Notas iniciais
Nota 1: Hm, um refresco? Ou não...

Os dias foram passando naquele mesmo ritmo melancólico dançado pelo vento e pelas folhas amareladas no seu jardim. Assim como eles, as horas flutuavam preguiçosas, suspendidas no ar, tremeluziam sob os raios do sol outoniço, acumulavam-se como um tapete cor de sapé seco sobre o capim verde.

Sabia que no Brasil as estações não eram assim tão distinguíveis, mas era como Marina gostava de imaginar o outono, acostumada como fora a enxergá-lo em toda sua glória dourada e decadente nos países de clima temperado pelos quais passara.

Suspirou para a imagem que se projetava no espelho de sua mente... Desde que havia deixado o hospital três semanas atrás, todas as suas manhãs começavam assim, bem frias, cedo demais.

Sempre o mesmo ritual.

Tomava seus remédios, tirava o gosto amargo que deixavam na boca, rosto lavado, abrasões e lesões embalsamadas, descia as escadas devagar ao som distante dos pássaros lá fora, seguia para a área externa com o sol ainda nascente, então se sentava naquele banco de madeira envelhecido sob a copa da grande figueira, as mãos acalentando sua câmera de estimação no colo enquanto seus pés descalços amaciavam a grama orvalhada.

E lá ficava esperando a hora do café da manhã, até que Clara fosse chamá-la.

Sentia a presença dela todas as vezes, algumas bem próxima, outras como se a observasse do seu lugar seguro. Mesmo quando a mulher não dizia uma palavra ou tentava chegar de mansinho, sem emitir um ruído para não assustá-la, Marina pressentia sua presença como um ímã antessente o outro.

Como se o fato de não poder vê-la já não a assustasse o suficiente... Ainda tinham os lapsos frequentes de memória, as mudanças repentinas de humor, as minúsculas suturas na pele em volta dos seus olhos que ainda incomodavam...

No final, tivera mesmo muita sorte. Tinha pessoas que cuidavam dela, sem paparicos demasiados, e Marina se sentia agradecida por isso, por tentarem manter o mínimo senso de normalidade nessa vida já tão marcada pela incerteza do futuro.

Recebera a visita de alguns nomes importantes, de parentes da Clara, e também do seu pai uma vez, mas a que mais lhe tocou foi a dona Chica. Embora não conseguisse lembrar muito sobre ela – e Marina tentou, tentou demais lembrar –, só a presença dela, a forma como falava, acalmou-a de uma forma tão profunda, tão maternal, tão mulher...

Vanessa e Flavinha estavam todos os dias no estúdio e sempre esticavam o horário de trabalho pra poder passar um tempo a mais com a fotógrafa. Tratavam-na com carinho e o humor costumeiro, embora Marina notasse certa trepidação nas duas mulheres quando falavam sobre os dias que antecederam ou sucederam o do acidente. Elas nunca mencionavam o tal dia em si.

Marina ainda tinha algumas lacunas pra preencher sobre suas amigas, mas o mais importante estava lá, o companheirismo, a amizade, expressos todos os dias, nos pequenos gestos. Clara havia lhe contado o quanto ambas foram presentes, como a confortaram nos dias mais difíceis, os de sua estadia prolongada na UTI.

Já Diana era presença quase constante em sua casa e Marina passou a preferir a companhia da francesa à de qualquer outra pessoa. Era mais fácil estar com ela do que com Clara ou Vanessa, porque mesmo que tentassem, nem sempre elas conseguiam disfarçar a melancolia em suas vozes.

O menino, Ivan, sempre puxava conversa quando a via pela casa. Ele brincava com seus cabelos, beija-lhe a bochecha com cuidado, falava-lhe do dia com os colegas de escola, dos games irados que estavam para ser lançados, das aulas de bateria no Galpão, do irmãozinho caçula, e do quanto estava adorando clicar tudo que via por aí com a câmera incrível que havia ganhado de presente da fotógrafa no seu aniversário. Contava-lhe tudo com a inocência eufórica característica das crianças da sua idade e, embora Marina não recordasse muito, sempre sorria e continuava o papo com o garoto. Sentia como se o amasse de muito tempo, só estava hesitante de como expressar mais esse sentimento já que não tinha uma referência segura do seu passado recente com ele.

