Perchance
4 Quebra I
Notas iniciais
No rádio, uma melodia conhecida começou a tocar. Logo depois, um zumbido surdo ecoou dentro do carro.
Reconhecendo a vibração, Marina olhou para sua bolsa jogada no banco do carona. Pensou um segundo, dois, três, por fim suspirou e alcançou o aparelho.
Podia ser a Clara...
“Oi, Marina.”
Outro suspiro, dessa vez de decepção.
“Fala, Cadu.”
“Você pode avisar a Clara pra ela passar aqui no meu apartamento e pegar o Ivan? Liguei várias vezes, mas o celular dela só dá caixa postal. É que meu carro tá na oficina e a Vê tá ocupada essa tarde, não vai dar pra levá-lo.”
… If I lay here, if I just lay here …
“Estou indo pro Leblon. Aguarda um segundo...”, deu passagem ao apressadinho que buzinava sem parar atrás dela há quase cinco minutos, “Escuta, eu passo aí e busco o Ivan, pode ser?”
Fez-se um silêncio na linha, então ouviu um exalar antes da resposta.
“Ah, claro. Passa daqui a uma hora, tudo bem?”
“Tá. Tchau.”
“Tchau.”
... Those three words are said too much, they’re not enough …
Desviou o olhar da estrada por um segundo, encerrando a chamada. Jogou o celular no banco. Olhos na estrada novamente, dedos tamborilando no volante, aquela ânsia estranha retornara.
... Just forget the world ...
A tela do aparelho acendeu novamente, um rosto familiar apareceu. Segundos a mais de inquietação, a menos de concentração.
“Alô, Marina?”, disse a voz do outro lado.
... Show me a garden that’s bursting into life ...
Seu próximo segundo foi de total escuridão.
“Marina? Eu esqueci de te–”
Ligação encerrada.
TRÊS HORAS ANTES
Havia tomado sua chuveirada e descido para pegar a bolsa. Vanessa e Flavinha já não estavam mais na sala nem em qualquer outro lugar do estúdio. Provavelmente tinham saído para aproveitar o resto do domingo juntas. E Marina? Não estava mais na piscina, também não a viu pela casa.
Foi até a cozinha e distraiu-se com umas notas de geladeira por alguns momentos, então lembrou que havia deixado o celular no quarto.
Já no segundo piso, Clara notou que a porta do quarto estava entreaberta. Tinha certeza de que havia fechado antes de descer.
Abriu a porta, entrou, mas hesitou logo no segundo passo.
Foram as lágrimas no rosto da mulher sentada na beirada da cama que a fizeram parar e engolir em seco.
Marina usava apenas a parte de baixo do biquíni, a outra jogada na cama do seu lado. Ela segurava um objeto entre as mãos para o qual seus olhos fechados não miravam.
“Te ligaram”, disse com um fungado, os olhos ainda fechados.
As palavras, o ar, o chão, tudo fugiu de Clara nesse momento. Sua presença de espírito só durou o suficiente para que ela encurtasse a distância entre seus pés e os da fotógrafa. Ali parada, estendeu uma mão, notou que tremia. Todo seu corpo tremia.
Quis recuar na sua decisão. Tinha mesmo que ser feito? Tinha que ser assim? Já havia esperado tanto, por que não um pouco mais? Só mais um pouco...
Mas então Marina abriu os olhos e era tarde demais. Ela levantou-se devagar, ficando de frente para Clara.
Olharam-se, pela primeira vez em muito tempo, sem reservas. Olharam-se bem no fundo, castanhos e amendoados, e esse olhar que durou alguns segundos e falou de tantas coisas estranguladas, esse olhar durou mais que tudo, durou o tempo de uma vida inteira juntas.
A vida que estava prestes a se perder para sempre.
Clara, a essa altura, já havia esquecido que estava com raiva de Marina. Porque não havia motivos mais puros, nem maiores, nem melhores nesse mundo do que os que a trouxeram aqui e agora, esses mesmos motivos que só conseguia enxergar à luz dos olhos amendoados da sua fotógrafa favorita... Deus, como amava essa mulher. Não queria, mas acima de tudo, não podia perdê-la. Sabia que não sobreviveria a isso. Mas era o que ia acontecer. Por um erro. O erro mais estúpido que poderia ter cometido. O que a assombrava desde aquela noite em que não voltou pra casa, pros braços da sua Marina. Sua companheira. Sua mulher.
Sua vida.
Agora, só queria ter a coragem, a força para levantar sua mão, tirar aquele maldito aparelho das mãos da fotógrafa e atirá-lo para longe, muito, muito longe de suas vistas.
Mas não tinha.
Marina teve.
O estrondo que ecoou quando o celular colidiu contra a parede oposta do quarto trouxe Clara de volta do transe em que havia mergulhado. Quando deu por si, Marina já estava fora do seu alcance.
“Espera aí. A gente precisa conversar, Marina. Por favor, pára e me escuta só um minuto...”, Clara a seguiu pelo quarto até que a fotógrafa parou abruptamente diante da porta do banheiro, uma mão firme segurando-a pelo antebraço.
Marina virou lentamente e lhe deu um olhar frio, “Me solta”.
Mas Clara não consentiria dessa vez. Tinha que ganhar tempo, precisava reverter essa situação se ainda tinha qualquer esperança de fazer com que a fotógrafa a ouvisse, que acreditasse nos seus motivos.
“Qual é o seu problema, cara?”, retrucou, entrando na defensiva.
Silêncio foi tudo o que a outra mulher lhe ofereceu.
