara se deu conta da cena que se desenrolava à beira da sua piscina.

***

“Um belo dia para uma vista mais bela ainda”, disse a francesa com seu sotaque peculiar.

Marina riu enquanto observava a outra mulher se aproximando, já habituada ao seu humor insinuante.

“Bom dia pra você também, Diana”, cumprimentou-a no mesmo tom, “Mas já tão cedo?”, a fotógrafa ironizou, erguendo-se um pouco sobre os cotovelos.

A loira parou diante da espreguiçadeira em que a fotógrafa se esbaldava, as mãos pousando nos quadris de uma maneira calculada e provocante, “Você sabe muito bem que não sou uma pessoa matinal, mon chéri.

“Eis uma verdade”, replicou vagamente, enquanto seus olhos demoravam-se nas curvas sinuosas do corpo de Diana.

“Sua assistente sabe que você olha pra outras mulheres desse jeito?”, provocou a francesa.

“Minha companheira”, a fotógrafa enfatizou, “conhece a mulher que tem. E, esteja certa de uma coisa, Diana, ela me tem. Completamente”.

“Hm, entendi”, suavizou o tom dessa vez, “Então você acha que ela não se incomoda com o fato de que eu aprecio até demais a ‘vista’ daqui?”, seu olhar vagueava com malícia sobre o corpo escultural a sua frente.

“Nem um pouco e sabe por quê? Porque a Clara confia em mim”, Marina disse despreocupadamente, voltando a relaxar suas costas no encosto da espreguiçadeira, “E ah, o que seria de uma ‘bela vista’ se não houvesse quem a admirasse, não é mesmo?” sorriu esgueira enquanto Diana caiu na gargalhada.

Marina sempre fora insuportavelmente linda e pretensiosa em tudo que fazia, desde os tempos de escola, mas alguma coisa não a convencia nessa fachada de “felizes para sempre” que a fotógrafa erguera. Para Diana, essa autoconfiança toda de Marina não passava de blindagem, uma tentativa de esconder seus medos e inseguranças mais profundas. Uma forma de se proteger da vida, das pessoas, dela própria.

Olhou para Marina de uma forma diferente agora, sem truques, sem malícia. É, talvez só um pouquinho de malícia, o que era inevitável quando se tratava de Marina Meirelles. Mas, pela primeira vez desde que havia se reconectado com a fotógrafa, Diana enxergou nessa mulher, nessa Marina, aquela adolescente quase mulher que um dia, muitos anos atrás, havia lhe feito um pedido. O mais doce e erótico da sua vida.

Quero que me pinte, nua. Se sair perfeito, você ganha um beijo.

Diana se perguntou se Clara conseguia enxergar aquela Marina também, ou se ela era uma miragem de um tempo e lugar que existiam apenas nas suas lembranças.

Sem se dar conta de como nem quando, já estava ajoelhada ao lado da espreguiçadeira, repetindo a máxima que costumava usar para descrever a vista mais bela dos seus tempos juvenis, “La belle et prétentieux”, sussurrou, olhos azuis fixos nos olhos amendoados da fotógrafa.

E a beijou.

Notas finais
Gostei dessa Diana.