Perchance

20 Reminiscências


Notas iniciais
Nota 1: Feliz aniversário atrasado, Magg. =) Nota 2: A vida continua me empurrando pra fora dos trilhos, mas como eu sou só um pouquinho teimosa, continuo por aqui. õ/

Haviam deixado Santa Tereza pouco depois do meio dia.

Se fosse pela vontade de Marina até teriam saído mais cedo, só que, mesmo não tendo comentado com ela sobre a conversa indigesta que tivera com o ex-marido a caminho de casa na tarde anterior, Clara tinha feito questão de que o filho não perdesse a última aula da semana.

E Marina, tão secretamente feliz como estava com a volta de Ivan para casa e com a visita prolongada do pai, não pareceu notar sua insistência em dispensar o motorista para ir pessoalmente deixar e buscar o menino na escola aquela manhã.

Não havia contado porque tinha certeza que saber disso ia minar esse momento da esposa, um dos poucos de alegria que Marina teve desde o acidente e que não podia deixar ser manchado por causa de um acesso repentino do ‘superpai Cadu’.

Clara dignou-se apenas a enviar uma mensagem para o chef avisando que não poderia recebê-lo aquele dia e, como ele não havia lhe respondido, por isso ficou.

Já a madrugada anterior tinham passado no atelier, vagarosas horas quentes ao toque das mãos e doces na fome das bocas. E no ritmo cadente dos seus corpos, entre uma carícia suave e outras nem tanto, a fotógrafa continuava a provocá-la, aludindo a essa súbita e exótica curiosidade da esposa sobre os tais motivos de Diana.

Não era novidade para Clara que, desde o reencontro com a francesa, esse cinismo à femme fatale de Marina havia retornado com força total, ainda que de uma forma diferente daquela de quando primeiro a conheceu. Mas a verdade era que, mesmo quando levava na brincadeira ou se fingia de desentendida, ela sabia muito bem onde a mulher queria chegar com aquelas insinuações todas sempre que acontecia do nome ‘Diana’ ser mencionado em suas conversas. Também não escapava a Clara o fato mais intrigante nisso tudo, o de que ao longo do tempo o espectro da francesa passou a rondar cada vez mais seus momentos de intimidade, os motivos para isso variando desde seu próprio ciúme forçosamente velado até assuntos banais de trabalho.

Mas, por razões pouco menos óbvias que aquelas, durante a maior parte do tempo havia conseguido não demonstrar essa sua inquietação com a maneira que Marina falava dela, olhava para Diana. Não porque temesse que a companheira se sentisse instigada pela ideia de uma outra mulher, mas porque percebia que a fotógrafa era atraída pela francesa de formas que talvez não fosse capaz de compreender. Além disso, por também saber que, mesmo depois de tantos anos, lá no fundo Marina ainda sentia por toda história interrompida entre as duas.

E na crise em que o relacionamento delas havia mergulhado mesmo antes de a francesa se tornar uma presença física em suas vidas, fosse Clara considerar seu próprio papel nisso tudo, teria sido muito fácil, até justificável se Marina tivesse cedido às investidas de uma mulher como Diana. Ter ouvido da fotógrafa que nada havia acontecido entre elas foi de um alívio sem precedentes, claro, só que também havia lhe deixado com esse... receio esquisito. É, talvez fosse mais daquela mesma inquietação, porque o fato de não ter acontecido naquela noite não significava que não poderia acontecer numa futura, significava? Muito menos queria dizer que Diana não iria tentar de novo e de novo, tornando cada vez mais difícil para Marina resistir...

Para tumultuar ainda mais seus pensamentos, já havia se passado a segunda noite delas em Angra e a fotógrafa parecia ter convenientemente esquecido de que lhe devia uma explicação sobre aquela ’desculpa à francesa’ que usara como isca para seduzi-la até a sua ilha particular, e de quebra ainda arrastar Ivan e Diogo junto. Marina sequer havia batido um cílio quando Clara mencionou a tal viagem da francesa durante o almoço na praia, e quando perguntada se ela conhecia o possível paradeiro da loira, a fotógrafa só deu de ombros e sorriu de canto, antes de retornar para sua refeição tranquilamente como se nenhuma preocupação a afetasse nessa vida.