Ah, e Clara...

Sentia-se estranha perto da mulher que agora se declarava sua esposa. Se não fosse pela aliança em seu dedo e pelos relatos das amigas, Marina não teria acreditado que havia realmente casado com Clara. Era muito... surreal.

Sabia que a amava. Marina sentia isso no mais íntimo do seu ser. Conseguia se lembrar daquele primeiro dia na exposição, daquela primeira vez em Angra, lembrava-se das noites que se seguiram, todas passadas em branco, esperando por um telefonema que quase nunca acontecia...

Retalhos de memórias, de sensações.

O dia do casamento era uma sucessão de borrões entrecortados por duas ou três cenas mais vívidas, lampejos de vestidos brancos, o toque distante e aveludado nas flores azuis, o frio na barriga, euforia, lábios, paixão...

Sua vida depois disso ficou resumida a páginas mal rabiscadas, rasgadas, amassadas, espalhadas pelo chão.

E agora? Teria que tateá-las ao redor. Mas se encontraria todos esses cacos e pontas soltas, se conseguiria uni-los em um livro só outra vez? Marina queria acreditar que sim, mas no fundo não sabia se queria.

Era como se o branco dessa escuridão a estivesse protegendo...

Queria mesmo saber mais, sentir mais?

Por que essa sensação estranha sempre a tomava quando Clara estava por perto? Uma agitação, arrepio, confusão, excitação, tudo misturado e nada junto. Era como se aqueles ímãs mudassem de polaridade de repente, se repelissem assim que sentia sua presença ao redor.

Só que Marina disfarçava bem, ou assim ela acreditava ser capaz.

Também não queria ser um peso para ela, esse traço tinha certeza que nunca lhe pertencera. Mesmo assim, era como se cada passo que ouvisse se aproximando fosse dela. O ritmo daquela respiração quente sussurrava seu nome no quarto, pela sala, por toda parte. O cheiro da pele, o espectro do rosto borrado que conseguia fitar de relance, todo pensamento, sensação, sobressalto, era sempre dela, voltava pra ela, por ela...

Clara, Clara, Clara...

Marina sentia que se ela lhe estendesse a mão, segurasse com força, e a puxasse para si, abandonaria toda essa escuridão...

Mas, no fim, quando aquela mão finalmente se unia a sua, a sensação que a perseguia era aquele arrepio na nuca, um prelúdio de luz quando lhe fitava o rosto bronzeado e então o mergulho de volta nas sombras...

Era como se fosse viver nesse mundo de vultos de Clara para sempre.

***

Clara olhou para a tela a sua frente, então para a figura de Marina sentada a certa distância, e sorriu.

As pontas dos dedos traçaram as linhas de um rosto calmo, descendo pelo pescoço elegante, entre os seios delicados, tocaram a câmera nas mãos...

“Impressionante...”, um sotaque conhecido soprou detrás dela.

Com um suspiro resignado, Clara fechou os olhos por um segundo, educando sua expressão antes de virar a cabeça para cumprimentar a francesa, “Tão cedo, Diana?”, seu tom era tudo menos cordial.

A loira sorriu toda faceira, cruzando os braços sob o decote generoso, então deu um passo curto à frente que a deixou mais perto do ombro direito da outra mulher, e abaixou-se um pouco para poder sussurrar em seu ouvido, “A forma como você usa as cores mais frias, esses tons aqui...”, Clara tirou o rosto com um grunhido de surpresa, tentando focar o olhar no quadro, mas tudo que via eram aqueles dedos longos e delicados que agora passeavam pela tela, as pontas traçando os contornos de Marina por ali, “... e aqui, vê? É realmente primoroso... Acho que vou considerar expor algum quadro seu na Galeria... em breve”, concluiu com um sorriso malicioso, erguendo-se de volta pros seus saltos ao perceber o efeito que sua proximidade inesperada havia causado em Clara.

