Perchance
3 Redoma
Notas iniciais
“Mon Dieu...”, a francesa repetiu pela terceira vez, a voz abafada pelos dedos trêmulos que pressionava contra os próprios lábios, “Me de-desculpa, Marina, eu... eu não sei o que deu em mim”.
Com uma expressão que misturava espanto, confusão e excitação estampada no rosto, Marina permanecia olhando para a outra mulher sem dizer uma palavra. Quando nervosa Diana sempre escorregava para dentro da proteção do seu idioma de origem, e era exatamente o que estava fazendo agora, balbuciando palavras em francês que, Marina suspeitava, eram impróprias para os ouvidos mais ingênuos. Por um momento quis rir da situação, mas se conteve. Seria uma indelicadeza de sua parte depois do pedido gaguejado de desculpas da francesa.
A loira continuava se atropelando com sua própria língua, ainda ajoelhada do lado da fotógrafa, quando ouviu o som de passos apressados. Levantou-se e virou de uma vez, um tanto atordoada, e deu de cara com uma Vanessa esbaforida.
“Marina, pelo amor de Deus, o que é que tá acontecendo aqui?”, como nenhum culpado se manifestou, seu olhar acusador alternava entre as duas mulheres enquanto gesticulava freneticamente na direção da casa, “A Clara desceu as escadas feito um vendaval e tá ali, possessa, e ainda por cima só de calcinha! Flavinha não vai conseguir segurar aquela mulher por muito tempo, não, e eu já vou avisando: não quero minha namorada com um arranhãozinho sequer que não tenha sido eu a colocar nela!”, a ruiva despejou tudo tão rápido que ambas as mulheres demoraram uns segundos a mais pra processar a informação.
A francesa foi a primeira a falar. “Merde”, resmungou para si mesma, espalmando uma mão na testa.
Só que a ruiva tinha ouvidos de aço, “Ah, deu mesmo, Diana querida. E uma beeeem grande!”, cantarolou naquele tom pilhérico único dela.
Marina, ao contrário, não parecia nem um pouco preocupada largada sob o sol como estava, mas alertou a francesa num tom sério, “Eu acho melhor você ir embora”.
“Lembra que precisamos acertar os detalhes pra exposição de outono?”
No mesmo instante Vanessa abriu a boca, a cara indignada que fez já denunciando o que ia sair de lá, mas antes que pudesse pronunciá-lo a fotógrafa a interrompeu com um gesto indiferente de sua mão, “Tá, tá, Vanessinha. Já sei tudo que você vai dizer. Agora vai lá cuidar da sua namorada e deixa que depois eu me entendo com a Clara”, finalizou antes de voltar a relaxar na espreguiçadeira sob o olhar incrédulo da amiga.
Depois de um momento tenso de silêncio, a ruiva fulminou a francesa com os olhos, o que foi a deixa para que ela tomasse o rumo da saída. Já Marina não fez menção alguma de que iria abandonar seu banho de sol, o que fez Vanessa revirar os olhos exageradamente, mal contendo a irritação que sentia. Por fim a ruiva bufou, virou e saiu pisando duro.
***
Flavinha observava enquanto Clara caminhava de um lado para o outro feito um animal enjaulado, mãos nos quadris, os cabelos selvagens e o corpo torneado a mostra. Exceto, obviamente, pelo minúsculo pedaço de tecido preto rendado que cobria sua parte mais íntima.
“Já, já vocês se resolvem, Clara. Tenho certeza que foi só um mal entendido”, disse cautelosa, enquanto oferecia-lhe um copo.
“Eu não quero água, Flavinha. Eu quero é arrebentar com a cara daquela vagabunda!”, vociferou a plenos pulmões. Sabia que estava fora de controle, perdendo a linha, descendo do salto. Mas não importava, não conseguia mais se segurar.
“Mas... o que você viu, exatamente?”, Clara parecia não ouvi-la naquele momento, continuava a gesticular muito e rebatia seus próprios resmungos, o que deixou Flavinha um tanto receosa de tentar qualquer aproximação mais empática.
Durante esse tempo em que conhecera a carioca, nunca tinha presenciado ou sequer ouvido falar de Clara protagonizando uma cena assim, tão fora das proporções. Flávia sabia que Clara era esquentada, que não costumava engolir desaforo, mas isso? Era quase surreal vê-la nesse estado, simplesmente transtornada, tomada por um acesso de ciúmes que, agora não tinha dúvidas, só podia ser desencadeado por uma pessoa nesse mundo. Nem mesmo à Flávia escapava o fato de que Grimaud andava por aí exibindo Marina como se ela fosse sua mais nova conquista, mas o que mais a intrigava nessa história toda era que a fotógrafa não parecia notar, ou se notava, não se importava com essa atitude pra lá de duvidosa da francesa. Só que Flavinha sempre pensaria em si mesma como a “aprendiz de Marina”, a respeitava muito, mesmo agora tendo seu nome consolidado no ramo, e realmente não se via como a pessoa que deveria apontar isso na cara da ex-chefe.