A verdade era que Clara sabia, mais que isso, sentia que dessa vez a francesa não tinha sido a real motivação por trás dessa vontade de Marina de levá-la para fora do Rio assim, tão de repente.

Nesse sábado haviam completado quarenta e dois dias desde o acidente, e não, essa não foi uma coincidência qualquer.

Embora Marina continuasse sem nenhuma memória daquela sombria tarde de domingo, Clara vinha notando que com a proximidade dessa data em particular a fotógrafa se recolhera ainda mais, perdendo-se em si mesma, até que enfim tudo tinha vindo à tona anteontem, na madrugada do temporal...

E mesmo agora que ela aparentava estar mais disposta e contente, especialmente depois do reencontro emocional que tiveram, percebia que a companheira sempre ficava mais pensativa e irrequieta quando acontecia de ouvir qualquer comentário vago ou uma referência ocasional ao dia do acidente.

Dia em que, pela primeira vez, elas haviam deixado passar em branco a memória de um momento entre todos os especiais, o que Clara sempre consideraria o mais significativo da sua história com Marina.

Aquele mesmo domingo que teria marcado o instante mais fugazmente eterno e revelador da sua vida, quando seus olhares se cruzaram pela primeira vez naquela exposição, quatro anos atrás.

E marcou, da forma mais inesperada e dolorosa, um lembrete amargo de que o acaso não indulta nem mesmo seus próprios caminhos tortuosamente sublimes...

Era com esses pensamentos martelando na sua cabeça reclinada no ombro da fotógrafa que Clara permanecia num estado conturbado de quase sono, seu braço e perna esquerdos mantidos num aperto frouxo sobre o corpo profundamente adormecido de Marina que, depois da tarde de sol que passaram na orla e das seguidas e deliciosas horas em claro no quarto, havia literalmente capotado e apagado do seu lado na cama.

É, de tão animada que havia ficado com o prospecto de ter a família reunida e só para ela pelo menos por um final de semana, a fotógrafa tinha se excedido um pouco na disposição, e Clara, tão encantada em vê-la assim depois de tantos dias de convalescença, não havia notado a tempo os sinais de exaustão no semblante da mulher. Ainda que por sorte ou milagre Marina não tivesse um osso sequer quebrado pela colisão, além do trauma considerável que sofrera na cabeça muitos hematomas ainda lhe descoloriam a pele, algumas abrasões e cortes demandando mais tempo para cicatrizar totalmente em certas partes mais sensíveis da pele, mas era fato que seu físico vinha demonstrando se recuperar bem.

Só que alguma coisa parecia fora do lugar...

Perdida entre a névoa do sono e a multidão na sua mente, Clara não havia percebido de imediato, mas agora sentia o corpo dela tremer sob o seu, suando profusamente e bem mais quente que o normal.

Momentaneamente desorientada, ergueu-se um pouco num cotovelo para que pudesse encarar a mulher, suas sobrancelhas franzindo sobre os olhos sonolentos até que finalmente conseguiu capturar os contornos retorcidos do rosto banhado pela meia luz do quarto.

Seus olhos se arregalaram no segundo seguinte, agora bem despertos, e foi então que percebeu que Marina estava a murmurar coisas incompreensíveis e que a pele dela estava mais pálida do que deveria considerando o mormaço de sol que levara na praia.

Assim que confirmou o estado delirante da mulher, Clara levantou e foi se sentando nos calcanhares ao lado dela, enquanto suas mãos foram para os lados do rosto da fotógrafa, acariciando-a por ali ao lhe chamar baixinho pelo nome algumas vezes, mas Marina não mostrava sinal algum de que a ouvia.

Ficou ainda mais aflita quando começou a ouvir seu próprio nome sendo balbuciado entre os devaneios que deixavam os lábios descorados da esposa, no que aproximou seu rosto ao dela, perto do ouvido, e chamou um pouco mais alto, “Marina? Amor, estou aqui do seu lado. Acorda, vai...”, mas continuou sem resposta.

Não queria assustá-la fora dessa ilusão febril, mas alguma coisa de muito perturbador estava se passando na mente de Marina naquele momento e Clara não suportava mais ver essa expressão atormentada no rosto da sua companheira.

Teria que partir para uma abordagem mais física se quisesse atrair a fotógrafa de volta para o mundo real.