A mulher engoliu em seco, balançando a cabeça como se para dissipar alguma névoa de pensamento, “Eu... não tenho essa ambição. A pintura me ajuda a relaxar, me faz pensar em coisas boas, nas pessoas que amo...”, franziu as sobrancelhas para o retrato, então seu olhar trilhou para Marina, que ainda estava sentada no mesmo lugar, “É o suficiente pra mim, não preciso divulgar para o mundo...”

“Bem, é uma pena...”, disse distraidamente, os olhos agora também fixos na distância, “Ela já tomou café da manhã?”

Dessa vez o que Clara sentiu foi uma sensação bastante familiar na boca do estômago. Levantou-se devagar, ficou de pé na frente da francesa tomando-lhe o campo de visão, o queixo levemente erguido quando falou, “Hoje, eu vou com a Marina”.

A francesa sorriu em falsa simpatia, “Mesmo? E ela disse o quê sobre isso?”

Clara rangeu os dentes, cerrando os punhos nos seus lados, “Ainda não falei com ela, mas–”, os três estalinhos da língua da francesa a fizeram hesitar por um instante, os olhos já estreitando de raiva e uma tirada pronta pra ser despejada.

Só que Diana se adiantou, “Claro que não, e nem vai falar...”, tamborilou a ponta do indicador no lábio inferior uma, duas, três vezes, fazendo uma cara pensativa, até que aquele sorrisinho irônico reapareceu, “... e nós duas sabemos muito bem o porquê, não é, mon chéri?”, uma pausa e o sorriso deu lugar àquele brilho gelado do azul de seus olhos, “Agora, eu vou esperar a Marina lá dentro, na sua sala de estar, confortavelmente sentada e muito bem servida”, olhou-a de cima a baixo, “... por você”.

Naquele momento, Clara não soube onde encontrou o autocontrole que não permitiu que ela voasse no pescoço daquela mulher. Seu corpo todo tremia com a força que fazia para não sair do lugar, todos os insultos que queria cuspir na cara dela entalados na sua garganta, até o ponto em que não suportou mais e...

“Diana?”

A francesa sorriu largo, erguendo uma sobrancelha mordaz para Clara, “Aqui, mon chéri”.

Sobressaltada, Clara virou e deu de cara com Marina, que tinha uma expressão intrigada no rosto.

“Impressão minha ou vocês estavam... discutindo?”, a fotógrafa perguntou com um riso curto, mas seu rosto franziu em confusão enquanto procurava os das duas mulheres.

“Bobagem, Marina. Você sabe como a Diana é... Sempre com o argumento certo na ponta da língua”, Clara lançou-lhe um olhar venenoso por cima do ombro, o que fez a loira morder o lábio para não rir da cara dela, “... a gente teve um pequeno desacordo sobre seu café da manhã, só isso”.

Marina meneou a cabeça devagar, não parecia convencida ali, “Foi sobre o quadro que você está pintando, não foi?”, questionou-a com um sorriso que falava volumes.

“É, foi sobre o quadro... também”, suspirou, levando a questão para um terreno seguro. Seus dedos então trilharam para o rosto da fotógrafa, acariciando os pequenos cortes ao redor dos olhos dela, notando com alívio que já estavam praticamente cicatrizados, “Fiz aquela torta de morango com maçã do outro dia que você adorou. Vamos entrar?”

Marina sorriu toda satisfeita, tomando uma das mãos de Clara na sua e já a puxando na direção da casa. Clara se deixou guiar, rindo baixinho ao passar pela cara boquiaberta que a francesa fazia naquele momento.

“Como você adivinhou que eu queria comer exatamente isso hoje? Cheguei até a sentir o gostinho na boca, acredita?”

“Ah, é? E o que eu ganho por fazer todos os seus gostos?”

“Hm, o que você quer?”

Clara sorriu, já cantando vitória. “Te levar ao oftalmologista hoje”.

Marina pensou um, dois, três segundos. “Feito!”

Diana ouviu a fotógrafa decretar entre risos e revirou os olhos.

De repente Clara parou e virou por um instante, “Ah, pode trazer o quadro pra mim, Diana querida? Você gostou tanto dele... Mas ó, cuidado, hein? Vou pensar na sua proposta de expor na Galeria”, ironizou com uma piscadela, num tom que só ela e a loira entenderiam, então retomou seu passo de mãos dadas com Marina.