“Aquela desgraçada!” Clara rosnou de repente, antes de virar e apontar um dedo para a mulher mais alta, “Espera. Você e a Vanessa, vocês duas estavam aqui embaixo o tempo todo e não viram aquilo, cara?! Ah não, claro! Já deviam saber dessa palhaçada toda faz tempo. Todo mundo menos a idiota, a otária aqui! Qual é, Flavinha? Vai ficar aí se fingindo de morta? Não tá vendo a sacanagem que estão fazendo comigo?!”, seus olhos estavam ainda mais vermelhos agora, úmidos pelas lágrimas que não deixava cair por puro orgulho.
Flavinha ergueu as mãos num gesto pacificador e falou com toda fleuma que lhe era característica, “Ei, calma aí. Primeiro, eu não estou sabendo de sacanagem nenhuma. E depois, eu nem estava aqui embaixo, estava no arquivo. Quando ouvi a gritaria desci e já vi a Vanessa te segurando. Quer dizer, tentando, né?”
Não convencida, Clara deu um passo ameaçador na direção da fotógrafa, ficando cara a cara com Flavinha que não recuou.
“Não me enrola, não, que eu não estou pra brincadeira, Flávia”, rosnou num tom ainda mais baixo, e pela primeira vez Flavinha titubeou. Não por medo ou coisa parecida.
Era essa proximidade toda com uma Clara praticamente nua e nessas circunstâncias tão intensas...
Vanessa escolheu esse exato momento para entrar e deu de cara com a cena inusitada.
“Ah, não! Quê que é, Clara? Faz assim ó, o seu problema”, fez um sinal sugestivo entre as próprias pernas com a mão direita, já que a esquerda havia se atracado no cotovelo da namorada, “você resolve lá fora com sua ‘Marininha’. Deixa que dessa fotógrafa aqui eu dou conta, oui?”
Clara nada disse em troca da óbvia provocação, mas o olhar que lançou para a ruiva era de gelar até a alma. E gelaria, se Vanessa não fosse, bem... Tão Vanessa.
“Agora vai pôr uma roupinha, vai, porque ninguém aqui é de ferro. Se é que me entende...”, a ruiva sorriu-lhe com toda compostura que já não possuía.
Surpreendida, Clara olhou para baixo e só então se deu conta do seu estado de nudez. Levou as mãos à cabeça e suspirou pesadamente. Às vezes, só às vezes, ainda sentia aquela vontade gigantesca de esganar Vanessa, mas ao longo do tempo aprendera a gostar de verdade da ruiva, especialmente porque ela tinha esse jeitinho bastante desopilante de lidar com situações extremas.
Enquanto observavam a outra mulher subir as escadas às pressas, Vanessa e Flavinha se entreolharam algumas vezes. Até que...
“Que foi?”
“Você estava olhando”, apontou-lhe um dedo.
“Não estava, não”
Vanessa pôs as mãos nos quadris e balançou a cabeça, “Que cara de pau, você, Flavinha. Estava toda se querendo aí pra cima da Clara que eu vi, sim! Deixa só a Marina saber disso!”
Flávia riu. “Ai, cala a boca e vem aqui me dar um beijo...”
***
Lá de cima, Clara podia escutar os risos abafados e cheios de terceiras intenções das duas namoradas. Encostou a testa na porta do quarto e respirou fundo uma, duas, dez vezes.
Por que Marina não veio vê-la?
Entrou no quarto, trancou a porta. Passos depois olhou pela janela e lá estava ela, em toda sua glória nua sob o sol.
Não havia visão mais espetacular nesse mundo.
E nesse mundo não havia preocupação alguma para Marina Meirelles.
Ou assim parecia.
Clara decidiu. Ia tomar sua chuveirada, sim, mas depois... Ah, depois essa redoma em que Marina havia se colocado iria quebrar em mil pedaços. Sabia o que precisava ser feito para isso acontecer, só não tinha certeza de uma coisa, se ela não seria a única a se ferir com os estilhaços.
Um rosto piscou em sua mente, obscurecendo a imagem distante de Marina no vidro da janela, essa coisa montando, esse aperto em seu peito novamente...
Era o que a atormentava mais.
Mas tinha que ser feito.
***
**
*
Adivinhem quem é?

Vulgo, Jessica Marais. ;)
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