Abaixou-se mais sobre ela e roçou seus lábios na bochecha cálida da fotógrafa, dali foi trilhando pela curva delicada da mandíbula dela até que selou suas bocas entreabertas numa carícia suave e mais úmida para os lábios um pouco ressecados de Marina.

Sentiu a respiração dela mudando quando aprofundou mais o beijo, enquanto suas mãos lhe seguravam o rosto mais firmemente e, assim, tão de repente como começou, ouviu um grunhido abafado e se afastou para olhá-la. Foi então que as mãos desesperadas dela foram para os seus ombros como se quisesse empurrá-la, mas segundos depois relaxarem na familiaridade do toque.

“Clara?”, ela murmurou tremulamente, atordoada, os olhos semicerrados procurando por um rosto nas sombras que as cercavam.

“Estou aqui, amor”, forçou alguma calma na voz ao lhe assegurar, acariciando os cabelos úmidos e o rosto dela com cuidado, tentando apagar as marcas de agonia que encontrava por ali, “Shh, já passou. Tá tudo bem agora...”, mas Deus, não podia estar tudo bem quando ela estava tão quente assim.

Ao ouvi-la, Marina piscou como se finalmente voltasse daquele lugar que só ela conhecia, então meneou a cabeça vagamente.

“Me abraça...”, pediu-lhe numa voz pequena e Clara a atendeu sem pestanejar.

Sentiu seu coração encolher no peito, um nó de preocupação crescendo na garganta quando a fotógrafa murmurou o nome da mãe e lhe abraçou com tanta força que ficou difícil de respirar, mas depois de um momento ela foi se aquietando, aninhando-se mais no seu lado como Ivan costumava fazer depois de um pesadelo daqueles, seu aperto já não tão constritivo.

E ficaram assim por uns minutos, Clara soprando palavras de carinho e proteção no topo da cabeça de Marina enquanto suas mãos afagavam-lhe as costas nuas e o braço que a envolvia pela cintura, notando a temperatura da pele ainda elevada.

“Amor, você tá muito quente...”, disse entre o beijo afetuoso que deu nos cabelos dela, então a incentivou num tom mais baixo, “Preciso que me deixe cuidar de você agora”

Mas a fotógrafa só se encolheu ainda mais contra seu corpo ao sussurrar, “Não quero sair daqui. Fica comigo só mais um pouquinho?”

“Marina, a febre...”, protestou pouco firme, só que antes que pudesse tentar de novo a fotógrafa começou a falar.

“Eu estava dirigindo. Não o meu carro, era o da Galeria...”, Clara sentiu seu pulso disparar no mesmo instante em que aquele fiapo de voz soprou na curva do seu pescoço, mas se forçou a ficar quieta enquanto Marina, trêmula, continuava seu relato num tom distante, quebrado, “E... tinha essa... coisa pesando no meu peito, uma sensação muito ruim mesmo...”, fez uma pausa e respirou fundo, “Tinha uma música tocando também e... alguém me ligou. Acho que estava indo encontrar com essa pessoa, mas aí, de repente senti um... impacto muito forte, meus olhos começaram a arder, queimavam tanto, e depois... não sei. Não lembro mais”

Passaram-se alguns, talvez muitos segundos mudos entre elas, até que a voz de Marina voltou a ecoar, e dessa vez alto demais no silêncio do quarto, “Isso não foi só um sonho ruim, não é?”

Clara exalou o ar que nem sabia estar preso em seus pulmões antes de apertar seus braços em volta dela, “Acho que pode ter sido uma lembrança... do acidente. Talvez, não sei”, murmurou incerta contra os cabelos dela, ainda tentando assimilar o que acabara de ouvir da esposa, “Meu Deus, não devia ter deixado você tomar tanto sol daquele jeito... Fiquei assustada, você estava delirando...”, lamentou ao acariciar-lhe a pele aquecida nas costas uma última vez, então foi se sentando na cama devagar e, no mesmo movimento, levantando o corpo amolecido da fotógrafa mais junto da cabeceira, “Recosta um pouco aqui que eu já venho, tá?”, instruiu-a com cautela, seus olhos tentando discernir a expressão agora estranhamente neutra no rosto da mulher.

Quando Marina só meneou a cabeça devagar, Clara suspirou inquieta, mas logo em seguida desceu da cama e em segundos já havia desaparecido pela porta do quarto.