A francesa a fulminou com os olhos antes de se voltar para a imagem de Marina retratada na tela, suspirando sofregamente ao traçar seus dedos ali uma última vez, então pegou o quadro e seguiu no rastro do casal, a cabeça fervilhando com pensamentos nada, nada benignos.

***

“Nossa, chegou cedo hoje, hein?”, Clara exclamou com um riso confuso, “Cadê a Flavinha?”

Tinha ido buscar a torta na cozinha e, de volta a sala, encontrou uma Vanessa com cara de poucos amigos.

A ruiva estava do outro lado da bancada, os olhos atentos à tela do notebook, mas não parecia nada satisfeita com o que via ali.

“Tá no set externo, fotografando...”, disse ao lhe dar um olhar vago, os dedos ainda teclando furiosamente.

“Que é que foi dessa vez?”, perguntou apreensiva, colocando a fôrma de vidro em cima da mesa, então acelerou seus passos até parar do lado da ruiva.

“Mais uma nota maldosa sobre o acidente”, Vanessa fechou o notebook de uma vez com uma batida de sua mão, respirando fundo antes que tivesse um ataque de raiva.

“O que dizia?” questionou-a, seus olhos trilhando inconscientemente para aquele objeto em cima do livro, ao lado do computador.

“Que a ‘renomada fotógrafa Marina Meirelles, que já não é mais tão cotada assim, não anda nada bem da cabeça, que o acidente foi apenas, apenas mais uma consequência da sua irresponsabilidade e amplamente conhecida instabilidade de caráter, atestada pelo fato de que ela vem se drogando com... tranquilizantes, soníferos e sei lá mais o que há tempos, blá blá blá!’ Pelo amor de Deus!”, a ruiva pilheriou o conteúdo duvidoso da nota, jogando os braços pro alto em frustração, “Esse povinho não cansa, não?! Ah, mas eu vou achar esse jornalistazinho de quinta, ah, se vou! Não vai ter esgoto nessa Rio de Janeiro inteira que ele possa–” parou ao perceber a expressão contorcida no rosto da outra mulher, “Que foi?”

Clara levantou o olhar daquele objeto e Vanessa murmurou, “Me diz que isso não é verdade...”

“Eu... Eu não sei, Vanessa!”, sussurrou enfática, olhando para os lados pra confirmar que ainda estavam sozinhas no estúdio, “Você que deve saber mais que eu, já que sempre fica aí se gabando que conhece a Marina como a palma da sua mão!”, disse com um grunhido irritado.

Nessa Vanessa revirou os olhos. “Ai, Clarinha! Ciúmes de mim a essa altura do campeonato? Over the top, por favor, né?”, suspirou toda dramática, levando as mãos à cabeça e esfregando as palmas nos ouvidos repetidas vezes, um tique nervoso que a ruiva havia adquirido depois que começou a namorar Flavinha. Clara nunca entendeu por que ela fazia aquilo e nem achava que um dia poderia.

Até teria rido da cena se não fosse pela situação crítica em mãos, “Nunca notei que ela tivesse dificuldades pra dormir... O que eu sei é que quando a Marina tá organizando um trabalho importante, ou é véspera de exposição, ela sempre toma alguma coisa, sim. Diz que é pra relaxar...”, falou vagamente, desviando o olhar.

Mas se Vanessa tinha ouvidos de aço, os olhos eram de águia. Nada que dizia respeito à Marina lhe escapava, só que dessa vez ela sabia, tinha ouvido da boca da própria fotógrafa o que estava se passando entre ela e Clara.

“Olha, Clara...”, começou devagar, o olhar procurando o da outra mulher até que ela se viu obrigada a encarar a ruiva, “Quando eu digo que conheço a Marina como a palma da minha mão é porque nós convivemos muito tempo juntas. Eu vivi e fiz coisas com ela que hoje eu... não faria novamente. Talvez, eu acho...”, fez uma careta e suspirou exasperada, “Mas o que quero dizer é que eu... Eu errei com a Marina mais vezes do que gosto de admitir, errei feio, mesmo e... Err, enfim, somos humanos, estamos aí pra isso. Cair, quebrar a cara, levantar, cair de novo, e esse clichê todo, mas...”, a ruiva olhou bem dentro dos olhos dela, tomando as mãos de Clara nas suas antes de concluir, “... se você errou com a Marina, o que tiver sido, não faça como eu fiz, não deixe o tempo passar na esperança que ele vai curar a ferida porque não é verdade. Essa ferida vai crescer e pode chegar a um ponto onde não terá mais volta, não se fecha mais...”