Sentindo-se acuada pela atitude apática da fotógrafa, Clara largou o braço dela e se afastou um passo, “Você anda por aí com essa Diana pendurada no seu pescoço o tempo inteiro. E agora eu vejo você beijando aquela...”, respirou fundo, “praticamente dentro da nossa casa, Marina?! Aí você pira por causa de quê? De uma ligação?!”
“Foi ela quem me be-”
“Não interessa!”, Clara interrompeu, gesticulando bruscamente.
E agora que se lembrava do porquê estava com raiva da fotógrafa, ficou ainda mais furiosa com ela, consigo mesma, com toda a situação que havia espiralado para o pior cenário possível.
Já não sabia mais a medida das palavras, já não sabia mais por que ou quem estava atacando.
“Você deixou ela te beijar! Podia ter evitado, empurrado, o caramba! Mas não, você ficou lá, aproveitando o momento... E vai saber quantos outros momentos vocês tiveram nas minhas costas, hein, Marina?! Porque é óbvio que você deu brecha, sim! E é mais óbvio ainda o que ela quer de você! Mas isso?! Isso eu não vou aceitar! Essazinha se sentir no direito de vir aqui, na minha casa, e se jogar pra cima da minha mulher daquele jeito? Feito a– a vadia que ela é! Não, Marina. Comigo não!”
Marina engoliu aquelas palavras, mas elas deixaram um nó amargo em sua garganta.
Tentou controlar a voz antes de falar, “Você tá pegando um problema de confiança seu e jogando nas minhas costas, é isso mesmo?”
“Confessa, Marina", desviou da pergunta da fotógrafa, apontando-lhe um dedo, "Admite que você gosta do joguinho dela! Que deu liberdade pra ela fazer o que ela fez hoje!”
Cansada de ser saco de pancada, e já entendendo onde a outra mulher não queria chegar com essa conversa, Marina ironizou, “Quer saber? Dei mesmo! Aliás, a uma mulher como a Diana, quem não daria?”
Clara soltou uma risada incrédula, sentindo o sangue lhe subir a cabeça, “Meu Deus, não acredito que estou ouvindo isso...”
“Agora quanto ao seu direito de me cobrar satisfações, Clara Fernandes?”, percebeu o veneno no modo como a fotógrafa pronunciou seu nome, “Ah, esse você perdeu faz muito tempo! Dezenove meses atrás, pra ser mais exata!”
Estava feito.
O silêncio ensurdecedor que seguiu o eco das palavras de Marina foi o golpe que não tivera a coragem nem a força para dar. E mesmo antes, muito antes daquelas palavras deixarem a boca da fotógrafa, Clara já sentia o impacto mortal que teriam, já estava sangrando por dentro desde aquela manhã em que havia acordado com o peso do braço de Cadu sobre seu peito...
Mas a dor de ouvir essas palavras da boca de Marina... Não, não servia de conforto o fato de não ter sido ela mesma a dar o golpe. Não lhe deu alívio ou satisfação alguma ver, presenciar, finalmente, a redoma de Marina Meirelles se partindo em milhares de cacos diante de seus olhos... Porque dentro do seu peito, sentia como se alguma coisa estivesse sendo esmagada, destroçada, estilhaçada pelo olhar que Marina agora lhe lançava...
Decepção.
Sua própria redoma, seu coração, se quebrava ali diante dos olhos úmidos de Marina. Se quebrou inúmeras outras vezes, muito, muito antes de entrar naquele quarto e todas as vezes que entrara nele. Todos os dias desde então...
É claro que Marina sabia. Como não? Se era dela e somente dela o toque capaz de desvendar seus segredos mais profundos, seus desejos mais sujos, sem nunca recriminá-la, e sempre tão intensamente como quando a desnudava de suas roupas antes de uma noite de paixão...
"Marina..." começou, mas a fotógrafa balançou a cabeça. Agora era a sua vez de ouvir.
“E sabe que eu não precisei ver? Ninguém teve que me contar...”, seu tom de voz descompassado e derrotado era o pior de tudo.
Se tivesse lhe dado uma bofetada, gritado, xingado, teria doído menos. Muito menos.
“... eu senti, Clara. Senti o cheiro dele na sua pele, o gosto... naquela... e depois...”, não conseguiu terminar, o estômago embrulhava, queria vomitar.
“Marina, não fala assim...”
Não conseguia mais ficar ali, não conseguia olhar para Clara naquele momento. Sentia nojo, sentia raiva, sentia tudo e nada.
Foi até o guarda roupa e suas mãos trêmulas agarraram as primeiras peças que viu pela frente, jeans e uma regata branca fina, os sapatos calçou de qualquer jeito. Lavou o rosto no banheiro às pressas, tudo sob o olhar perdido de Clara, que agora estava sentada na beira da cama, cabisbaixa e emudecida.
Não havia mais nada a ser dito.
Marina pegou suas chaves de cima da cômoda e já estava com a mão na maçaneta quando parou, sem olhar pra trás, “Sabe o que é mais engraçado? Uma coisa que a Vanessa sempre dizia...”
Ao ouvir as palavras secas de Marina, Clara levantou a cabeça e esfregou as mãos no rosto para enxugar as lágrimas que já não eram cativas do orgulho. Seu queixo tremia com a força das palavras presas em sua garganta, palavras que tanto queria dizer, mas não sabia como.
“Talvez...” viu Marina baixar a cabeça um momento, sua voz também tremia com o esforço que fazia para não chorar, “talvez eu seja mesmo essa pessoa volúvel que ela sempre pintou. Incapaz... de oferecer segurança a alguém, de dar o amor que... que você precisa”.
“Não é verdade. Você...”, mas Marina já havia fechado a porta. O eco vazio de suas palavras era sua única companhia agora, “... você é o amor que eu preciso, Marina”.
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