Poucos minutos depois ela retornava, acendendo as luzes pelo caminho com uma mão enquanto na outra carregava uma bandeja com alguns itens, incluindo um termômetro e um copo com água que em instantes repousava entre os dedos trêmulos da fotógrafa.

“Não bebe ainda”, disse ao sentar ao lado das pernas dela pela borda da cama, “Abre a boca”, quando Marina não obedeceu e ainda franziu o nariz numa careta manhosa, Clara balançou a cabeça e, apesar da situação, teve que morder o humor que lhe escapava entre as palavras, “Não é remédio. Só vou verificar sua temperatura, Marina. Vai, pára com essa birra. Abre a boca pra mim”, insistiu num tom mais leve, levantando o termômetro perto dos lábios dela.

Uns dez segundos e um grunhido contrariado depois, ela abriu a boca exageradamente, e dessa vez Clara não conseguiu segurar o riso enquanto deslizava o termômetro no canto da boca da esposa. Definitivamente, Marina era a mais criança entre Ivan e Sônia.

Enquanto contava os minutos pelo relógio do despertador, aproveitou para observá-la com cuidado e fazer alguns testes básicos, como tatear a nuca dela para felizmente comprovar que não estava rígida, perguntar coisas aleatórias sobre o lugar onde estavam e o que ela sentia naquele momento, ao que Marina lhe respondeu satisfatoriamente. Notou só mesmo um pouco de vermelhidão no colo e rosto lívido da mulher; nada além da febre indicava que Marina estivesse correndo algum risco imediato.

Passado o tempo necessário, retirou o pequeno tubo da boca dela e checou a linha fina de álcool colorido ali. O que viu fez sua testa franzir em agitação.

“Trinta e nove e meio...”, murmurou com um suspiro pesado e colocou o termômetro de lado na bandeja, uma mão sentindo a temperatura na coxa de Marina enquanto a outra já alcançava o envelope de antitérmicos que havia trazido, “Toma esse aqui com a água”, disse-lhe séria e já foi enfiando o comprimido na boca da fotógrafa que resmungou um pouco, mas obedeceu sem maior resistência.

Seus olhos então vagaram um tanto agoniados pela vidraça entreaberta da janela, “Tá quase amanhecendo...”, murmurou mais para si mesma, e aí seu olhar estreitou no rosto de Marina por um momento, notando que os olhos semicerrados dela agora estavam voltados para um canto do cômodo, daquele jeito perdido que ela ficava desde que deixara o hospital.

Perturbada pela apatia repentina no semblante da fotógrafa, Clara resolveu tomar as rédeas da situação. “Eu vou acordar os meninos e ligar pra sua médica. Ela falou que podia chamar a qualquer hora em caso de urgência, então...”, começou ao se levantar da cama e foi andando apressada na direção da porta, “A gente tá saindo em uma hora, acho que dá tempo–”, mas nessa Marina a interrompeu.

“Não”, disse simplesmente.

Parou no meio da passada e virou-se para encará-la. Marina continuava olhando para o nada, recostada na cabeceira da cama com o copo entre as mãos, suas pernas parcialmente cobertas pelo lençol branco enquanto os cabelos longos caiam-lhe sobre os ombros nus em ondas suaves, os seios saltando entre as madeixas escuras pendendo por ali.

Clara se deixou perder na visão por um segundo demorado, mas então deu um passo curto na direção da cama, balançando a cabeça ao falar mais pausadamente, “Por que não? Quase quarenta graus, Marina. Isso não pode ser normal. Você não teve uma febre tão alta assim nem nos primeiros dias de recuperação e olha que foram bem difíceis”

Marina suspirou baixo, então Clara notou quando os cílios dela bateram devagar duas vezes.