Clara engoliu contra o nó amargo em sua garganta, os olhos queimando com as lágrimas que se forçava a não deixar cair, “Obrigada...”, foi tudo o que conseguiu sussurrar.

Vanessa meneou a cabeça e deu-lhe um sorriso pequeno, já à beira das lágrimas também, então de repente soltou as mãos da outra mulher, “Ai, chega! Chega de drama que tá na hora de trabalhar! Essa exposição tem que ser perfeita!”, riu um pouco, esfregando os dedos nos olhos úmidos, mas então franziu as sobrancelhas, “E por falar nisso cadê a Marina, hein? Ela já tomou café da manhã? E os remédios, tá tudo direitinho?”

“Hmhm... Ela tá lá em cima”, Clara meneou a cabeça vagamente, estava olhando para aquele objeto de novo, “... com a Diana”.

O queixo da ruiva caiu. “Oi? Você deixa sua mulher sozinha? No seu quarto? Com aquela lá?”, balançou a cabeça e estalou a língua em desaprovação, fazendo Clara soltar um riso curto, meio choroso.

“Ela sempre faz isso”, murmurou, e já não conteve mais as lágrimas.

Vanessa suspirou exaurida, não sabendo onde pôr as mãos dessa vez, “Aiii, Claraaa... Também não é pra tanto, mulher! Escuta aqui, a Marina não tá pulando a cerca com a Diana, se é isso que te preocupa, tá? Aquela francesa de araque pode até ser uma cobra pronta pra dar o bote, mas a Marina, ó,”, fez um “V” com dois dedos e gesticulou na frente dos olhos, “... tá esperta!”

Clara balançou a cabeça, rindo do trejeito irônico da ruiva, “Não é isso...”, respirou fundo e finalmente reuniu as forças, a coragem que precisava para tocar o objeto que repousava sobre a capa do Dom Casmurro.

A ruiva seguiu seu movimento com o olhar e sentiu aquele nó na garganta voltar de repente.

Clara aninhou os óculos de Marina em suas mãos trêmulas como se fosse o objeto mais precioso na face da terra.

E, para ela, sempre seria assim...

Com um longo suspiro, Vanessa tocou sua palma na capa envelhecida do livro, “Eu dei esse livro pra ela, uns anos atrás... É, Clara, essa nossa artista desde sempre se atraiu por tragédias conjugais”, a ruiva brincou com uma risada seca, meneando a cabeça pras suas próprias palavras.

Mas a mulher não parecia ouvi-la naquele momento, seu olhar fixo no par de lentes em suas mãos. “É um dos rituais da Marina... Ela escolhe um livro, leva pro quarto, todas as noites. Fica uma hora exata na cama lendo, então ela desce, coloca o livro aqui, nesse lugar, sempre do lado esquerdo. Aí coloca os óculos em cima da capa, virados assim pra direita, depois assim, daí um pouquinho mais, e mais. Como se fosse um lembrete, um ponteiro de relógio marcando a página certa pra continuar lendo...”, sua voz soava distante em seus próprios ouvidos enquanto lembrava-se de uma noite não tão distante assim, quando a fotógrafa havia escolhido o clássico da estante e recitado umas frases para ela.

Lembrou-se do que fizeram depois. No tapete na sala...

“Que é isso, gente? Ah, não vou ficar aqui segurando vela pra pensamento, não! Fui!”, Vanessa cantarolou ao flagrar a expressão apaixonada no rosto da outra mulher, então saiu farejando por Flávia, as mãos fazendo aquele gesto enervante nas orelhas novamente.

Clara fechou os olhos, sorrindo entre lágrimas, os óculos de Marina agora apertados contra seu peito.

Notas finais
"Olhos de cigana oblíqua e dissimulada..."