“Você se preocupa demais”, falou num tom calmo ao colocar o copo de lado, então voltou seu olhar encapuzado para o som daquela voz rouca, um sorriso estranho curvando-lhe o canto dos lábios agora, “Deve ser febre emocional. Uma fraqueza momentânea por causa de um sonho ruim, só isso”

“Que seja”, insistiu com um suspiro cansado, “mas por via das dúvidas eu prefiro não arriscar ficar aqui mais um dia, principalmente com você e o Ivan me dando trabalho desse jeito”, enfatizou com um gesticular exasperado das mãos, só que aí viu a fotógrafa inclinar um pouco a cabeça para o lado, aquele sorriso se tornando perigosamente familiar, mas continuou firme em sua disciplina, “Vocês não pararam um só segundo desde que colocaram os pés em Angra, Marina! Tá decidido, a gente volta pra casa em uma hora, nem que eu tenha que te tirar dessa cama na marra, tá me ouvindo?”, repreendeu-a naquele tom sisudo demais que só fez o sorriso da mulher se espalhar ainda mais safo, “Não faz essa cara que eu estou falando sério, Marina...”, apontou-lhe um dedo por força do hábito, mas já não estava tão certa assim de que conseguiria manter o que de moral lhe restava naquele momento.

Foi então que Marina, indevassavelmente provocante como só ela sabia ser, foi deslizando uma mão vagarosa pelo abdômen chapado, passando pela borda e então por baixo do tecido delicado do lençol que pouco cobria do seu sexo, suas pernas se afastando não tão sutilmente no movimento, o peito subindo e descendo quando o ar lhe escapou num suspirou longo e trêmulo, até que as pálpebras lhe pesaram sobre os olhos na sensação do próprio toque.

Clara piscou rápido, um tanto confundida pela cena suspeita, então engoliu em seco antes de falar numa voz pouco estável, “O que– O que você tá fazendo?”, sentiu mais que ouviu quando aquele riso baixo deixou os lábios maliciosos da fotógrafa para reverberar por cada fibra do seu ser, e foi nessa que seu olhar baixou voluntariamente para onde a mão dela se mexia sob o lençol agora amarrotado entre as pernas longas e nuas.

“O que você acha, cabecinha de vento?”, o sibilar mais grave e zombeteiro daquelas palavras ecoou nos seus ouvidos e um segundo depois a realização lhe atingia com uma força desnorteante, fazendo seu rosto corar e as pontas das suas orelhas esquentarem instantaneamente.

Tal cinismo caía tão bem em Marina naquele momento que Clara até esqueceu por que deveria estar impedindo aquilo, e não apreciando.

Ainda tinha esse fato inescapável que era sua natureza, e ela agora estava a uivar-lhe nos ouvidos ‘Marina, Marina, Marina’, e seus pés não conheciam outro ritmo para dançar que não fosse o embalo de maresia que o nome dela provocava...

E foi assim que o resto da sua moral saiu voando janela afora.

“Doida...”, murmurou ao se aproximar da lateral da cama, um arrepio ouriçando os mais minúsculos dos pelos em seu corpo quando Marina gemeu baixinho e levantou a outra mão em convite silencioso, “Meu Deus, você é muito louca, sabia?”, e riu da sua própria insanidade ao aceitar a promessa daqueles dedos esguios que deslizavam quentes pelos seus.

“Só por você... Vem...”, sussurrou-lhe com aquela manha maliciosa que era puramente Marina, puxando-a para si até que Clara se fez confortavelmente sentada no colo dela. Os dedos que segundos antes estimulavam o próprio sexo agora raspavam unhas pela coxa torneada da esposa, deslizavam por baixo da renda preta da peça noturna que ela vestia, até que encontrou o destino que tanto almejava flagrantemente desnudo e sorriu em satisfação.

“Marina, não...”, suspirou como se em prece, enquanto suas mãos lhe acariciavam os lados do rosto febril, “Não faz assim. Você tá... eu... hmm...”, um toque mais intenso depois e seu raciocínio já começava a descarrilar naquele túnel estreito e pontilhado de luz para o êxtase, ardendo nesse tremor gostoso de antecipação que percorria todo seu corpo, que fazia suas pálpebras vibrarem em arrebatamento, “Não faz... isso comigo, amor...”, ouviu o eco trêmulo da própria voz e teve a certeza de que soou como se pedisse o exato oposto, mas já estava completamente sem moral mesmo, e afinal não era culpa sua que Marina fosse capaz de arruinar suas defesas assim tão facilmente, com o menor dos esforços, com ou sem febre.

Ela adorava torturá-la assim, esse demônio de mulher que agora a olhava por baixo dos cílios enquanto os dedos espertos coagiam umidade e calor entre suas pernas, os da outra mão firmemente entrelaçados nos cabelos da sua nuca para manter seus rostos tão próximos, mas as bocas tão longe. Ou pelo menos ela parecia olhá-la daquele lugar entre a frieza e a excitação onde vivia agora, ventríloqua silenciosa no manipular dos gestos que suspendiam seus membros rendidos, concentrada como sempre ficava em lhe dar sempre esse prazer último com gosto de primeira vez...

Prazer que queria desesperadamente beber da língua dela, mas Marina a puxava de volta no último instante, até que aquele sorriso febril, cínico, tremulamente soprou um mistério nos seus lábios semicerrados, “Você quer mesmo saber?”

Às voltas como estava no seu próprio mundo de sensações intoxicantes, Clara demorou uns segundos a mais para registrar o que esposa lhe dizia, “Saber? De quê? Amor, você não tá falando coisa com coisa”, murmurou com um riso inebriado pela febre de Marina, mas aí, um momento depois, o sentido daquelas palavras amanheceu em seus olhos castanhos que então se abriram para os amendoados encapuzados dela, “Eu quero...”, aquiesceu com um menear hesitante de cabeça.

Nessa, a fotógrafa mordiscou-lhe o queixo levemente e assentiu com um sorriso vagaroso, então roçou a pontinha do nariz no seu ao sussurrar contra o canto dos seus lábios, “Em casa eu te conto”, e então riu zombeteira no ‘Marinaaa...’ que Clara rosnou e mordeu no pescoço dela logo depois.

O mais intrigante, e o que Clara sabia não ter escapado à fotógrafa também mesmo ali, foi que dessa vez ela nem se deu ao trabalho de disfarçar sua curiosidade mais uma vez frustrada.

Quando sentiu a mulher estremecer um pouco em seus braços, pensando ser por causa do riso ainda vibrando no peito dela, Clara não atentou num primeiro momento, mas aí suas sobrancelhas franziram quando sentiu algo morno pingar no seu ombro e escorrer por suas costas.

Marina estava chorando?

Alarmada, ergueu a cabeça para encará-la e no segundo seguinte seu coração saltou na garganta.

Marina?

Ouviu-a chamar seu nome de novo, parecendo contente enquanto acariciava e lhe beijava o rosto daquele jeito meloso que fingia detestar, mas que no fundo adorava.

Mas, estranhamente, não encontrava força na voz para respondê-la agora. Tampouco seus membros pareciam dispostos a obedecê-la, nem mesmo para o menor dos gestos.

E Clara continuava a chamá-la, só que agora sua voz soava abafada, distante, como se estivesse embaixo d’água, ou muito aflita com alguma coisa.

Marina, tá me ouvindo? Estou aqui, amor. Não dorme, não... Precisa ficar acordada, tá? Promete pra mim que vai ficar acordada?

Não queria dormir, mas tinha essa... coisa em volta da sua cabeça, pressionando sobre suas pálpebras dormentes. Havia tentado abrir os olhos algumas vezes antes, mas doíam tanto, era como se alguém tivesse jogado um punhado de areia em cada um deles e o esforço que fazia só piorava essa queimação. A verdade era que tudo lhe doía no corpo, até mesmo os cabelos pareciam doer.

Clara? Onde... Eu não... consigo abrir os olhos, não posso te ver... Onde você está?”, murmurou as palavras com dificuldade, sentindo a garganta arranhar e a língua engrossar ao mínimo som que emitia, e esse gosto metálico na boca que não passava.

Estou aqui, do seu lado. Você vai ficar bem, amor... Só promete pra mim que... Nãonãonão, não dorme, não... Fala comigo...”, ela continuava lhe pedindo para não dormir. Tão boba essa sua esposa, quase tão desesperadamente sem razão também.

Você não pode fazer isso, tá me ouvindo? Não pode me deixar, eu te proíbo... Por favor, não faz isso comigo, Marina...

Nunca ia deixá-la, mas Deus, por que ela estava lhe falando essas coisas agora? Era tão tarde e estava com tanto sono, tanto. Mas não queria mesmo dormir, não iria se ela não quisesse. Mas talvez se dormisse só um pouco essa ardência estranha nos seus olhos passasse e tudo voltasse a ser como era antes.

Marina? O que... O que tá acontecendo com ela? Pelo amor de Deus, façam alguma coisa!

Por que essa mulher continuava chamando por ela? Que estranha. Também já não importava mais, já não doía tanto assim.

Meu Deus, não... Não faz isso comigo...

Do fundo do seu coração não queria fazer nada de mal a essa mulher, mas não tinha forças parar remar contra a maré dessa vez.

Me perdoa...

E a maré a levou.

***

“Ei, mocinha”, seus olhos se abriram devagar no som daquela voz conhecida.

Respirou fundo, sorrindo sonolenta quando aquele borrão vermelho e rebelde foi se aproximando até que sentiu os lábios dela depositarem um beijo gentil na sua bochecha.

“Onde estou?”, raspou numa voz um tanto grogue, a garganta seca demais.

Sentiu quando Vanessa pousou uma mão na sua testa, a palma dela estava tão fria.

“Em casa, no seu quarto, mais precisamente deitada na sua cama. Ah, se quiser posso te passar as coordenadas do GPS também”, ela brincou com um risinho arrastado, o que tirou uma risada boba da fotógrafa, mas então a ouviu suspirar baixo nas palavras, “Você nos deu um susto e tanto...”

Marina sorriu um pouco, dessa vez sem tanto humor. “Outro dos meus incontáveis talentos, hm?”, murmurou quietamente e a ruiva apenas grunhiu em concordância ao lhe dar um aperto de leve na bochecha, “Clara?”, ela suspirou o nome da sua tormenta boa.

“Saiu com o Ivan pra comprar umas coisas”, Vanessa disse vagamente, e nessa Marina inclinou a cabeça na direção da sua voz, as sobrancelhas franzindo ligeiramente, aí a ruiva viu que tinha que elaborar melhor, “Mantimentos pra casa, senhorita. Mas, ó, eu tive que insistir muito para aquela mulher levantar daí do seu lado, viu? Meu Deus, ela estava mesmo um horror, precisava de um banho urgentemente, se você quer saber...”, torceu o nariz daquele jeito satírico dela, mas a fotógrafa riu só pelo seu tom de voz.

Passaram alguns momentos em silêncio, até que Vanessa não se aguentou mais, “Quer água? Ou uma fruta? A médica falou que você precisa se alimentar melhor, Marina”, concluiu num tom sério enquanto observava a fotógrafa sentar um pouco na cama, então se recostar na cabeceira.

“Estou bem, Vanessa”, replicou ligeiramente enquanto seu olhar vagueava ao redor. Tentou determinar a hora do dia, mas do pouco que conseguia distinguir com os olhos não dava para ter certeza.

“Ai, mas é muito teimosa, meu Deus...”, ouviu a ruiva resmungar e podia imaginar ela se remexendo toda em seu assento na borda do colchão.

Mas ignorou a inquietação da mulher pelo momento. “Que horas são?”

“O que?”

“Já é noite?”, suspirou exasperada ao esfregar as mãos no rosto, sentia-se estranha, cansada, mas irrequieta demais para ficar só ali deitada, “Que dia é hoje?”

“Quase seis, hoje é segunda-feira...”, Vanessa falava devagar, examinando o rosto dela com preocupação, “Você apagou depois que chegou de Angra, dormiu praticamente o tempo todo...”, então virou para o gaveteiro ao lado da cama e despejou um pouco da água da jarra que repousava ali num copo, colocando-o nas mãos da fotógrafa em seguida, “A sua médica, a Tereza... Ela veio te ver ontem a tarde, não se lembra?”, perguntou-lhe com cuidado e, ao certificar que Marina havia bebido toda a água, colocou o copo de lado.

Só que Marina não se lembrava de nada do que Vanessa havia lhe falado. E era isso o que a incomodava, essa oscilação entre a lembrança e o lapso já estava começando a irritá-la demais. Precisava fazer algo a respeito e já sabia exatamente o quê.

“Tenho que sair”, disse de repente e se levantou da cama, mas aí percebeu seus trajes menores e parou no meio passo, “Cadê minha–”, virou-se para dar de cara com uma Vanessa aflita nos seus calcanhares, “Você viu minhas roupas?”, e foi circulando a ruiva, tateando seu caminho até a cômoda, “Ah, e você vem comigo, preciso que me leve a um lugar”

“Hã? Marina, não. A gente não pode sair assim, tá tarde e você acabou de acordar, e nem comeu nada ainda, e eu...”, a ruiva continuou grunhindo incoerências, remexendo-se na ponta dos pés por trás do seu ombro, as mãos gesticulando impotentes no ar enquanto lamentava o que já previa ser o seu destino nisso tudo, “Ai, meu Deus, sua mulher vai me matar. Você sabe disso, não sabe?”

“Ah, pára de drama e me ajuda aqui. Vem”, resmungou para as peças de roupa que apalpava, tentando decifrar-lhes a utilidade pelo tato.

A ruiva pisou para o lado dela, olhou nervosa para dentro da gaveta, para Marina, e então suspirou sofregamente antes de murmurar, “Que lugar é esse que você quer tanto ir?”

Marina hesitou por um instante e Vanessa percebeu, mas esperou que ela falasse, “Preciso esclarecer umas coisas... com o Cadu”

Nessa, Vanessa jogou as mãos no ar, a face da exasperação quando exclamou, “Pelo amor de Deus, Marina! Olha só a roubada que você vai me meter com a Clara?”, uma pausa, “Esquece!”, então saiu em direção à porta do quarto, pisando duro, mas aí deu meia volta e apontou-lhe um dedo ao falar, “Você sabe muito bem o que eu penso dessa história toda e ainda me pede pra te levar lá? Pra quê isso agora? Não, não! Nem responde. Me deixa fora dessa”, e foi marchando para a porta de novo, até que...

“Por favor, Van...”, seus passos vacilaram quando ouviu a melancolia na voz dela e fechou os olhos por um instante, balançando a cabeça para sua própria fraqueza enquanto Marina continuava, “Só posso contar com você nisso”

Vanessa riu sem humor, então virou para encará-la.

“Isso é loucura”, suspirou as palavras com pesar, já sabendo onde isso ia terminar.

“Eu... quero saber”, ela murmurou meio cabisbaixa, as peças de roupa deslizando dos seus dedos para o chão quando exalou com as palavras, “Eu preciso saber o que aconteceu naquela noite, Vanessa”

“Não, Marina...”, balançou a cabeça ao dar um passo na direção da fotógrafa, como sempre atraída para a órbita dela, “Esse tempo todo você só adiou a confirmação daquilo que lá no fundo já sabe que aconteceu...”, a ruiva disse com um encolher de ombros conformado.

Por longos segundos Marina permaneceu imóvel, calada, encarando-a daquele jeito enervante, vago, enquanto parecia digerir o que acabara de lhe ser dito, os ombros caídos e a expressão torcida dela denunciando a extrema fadiga que sentia... de tudo.

Ou talvez fosse só o peso da realização.

Vanessa então suspirou profundamente e foi se aproximando, até que parou na frente dela. Abaixou-se, apanhou as roupas do chão e as fitou em suas mãos por um momento antes de voltar seu olhar para a fotógrafa.

“Sempre adiando sua vida pela dela, pela do garoto... Meu Deus, você se resignou a ter presença desse... Cadu esfregada na sua cara praticamente... todo santo dia, Marina”, e nessa soltou um riso cansado ao menear a cabeça em contrariada aceitação, “Tem certeza que é isso que você quer?”, a ruiva murmurou-lhe ao erguer as mãos, oferecendo as roupas para ela, e aquela, Marina sabia, foi uma pergunta dentro da pergunta, a que deveria ter feito a si mesma há quatro anos, ou dois, talvez vinte meses atrás.

Essa mesma pergunta com a qual Vanessa se punia desde então.

“Eles são minha família agora”, o sussurro lhe deixou os lábios sem esforço, “Assim como você também é, Vanessa. Sempre vai ser”, e sorriu-lhe com toda a verdade do sentimento que essas palavras carregavam.

Vanessa baixou os olhos naquelas palavras, pisando de um pé para o outro meio sem graça, então apertou os tecidos de texturas diferentes em suas mãos, fungando baixinho ao lhe dar um brilho de lágrima que sabia que Marina não distinguiria, “Tudo bem, eu vou contigo. Mas ai daquele filho da mãe se ele ao menos levantar a voz pra–”, as cinco batidas ansiosas na porta do quarto cortaram-lhe a tirada.

Sônia mal esperou ser atendida por Vanessa e já foi despejando tudo assim que a porta se abriu, “Dona Vanessa, desce agora na sala. Aquele moço, pai do Ivan, tá lá esperando e ele não parece nada feliz, não!”

Notas finais
Contagem regressiva em 5...